Mostrar mensagens com a etiqueta Fotografia. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Fotografia. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 30 de março de 2023

"Na Mão de Deus" - Soneto de Antero de Quental


 
Frederic Edwin Church (American landscape painter, 1826–1900), 
Rainy Season in the Tropics, 1866,  Fine Arts Museums of San Francisco
 
 

Na Mão de Deus 
 
 
Na mão de Deus, na sua mão direita,
Descansou afinal meu coração.
Do palácio encantado da Ilusão
Desci a passo e passo a escada estreita.

Como as flores mortais, com que se enfeita
A ignorância infantil, despojo vão,
Depus do Ideal e da Paixão
A forma transitória e imperfeita.

Como criança, em lôbrega jornada,
Que a mãe leva ao colo agasalhada
E atravessa, sorrindo vagamente,

Selvas, mares, areias do deserto...
Dorme o teu sono, coração liberto,
Dorme na mão de Deus eternamente! 
in "Sonetos completos", 1886. 
 
 
Frederic Edwin Church, c. 1868, photograph by
 Napoleon Sarony (1821-1896)
 
 
Frederic Edwin Church (Hartford, Connecticut, 4 de maio de 1826 — Nova Iorque, 7 de abril de 1900) foi um pintor paisagista norte-americano.
Foi a figura central da Escola do Rio Hudson de pintores e paisagistas norte-americanos. Foi aluno de Thomas Cole em Palenville, Nova York. Tornou-se conhecido, sobretudo, por pintar paisagens colossais, com frequência em localizações exóticas. Sua pintura O Coração dos Andes, atualmente na coleção do Metropolitan Museum of Art, mede 1,67 metros de altura por 3 metros de largura. (daqui)
 
 
 
 
 
 
 
[O vulcão Cotopaxi localiza-se no Equador, e é um dos mais altos vulcões no mundo. O Cotopaxi encontra-se a cerca de 75 km a sul de Quito.
Desde 1738 já ocorreram mais de 50 erupções neste vulcão. Em volta do vulcão encontram-se numerosos vales formados por lahares. A cidade de Latacunga já foi completamente destruída duas vezes em resultado das erupções deste vulcão. As erupções mais violentas ocorreram em 1744, 1768 e em 1877. A última grande erupção ocorreu em 1904, ocorrendo também alguma atividade em 1942.
Iniciou-se uma erupção em 14 de Agosto 2015. ] (daqui)

 
 
 
 


A Bíblia da Humanidade
 
I
 
      Dentro do homem existe um Deus desconhecido: não sei qual, mas existe - dizia Sócrates soletrando com os olhos da razão, à luz serena do céu da Grécia, o problema do destino humano. E Cristo com os olhos da fé lia no horizonte anuviado das visões do profeta esta outra palavra de consolação - dentro do homem está o reino dos céus. Profundo, altíssimo, acordo de dois génios tão distantes pela pátria, pela raça, pela tradição, por todos os abismos que uma fatalidade misteriosa cavou entre os irmãos infelizes, violentamente separados, duma mesma família! Dos dois polos extremos da história antiga, através dos mares insondáveis, através dos tempos tenebrosos, o génio luminoso e humano das raças indicas e o génio sombrio, mas profundo, dos povos semíticos se enviam, como primeiro mas firme penhor da futura unidade, esta saudação fraternal, palavra de vida que o mundo esperava na angústia do seu caos - o homem é um Deus que se ignora
      Grande, soberana consolação de ver essa luz de concórdia raiar do ponto do horizonte aonde menos se esperava, de ver uma vez unidos, conciliados esses dois extremos inimigos, esses dois espíritos rivais cuja luta entristecia o mundo, ecoava como um tremendo dobre funeral no coração retalhado da humanidade antiga! Os combatentes, no maior ardor da peleja, fitam-se, encaram-se com pasmo, e sentem as mãos abrirem-se para deixar cair o ferro fratricida. Estendem os braços... somos irmãos ! 
      Primeiro encontro, santo e puríssimo, dos prometidos da história! Manhã suave dos primeiros sorrisos, dos olhares tímidos mas leais desses noivos formosíssimos, que o tempo aproximava assim para o casamento misterioso das raças! 
      Não há no mundo palácio de rei digno de lhes escutar as primeiras e sublimes confidências! Só um templo, alto como a cúpula do céu, largo como o voo do desejo, puro como a esperança do primeiro e inocente ideal humano!   
       Esse templo tiveram-no. Naquela palavra de dois loucos se encerra tudo. Nenhuma montanha tão alta, aonde a olho nu se aviste Deus, como o voo desta frase, a maior revelação que jamais ouvirá o mundo - dentro do homem está Deus.

