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domingo, 20 de março de 2022

"Agora" e "Glória" - Poemas de Miguel Torga


 Sir Arthur Streeton (1867-1943, Australian landscape painter), Spring, 1890,
 
 
 Agora

 
Abre-te, Primavera!
Tenho um poema à espera
Do teu sorriso.
Um poema indeciso
Entre a coragem e a covardia.
Um poema de lírica alegria
Refreada,
A temer ser tardia
E ser antecipada.

Dantes, nascias
Quando eu te anunciava.
Cantava,
E no meu canto acontecias
Como o tempo depois te confirmava.
Cada verso era a flor que prometias
No futuro sonhado…
Agora, a lei é outra: principias,
E só então eu canto confiado.
 
São Martinho de Anta, 31 de Março de 1968.
in Diário X (5-10-1963 / 30-7-1968)

 
National Gallery of Victoria, Melbourne


Glória


Depois do Inverno, morte figurada,
A primavera, uma assunção de flores.
A vida
Renascida
E celebrada
Num festival de pétalas e cores.


Miguel Torga,
in Diário XIV (21-5-1982 / 11-1-1987)
 
 
Sir Arthur Streeton, Butterflies and Blossoms, 1980
 

Quando uma abelha
se enamora,
nasce uma flor.
(Haicai / Haikai / Haiku) 
 

quinta-feira, 17 de março de 2022

"Guerra" - Poema de Natércia Freire


Silvestro Lega (Italian realist painter, 1826-1895), Sharpshooters Leading Prisoners, 1861
(Episodio della guerra del 1859 - Ritorno di bersaglieri italiani da una ricognizione), Florence
Oil on canvas, 57,5 x 95, National Gallery of Modern Art, Palazzo Pitti
 

 
Guerra


São meus filhos. Gerei-os no meu ventre.
Via-os chegar, às tardes, comovidos,
nupciais e trementes
do enlace da Vida com os sentidos.

Estiveram no meu colo, sonolentos.
Contei-lhes muitas lendas e poemas.
Às vezes, perguntavam por algemas.
Respondia-lhes: mar, astros e ventos.

Alguns, os mais ousados, os mais loucos,
desejavam a luta, o caos, a guerra.
Outros sonhavam e acordavam roucos
de gritar contra os muros que há na Terra.

São meus filhos. Gerei-os no meu ventre.
Nove meses de esperança, lua a lua.
Grandes barcos os levam, lentamente... 
in 'Liberta em Pedra', 1964
 



Guerra Austro-Franco-Sarda


Tem as suas origens nas ambições da casa de Saboia; esta pretendia estender a sua influência na Itália, no desejo de os radicais italianos anularem os Estados da Igreja e na aceitação, por parte de Napoleão III, das "nacionalidades europeias", o seu desejo de obter Nice e a Saboia para a França, deixando a esta casa italiana a possibilidade de tomar a Lombardia. Os historiadores veem nesta ação uma demonstração da ambição política da Condessa de Castiglione (que era amante de Cavour, Primeiro-Ministro da Saboia).
A guerra terá envolvido cerca de 120 000 Franceses, que desembarcaram em Génova, 40 000 Sardos e 180 000 Austríacos (vindo este contingente a ascender aos 270 000 efetivos).
A guerra travou-se entre maio de 1859 e julho do mesmo ano. O primeiro registo bélico ocorreu a 20 de maio, na batalha de Montebello, onde Forey bateu o general austríaco Stadion. Em Palestro, a 30 do mesmo mês, as tropas de Vítor Emanuel II e do Coronel Chabron tomaram, à baioneta, as baterias austríacas de Gyulay. Este mesmo cabo de guerra será batido em Magenta (4 de junho) por Napoleão III e Mac-Mahon. No dia 8, Napoleão e Vítor Emanuel entraram em Milão
No dia 24 desse mês ocorreu o maior confronto desta guerra, a batalha de Solferino, na qual Napoleão III bateu Francisco José I da Áustria. Neste sangrento combate os Austríacos perderam 22 000 homens contra 17 000 baixas entre Sardos e Franceses. A guerra estava decidida. No dia 17 de junho foi assinado o armistício de Villafranca. A 10 de novembro, pelo Tratado de Zurique, acordou-se a paz: a França recebia a Lombardia, entregue depois ao Piemonte e a Áustria conservava Veneza. (daqui)
 
