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domingo, 30 de agosto de 2026

"Libera Me" - Poema de Carlos Queirós Ribeiro


 
François Boucher (French painter, draughtsman and etcher, 1703–1770),
Cupids - Allegory of Painting, 1760s, Hermitage Museum.



Libera Me


Livrai-me, Senhor,
De tudo o que for
Vazio de amor.

Que nunca me espere
Quem bem me não quer
(Homem ou mulher).

Livrai-me também
De quem me detém
E graça não tem,

E mais de quem não
Possui nem um grão
De imaginação. 


Carlos Queirós Ribeiro (1907–1949), in 'O Instituto'
[Revista científica e literária, entre 1852 e 1981];
in 'Poesia de Carlos Queirós' de Jorge de Sampaio,
Edições Panorama, Lisboa, 1966.




Carlos Queirós
 
 
Poeta, ensaísta e crítico literário português, José Carlos Queirós Nunes Ribeiro nasceu a 5 de abril de 1907, em Lisboa, e morreu a 27 de outubro de 1949, em Paris.
Frequentou o curso de Direito da Universidade de Coimbra, onde conviveu com um grupo de escritores presencistas. Para o Secretariado Nacional de Propaganda editou algumas obras sobre o turismo português e organizou, na Emissora Nacional, onde era funcionário, vários programas de carácter nacionalista e de divulgação cultural e turística.
Dirigiu Panorama (1941) e Litoral (1944), tendo ainda colaborado em publicações como Contemporânea, Momento, Sudoeste, Cadernos de Poesia, Aventura e Revista de Portugal.
Organizou, em 1942, com António Pedro e Jorge de Sena, uma "Homenagem a Arthur Rimbaud". Para além de amigo e o responsável pelo conhecimento travado entre Fernando Pessoa e Ofélia Queirós, sua tia, que resultou numa relação amorosa, foi também um acérrimo exaltador da memória daquele poeta (cf. "Carta à memória de Fernando Pessoa" e "Homenagem a Fernando Pessoa", ambas publicadas na Presença, em 1936), sendo um dos herdeiros da estética pessoana, constituindo, para David Mourão-Ferreira, um "privilegiadíssimo elo na cadeia que estabelece a ligação entre os poetas de Orpheu (em particular Fernando Pessoa, e nomeadamente o Pessoa ortónimo) e algumas das camadas que só na segunda metade do século principiaram a manifestar-se." (MOURÃO-FERREIRA, David - preâmbulo a Epístola aos Vindouros, Lisboa, Ática, 1989).
Poeta que transcende a etiqueta de presencista e cujo papel basilar na estética do segundo modernismo ainda não foi suficientemente avaliado, a sua obra compõe, também segundo o mesmo crítico, "uma das mais fascinantes cúpulas da poesia da primeira metade de século".
Publicou, entre outros, os livros de poemas Desaparecido (1935) e Breve Tratado de Não-Versificação (1948). (daqui)
 
 

segunda-feira, 22 de junho de 2026

"O espelho curvo" - Poema de Yves Bonnefoy


 
François Boucher (French painter, draughtsman and etcher, 1703–1770),
'Allegory of Painting´, 1765, National Gallery of Art.



O espelho curvo 

I

Olha-os lá, naquela encruzilhada;
Parecem hesitar depois retomam
A estrada. À frente deles o menino corre,
A braçadas colheram para os poucos vasos
Pelo campo essas flores que nem nome têm.

E o anjo está lá em cima, a observá-los
E envolto pelo vento de suas cores.
Tem um dos braços nu no pano rubro,
Parece que segura um espelho, e que a terra
Se reflete na água dessa outra margem.

E que designa agora, com o dedo
Que aponta nessa imagem um lugar?
Será outra casa ou será outro mundo,
Será mesmo uma porta, em meio à luz
Aqui mesclada às coisas e aos signos?

II

Gostam de voltar tarde, assim. Já não distinguem
O caminho sequer por entre as pedras
De onde ainda brota uma sombra ocre-rubra.
Mas estão confiantes. Junto da soleira
A relva é fácil e não existe morte.

E ei-los agora embaixo das abóbodas.
Há escuridão ali no rumor dessas folhas
Secas, que o vento que não sabe move
Por sobre as lajes, de uma sala a outra,
O que tem nome e o que é apenas coisa.

Eles vão indo, vão. Além entre as ruínas,
É o país onde as margens são tranquilas,
Os caminhos imóveis. Pelos quartos
Irão dispondo as flores, junto ao espelho
Que consume talvez, e talvez salve.


Yves Bonnefoy
 
(1923–2016), in 'Obra Poética'.
Ttradução e organização de Mário Laranjeira.
São Paulo: Editora Iluminuras, 1998.
 

 

 embaixo / em baixo
[Ortografia / Lexicografia]

A forma embaixo corresponde a um advérbio de uso comum no português do Brasil. Na norma europeia do português, este advérbio corresponde geralmente à locução adverbial em baixo (ex.: chama o teu irmão, que está lá em baixo; o rapaz andou em baixo durante uns tempos).