Antero de Quental, in 'A Bíblia da Humanidade' (daqui)
 
[Publicado em janeiro de 1895 no jornal “O Século XIX” de Penafiel, o ensaio crítico 'A Bíblia da Humanidade', de Jules Michelet, autor que muito o inspirava então, foi posteriormente publicado em formato de livro.]
 

Retrato de Jules Michelet (1798-1874), c. 1865,
 por Thomas Couture (1815-1879), Museu Carnavalet
 

Jules Michelet
 
Historiador francês, professor na École Normale, na Sorbonne e no Collège de France, foi autor de Histoire de la Révolution Française (1847-1853) e Histoire de France (1833-1867). Nessas obras maiores da historiografia romântica, assim como em L'Oiseau (1856), L'Insecte (1857), L'Amour (1858), La Femme (1859) e La Sorcière (1862), entre outras, Michelet combina a exigência científica do estudo da História com a visão apaixonada dos acontecimentos, marcada pela imaginação poética e pelo estilo vibrante, deixando transparecer as suas convicções democráticas e populistas. 
 
A conceção da libertação progressiva da humanidade ao longo da História, elaborada por Michelet (que começa a ser traduzido e divulgado em Portugal na década de sessenta) a partir de leituras de Vico e Herder, influenciaria de forma determinante a Geração Coimbrã, depois Geração de 70, marcando a poesia das Odes Modernas (1865), de Antero de Quental, e sendo um dos autores citados na "Nota (sobre a missão revolucionária da poesia)" e na "Carta autobiográfica dirigida ao Professor Wilhelm Storck" (1887), onde Antero aponta as suas grandes influências. As teses de Michelet manifestam-se igualmente nas coletâneas de poesia filosófica de Teófilo Braga, Visão dos Tempos e Tempestades Sonoras (1864), sendo ele um dos autores convocados na "Generalização da história da poesia" apensa à primeira, e nos livros do seu amigo e discípulo Teixeira Bastos, Rumores Vulcânicos (1879) e Vibrações do Século (1882). Também a historiografia de Oliveira Martins denota a marca de Michelet, desde o estudo Os Lusíadas "Ensaio sobre Camões e a sua Obra"(1872; 2ª ed., 1891). (daqui)

sábado, 1 de janeiro de 2022

"Trompe l’œil" - Poema de Alexandre O'Neill

 


[O Santuário de Santa Luzia, também referido como Santuário do Monte de Santa Luzia, Basílica de Santa Luzia, Templo de Santa Luzia e Templo do Sagrado Coração de Jesus, localiza-se no alto do monte de Santa Luzia, na freguesia de Santa Maria Maior, na cidade, concelho e distrito de Viana do Castelo, em Portugal
Um dos "ex libris"" da cidade, do seu sítio descortina-se uma vista ímpar da região, que concilia o mar, o  rio Lima com o seu vale, e todo o complexo montanhoso envolvente, panorama considerado um dos melhores do mundo segundo a National Geographic.
A Basílica no alto do monte de Santa Luzia foi principiada em 1903, por iniciativa do padre António Martins Carneiro, com projeto do arquiteto
Miguel Ventura Terra (1898). A última etapa da sua construção, sob a direção do arquiteto Miguel Nogueira Júnior a partir de 1925, é considerada como inspirada na Basílica de Sacré Cœur, em Paris. 
Os trabalhos de cantaria em granito são de responsabilidade do mestre canteiro, Emídio Pereira Lima. Aberto ao culto em 1926, os trabalhos estenderam-se até 1943. Desde 1923 o santuário é servido pelo Elevador de Santa Luzia.
O santuário compreende ainda o "Núcleo Museológico do Templo-Monumento de Santa Luzia", constituído por uma sala na parte inferior da basílica. O acervo é constituído por talha, imagens, azulejos, e outros.]
(Daqui)
 
