Mostrar mensagens com a etiqueta Tomas Tranströmer. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Tomas Tranströmer. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 12 de junho de 2023

"As recordações olham para mim" - Poema de Tomas Tranströmer


 
Charles Conder (English-born painter, lithographer and designer, 1868-1909),
The Orchard in Flower, oil on canvas.

 

As recordações olham para mim


 
Uma manhã de junho quando ainda é cedo para acordar
mas demasiado tarde para voltar a pegar no sono.

Embrenho-me pelo arvoredo repleto de recordações
e elas seguem-me com os seus olhares.

Autênticos camaleões, elas não se mostram,
diluem-se literalmente no cenário.

E embora o gorjeio dos pássaros seja ensurdecedor,
estão tão perto de mim que ouço como respiram. 


Tomas Tranströmer
,
50 Poemas
Relógio d’Água Editores, Lisboa, 2012.
Tradução de Alexandre Pastor


Tomas Tranströmer, 50 Poemas
 Relógio d’Água Editores
 
 
 Tomas Tranströmer

Prémio Nobel de Literatura 2011

Tomas Tranströmer nasceu a 15 de abril de 1931 em Estocolmo, cidade onde também se licenciou em Psicologia em 1956. Começou a escrever poesia muito jovem e publicou os primeiros poemas em 1954. A sua poesia inspira-se na metafísica ocidental, na tradição japonesa do haiku, e nas grandes obras clássicas que pensam e questionam a condição humana, a morte e a memória. A estes temas o poeta acrescenta múltiplas referências à sua intimidade, ao gosto pela música e pelas viagens, a botânica, a entomologia, entre outros temas.
Em 1990 Tomas Tranströmer sofreu um AVC, estando impedido de falar desde então. Não perdeu, no entanto, a capacidade de escrever. Alguns dos seus livros foram publicados já depois deste problema de saúde.
Ao longo da sua carreira recebeu inúmeros prémios, entre os quais: Prémio Bonnier de Poesia, o Prémio Internacional Neustadt de Literatura, o Prémio Oevalids, o Prémio Petrarca, o Prémio do Fórum Internacional de Poesia e o Prémio Griffin. Em 2011 a Academia Sueca entregou-lhe o Prémio Nobel da Literatura. A sua obra está traduzida em todo o mundo. Faleceu a 26 de março de 2015. (daqui)

 
Tomas Tranströmer (daqui)


Poemas haikai

 
Os fios elétricos
estendidos por onde o frio reina
Ao norte de toda música.

O sol branco
treina correndo solitário para
a montanha azul da morte.

Temos que viver
com a relva pequena
e o riso dos porões

Agora o sol se deita.
sombras se levantam gigantescas.
Logo logo tudo é sombra.

As orquídeas.
Petroleiros passam deslizando.
É lua cheia.

Fortalezas medievais,
cidades desconhecidas, esfinges frias,
arenas vazias.

As folhas cochicham:
Um javali está tocando órgão.
E os sinos batem.

E a noite se desloca
de leste para oeste
na velocidade da lua.

Duas libélulas
agarradas uma na outra
passam e se vão.

Presença de Deus.
No túnel do canto do pássaro
uma porta fechada se abre.

Carvalhos e a lua.
Luz e imagem de estrelas salientes.
O mar gelado.


Tomas Tranströmer,
"Poemas haikai", coleção "Poesia Sempre".
Tradução de Marta Manhães de Andrade.


domingo, 14 de junho de 2015

"Fachadas" - Poema de Tomas Tranströmer


Jean Béraud (1849 - 1935), La sortie de théâtre 



Fachadas


Ao fim do caminho vejo o poder 
Lembra uma cebola 
com rostos sobrepostos 
que vão caindo uns após outros… 

II 

Os teatros esvaziam-se. É meia-noite. 
Letreiros flamejam nas fachadas. 
O mistério das cartas sem resposta 
afunda-se por entre a fria cintilação. 

Tradução de Luís Costa


Jean Béraud, Self-portrait, ca. 1909


Jean Béraud (São Petersburgo, Rússia, 12 de janeiro de 1849 - Paris, França, 4 de outubro de 1935) foi um pintor impressionista francês, supostamente nascido enquanto seu pai, um escultor que muito impulsionou a carreira artística do filho, trabalhava em obras da Catedral de Santo Isaac.
Famoso por retratar as cenas da vida quotidiana parisiense da Belle Époque, foi aluno de Léon Bonnat.


