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quinta-feira, 19 de outubro de 2023

"7" - Poema de Abgar Renault



Lorenzo Lotto (Italian painter, draughtsman, and illustrator, c.1480–1556/1557), Portrait of a young man,
or Portrait of a gentleman in his study (Ritratto di giovane gentiluomo), c.1530–1532, oil on canvas,
Gallerie dell'Accademia, Venice, northern Italy.


7
 
Este poema exigiu 7 folhas de papel.
Para escrevê-lo já fumei raivosamente 7 cigarros
e rasguei-o 7 vezes.
7 é um mau número: é o número 13 da minha vida.
Segundo várias aritméticas, não é divisível por 2,
e eu tenho horror a todos os números (e a todas as coisas)
não divisíveis por 2.
Sexta-feira, 7...
Isto hoje não acaba bem...
Vai a chuva ficar chovendo para sempre.
O meu relógio vai continuar disparado,
marcando horas inexistentes.
Ah se os ponteiros andassem para trás!
Ah se ao menos a chuva chovesse para cima
e eu fizesse destes nulos versos
uma folha noturna e molhada!


Abgar Renault (1901–1995), A outra face da lua, 1983;
in Renault, Abgar, Obra poética. Rio de Janeiro: Record, 1990.


domingo, 12 de dezembro de 2021

"Retábulo" e "Natal" - Poemas de Miguel Torga



Gerhardt Wilhelm von Reutern (Baltic-German military officer and painter,
1794–1865), The Holy Family, 1858, Russian Museum
 

Retábulo
 

Estranho Menino Deus é o dum poeta!
O que nasce e renasce há muitos anos
Na minha noite de Natal, fingida,
Mal corresponde à imagem conhecida
Das sucursais do berço de Belém.
É uma criança tímida que vem
Visitar os meus sonhos, e, ao de leve,
Com mãos discretas, tece
Um poema de neve
Onde depois se deita e adormece.


Miguel Torga
,
Poema extraído de "Diário VII", 1954

 
Lorenzo Lotto (Italian Renaissance painter, draughtsman, and illustrator, c. 1480–1556/57),


Natal



Devia ser neve humana
A que caía no mundo
Nessa noite de amargura
Que se foi fazendo doce…
Um frio que nos pedia
Calor irmão, nem que fosse
De bichos de estrebaria.

 
Poema extraído de "Diário IV", 1948
 

domingo, 1 de janeiro de 2017

"Ao Menino Deus em Metáfora de Doce" - Poema de Jerónimo Baía



Lorenzo Lotto (Italian Renaissance painter, draughtsman, and illustrator,
c. 1480–1556/57), The Adoration of the Child, c. 1508 


Ao Menino Deus em Metáfora de Doce

ROMANCE 


– Quem quer fruta doce?
– Mostre lá! Que é isso?
– É doce coberto;
É manjar divino.

– Vejamos o doce,
E, depois que o virmos,
Compraremos todo,
Se for todo rico.

– Venha ao portal logo:
Verá que não minto,
Pois de várias sortes
É doce infinito.

Desculpa, minha alma.
– Mas ah! que diviso?
Envolto em mantilhas,
Um infante lindo!

– Pois de que se admira,
Quando este Menino
É doce coberto,
É manjar divino?

– Diga o como é doce,
Que ignoro o prodígio.
– Não sabe o mistério?
Ora vá ouvindo:

Muito antes de Santa Ana
Teve este doce princípio,
Porque já do Salvador
Se davam muitos indícios.

Mas na Anunciada dizem
Que houve mais expresso aviso,
E logo na Encarnação
Se entrou por modo divino.

Esteve pois na Esperança
Muitos tempos escondido.
Saiu da Madre de Deus,
Depois às Claras foi visto.

Fazem dele estimação
As freiras com tal capricho,
Que apuram para este doce
Todos os cinco sentidos.

Afirmam que no Calvário
Terá seu termo finito,
Sendo que no Sacramento
Há de ter novo artifício.

Que seja doce este Infante,
A razão o está pedindo,
Porque é certo que é morgado,
Sendo unigénito Filho!

Exposto ao rigor do tempo,
Quando tirita nuzinho,
Um caramelo parece
Pelo branco e pelo frio.

Tal doce é, que porque farte
Ao pecador mais faminto,
Será de pão com espécies,
Substancial doce divino.

É manjar tão soberano,
Regalo tão peregrino,
Que os espíritos levanta,
Tornando aos mortos vivos.

Tão delicioso bocado
Será de gosto infinito,
Manjar real, verdadeiro,
Manjar branco parecido!

Que é manjar dos Anjos, dizem
Talentos muito fidedignos,
Por ser pão-de-ló, que aos Anjos
Foi em figura oferecido.


in Fénix Renascida

Fénix Renascida ou Obras Poéticas dos Melhores Engenhos Portugueses é o título do mais significativo cancioneiro seiscentista, publicado sob a direção de Matias Pereira da Silva em cinco volumes, de 1716 a 1728. Nesta coletânea, coexistem, sem qualquer sistematização, poesias líricas, heroicas, satíricas e burlescas, religiosas e outras puramente narrativas. Muitas das composições são anónimas.
O título pomposo deixa transparecer as características da temática e do estilo barroco que enforma as composições: o petrarquismo, o erotismo muito realista, a caducidade da vida, temas fúteis (poesia de entretenimento), a sátira aos vícios da sociedade, motivos religiosos e históricos, todos estes temas tratados de forma ornamental, com o uso de metáforas, hipérboles, perífrases, troca de palavras, ou de forma engenhosa com o desdobramento de um conceito em várias ideias por meio de raciocínios artificiosos, até dar um imprevisto paradoxo. Esta característica justifica a designação aposta a este cancioneiro de Seiscentos - cancioneiro barroco.
Dos muitos autores que aí estão representados, destacam-se Francisco Rodrigues Lobo, D. Francisco Manuel de Melo, Jerónimo Baía, Dr. António Barbosa Bacelar e Francisco de Vasconcelos. (daqui)



Pieter Bruegel, the Elder (Flemish painter, draughtsman, etcher and print designer, 
c. 1525/1530–1569), Adoration of the Magi, 1564, National Gallery.


"A vida é uma criança que é preciso embalar até que adormeça."

Voltaire

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

"Natal" - Poema de Miguel Torga



Lorenzo Lotto (Italian Renaissance painter, draughtsman, and illustrator,
c. 1480–1556/57), 'Nativity', 1523, National Gallery of Art, United States.


Natal 


Um anjo imaginado,
Um anjo diabético, atual,
Ergueu a mão e disse: — É noite de Natal,
Paz à imaginação!
E todo o ritual
Que antecede o milagre habitual
Perdeu a exaltação.

Em vez de excelsos hinos de confiança
No mistério divino,
E de mirra, e de incenso e ouro
Derramados
No presépio vazio,
Duas perguntas brancas, regeladas
Como a neve que cai,
E breve como o vento
Que entra por uma fresta, quizilento,
Redemoinha e sai:

À volta da lareira
Quantas almas se aquecem
Fraternalmente?
Quantas desejam que o Menino venha
Ouvir humanamente
O lancinante crepitar da lenha?


Miguel Torga
, 'Diário IX'