 
 
 

Trompe l’œil


Lembras-te jóia, daquele bacalhau
que comemos em Viana do Castelo?
Parece que foi ontem, mas já lá vão dez anos!
Ainda tinhas tu muito cabelo…

Chovia nesse dia, bem me lembro.
Deixaste no comboio o guarda-chuva.
Quem te mandou levar toda a viagem
a fazer olhinhos à viúva?

Contos largos… Mas quando o bacalhau,
como tu disseste: deu à costa,
esqueceste o guarda-chuva e a viúva
e perguntaste a mim: góta não góta?

Ó jóia! E o azeitinho! Aquilo sim!
P’ra comer só no Norte, só no Norte!
E depois… Na pensão… Os pés juntinhos…
Foi mais forte que nós, muito mais forte! 
 
 
 
 
 Monte de Santa Luzia, Santuário e estuário do rio Lima, Viana do Castelo, Portugal
 (Fotografia de Arménio Belo)
 
 
 
Viana do Castelo

 
Viana do Castelo, conhecida como a “Princesa do Lima” e pelas suas festas da  Senhora da Agonia, é uma das mais bonitas cidades do Norte de Portugal. A sua participação nos Descobrimentos portugueses e, mais tarde, na pesca do bacalhau mostram a sua tradicional ligação ao mar.

A Viana do Castelo depressa se acede a partir da cidade do Porto, ou de Valença para quem vem de Espanha. Do monte de Santa Luzia pode observar-se a situação geográfica privilegiada da cidade, junto ao mar e à foz do rio Lima. Esta vista deslumbrante e o Templo do Sagrado Coração de Jesus, edifício revivalista de Ventura Terra, de 1898, podem ser o ponto de partida para visitar a cidade.

Viana enriqueceu-se com palácios brasonados, igrejas e conventos, chafarizes e fontanários que constituem uma herança patrimonial digna de visita. No Posto de Turismo pode-se pedir uma brochura e fazer percursos de inspiração manuelina, renascença, barroca, art deco ou do azulejo. Percorrendo algumas das ruas do centro histórico sempre se chega à Praça da República, o coração da cidade. É onde ficam o edifício da Misericórdia e o chafariz, quinhentistas, assim como os antigos
Paços do Concelho. Não longe fica a românica ou Igreja Matriz.

Virada para o mar que fez a história de Viana, uma igreja barroca guarda a imagem da Senhora da Agonia, da devoção dos pescadores. Sai todos os anos a 20 de agosto para abençoar o mar numa das festas mais coloridas de Portugal, onde são de referir a beleza e riqueza dos trajes típicos que desfilam nas festas.

É que Viana - conhecida também pela filigrana em ouro - tem sabido manter as suas tradições, como se pode ver no Museu do Traje (traje e ouro), no Museu Municipal (especial relevo para a típica louça de Viana que aqui se expõe) ou no navio Gil Eannes. Construído nos Estaleiros Navais de Viana do Castelo para apoiar a pesca do bacalhau, o navio aqui está de novo ancorado para memória das tradições marítima e de construção naval da cidade.

Mas Viana do Castelo é também considerada uma “Meca da Arquitetura” graças aos muitos e importantes nomes da arquitetura portuguesa contemporânea que assinam equipamentos e espaços da cidade. É o caso da Praça da Liberdade de Fernando Távora, da Biblioteca de Álvaro Siza Vieira, da Pousada da Juventude de Carrilho da Graça, do Hotel Axis de Jorge Albuquerque ou ainda do Centro Cultural de Viana do Castelo de  Souto de Moura, entre muitos outros.

