Giacomo Balla (Italian painter, art teacher and poet, 1871–1958), 'Pessimism and Optimism', 1923
Gargalhada
Homem vulgar! Homem de coração mesquinho! eu te quero ensinar a arte sublime de rir. Dobra essa orelha grosseira, e escuta o ritmo e o som da minha gargalhada:
Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah!
Não vês? É preciso jogar por escadas de mármore baixelas de ouro. Rebentar colares, partir espelhos, quebrar cristais, vergar a lâmina das espadas e despedaçar estátuas, destruir as lâmpadas, abater cúpulas, e atirar para longe os pandeiros e as liras...
O riso magnífico é um trecho dessa música desvairada.
Mas é preciso ter baixelas de ouro, compreendes? - e colares, e espelhos, e espadas e estátuas. E as lâmpadas. Deus do céu! E os pandeiros ágeis e as liras sonoras e trémulas...
Escuta bem:
Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah!
Só de três lugares nasceu até hoje esta música heroica: do céu que venta, do mar que dança, e de mim.
já nada é o que era e provavelmente nunca mais o será e mesmo que o fosse algo me diz que já não seria o que era porque o que era era o que era por ser o que era do que eu me lembro muito bem embora eu então não fosse o que agora sou mas o que agora sou ou estou a ser é deixar de ser o que sou porque eu sou deixando de ser deixar de ser é a minha maneira de ser sou a cada instante o que já não sou e o mesmo se deve passar com tudo o que é motivo por que não admira que assim seja quer dizer que nada seja o que era e se assim é ou já não é seja ou não seja
Alberto Pimenta, poeta e ensaísta, formado em Germânicas pela Universidade de Coimbra, desenvolveu a atividade de docente na Universidade de Heidelberg, entre 1960 e 1976, e na Universidade Nova de Lisboa.
Herdeiro da revolução surrealista e da poesia experimental, a poesia, para Alberto Pimenta, é um ato poético, "atual/atuante", que deve ser experimentado e que tem como essência o seu carácter fundamentalmente libertário, emancipado de qualquer retórica ou géneros preestabelecidos ou de qualquer literatura oficializada pela crítica.
Inconformista e iconoclasta, a sua atividade (contra) cultural recobre diversos domínios, como as obras visuais, a poesia, atos poéticos e intervenções teatrais, a teoria, a prosa, a organização de antologias e a edição de obras raras.
Revelada nos anos revolucionários de 70, a obra de Alberto Pimenta opera uma sistemática e satírica provocação aos agentes de uma cultura literária institucionalizada e, de modo lato, ao convencionalismo, ao kitsch, ao moralismo burguês capitalista, provocação, aliás, corroborada por alguns atos simbólicos de que apresenta testemunho em Obra Quase Incompleta (em 31 de julho de 1977, Alberto Pimenta encerrou-se numa jaula no Jardim Zoológico de Lisboa; em 25 de maio de1991, expôs-se para venda à porta da Igreja dos Mártires; no dia 10 de junho do mesmo ano queimou publicamente o seu ensaio O Silêncio dos Poetas, entre muitos outros).