Jean Béraud, Les Grands Boulevards: Le Théâtre des Variétés


sexta-feira, 12 de junho de 2015

"Lisboa" - Poema de Tomas Tranströmer


António Neves, Elétrico - Lisboa, Acrílico, 75x55


Lisboa


No bairro de Alfama os eléctricos amarelos cantavam nas calçadas íngremes. 
Havia lá duas cadeias. Uma era para ladrões. 
Acenavam através das grades. 
Gritavam que lhes tirassem o retrato.

"Mas aqui!", disse o condutor e riu à socapa como se cortado ao meio,
"aqui estão políticos". Vi a fachada, a fachada, a fachada 
e lá no cimo um homem à janela, 
tinha um óculo e olhava para o mar. 

Roupa branca no azul. Os muros quentes. 
As moscas liam cartas microscópicas. 
Seis anos mais tarde perguntei a uma senhora de Lisboa: 
"será verdade ou só um sonho meu?" 


Tomas Tranströmer, in "21 poetas secretos", 1987, Vega. 
(Tradução de Vasco Graça Moura)


António Neves, Elétrico na Estrela, Lisboa, Acrílico, 50x140


sexta-feira, 7 de junho de 2013

"Pássaros Matinais" - Poema de Tomas Tranströmer


Adolph Gottlieb (1903-1974), 'Grand Concourse', Oil on canvas, 1927



Pássaros Matinais


Desperto o automóvel
que tem o para-brisas coberto de pólen.
Coloco os óculos de sol.
O canto dos pássaros escurece.

Enquanto isso outro homem compra um diário
na estação de comboio
junto a um grande vagão de carga
completamente vermelho de ferrugem
que cintila ao sol.

Não há vazios por aqui.

Cruza o calor da primavera um corredor frio
por onde alguém entra depressa
e conta como foi caluniado
até na Direção.

Por uma parte de trás da paisagem
chega a gralha
negra e branca. Pássaro agoirento.
E o melro que se move em todas as direções
até que tudo seja um desenho a carvão,
salvo a roupa branca na corda de estender:
um coro da Palestina:

Não há vazios por aqui.

É fantástico sentir como cresce o meu poema
enquanto me vou encolhendo
Cresce, ocupa o meu lugar.

Desloca-me.
Expulsa-me do ninho.

O poema está pronto.


(1966)




Adolph Gottlieb, Untitled, 1934 


Adolph Gottlieb, Untitled, 1938 (Arizona Still Life)


Adolph Gottlieb,  Pictograph – Symbol, 1942


Adolph Gottlieb, Black Hand, 1943


Adolph Gottlieb, Mariner's Incantation, 1945


Adolph Gottlieb, Sailor's Charm, 1945


 
Adolph Gottlieb, Untitled, 1947 


Adolph Gottlieb,  Figures, 1948


Adolph Gottlieb, Untitled, 1949 


domingo, 14 de abril de 2013

"Abril e o Silêncio" - Poema de Tomas Tranströmer





Abril e o Silêncio 


A primavera mostra-se deserta.
A valeta, de um escuro aveludado,
rasteja ao meu lado
sem reflexos.

A única coisa que brilha
é o amarelo de flores.

Sou levado na minha sombra
como um violino
no seu estojo negro.

O que apenas quero dizer
tremeluz fora do meu alcance
como prata
em montra de casa de penhores.


Tomas Tranströmer, in 50 Poemas,
tradução de Alexandre Pastor,
Relógio d'Água, 2012