Nas redondezas da cidade podemos fazer um passeio pela ciclovia litoral ou fluvial ou por um dos muitos trilhos assinalados, assim como praticar surf, windsurf ou kitesurf e bodyboard em praias de areia fina e dourada. E ainda fazer jet-ski, vela, remo ou canoagem no rio Lima.

  • Viana é mar
 
Viana do Castelo, ao longo dos seus 24 quilómetros de costa litoral, tem vindo a ver reconhecido o valor patrimonial, natural e paisagístico das suas praias que, por seu lado, têm sido alvo de diversas intervenções de qualificação e valorização. Esta especial atenção reflecte-se nos vultuosos investimentos que vão da requalificação das praias à defesa dos cordões dunares e da respectiva flora e à organização de campanhas de educação que visam estimular a conservação, valorização e defesa do litoral vianense.

Por isso, Viana do Castelo tem vindo a ser galardoada com a Bandeira Azul, símbolo máximo da qualidade das praias e, agora, o litoral de Viana do Castelo pretende tornar-se um “Território de Excelência” com a implementação do denominado Polis do Litoral Norte – Operações de Requalificação e Valorização da Orla Costeira. Este ambicioso plano reconhece a importância estratégica da zona costeira e considera que as intervenções no litoral devem prosseguir objetivos concretos de modernidade e inovação, tais como a valorização dos aglomerados populacionais, a beneficiação das vias de acesso e reordenamento das áreas de estacionamento, a proteção costeira, para além de uma ciclovia, da criação de apoios de prática balnear e de apoio à prática desportiva náutica.
 
  • Viana é cor
 
O concelho é rico em tradições e o traje tradicional de Viana do Castelo é mesmo um símbolo do país, reconhecido como marca em Portugal e no estrangeiro pelo colorido e originalidade das suas peças. De destaque é também a ourivesaria de Viana, enquanto retrato fiel das suas tradições. As arrecadas, as custódias, os brincos à rainha, as laças, os trancelins e os fios em filigrana elaborada são parte integrante do nome da cidade, intimamente ligado ao traje à vianesa e à imagem da cidade.

A música faz parte da vida da comunidade Vianense, assumindo um simbolismo especial no acolhimento dos seus visitantes. A diversidade dos grupos etnográficos é igualmente acompanhada pelas escolas de música que florescem no concelho, formando tocadores de concertina, cavaquinhos, gaitas de fole e acordeão, que integram orquestras, bandas e conjuntos musicais responsáveis pela variada animação cultural.

  • Viana é monumental
 
As origens de Viana do Castelo remontam à Idade do Ferro, como confirma a Citânia erguida nessa altura no Monte de Santa Luzia. Mas a sua História, sempre ligada aos mares, relata um conjunto de acontecimentos que fizeram de Viana um dos principais portos comerciais do país. Em 1258, D. Afonso III concedeu-lhe o primeiro Foral, chamando-lhe Viana da Foz do Lima, antevendo assim a sua vocação marítima. Mais tarde, a 20 de Janeiro de 1848 e por decreto de D. Maria II, Viana é elevada a cidade e adopta o nome pelo qual é conhecida hoje: Viana do Castelo.

Plena de História, a cidade conta com inúmeros pontos de interesse cultural e turístico, aos quais se juntam o mar, o rio e a montanha, os três ecossistemas intimamente ligados à cidade e à sua História.

  • Viana é turística
 
Num cenário natural de indescritível beleza, a cidade de Viana do Castelo está destinada ao turismo, com um conjunto de espaços dedicados à recepção e acolhimento de quem visita Viana do Castelo e quer conhecer a sua cultura, a sua arte e as suas tradições. De destaque são os museus e o seu riquíssimo acervo e ainda os núcleos museológicos espalhados pelas freguesias e dedicados às tradições.