 

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

"Amor" - Poema de Natércia Freire


Paul Klee (1879-1940), Eros, 1923



Amor


 Vibrátil, fina, perfumada e clara
ondula a aragem que o amor provoca.
Longe respira a vida. Aqui o sonho.
Tudo é infância de águas e colinas
Na manhã dos teus olhos.
E voos de mãos dadas.
E cantos, cantos de infinito amor,
Nos galhos, nas correntes e nas sombras veladas.

Envolve-se de nuvem nosso abraço.
Vibrátil, fina, perfumada e clara
ondula a aragem. Fadas e duendes
agitam instrumentos na folhagem.

Vibrátil, fina, imperceptível, fluída
orquestra ao longe. Ao fundo dos sentidos.
Dedos de flores ondeiam sobre a pele
de Céus indefinidos.

Cantam mistérios bocas fascinadas.
Abrem corolas sob a luz que as toca.
Vibrátil, fina, perfumada e clara
ondula a aragem que o amor provoca. 
 in 'Antologia Poética'


quarta-feira, 26 de outubro de 2016

"Liberta em Pedra" - Poema de Natércia Freire


Victor Brauner (1903-1966), La fiancée de la nuit, 1937



Liberta em Pedra


Livre, liberta em pedra. 
Até onde couber 
tudo o que é dor maior, 
por dentro da harmonia jacente, 
aguda, fria, atroz, 
de cada dia. 

Não importam feições, 
curvas de seios e ancas, 
pés eretos à luz 
e brancas, brancas, brancas, 
as mãos. 

Importa a liberdade 
de não ceder à vida, 
um segundo sequer. 

Ser de pedra por fora 
e só por dentro ser. 
- Falavas? Não ouvi. 
- Beijavas? Não senti. 
Morreram? Ah! Morri, morri, morri! 

Livre, liberta em pedra, 
voltada para a luz 
e para o mar azul 
e para o mar revolto... 
E fugir pela noite, 
sem corpo, nem dinheiro, 
para ler os meus santos 
e os meus aventureiros, 
(para ser dos meus santos, 
dos meus aventureiros), 
filósofos e nautas, 
de tantos nevoeiros. 

Entre o peso das salas, 
da música concreta, 
de espantalhos de deuses, 
que fará o Poeta? 


Natércia Freire, 
in 'Liberta em Pedra'


Natércia Freire


Natércia Freire, escritora portuguesa, nasceu em 1920, em Benavente, e faleceu a 19 de dezembro de 2004. Estudou música e tirou o curso do Magistério Primário. Dirigiu o suplemento literário "Artes e Letras" do Diário de Notícias e colaborou em publicações diversas e na Emissora Nacional, fazendo palestras mensais. Iniciou-se como decente na escola primária em 1944. Foi convidada para a Comissão de Leitura da Fundação Calouste Gulbenkian, de que se tornou membro, de 1971 a 1974.
Revelou-se na poesia em 1939 com a coletânea Meu Caminho de Luz. Foram-lhe atribuídos os prémios literários Antero de Quental (por Rio Infindável em 1947 e Anel de Sete Pedras em 1952), Ricardo Malheiros (1955) e Nacional de Poesia (1972), este último pela obra Os Intrusos. Da sua vasta obra destacam-se ainda Horizonte Fechado (1942) e os contos de A Alma da Velha Casa (1945). (Daqui)


terça-feira, 30 de junho de 2015

"Indefinida" - Poema de Natércia Freire


Peter Paul Rubens, Venus at the Mirror, 1615
 
 

Indefinida
 

Oh, poesia de andar
suspensa sobre os outeiros!
Poesia de correr
fundida nos ribeiros…
Oh, Poesia de ti,
que em mim estás a viver!
Oh, Poesia de então,
nos jardins, sob o Inverno,
pés na lama do chão,
e o dia, um dia eterno
de Poesia, a morrer!...