Tomas Tranströmer (Estocolmo, 15 de abril de 1931) é um poeta, tradutor e psicólogo sueco.
A poesia de Tranströmer tem uma grande influência na Suécia e em todo o mundo, sendo ele o poeta sueco mais traduzido: os seus poemas estão traduzidos em mais de sessenta idiomas. Recebeu numerosos prémios literários, como por exemplo o Prémio Literário do Conselho Nórdico em 1990 e o Prémio Nobel da Literatura em 2011.
Tranströmer iniciou-se na poesia aos 23 anos de idade. O seu primeiro livro intitulava-se 17 dikter (17 poemas). A maior parte da sua obra é escrita em verso livre, embora também tenha feito experiências com linguagem métrica. Na sua escrita nota-se uma certa disciplina horaciana.
Vive presentemente numa ilha, longe dos olhares do mundo e dos meios de comunicação. Foi psicólogo de profissão até 1990. Redigiu cerca de uma quinzena de obras numa longa carreira dedicada à escrita. Seus poemas capturam os longos invernos suecos, o ritmo das estações do ano e da beleza. O trabalho de Tranströmer também é caracterizado por uma sensação de mistério e maravilha subjacente à rotina da vida quotidiana, uma qualidade que muitas vezes dá aos seus poemas uma dimensão religiosa. De fato, ele foi descrito como um poeta cristão. Os críticos elogiaram sua poesia pela sua acessibilidade, mesmo na tradução
Em 1990 foi vítima de um acidente vascular cerebral que o deixou em parte afásico e hemiplégico. Continuou a escrever e publicou três obras, como "O Grande Enigma: 45 Haikus". (daqui)

Flores amarelas



Statice amarela


Parodia tenuicylindrica - Notocactus minimus



Crisântemo (Chrysanthemum)


Gazania, também conhecida como Funcionária


Helicônia, também conhecida como caeté ou bananeira do mato


Ora-pro-nobis (Pereskia aculeata) também conhecida por Trepadeira-limão, 
Groselha-de-barbados ou Cacto-trepadeira.


Solandra maxima


Rosa amarela


Lírio (Lilium amabile) ou Coroa de rei

sábado, 13 de abril de 2013

"Funchal" - Texto de Tomas Tranströmer




Funchal


O restaurante do peixe na praia, uma simples barraca, construída por náufragos. 

Muitos, chegados à porta, voltam para trás, mas não assim as rajadas de vento do mar. Uma sombra encontra-se num cubículo fumarento e assa dois peixes, segundo uma antiga receita da Atlântida, pequenas explosões de alho. 

O óleo flui sobre as rodelas do tomate. Cada dentada diz que o oceano nos quer bem, um zunido das profundezas. 

Ela e eu: olhamos um para o outro. Assim como se trepássemos as agrestes colinas floridas, sem qualquer cansaço. Encontramo-nos do lado dos animais, bem-vindos, não envelhecemos. Mas já suportámos tantas coisas juntos, lembramo-nos disso, horas em que também de pouco ou nada servíamos (por exemplo, quando esperávamos na bicha para doar o sangue saudável – ele tinha prescrito uma transfusão). Acontecimentos, que nos podiam ter separado, se não nos tivéssemos unido, e acontecimentos que, lado a lado, esquecemos – mas eles não nos esqueceram! 

Eles tornaram-se pedras, pedras claras e escuras, pedras de um mosaico desordenado. 

E agora aconteceu: os cacos voam todos na mesma direção, o mosaico nasce. 

Ele espera por nós. Do cimo da parede, ele ilumina o quarto de hotel, um design, violento e doce, talvez um rosto, não nos é possível compreender tudo, mesmo quando tiramos as roupas. 

Ao entardecer, saímos. A poderosa pata, azul escura, da meia ilha jaz, expelida sobre o mar. Embrenhamo-nos na multidão, somos empurrados amigavelmente, suaves controlos, todos falam, fervorosos, na língua estranha. "um homem não é uma ilha." Por meio deles fortalecemo-nos, mas também por meio de nós mesmos. Por meio daquilo que existe em nós e que os outros não conseguem ver. Aquela coisa que só se consegue encontrar a ela própria. O paradoxo interior, a flor da garagem, a válvula contra a boa escuridão. 

Uma bebida que borbulha nos copos vazios. Um altifalante que propaga o silêncio. 

Um atalho que, por detrás de cada passo, cresce e cresce. Um livro que só no escuro se consegue ler. 


Traducão do sueco para alemão por Hans Grössel
Traducão do alemão para português por Luís Costa



Imagens da cidade do Funchal - Ilha da Madeira - Portugal
Funchal, vista do Largo das Cruzes


Funchal, vista oeste


Funchal - porto


Funchal


Funchal


Funchal


Funchal


Cidade do Funchal à noite


Navio ancorado no porto do Funchal