O Museu de Arte e Arqueologia está instalado numa distinta mansão senhorial do século XVIII e possui uma das mais importantes e valiosas colecções de faiança antiga portuguesa dos séculos XVII a XIX, que inclui diversas peças da famosa fábrica de louça de Viana. Para além de um importante acerco de pintura, desenho e peças de arte sacra, destaca-se a bela coleção de mobiliário indo-português do século XVIII. Neste espaço, é possível ainda descobrir o espólio da azulejaria portuguesa e hispano-árabe, único na sua variedade e riqueza, a que se junta a parte arqueológica da Igreja das Almas e da Casa dos Nichos.

Situado num espaço nobre da cidade - a Praça da República - está o Museu do Traje, instalado num edifício Estado Novo recuperado e que alberga um excelente espólio de trajes e de ourivesaria tradicional, promovendo, valorizando e recuperando um valioso património concelhio. Com esse mesmo objetivo, foi criado um conjunto de núcleos museológicos, nomeadamente as Azenhas de D. Prior, onde está situado o Centro de Monitorização e Interpretação Ambiental de Viana do Castelo (que integra a Rede Portuguesa de Moinhos) ou o Museu do Pão de Outeiro, situado na antiga escola primária e que mostra todas as alfaias agrícolas do ciclo do milho e do pão e que integra também um moinho de água.

Viana do Castelo é ainda a descoberta de uma rota de galerias e museus, festas e tradições, artesanato, ourivesaria e, claro, gastronomia.
 
  • Romaria de Nossa Senhora da Agonia
 
Se é verdade que é em Maio, com a Festa das Rosas ou dos Cestos Floridos de Vila Franca do Lima, que começa o ciclo das Festas Vianenses é, sem dúvida, em Agosto, na incomparável e magnífica Romaria de Nossa Senhora d'Agonia, que a tradição atinge o seu maior expoente. A procissão ao mar e as ruas da Ribeira, enfeitadas com os tapetes floridos, são testemunhos da profunda devoção religiosa. A etnografia tem o seu espaço nos desfiles do Cortejo Etnográfico e na Festa do Traje, onde se pode admirar os belos trajes de noiva, mordoma e lavradeira, vestidos por lindas minhotas que ostentam peitos repletos de autênticas obras de arte em ouro. A festa continua... tocam as concertinas e os bombos, dançam as lavradeiras... A grandiosa serenata de fogo de artifício ilumina toda a cidade, começando pela ponte de Gustave Eiffel, passando pelo Castelo de Santiago da Barra, até ao Templo - Monumento de Santa Luzia... É um abraço dos Vianenses a todos que nos visitam no mês de Agosto.

A Romaria d’Agonia junta-se à história da igreja d’Agonia. Data de 1674 a história da igreja em honra da padroeira dos pescadores. Na altura, foi edificada uma capela em invocação ao Bom Jesus do Santo Sepulcro do Calvário e, um pouco acima, uma capelinha devota a Nossa Senhora da Conceiçã
o.
Informações e Fotos: CM Viana do Castelo (daqui)

quinta-feira, 22 de agosto de 2019

"Encontro em Copenhague" - Poema de Yevgeny Aleksandrovich Yevtushenko


Ernest Hemingway at his home in Cuba, circa 1953, 
standing in front of a 1929 portrait of himself 


Ernest Hemingway as 'Kid Balzac' painted 
by Waldo Peirce in 1929, Key West


Encontro em Copenhague


Sentados no aeroporto em Copenhague
atacávamos juntos o café.
Ali tudo era belo,
confortável.
— Ambiente refinado como quê!

E de súbito
aquele velho surgiu,
japona simples e capuz verde oliva,
pele curtida
por lufadas salinas,
ou melhor,
não surgiu,
exsurgiu.

Caminhava,
singrando por turistas,
como se houvesse largado o leme faz pouco,
feito espuma do mar
a barba híspida
branca
emoldurava-lhe o rosto.