O seu projeto de rutura vanguardista ultrapassa, assim, a perspetiva de defesa de uma forma estética completa, que deve integrar a palavra dita, representada, visualizada ou lida, para conter em si a noção de que a palavra literária opera uma constante transgressão, não podendo ser controlada por qualquer forma de poder, inclusivamente o crítico. (daqui)
Centro histórico de Roma, Itália, Património Mundial pela UNESCO
Rua de Roma
Quero uma rua de Roma com seus rubros com seus ocres com essa igreja barroca essa fonte esse quiosque aquele pátio na sombra ao longe a luz de um zimbório mais o cimo dessa torre que não tem raiz no solo. Em troca darei Moscovo Oslo Tóquio Banguecoque. Fugaz e secreta à força de se mostrar rumorosa só essa rua de Roma em cada nervo me toca. Por isso a quero assim toda opulenta de tão pobre com o voo desta pomba o ribombar desta moto com este bar de mau gosto em cuja esplanada tomo este espresso após o almoço à tarde um campari soda. Em troca darei Lisboa Londres Rio Nova Iorque toda a prata todo o ouro que não tenho em nenhum cofre só no cotão do meu bolso e no que a pátria me explora. Quero essa rua de Roma. Aqui onde estou sufoco. Aqui as manhãs irrompem de noites que nunca morrem. Quero esse musgo essa fonte essas folhas que se movem sob o sopro do siroco ora tépido ora tórrido frente à igreja barroca tão apagada por fora mas que do altar ao coro por dentro aparece enorme. Quero essa rua de Roma casta rugosa remota. Em troca darei as lobas que não aleitaram Rómulo mas me deixaram na boca o travo do transitório. Quero essa rua de Roma sem conhecer quem lá mora além da madonna loura misto de corça e de cobra que ao longo de tantas noites tanta insónia me provoca. Quanto às restantes pessoas inventarei como sofrem. Quero essa rua de Roma. Terá de ser sem demora. Sabemos lá quando rondam abutres à nossa roda. Mas não me lembro do nome da rua que assim evoco soberba se bem que tosca direita se bem que torta com um Sol que tanto a doura como a seguir a devora. Em troca darei o troco do que por nada se troca o florescer de uma bomba o deflagrar de uma rosa. Quero essa rua de Roma. Amanhã. Ontem. Agora. Que importa saber-lhe o nome se a trago dentro dos olhos. Há uma igual em Verona. Outra ainda mais a norte. Outra talvez nem tão longe num burgo que o mundo ignora. Outra que apenas se encontra onde a paixão a descobre. Mas rua sempre de Roma. Romana em todo o seu porte mistura de alma e de corpo aquém além do ilusório. Romana mesmo que em Roma não haja quem a recorde. Onde quer que o sexo a sonhe e o coração a coloque é lá que todo sou todo. Aqui não. Aqui não posso.
Ettore Roesler Franz (Roma, 11 de maio de 1845 - Roma, 26 de março de 1907) foi um pintor e fotógrafo italiano de origem alemã. Era especialista na técnica de aguarela. Seu trabalho mais famoso é uma série de 120 aguarelas chamada "Roma sparita", onde ele retratou com grande realismo partes da cidade que ele supunha que seriam destruídas no esforço de modernização. Muitas dessas aguarelas estão hoje no Museu de Roma em Trastevere.
Em 1902, ele foi retratado por Giacomo Balla numa famosa pintura exibida na Bienal de Veneza.
"Roma sparita"
Aguarelas de Ettore Roesler Franz
Ettore Roesler Franz, 'Ponte Rotto em Roma', c. 1880
Ettore Roesler Franz, Piazza Barberini, c. 1880
Ettore Roesler Franz, 'La Via Rua in fondo il Portico d'Ottavia', 1888
Ettore Roesler Franz, 'Roma medievale, il volto perduto della città', c. 1888
Ettore Roesler Franz, 'Chiesa dei SS. Quattro Coronati in Rome' (rione Celio), c. 1880
Ettore Roesler Franz, 'Il Porto di Ripetta verso Ponente', 1880
Ettore Roesler Franz, 'Santo Stefano Rotondo al Monte Celio' (Basílica de Santo Estêvão Redondo no Monte Célio), 1880
Ettore Roesler Franz, 'Case Medioevali a Santa Cecilia in Rome'
(rione Trastevere), c. 1880
Ettore Roesler Franz, 'Via Chiesa Santa Bonosa', 1888
Ettore Roesler Franz, 'Ai Prati di Testaccio', 1890
Ettore Roesler Franz, 'Il Ponte Senatorio' detto 'ponte Rotto'
e in fondo il 'Ponte Sisto', 1884,
"A humanidade que deveria ter seis mil anos de experiência, recai na infância a cada geração." Tristan Bernard [Dramaturgo, novelista, jornalista e advogado francês, 1866–1947]