Não se trata propriamente de uma variação ortográfica, pois não há nenhuma determinação que recomende o uso de palavra ou locução nestes casos, mas de uma diferença entre a tradição lexicográfica portuguesa (que regista sempre a locução em baixo e não tem registo de embaixo, exceto no Grande Vocabulário da Língua Portuguesa, de José Pedro Machado) e a tradição lexicográfica brasileira (que preconiza embaixo e apenas regista em baixo como regionalismo de Portugal, nomeadamente no Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa). (daqui)

sábado, 30 de maio de 2026

"Arte Poética V" - Texto de Sophia de Mello Breyner Andresen



Auger Lucas (French painter, 1685
–1765), 'An Allegory of Poetry', c. 1760.
 

Arte Poética V


Na minha infância, antes de saber ler, ouvi recitar e aprendi de cor um antigo poema tradicional português, chamado 'Nau Catrineta'. Tive assim a sorte de começar pela tradição oral, a sorte de conhecer o poema antes de conhecer a literatura.

Eu era de facto tão nova que nem sabia que os poemas eram escritos por pessoas, mas julgava que eram consubstanciais ao universo, que eram a respiração das coisas, o nome deste mundo dito por ele próprio.

Pensava também que, se conseguisse ficar completamente imóvel e muda em certos lugares mágicos do jardim, eu conseguiria ouvir um desses poemas que o próprio ar continha em si.

No fundo, toda a minha vida tentei escrever esse poema imanente. E aqueles momentos de silêncio no fundo do jardim ensinaram-me, muito tempo mais tarde, que não há poesia sem silêncio, sem que se tenha criado o vazio e a despersonalização.

Um dia em Epidauro — aproveitando o sossego deixado pelo horário do almoço dos turistas — coloquei-me no centro do teatro e disse em voz alta o princípio de um poema. E ouvi, no instante seguinte, lá no alto, a minha própria voz, livre, desligada de mim.

Tempos depois, escrevi estes três versos:

A voz sobe os últimos degraus
Oiço a palavra alada impessoal
Que reconheço por não ser já minha.


Sophia de Mello Breyner Andresen, in "Ilhas", pág 70 - Texto Editora, 1989
(Lido na Sorbonne, em Paris, em Dezembro de 1988, por ocasião do encontro intitulado Les Belles Étrangères.)
 
 

sexta-feira, 22 de maio de 2026

"Arte Poética IV" - Texto de Sophia de Mello Breyner Andresen



William-Adolphe Bouguereau (Peintre français, 1825-1905),
"L'Art et la Littérature", 1867, Arnot Art Museum, New York.


Arte Poética IV


Fernando Pessoa dizia: «Aconteceu-me um poema.» A minha maneira de escrever fundamental é muito próxima deste «acontecer». O poema aparece feito, emerge, dado (ou como se fosse dado). Como um ditado que escuto e noto.

É possível que esta maneira esteja em parte ligada ao facto de, na minha infância, muito antes de eu saber ler, me terem ensinado a decorar poemas. Encontrei a poesia antes de saber que havia literatura. Pensava que os poemas não eram escritos por ninguém, que existiam em si mesmos, por si mesmos, que eram como que um elemento do natural, que estavam suspensos, imanentes. E que bastaria estar muito quieta, calada e atenta para os ouvir.

Desse encontro inicial ficou em mim a noção de que fazer versos é estar atento e de que o poeta é um escutador. É difícil descrever o fazer de um poema. Há sempre uma parte que não consigo distinguir, uma parte que se passa na zona onde eu não vejo.

Sei que o poema aparece, emerge e é escutado num equilíbrio especial da atenção, numa tensão especial da concentração. O meu esforço é para conseguir ouvir o «poema todo» e não apenas um fragmento. Para ouvir o «poema todo» é necessário que a atenção não se quebre ou atenue e que eu própria não intervenha. É preciso que eu deixe o poema dizer-se. Sei que quando o poema se quebra, como um fio no ar, o meu trabalho, a minha aplicação não conseguem continuá-lo.

Como, onde e por quem é feito esse poema que acontece, que aparece como já feito? A esse «como, onde e quem» os antigos chamavam Musa. É possível dar-lhe outros nomes e alguns lhe chamarão o subconsciente, um subconsciente acumulado, enrolado sobre si próprio como um filme que de repente, movido por qualquer estimulo, se projeta na consciência como num écran. Por mim, é-me difícil nomear aquilo que não distingo bem. É-me difícil, talvez impossível, distinguir se o poema é feito por mim, em zonas sonâmbulas de mim, ou se é feito em mim por aquilo que em mim se inscreve. Mas sei que o nascer do poema só é possível a partir daquela forma de ser, estar e viver que me torna sensível — como a película de um filme — ao ser e ao aparecer das coisas. E a partir de uma obstinada paixão por esse ser e esse aparecer.

Deixar que o poema se diga por si, sem intervenção minha (ou sem intervenção que eu veja), como quem segue um ditado (que ora é mais nítido, ora mais confuso), é a minha maneira de escrever.