Poesia dos murmúrios,
dos nevoeiros densos,
dos silêncios sem luz,
dos pecados imensos,
sem gestos, qual a morte,
qual a ausência, sem vida.

Poesia de fechar
os olhos alagados
da Poesia de ti,
dos teus olhos fechados;
Poesia de ser virgem
e casta e indefinida…

Poesia dos passeios
por entre a claridade,
entre árvores tão esguias
que tocavam os Céus,
e as folhas a cair
de um oiro sem idade…

Poesia fabulosa,
de uma riqueza enorme…
Uma Poesia fina,
alada, misteriosa;
Poesia de um passado
que em mim nunca mais dorme!

Poesia perturbada,
Poesia abandonada.
Poesia na prisão,
sufocada, esquecida,
Poesia recalcada,
Poesia maltratada.
Oh, Poesia troçada
da jovem bem-casada
na poesia da vida!…

Ai, dias sem desígnio!
Ai, noites de mistério!
Poesia de ser virgem
e casta e indefinida!... 


Natércia Freire
,
in “Anel de Sete Pedras”



Peter Paul Rubens, The Three Graces, 1635, Prado
 
 
Passei os pinhais sombrios
as searas mais os rios,
os salgueiros sossegados,
os ventos mais apressados,
as mais líricas montanhas
e as paisagens mais estranhas,
e só fui o que quis ser:
um espaço longo e deserto
num destino de mulher. 

 

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

"O Baile" - Poema de Natércia Freire


Maria Helena Vieira da Silva, Biblioteca em Fogo, óleo sobre tela, 1974.



O Baile 


Névoa em surdina 
A sombra que acompanha 
As finas pernas a dançar na tarde. 
Jogo de jovens corpos. 
Música de montanha, 
Num tempo teu e meu 
De eternidade. 
E eu, as duas estranhas. 

Olha quem toca o ponto 
Que há no fim! 
Ao fim de mim, 
No ponto para que vim. 
Ao fim de mim 
No ponto donde vim. 
Vulto de agulha 
Em fumo de água e lenha. 

Eu, as duas estranhas. 

É sempre pelos outros que falamos. 
Eu, as duas estranhas, por mim falam. 
Em estradas como ramos 
oscilamos. E vamos 
Convergentes, dispersas, disparadas 
Pelos tiros de magos inocentes 
Do caos ao sol 
Em gradações de escadas. 

Ouve-se às vezes uma voz: — Presente! 
E já no corpo as almas vão trocadas. 

Foi em concretos dias de sol-posto, 
Em fábricas de fios de uma aranha, 
Que se teceram 
Em finíssimas teias de desgosto, 
(Eu) as duas estranhas. 
in 'Antologia Poética'



Pintores Portugueses

Vieira da Silva 
Pintora portuguesa. Nasceu em Lisboa em 1908. Faleceu em 1992.




Júlio Resende
Pintor português. Nasceu no Porto em 1917.



Júlio Pomar
Artista plástico português. Nasceu em Lisboa em 1929.



Manuel Cargaleiro 
Artista plástico português. Nasceu em Vila Velha de Ródão em 1927.



Paula Rego
Pintora portuguesa. Nasceu em Lisboa em 1935.



Graça Morais
Pintora portuguesa. Nasceu em Vieiro, Bragança em 1948


Nadir Afonso
Pintor e arquitecto português. Nasceu em Chaves em 1920.



Mário Botas
Pintor português. Nasceu em 1952 na Nazaré. Faleceu em 1983.



Cruzeiro Seixas
Poeta e pintor surrealista português. Nasceu na Amadora em 1920.