Com sombria decisão de vitória
caminhava,
erguendo uma onda volumosa,
através de antiqualhas
de um moderno postiço,
através do moderno posiçando o antigo.

E abrindo a gola da camisa rústica,
ele, rejeitando o vermute e o pernaud,
pediu ao balcão uma vodca russa
e repeliu a soda com um gesto:
“No...”

Mãos gretadas, com cicatrizes,
curtidas,
sapatos grossos, arrastando solas,
calças incrivelmente encardidas,
— era mais elegante
do que todos em roda!

A terra sob ele como que afundava,
com o peso daquelas passadas.
Um dos nossos sorriu-me:
“Ei!
Veja se não parece Hemingway!”

Caminhava,
expresso em gestos curtos,
andar de pescador, pesado, lento,
todo talhado num rochedo bruto,
como através das balas,
através dos tempos.

Caminhava, encurvado, como na trincheira,
abria caminho entre pessoas e cadeiras...
Parecia-se tanto com Hemingway! 
 
— Depois fiquei sabendo:
era Hemingway.


Yevgeny Aleksandrovich Yevtushenko,
Trad. de Haroldo de Campos e Boris Schnaiderman 
 

Waldo Peirce, Ernest Hemingway, 1966 
("Don Ernesto con una bonita", Key West '27)


“Nossas virtudes e nossos defeitos são inseparáveis, assim como a força e a matéria. Quando se separam, o homem deixa de existir.”

(Nikola Tesla)



terça-feira, 20 de agosto de 2019

"Noite dos Capitães da Areia" - Poema de Jorge Amado

 
 Fotografia de Chantal James, Meninos de Rua no Rio de Janeiro


[Chantal James nasceu no Canadá, formou-se em fotografia pela Parsons School of Design, em Nova York, e em 2005 decidiu cumprir um sonho antigo: morar no Rio de Janeiro. O objetivo inicial era uma reportagem para a revista “La Rampa”, publicada no Canadá, Estados Unidos, Espanha e Brasil, mas, em pouco tempo, Chantal se surpreendeu com as assimetrias da cidade e com os meninos de rua, sem casa, sem família e sem comida, que deambulam por entre as casas, os hotéis e os restaurantes mais caros do Rio: “todo mundo vê, mas ninguém parece se importar”.

O site Hypeness entrevistou a fotógrafa para saber mais sobre o projeto “The Undesirables” (“Os Indesejados”), feito em parceria com os meninos do Rio ao longo de sete anos.] (Daqui)



Noite dos Capitães da Areia


A cidade dormiu cedo.
A lua ilumina o céu, vem a voz de um negro do mar em frente.
Canta a amargura da sua vida desde que a amada se foi.
No trapiche as crianças já dormem.

A paz da noite envolve os esposos.
O amor é sempre doce e bom, mesmo quando a morte está próxima.
Os corpos não se balançam mais no ritmo do amor.
Mas no coração dos dois meninos não há nenhum medo.
Somente paz, a paz da noite da Bahia.

Então a luz da lua se estendeu sobre todos,
as estrelas brilharam ainda mais no céu,
o mar ficou de todo manso
(talvez que Iemanjá tivesse vindo também a ouvir música)
e a cidade era como que um grande carrossel
onde giravam em invisíveis cavalos os Capitães da Areia.

Vestidos de farrapos, sujos, semi-esfomeados, agressivos,
soltando palavrões e fumando pontas de cigarro,
eram, em verdade, os donos da cidade,
os que a conheciam totalmente,
os que totalmente a amavam,
os seus poetas.


Capitães da Areia (2011) - Filme Completo


Capitães da Areia é um romance de autoria do escritor brasileiro Jorge Amado, escrito em 1937. A obra retrata a vida de um grupo de menores abandonados, que crescem nas ruas da cidade de Salvador, Bahia, vivendo em um trapiche, roubando para sobreviver, chamados de "Capitães da Areia".