Assim algumas vezes o poema aparece desarrumado, desordenado, numa sucessão incoerente de versos e imagens. Então faço uma espécie de montagem em que geralmente mudo não os versos mas a sua ordem. Mas esta intervenção não é propriamente «inter-vir» pois só toco no poema depois de ele se ter dito até ao fim. Se toco a meio o poema nas minhas mãos desagrega-se. O poema «Crepúsculo dos Deuses» (Geografia) é um exemplo desta maneira de escrever. É uma montagem feita com um texto caótico que arrumei: ordenei os versos e acrescentei no final uma citação de um texto histórico sobre Juliano, o Apóstata.

Algumas vezes surge não um poema mas um desejo de escrever, um «estado de escrita». Há uma aguda sensação de plasticidade e um vazio, como num palco antes de entrar a bailarina. E há uma espécie de jogo com o desconhecido, o «in-dito», a possibilidade. O branco do papel torna-se hipnótico. Exemplo dessa maneira de escrever, texto que diz esta maneira de escrever, é o poema de Coral:

Que poema, de entre todos os poemas,
Página em branco?

Outra ainda é a maneira que surgiu quando escrevi O Cristo Cigano: havia uma história, um tema, anterior ao poema. Sobre esse tema escrevi vários poemas soltos que depois organizei num só poema longo.

E por três vezes me aconteceu uma outra maneira de escrever: de textos que eu escrevera em prosa surgiram poemas. Assim o poema «Fernando Pessoa» apareceu repentinamente depois de eu ter acabado de escrever uma conferência sobre Fernando Pessoa. E o poema «Maria Helena Vieira da Silva ou O Itinerário Inelutável» emergiu de um artigo sobre a obra desta pintora. E enquanto escrevi este texto para a Crítica apareceu um poema que cito por ser a forma mais concreta de dar a resposta que me é pedida:

Aqui me sentei quieta
Com as mãos sobre os joelhos
Quieta muda secreta
Passiva como os espelhos

Musa ensina-me o canto
Imanente e latente
Eu quero ouvir devagar
O teu súbito falar
Que me foge de repente

Durante vários dias disse a mim própria: «tenho de responder a Crítica». Sabia que ia escrever e sobre que tema ia escrever. Escrevi pouco a pouco, com muitas interrupções, metade escrito num caderno, metade num bloco, riscando e emendando para trás e para a frente, num artesanato muito laborioso, perdida em pausas e descontinuidades. E através das pausas o poema surgiu, passou através da prosa, apareceu na folha direita do caderno que estava vazia.

Ninguém me tinha pedido um poema, eu própria não o tinha pedido a mim própria e não sabia que o ia escrever. Direi que o poema falou quando eu me calei e se escreveu quando parei de escrever. Ao tentar escrever um texto em prosa sobre a minha maneira de escrever «invoquei» essa maneira de escrever para a «ver» e assim a poder descrever. Mas, quando «vi», aquilo que me apareceu foi um poema.

Sophia de Mello Breyner Andresen, in "Dual", 1ª edição, 1972  (daqui) 

 

quinta-feira, 14 de maio de 2026

"Poema de Amor" - Ruy Cinatti

 

 
François Boucher
(French painter, draughtsman and etcher, 1703–1770),
'Cupids - Allegory of Poetry', 1760s.

 Poema de Amor


Os segredos de amor têm profundezas difíceis de alcançar,
tal como a chuva que hoje cai e nos molha na calçada a face,
nós olhando triste uma saudade imensa
num corpo de mulher metamorfoseada.

Sou demasiado são para me esquecer
do tempo apaixonado que vivi nos teus braços
e bebo no teu um coração meu
adormecido no mar do meu cansaço
ou no rio das minhas secas lágrimas.

Tardará muito, se é que as horas contam,
ver-te, de novo, perto de mim, longe,
mas eu espero, sou paciente e, no meu canhenho, aponto,
um dia a menos, o da tua chegada.
E assim me fico, rente ao horizonte,
abrigado da chuva numa cabine telefónica,
e ligo para ti - que número? - ninguém responde
do oceano que avança e retrai colinas,
o vulto de um navio, tu na amurada
acenando um lenço, ó minha pomba branca!...

Como se tempestade houvesse e um naufrágio de chuva
- as vidraças escorrem, as árvores liquefazem-se...-
escurecendo os teus cabelos,
ou, se preferes, a minha boca neles
carregadas de ilhas, de noturnos perfumes
que ateiam lumes, ó minha idolatrada,
na minh'alma inquieta um outro bater d'asas
ou num jardim um leito de flores!...


Ruy Cinatti,
in "56 poemas", 1ª ed. - A Regra do Jogo, 1981.
Reeditado: Relógio de Água, 1992.

 
"56 poemas" de Ruy Cinatti,
Relógio D'água, 1992.
 

"56 Poemas", publicado originalmente em 1981 pela editora 'A Regra do Jogo' e, posteriormente, com reedições pela 'Relógio D'Água', é uma obra fundamental de Ruy Cinatti (1915–1986), marcando um ponto culminante na sua produção poética. A obra apresenta uma poesia de maturidade, marcada por um forte teor lírico e confessional, com destaque para "Poema de Amor" e a sua relação com o misticismo e a vivência em Timor.
 

quarta-feira, 13 de maio de 2026

"Hoje é o dia de todos os deuses" - Poema de Helga Moreira


 
François Flameng (French painter, 1856–1923), 'Allegory of Painting'
('Allégorie de la peinture')
, c. 1875, Private collection.


