Mostrar mensagens com a etiqueta Albert Marquet. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Albert Marquet. Mostrar todas as mensagens

domingo, 24 de maio de 2026

"Paris, postal do céu" - Poema de Jaime Gil de Biedma


 
Albert Marquet
(Peintre et dessinateur français, 1875–1947), Pont Saint-Michel, 1908,
Salle 27 du Musée de Grenoble.



Paris, postal do céu


Agora, vou contar-vos
como também estive em Paris, e fui ditoso.

Era nos bons tempos da minha juventude,
nos anos de abundância
do coração, quando deixar para trás os pais e a pátria
é sentir-se mais livre para sempre, e fui
no Verão, naquele Verão
da greve e das primeiras canções de Brassens,
e da formosa história
de quase amor.

Ainda vive na minha memória aquela noite,
recém-chegado. Contemplo ainda,
sob a Pont Saint Michel, pela mão, em silêncio,
a grande lua de Agosto suspensa entre as torres
de Notre Dame, e azul
de um impossível o rio tantas vezes sonhado
— It’s too romantic, como tu me disseste
ao afastar os lábios.

Em que sítio perdido
do teu país, em que recanto da América do Norte
e no quarto de quem, às horas mais soturnas,
quando sonhes morrer não importa em que braços,
e chegará, tal como
agora a mim me chega, esse calor de gentes
e a luz daquele céu tão rumoroso
tranquilo, sobre o Sena?

Como sonho vivido há muito tempo,
como aquela canção
desses dias, assim volta ao coração,
num instante, numa intensidade, a história
do nosso amor,
a confundir os dias e suas noites,
os momentos felizes,
as censuras

e aquela viagem — a caminho da cama —
num vagão do Metro Étoile-Nation.


Jaime Gil de Biedma
(1929–1990), in 'Moralidades', 1966
Tradução de José Bento


sexta-feira, 26 de janeiro de 2024

"Ausência" - Poema de Dalila Teles Veras



Albert Marquet
(French painter, associated with the Fauvist movement, 1875–1947),
'View from a Balcony', 1945.


Ausência 


teu nome bordado
enxuga-me o corpo
doído de ausência

o cheiro de sol
e gosto de alfazema
lembram
não mais agasalham

uma casa segue
teimosamente
igual, enganosamente
igual, sem a alma
nem as mãos que
um dia a arquitetaram

no vazio, a
evocação da presença
as marcas da presença
e a opressão dos objetos
sem o sentido original

plantas, móveis, louças
não mitigam saudades
nem preenchem
ausências

uma casa segue
teimosamente
à busca
de quem não mais


Dalila Teles Veras,
in "Tempo em fuga"