Neste livro, Jorge Amado retrata a vida nas ruas de Salvador, capital do estado brasileiro da Bahia, naquela época afetada por uma epidemia de bexiga (varíola); o aparato policial destinava-se à perseguição pura e simples dos menores infratores, encontrando mesmo prazer na tortura, sem qualquer senso de justiça. Diante do ambiente hostil em que vivem, o grupo de meninos abandonados reage de forma também agressiva, mas de forma a encontrar nas ruas uma certa liberdade; tem por refúgio um velho trapiche (espécie de armazém) abandonado, numa das praias da capital baiana - de onde vem o nome do grupo.

Esse trapiche é a única referência de "lar" que possuem; é onde se abrigam, se escondem, e vivem como família. Sua descrição ocupa lugar de destaque no início da obra. Ali constroem suas próprias regras, são os senhores e é objeto de investigação pelas autoridades, que desconhecem onde os mesmos se ocultam. Localizada na Cidade Baixa, parte da capital baiana onde está a zona portuária, é contudo na residencial e mais rica Cidade Alta que os menores realizam suas ações infratoras.

Em 2011 estreou nos cinemas o filme Capitães da Areia por Cecília Amado, neta de Jorge Amado que realizou o filme em homenagem ao avô. (Daqui)

domingo, 11 de novembro de 2018

"Fotografia do 11 de Setembro" - Poema de Wisława Szymborska


As torres gémeas incendiaram atrás de um dos marcos emblemáticos de Nova Iorque, o Empire State Building
a 11 de setembro de 2001. Fotografia por Marty Lederhandler, AP
(Daqui)



Fotografia do 11 de Setembro


Pularam dos andares em chamas –
um, dois, alguns outros,
acima, abaixo.
A fotografia os manteve em vida,
e agora os preserva
acima da terra rumo à terra.
Ainda estão completos,
cada um com seu próprio rosto
e sangue bem guardado.
Há tempo suficiente
para cabelos voarem,
para chaves e moedas
caírem dos bolsos.
Permanecem nos domínios do ar,
na esfera de lugares
que acabam de se abrir.
Só posso fazer duas coisas por eles –
descrever este voo
e não acrescentar o último verso.

sábado, 4 de agosto de 2018

"Insinceridade" - Poema de Vasco Graça Moura


'The Flatiron Building at Night' in a photograph of 1904, taken by Edward Steichen



Insinceridade


Quis-nos aos dois enlaçados 
meu amor ao lusco-fusco 
mas sem saber o que busco: 
há poentes desolados 
e o vento às vezes é brusco 

nem o cheiro a maresia 
a rebate nas marés 
na costa de lés a lés 
mais tempo nos duraria 
do que a espuma a nossos pés 

a vida no sol-poente 
fica assim num triste enleio 
entre melindre e receio 
de que a sombra se acrescente 
e nós perdidos no meio 

sem perdão e sem disfarce, 
sem deixar uma pegada 
por sobre a areia molhada, 
a ver o dia apagar-se 
e a noite feita de nada 

por isso afinal não quero 
ir contigo ao lusco-fusco, 
meu amor, nem é sincero 
fingir eu que assim te espero, 
sem saber bem o que busco. 


in "Antologia dos Sessenta Anos"


sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

"Pôr-do-sol em Portugal" - Poema de Álvaro Alves de Faria




Pôr-do-sol em Portugal


Quando o sol se põe, 
as ruas de Portugal ficam 
quietas como um pássaro. 
Talvez hajam barcos saindo do porto 
levando o corpo de Álvaro de Campos. 
Os oceanos sempre serão menores 
para tantas embarcações 
que partem, velas invisíveis 
no longínquo silêncio 
de ondas que morrerão. 
Quando o sol se põe, 
as mulheres talvez cantem uma canção 
e talvez amem homens tristes 
em alamedas distantes, 
onde a memória se perdeu 
e onde a música não existe mais. 
Quando o sol se põe, 
as casas de Portugal ficam amarelas 
e todas as janelas se fecham 
em adeus a todas as coisas. 
Quando o sol se põe, 
os passos se perdem nas calçadas, 
talvez os dias não amanheçam mais, 
talvez as igrejas fechem 
e talvez um lábio faça ainda uma súplica 
de amor. 
Quando o sol se põe, 
as sombras de Portugal ficam mais 
nítidas, 
os casais talvez chorem, 
talvez sorriam, 
mas isso ninguém sabe, 
mas isso ninguém saberá.





domingo, 3 de setembro de 2017

"Porto Sentido" - Poema de Carlos Tê / Rui Veloso

Porto Sentido


Quem vem e atravessa o rio,
junto à Serra do Pilar,
vê um velho casario
que se estende até ao mar. 