Hoje é o dia de todos os deuses


Hoje é o dia de todos os deuses.
A maresia subirá breve
ao terceiro andar.

Virá como quem pede mais um pouco
desta tarde.
Deixo-me ficar enquanto vou

indecisa como quem não sabe.
Se escolho rainha se rei
só eu decido, só eu sei.

Hoje é o dia de todos os deuses.
A qualquer deles vou pedir
não só a Zeus, não só a Argos,

não só a Afrodite,
a que o amor consente de todos os modos,
à brisa pedirei

que me deixe partir
a voz em arco
e tudo fruir de outro modo. 

Ainda que hoje não seja o dia
de todos os deuses
direi
não tenho género ou identificação bastante

que se assemelhe
ao estar
preto no preto branco no branco. 
 
in 'Agora que falamos de morrer', 2006.
 

terça-feira, 5 de maio de 2026

"Talvez tenhamos tempo" - Poema de Pablo Neruda



Peter Paul Rubens (Flemish artist and diplomat, 1577–1640),
'The Four Continents', c. 1615, Kunsthistorisches Museum.


Talvez tenhamos tempo


Talvez tenhamos tempo ainda
para ser e para ser justos.
De uma maneira transitória
agonizou ontem a verdade
e embora o saiba todo o mundo
todo o mundo bem o disfarça:
ninguém mandou algumas flores:
ela morreu e ninguém chora.

Entre o esquecimento e a aflição
um pouco antes do funeral
teremos a oportunidade
da nossa morte e nossa vida
para sair de rua em rua,
de mar em mar, de porto em porto,
de cordilheira em cordilheira,
e sobretudo de homem em homem,
a perguntar se a assassinámos
ou se a mataram os outros,
se foram os nossos inimigos
ou o nosso amor o assassino.
Porque a verdade já morreu
e agora podemos nós ser justos.

Antes devíamos lutar
com armas de calibre escuro
e por ferir-nos esquecemos
qual era o fim da nossa luta.

Nunca se soube de quem era
o sangue que nos envolvia,
acusamos outros sem cessar,
sem cessar fomos acusados,
eles sofreram e sofremos,
e depois de eles terem ganho
e termos ganho nós também
a verdade tinha morrido
de antiguidade ou violência.
Não há nada a fazer agora:
todos perdemos a batalha.

Por isso penso que talvez
por fim pudéssemos ser justos
ou por fim pudéssemos ser:
temos este último minuto
e depois mil anos de glória
para não ser e não voltar.


Pablo Neruda, in 'Memorial de La Isla Negra', 1964;
in 'Antologia', seleção e tradução de José Bento,
Relógio D’Água Editores, Lisboa, 1998.


 
Antologia Poética de Pablo Neruda. 
Tradução: José Bento. Nº de páginas: 462.
Relógio D’Água, 1998.
 

"Os poetas odeiam o ódio e fazem guerra à guerra."

Pablo Neruda (1904–1973), 
Prémio Nobel da Literatura em 1971.

domingo, 26 de abril de 2026

"Armas" - Poema de Fagundes Varela




Reproduction by Giuseppe Sacconi (Italian artist born in the 18th Century),
"Allegory of poetry", c. 1789 (After Carlo Dolci, Italian Baroque painter,
1616–1686), National Museum in Warsaw / Palace on the Water.



Armas


– Qual a mais forte das armas,
A mais firme, a mais certeira?
A lança, a espada, a clavina,
Ou a funda aventureira?
A pistola? O bacamarte?
A espingarda, ou a flecha?
O canhão que em praça forte
Faz em dez minutos brecha?

– Qual a mais firme das armas?
O terçado, a fisga, o chuço,
O dardo, a maça, o virote?
A faca, o florete, o laço,
O punhal, ou o chifarote?…

A mais tremenda das armas,
Pior que a durindana,
Atendei, meus bons amigos:
Se apelida: – A língua humana!


Poema de Fagundes Varella (1841–1875),
retirado do livro  "Revolta e protesto na poesia brasileira"
 (Nova Fronteira, 2021) - Antologia de André Seffrin.
 
 

'Revolta e protesto na poesia brasileira',
Antologia, vários autores; org. de André Seffrin
Nova Fronteira - 272 págs.

  
DESCRIÇÃO

Organizada pelo crítico e ensaísta André Seffrin, a antologia Revolta e protesto na poesia brasileira reúne 142 poemas sobre temas como corrupção, desmandos políticos e turbulências sociais no país ao longo de sua história. 

O recorte é grande, cobre cinco séculos de abusos políticos e sociais denunciados de maneira satírica e irónica, ou mesmo angustiada e desiludida, por nomes clássicos como Gregório de Matos, Tomás Antônio Gonzaga, Gonçalves Dias, Castro Alves, Luiz Gama, Cruz e Sousa e Machado de Assis. 

A eles, Seffrin juntou autores mais recentes, como Mário de Andrade, Rubem Braga, Sérgio Sant’Anna, Astrid Cabral, Myriam Fraga, Glauco Mattoso, Paulo Henriques Britto entre outros, mais novos ainda, com Angélica Freitas e Mariana Ianelli, cronista e editora de poesia do Rascunho.

