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terça-feira, 23 de agosto de 2016

"Símbolos? Estou farto de símbolos" - Poema de Álvaro de Campos





Símbolos 


Símbolos? Estou farto de símbolos... 
Mas dizem-me que tudo é símbolo, 
Todos me dizem nada. 
Quais símbolos? Sonhos. — 
Que o sol seja um símbolo, está bem... 
Que a lua seja um símbolo, está bem... 
Que a terra seja um símbolo, está bem... 
Mas quem repara no sol senão quando a chuva cessa, 
E ele rompe as nuvens e aponta para trás das costas, 
Para o azul do céu? 
Mas quem repara na lua senão para achar 
Bela a luz que ela espalha, e não bem ela? 
Mas quem repara na terra, que é o que pisa? 
Chama terra aos campos, às árvores, aos montes, 
Por uma diminuição instintiva, 
Porque o mar também é terra... 

Bem, vá, que tudo isso seja símbolo... 
Mas que símbolo é, não o sol, não a lua, não a terra, 
Mas neste poente precoce e azulando-se 
O sol entre farrapos finos de nuvens, 
Enquanto a lua é já vista, mística, no outro lado, 
E o que fica da luz do dia 
Doura a cabeça da costureira que pára vagamente à esquina 
Onde se demorava outrora com o namorado que a deixou? 
Símbolos? Não quero símbolos... 
Queria — pobre figura de miséria e desamparo! — 
Que o namorado voltasse para a costureira.



Álvaro de Campos, in "Poemas" 
Heterónimo de Fernando Pessoa


quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

"Baby!" - Poema de Luís de Montalvor





Baby! 


Baby! Sossega a tua voz. Não digas mais 
Essas canções do Mundo. Deixa que eu esqueço 
Que fui menino ao colo de seus pais. 
Deixa! Que o coração em si mesmo o adormeço... 

Com olhos de criança olho os desiguais 
Dias e nuvens, sós, passando, e empalideço... 
Canto de Prometeu todo desfeito em ais! 
E a vida, a vida até, brinquedo que aborreço... 

Mundo dos meus enganos como a desventura! 
Experiência, - pobre fumo! Anela o meu cabelo 
E põe-me o bibe azul e antigo da Ternura... 

Que a vida, essa Babel desfeita que se embala, 
ainda é para mim - criança de Deus, pesadelo 
Da infância das fanfarras, fogo de Bengala! 


Luís de Montalvor, in 'Antologia Poética'



Luís de Montalvor (Daqui)


Luís de Montalvor, poeta, ensaísta e editor português, de nome verdadeiro Luís Filipe de Saldanha da Gama da Silva Ramos, nasceu a 31 de janeiro de 1891, em S. Vicente, Cabo Verde, e faleceu a 2 de março de 1947, em Lisboa. 
Como editor e colaborador de Orpheu, em 1915 - onde publica, no número 1, Introdução, editorial que sublinha o carácter elitista do projeto estético que une o grupo de Orpheu, e, no número 2, o poema "Narciso" -, o seu nome inscreve-se no primeiro modernismo, no que esse movimento representou de continuidade e redescoberta do simbolismo-decadentismo. É nesse sentido que, ao fundar, no ano seguinte, Centauro, publica, a título programático relativamente à publicação, a "Tentativa de um ensaio sobre a Decadência", onde apela para uma recuperação do simbolismo, cuja breve explicação baseia numa teoria dos símbolos, bebida em Maeterlinck, movimento literário enaltecido por conter uma "teoria de libertação", "um fundo espiritual poético e misterioso, mais adiante identificado como "flor da arte decadente": ser-se decadente "É ser-se, enfim, andrógino e equívoco de qualquer maneira. É ser-se, enfim, todos, sem ser o que todos são, [...] Só são decadentes os que receberam o mandato de Deus e da Beleza [...]". É, aliás, nas páginas de Centauro, e na sequência desta reflexão, que publica os poemas inéditos de Camilo Pessanha (posteriormente recolhidos em Clepsidra, 1920), como expressão mais pura do simbolismo português. Vindo ainda a colaborar em Presença, Exílio, Athena, Contemporânea, Sudoeste, Cadernos de Poesia e Seara Nova, Luís de Montalvor desenvolveu simultaneamente uma atividade editorial de especial relevância cultural, se considerarmos o impacto que a leitura dos modernistas teve para as gerações poéticas dos anos 40 e 50, ao encetar, na editorial e livraria Ática, fundada pelo próprio em 1942, a publicação e divulgação das obras completas de Fernando Pessoa e de Mário de Sá-Carneiro. A sua poesia, esparsamente publicada, foi coligida postumamente, em 1960, e revela, sobretudo a partir da sua aproximação ao grupo de "Orpheu", uma íntima conexão com uma estética decadentista-simbolista. Numa abordagem mais modernista, publicou Noite de Satan e A Caminho, e, em colaboração com Diogo de Macedo, A Arte Indígena Portuguesa (1935). (Daqui)


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