Quem te vê ao vir da Ponte
és cascata sanjoanina
erigida sobre um monte,
no meio da neblina,
por ruelas e calçadas,
da Ribeira até à Foz,
por pedras sujas e gastas
e lampiões tristes e sós. 

Esse teu ar grave e sério
dum rosto de cantaria
que nos oculta o mistério
dessa luz bela e sombria. 

Ver-te assim abandonado
nesse timbre pardacento,
nesse teu jeito fechado
de quem mói um sentimento...
e é sempre a primeira vez,
em cada regresso a casa,
rever-te nessa altivez
de milhafre ferido na asa.




Porto sentidoRui Veloso


"A admiração começa onde acaba a compreensão."


sábado, 12 de agosto de 2017

"A dança é a linguagem escondida da alma." - Martha Graham


(Fotógrafo arménio-canadense, 1908 - 2002)
 
 
"A dança é a linguagem escondida da alma."



Martha Graham (11 de maio de 1894, Condado de Allegheny, Pensilvânia – 1 de abril de 1991, Nova Iorque) foi uma dançarina e coreógrafa estadunidense que revolucionou a história da Dança Moderna.
O impacto que a dança de Martha Graham causou nos palcos é frequentemente comparado à influência que Picasso teve para a pintura em seu tempo, ou Stravinsky na música, ou Frank Lloyd Wright na arquitetura. As suas contribuições transformaram essa forma de arte, revitalizando e difundindo a dança ao redor do mundo.
Na sua busca por uma forma de expressar-se mais honesta e livremente, ela fundou a Martha Graham Dance Company, uma das mais conceituadas e antigas companhias de dança nos Estados Unidos.
Como professora, Graham treinou e inspirou gerações de grandes bailarinos e coreógrafos. Entre seus discípulos estão Alvin Ailey, Twyla Tharp, Paul Taylor, Merce Cunningham e incontáveis outros atores e dançarinos.
Ela colaborou com alguns dos mais conceituados artistas de seu tempo, como o compositor Aaron Copland e o escultor Isamu Noguchi. Ela inventou uma nova linguagem de movimento, usada para revelar a paixão, a raiva e o êxtase comuns à experiência humana. Ela dançou e coreografou por mais de 70 anos, e durante esse tempo foi a primeira dançarina a se apresentar na Casa Branca, viajar para o estrangeiro como embaixadora cultural, e receber o maior prémio civil do EUA: a Medalha Presidencial da Liberdade.
Em sua vida, ela recebeu homenagens que vão desde a Chave da Cidade de Paris até a Ordem da Coroa Preciosa do Império Japonês. Ela disse: "Passei toda a minha vida com a dança e sendo uma bailarina. É a vida que permite usá-la de uma forma muito intensa. Às vezes não é agradável. Às vezes é terrível. Mas, apesar disso, é inevitável." (Daqui)


(Escritor e fotógrafo, 1880 - 1964)
 
 
"A Dança é, na minha opinião, muito mais do que um exercício, um divertimento, um ornamento, um passatempo social; na verdade, é uma coisa até séria e, sob certo aspeto, mesmo, uma coisa sagrada. Cada era que compreendeu a importância do corpo humano, ou que, pelo menos, teve a noção sensorial de sua estrutura, de seus requisitos, de suas limitações e da combinação de genialidade que lhe são inerentes, cultivou, venerou a Dança."



A Tribute to Martha Graham