Ao longo da antologia, temas como opressão, preconceito e injustiça ganham espaço até mesmo entre poetas que não se envolveram com as questões sociais. Alguns poemas seguem uma veia melancólica, como A lágrima de um caeté, de Nísia Floresta Brasileira Augusta — precursora no Brasil das lutas em defesa da mulher durante a República e o Abolicionismo. Outros, como O povo na cruz, de Leandro Gomes de Barros, são permeados de humor ou sarcasmo.

“Nesta antologia, a fragilidade da poesia confronta políticos corruptos, magistrados ineptos, agentes públicos relapsos, a burocracia e outras patacoadas provincianas que ainda e sempre nos assediam”, escreve Seffrin, que é ensaísta, organizador de antologias e pesquisador independente.

Desde os anos 1980, escreveu cerca de duas centenas de apresentações, prefácios e posfácios para edições de escritores brasileiros clássicos e contemporâneos. Autor de ensaios críticos e biográficos, alguns em edições de arte, foi também colaborador de jornais e revistas (Jornal do Brasil, Jornal da Tarde, O Globo, Manchete, Gazeta Mercantil, EntreLivros etc.) e coordenou coleções de literatura para diversas editoras. (daqui)
 
 

Pedro Américo (Pintor brasileiro, 1843–1905),
"
Retrato do poeta Fagundes Varela", c. 1868/1869,
Museu Nacional de Belas Artes.

   
Poeta brasileiro, Luís Nicolau Fagundes Varela nasceu a 18 de agosto de 1841, em Rio Claro, no Rio de Janeiro (Brasil).
Descendente de família fluminense de boa posição social, Fagundes Varela viveu a sua infância na fazenda onde nascera e na vila de S. João Marcos. Em 1859, terminou os seus estudos preparatórios em S. Paulo, onde se inscreveu na Faculdade de Direito, em 1862. Casou-se com uma artista de circo, Alice Guilhermina Luande, e com a morte do filho, que lhe inspirou um dos mais belos poemas - "Cântico do Calvário", abandonou o curso de Direito, retomando-o na Faculdade de Direito de Recife, em Pernambuco. Com a morte da mulher, regressou a S. Paulo, reinscrevendo-se, em 1867, na Faculdade de Direito, no 4.º ano, que perdeu por excesso de faltas. Nesse mesmo ano, desistiu de continuar os estudos e regressou à casa paterna, em Rio Claro. A partir de então, Fagundes Varela passou a viver num estilo de vida boémio, agravado pelo alcoolismo e por uma permanente tendência para a marginalidade. Casou-se ainda com a prima Maria Belisária de Brito Lambert, com quem teve duas filhas e um filho, que morreu prematuramente, e mudou-se com a família para Niterói, no Rio de Janeiro.
Fagundes Varela escreveu Noturnas (1861), O Estandarte Auriverde (1863), Vozes da América (1864), Cantos e Fantasias (1865), Cantos do Ermo e da Cidade (1869), Cantos Meridionais (1869), Anchieta ou Evangelho na Selva (1875) e os livros, editados postumamente, Cantos Religiosos (1878) e Diário de Lázaro (1880). A sua poesia marca a transição entre as 2.ª e 3.ª gerações do Romantismo brasileiro, a ultrarromântica e a geração condoreira (nome proveniente do pássaro condor e que traduz grande expressividade, grandeza e a ideia de infinito) e aborda várias temáticas desse movimento, tais como a depressão, a melancolia byroniana, a religião, a morte, a beleza da natureza e a exaltação à pátria.
A 17 de fevereiro de 1875, Fagundes Varela faleceu em Niterói, vítima de apoplexia. O poeta é patrono da cadeira n.º 11 da Academia Brasileira de Letras. (daqui)

terça-feira, 21 de abril de 2026

"Uma Luz existe na Primavera" - Poema de Emily Dickinson



Auguste-Émile Pinchart (French painter and designer, 1842–1924),
 "Allegory of Spring", n.d.
 

Uma Luz existe na Primavera


Uma Luz existe na Primavera
Não presente no ano
Em qualquer outra estação –
Quando Março já chegando

Uma Cor se firma
Campos Solitários afora
Que a Ciência não alcança
Mas a Natureza Humana elabora.

Ela aguarda sobre a Relva,
A Árvore mais longínqua ela revela
E na mais remota Encosta, tu sabes,
Ela quase contigo fala.

Então quando Horizontes se movem
Ou meios-dias já longe ecoam
Sem a Fórmula do som
Ela se despede e nós ficamos –

Uma qualidade de perda
Que afeta nosso Contentamento
Como se Vendilhões subitamente
Houvessem usurpado um Templo.


Emily Dickinson
, in 'Duzentos Poemas'
 Tradução de Ana Luísa Amaral
 
 
 
'Duzentos Poemas' de Emily Dickinson
Tradução de Ana Luísa Amaral
Editor: Relógio D'Água, 2014 
 
 
Em vida, Emily Dickinson publicou menos de dez poemas. Após a sua morte, a 15 de Maio de 1886, Lavinia, a irmã, encontrou fechados numa caixa quase mil poemas.
 
 

Auguste-Émile Pinchart, Young woman with bouquet of flowers, 1901.



A Light exists in Spring
(Original)

A Light exists in Spring
Not present on the Year
At any other period –
When March is scarcely here

A Color stands abroad
On Solitary Fields
That Science cannot overtake
But Human Nature feels.

It waits upon the Lawn,
It shows the furthest Tree
Upon the furthest Slope you know
It almost speaks to me.

Then as Horizons step
Or Noons report away
Without the Formula of sound
It passes and we stay –

A quality of loss
Affecting our Content
As Trade had suddenly encroached
Upon a Sacrament.
 

sexta-feira, 20 de março de 2026

"Primavera" - Poema de Maria da Saudade Cortesão



Edwin Blashfield (American painter and muralist, 1848– 1936),
"Spring Scattering Stars", 1927, Private collection.
 

Primavera 


A Musa que passava
Não era a que sabias.
Vinha em lua minguante
A espaços vestida
Por espelhos azuis
E narcisos de frio.

Que remanso tão meigo
Em seus peitos havia!
Que miosótis de leite
Em suas veias tíbias,
Três tangentes tocavam
O seu coração dúbio.

Não lhe soubeste o corpo —
Terra da madrugada
Que se dava ferida,
Nem os seus cursos de água.
Olhavas tão ao longe
Enquanto o amor te olhava.


Maria da Saudade Cortesão, 
em Literatura & Arte (Suplemento),
Jornal de São Paulo Nº 60/1950.




Murilo Mendes e Maria da Saudade Cortesão em Bruxelas, 1954.
 (daqui)
 
 
Maria da Saudade Cortesão Mendes (Porto, 1913 - Lisboa, 2010), poeta e tradutora, filha de Jaime Cortesão viveu grande parte da vida no estrangeiro acompanhando seu pai no exílio, primeiro em Paris (1927), depois em Madrid e, por fim, no Rio de Janeiro, onde conheceu o poeta Murilo Mendes  com quem veio a casar-se em 1947. 
Entre 1952 e 1956 viajou pela Europa acompanhando o marido em missões culturais de difusão da literatura brasileira. 
Em 1957 fixaram-se em Roma, onde, durante 18 anos, a sua casa se tornou lugar de referência para escritores e artistas plásticos. Foi amiga de Albert Camus, René Char, Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto, Luciana Stegagno Picchio, Sophia de Mello Breyner e Maria Helena Vieira da Silva, entre outros.
O seu livro de estreia Dançado Destino, foi Prémio Fábio Prado de Poesia. 
Traduziu Murder in the Cathedral, de T. S. Eliot, A Midsummer Night's Dream, de Shakespeare, e Calígula, de Albert Camus. 
Publicou também traduções do italiano e poemas em revistas e antologias no Brasil e na Itália. (daqui)

sexta-feira, 13 de março de 2026

"Ordem do dia" - Poema de Bandeira Tribuzi

 


Michele Desubleo (Flemish painter, 1601–1676), "Allegory of Poetry", n.d.



Ordem do dia 


Há que remover a neve desta folha de papel!

Breve escutaremos o motor dos sentimentos
enchendo a manhã com sua algazarra. Eis a máquina se
movimentando! Da esquerda para a direita vão surgindo
os sulcos onde caem as sementes
da Emoção.

Na vasta planície
desvirginada
germina já o pólen da lírica.

Um vento de humana condição
(oh arte, coisa social!) faz voar até tuas mãos
esta lavoura mental.
Como bom descendente de um povo de camponeses
medes o rigor da semeadura,
sonhas as chuvas na raiz, o futuro pão...
Pão sonoro!

De repente,
as aves da poesia, que se alimentavam no campo semeado,
rompem voo para o céu de tua inteligência
e desfecham seu canto maravilhoso
contra tua surpresa.

Teu coração é a corda do violino!
Eis a geração do poema:
sua mecânica, seu plantio,
sua colheita.
Estás diante de uma safra eterna!


Bandeira Tribuzi, in "Safra", 1961.
 

domingo, 15 de fevereiro de 2026

"Ah quantas máscaras e submáscaras" - Poema de Fernando Pessoa


 
Francisco Miralles y Galup or Francesc Miralles i Galaup
(Spanish painter, 1848–1901), The Masque (Mujer con Mascara), c. 1901.



Ah quantas máscaras e submáscaras
 
VIII

Ah quantas máscaras e submáscaras,
Usamos nós no rosto de alma, e quando,
Por jogo apenas, ela tira a máscara,
Sabe que a última tirou enfim?

De máscaras não sabe a vera máscara,
E lá de dentro fita mascarada.
Que consciência seja que se afirme,
O aceite uso de afirmar-se a ensona.

Como criança que ante o espelho teme,
As nossas almas, crianças, distraídas,
Julgam ver outras nas caretas vistas

E um mundo inteiro na esquecida causa;
E, quando um pensamento desmascara,
Desmascarar não vai desmascarado.

s.d.

Fernando Pessoa,
"35 Sonnets", in "Poemas Ingleses".

(Edição bilingue, com prefácio, traduções, variantes e notas de Jorge de Sena
e traduções também de Adolfo Casais Monteiro e José Blanc de Portugal.)
Lisboa: Ática, 1974. - 165. Tradução de Jorge de Sena. 
 

 
Lino Selvatico (Italian painter, 1872–1924), 'Francesca wearing a mask'
('Francesca con la maschera')
,  c. 1920.



How many masks wear we, and undermasks 

VIII

How many masks wear we, and undermasks,
Upon our countenance of soul, and when,
If for self-sport the soul itself unmasks,
Knows it the last mask off and the face plain?
The true mask feels no inside to the mask
But looks out of the mask by co-masked eyes.
Whatever consciousness begins the task
The task's accepted use to sleepness ties.
Like a child frighted by its mirrored faces,
Our souls, that children are, being thought-losing,
Foist otherness upon their seen grimaces
And get a whole world on their forgot causing;
And, when a thought would unmask our soul's masking,
Itself goes not unmasked to the unmasking. 


Fernando Pessoa, '35 Sonnets'.
1ª ed., Lisbon: 1918.

35 Sonnets é uma coletânea de poemas, publicada em forma de opúsculo, em 1918, por Fernando Pessoa, em edição de autor, escrita originalmente num inglês arcaico (isabelino). Faz parte de um pequeno conjunto de livros publicados em vida por Pessoa, na língua inglesa, onde se incluem Antinous e os English Poems I-II e III.
Neste conjunto de 35 Sonetos, o poema VIII remete para a metáfora das máscaras, muito referida a respeito de Pessoa, uma vez que a origem em latim do nome Pessoa, persona, significa máscara.
 (daqui)
 


Francesco Hayez (Italian painter, 1791–1882), 'Vengeance is Sworn' 
('Consiglio alla vendetta')
, 1851, Liechtenstein Museum.



"A arte não é um espelho que mostra a realidade como ela é. A arte mostra-nos um mundo refletido por uma mente incomum que impõe um estilo no que retrata." 


Walter Kaufmann, in "Life at the Limits (Man's Lot)", 1978.



Lorenzo Lippi
(Italian painter and poet from Florence, 1606–1665)
'Allegory of Simulation', c. 1642.


"O grande filósofo é um poeta dotado de consciência intelectual."


Walter Kaufmann, in "Critique of Religion and Philosophy", 1958.
 

domingo, 1 de fevereiro de 2026

"Ainda assim eu me levanto" (Still I Rise) - Poema de Maya Angelou

 


Jan Boeckhorst (German-born Flemish Baroque painter, c. 1604–1668),
"Allegory of Africa" (from the Continents Cycle), Liechtenstein Museum.
 

Ainda assim eu me levanto


Você pode me marcar na história
Com suas mentiras amargas e distorcidas
Você pode me esmagar na própria terra
Mas ainda assim, como a poeira, eu vou me levantar.

Meu atrevimento te perturba?
O que é que te entristece?
É que eu ando como se tivesse poços de petróleo
Bombeando na minha sala de estar.

Assim como as luas e como os sóis,
Com a certeza das marés,
Assim como a esperança brotando,
Ainda assim, eu vou me levantar.

Você queria me ver destroçada?
Com a cabeça curvada e os olhos baixos?
Ombros caindo como lágrimas,
Enfraquecidos pelos meus gritos de comoção?

Minha altivez te ofende?
Não leve tão a sério
Só porque rio como se tivesse minas de ouro
Cavadas no meu quintal.

Você pode me fuzilar com suas palavras,
Você pode me cortar com seus olhos,
Você pode me matar com seu ódio,
Mas ainda, como o ar, eu vou me levantar.

Minha sensualidade te perturba?
Te surpreende
Que eu dance como se tivesse diamantes
Entre as minhas coxas?

Saindo das cabanas da vergonha da história
Eu me levanto
De um passado enraizado na dor
Eu me levanto
Sou um oceano negro, vasto e pulsante,
Crescendo e jorrando eu carrego a maré.

Abandonando as noites de terror e medo
Eu me levanto
Para um amanhecer maravilhosamente claro
Eu me levanto
Trazendo as dádivas que meus ancestrais me deram,
Eu sou o sonho e a esperança dos escravos.
Eu me levanto
Eu me levanto
Eu me levanto.


Maya Angelou (1928-2014), in "Poesia Completa"
Editora: Astral Cultural, 2020
Tradução de Lubi Prates
 
 

"And Still I Rise: A Book of Poems"
by Maya Angelou, 1978.
(first edition)


Still I Rise


You may write me down in history
With your bitter, twisted lies,
You may trod me in the very dirt
But still, like dust, I'll rise.

Does my sassiness upset you?
Why are you beset with gloom?
’Cause I walk like I've got oil wells
Pumping in my living room.

Just like moons and like suns,
With the certainty of tides,
Just like hopes springing high,
Still I'll rise.

Did you want to see me broken?
Bowed head and lowered eyes?
Shoulders falling down like teardrops,
Weakened by my soulful cries?

Does my haughtiness offend you?
Don't you take it awful hard
’Cause I laugh like I've got gold mines
Diggin’ in my own backyard.

You may shoot me with your words,
You may cut me with your eyes,
You may kill me with your hatefulness,
But still, like air, I’ll rise.

Does my sexiness upset you?
Does it come as a surprise
That I dance like I've got diamonds
At the meeting of my thighs?

Out of the huts of history’s shame
I rise
Up from a past that’s rooted in pain
I rise
I'm a black ocean, leaping and wide,
Welling and swelling I bear in the tide.

Leaving behind nights of terror and fear
I rise
Into a daybreak that’s wondrously clear
I rise
Bringing the gifts that my ancestors gave,
I am the dream and the hope of the slave.
I rise
I rise
I rise.


Maya Angelou, from "And Still I Rise: A Book of Poems", 1978.
"The Complete Collected Poems of Maya Angelou", 1994.
 (daqui)
 
 

segunda-feira, 4 de agosto de 2025

"A Idealização do Amor" - Texto de António Lobo Antunes

 
 
Jan Steen (Dutch Golden Age painter, c. 1626–1679), "An allegory of Love"
 

A Idealização do Amor 

 
Eu estava a pensar na forma como se poderá entender o amor, à luz da minha formação. Da minha perspetiva, depende daquilo que o outro representa, se o outro é um prolongamento nosso, é uma parte nossa, como acontece muitas vezes, ou é uma idealização do eu de que falaria o Freud. No sentido psicanalítico poder-se-ia dizer que o amor corresponde ao eu ideal e, portanto, à procura de qualquer coisa de ideal que nós colocamos através de um mecanismo de identificação projetiva no outro.

Portanto, à luz de uma perspetiva científica, como é apesar de tudo a psicanalítica, o problema começa a pôr-se de uma forma um bocado diferente. Nesse sentido e na medida em que o objeto amado é sempre idealizado e nunca é um objetivo real, a gente, de facto, nunca se está a relacionar com pessoas reais, estamos sempre a relacionarmo-nos com pessoas ideias e com fantasmas. A gente vive, de facto, num mundo de fantasmas: os amigos são fantasmas que têm para nós determinada configuração, ou os pais, ou os filhos, etc.

(...) O amor é uma coisa que tem que tem que ver de tal forma com todo um mundo de fantasmas, com todo um mundo irreal, com todo um mundo inventado que nós carregamos connosco desde a infância, que até poderá haver, eventualmente, amor sem objeto. O amor não será, assim, necessariamente, uma luta corpo a corpo, ou uma luta corporal, mas pode ter que ver realmente com outras coisas, uma idealização, um desejo de encontrar qualquer coisa de perdido, nosso, que é normalmente isso que se passa, no amor neurótico, ou mesmo não neurótico. Quer dizer, é a procura de encontrarmos qualquer coisa que a nós nos falta e que tentamos encontrar no outro e nesse caso tem muito mais que ver connosco do que com a outra pessoa. Normalmente, isso passa-se assim e também não vejo que seja mau que, de facto, se passe assim. 

António Lobo Antunes, in "Diário Popular, 1979"
 

Crónica descosida porque me comovi

O facto é que me interessa muito mais um padeiro que um economista

Se ao menos a gente pudesse viver com as coisas mais simples em vez de recordar as complicadas. Voltar à pobreza do elementar: luz, água, pedra. O avô de alguém que me é querido dizia de uma pessoa boa 'É bom como o pão' e ao lado disto que maior elogio se pode fazer? A nossa língua torna-se maravilhosa com palavras como estas 'É bom como o pão' e lembro-me das mulheres que beijavam o pão duro antes de o deitar fora, da minha avó que se horrorizava ao ver um pão ao contrário: punha-o logo direito a pedir desculpa em silêncio, movendo a boca. Sempre me senti bem nas padarias: o cheiro, o lume, os padeiros enfarinhados que eu achava, acho ainda, serem anjos que se transviaram, de braços cobertos por uma poeira celeste. Tudo neles era branco até as sobrancelhas, as pestanas. O olhar branco também. Os gestos. Não olhos cegos, olhos brancos. E eu à porta a espantar-me. O eco das vozes nos tijolos, dos passos, da lenha no forno. Bom como o pão: ora toma, António. Aprende a escrever à maneira. O facto é que me interessa muito mais um padeiro que um economista. Ou um gestor.

Criaturas que, não sei porquê, me dão pena: economistas, gestores, administradores, diretores, banqueiros. Deve ser triste ganhar dinheiro assim. O que sonhará um economista, a que brincava um gestor em criança? Ou nasceram já crescidos? Imagino-os debaixo do chuveiro, de gravata, a falar ao telemóvel. E sabe-se que são velhos não pelo aspeto mas porque quando contam que arranjaram uma secretária boa se referem a um móvel. O que sonhará um economista posso imaginar mais ou menos, agora o que sonha a mulher de um economista é que me preocupa. Se eu fosse mulher de um economista sonhava com canalizadores ou mecânicos de automóvel, homens que usam as mãos e não leem revistas de golfe nos domingos de chuva. Estou a brincar. Não conheço nenhum economista, aliás. Se conhecesse abria-lhe logo a tampa a fim de espiar o que traz na barriga: cartões de crédito, canetas caras, camisas por medida? Sempre andei mal enjorcado, eu, para desespero da minha mãe: 
 
Andas tão mal enjorcado, filho.
 
António Lobo Antunes, in "Visão, 25.06.2008" (daqui)