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quarta-feira, 15 de abril de 2026

"Eu aprendi a dizer sim" - Poema de Antero Coelho Neto



Tarsila do Amaral (Pintora, desenhista, escultora, ilustradora, cronista
e tradutora brasileira, 1886-1973), Bandeira do Divino, 1939-1968.



Eu aprendi a dizer sim


Eu aprendi a dizer sim quando via natureza
molhada na manhã alegre do primeiro dia novo.

Eu aprendi a dizer não quando reconheci a fome
no homem indefeso e não achei nenhuma razão.

Eu aprendi a dizer sim quando o dia amanheceu
e fiquei deslumbrado com a esperança renovada.

Eu aprendi a dizer não quando quiseram que traísse
os princípios fundamentais da humanidade em luta.

Eu aprendi a dizer sim quando fui à escola
de minha infância e corri, gritei e... aprendi.

E então o sim e o não passaram a ser inexoráveis
durante todo o resto da vida, depois que aprendi.


Antero Coelho Neto
(Médico, escritor, professor e reitor brasileiro, 1931 - 2016)

domingo, 12 de abril de 2026

"Mãe, eu quero ir-me embora" - Poema de Maria do Rosário Pedreira



Rodolfo Amoedo (Pintor, desenhista, professor e decorador brasileiro, 1857-1941),
"Más Notícias", 1895, Museu Nacional de Belas Artes.


Mãe, eu quero ir-me embora


Mãe, eu quero ir-me embora – a vida não é nada
daquilo que disseste quando os meus seios começaram
a crescer. O amor foi tão parco, a solidão tão grande,
murcharam tão depressa as rosas que me deram –
se é que me deram flores, já não tenho a certeza, mas tu
deves lembrar-te porque disseste que isso ia acontecer.

Mãe, eu quero ir-me embora – os meus sonhos estão
cheios de pedras e de terra; e, quando fecho os olhos,
só vejo uns olhos parados no meu rosto e nada mais
que a escuridão por cima. Ainda por cima, matei todos
os sonhos que tiveste para mim – tenho a casa vazia,
deitei-me com mais homens do que aqueles que amei
e o que amei de verdade nunca acordou comigo.

Mãe, eu quero ir-me embora – nenhum sorriso abre
caminho no meu rosto e os beijos azedam na minha boca.
Tu sabes que não gosto de deixar-te sozinha, mas desta vez
não chames pelo meu nome, não me peças que fique –
as lágrimas impedem-me de caminhar e eu tenho de ir-me
embora, tu sabes, a tinta com que escrevo é o sangue
de uma ferida que se foi encostando ao meu peito como
uma cama se afeiçoa a um corpo que vai vendo crescer.

Mãe, eu vou-me embora – esperei a vida inteira por quem
nunca me amou e perdi tudo, até o medo de morrer. A esta
hora as ruas estão desertas e as janelas convidam à viagem.
Para ficar, bastava-me uma voz que me chamasse, mas
essa voz, tu sabes, não é a tua – a última canção sobre
o meu corpo já foi há muito tempo e desde então os dias
foram sempre tão compridos, e o amor tão parco, e a solidão
tão grande, e as rosas que disseste um dia que chegariam
virão já amanhã, mas desta vez, tu sabes, não as verei murchar.


Maria do Rosário Pedreira
,
in "O Canto do Vento nos Ciprestes",
Lisboa: Gótica, 2001.


quarta-feira, 1 de abril de 2026

"Aqui termina o caminho" - Poema de Emílio Moura



Tarsila do Amaral (Pintora, desenhista, escultora, ilustradora, cronista
e tradutora brasileira, 1886-1973),
 Lagoa Santa, 1925.

Aqui termina o caminho


Os sinos cantando, as sombras todas se diluindo 
dentro da tarde. Dentro da tarde, o teu grave 
pensamento de exílio.

Porque ainda esperas? Aqui termina o caminho, 
aqui morre a voz, e não há mais eco, nem nada.

Por que não esquecer, agora, as imagens que tanto 
nos perturbaram 
e que inutilmente nos conduziram 
para nos deixar de súbito na primeira esquina?

Essa voz que vem não sei de onde, 
esses olhos que olham não sei o quê, 
esses braços que se estendem não sei para onde...

Debalde esperarás que o eco de teus passos acorde 
os espaços que já não têm voz.

As almas já desertaram daqui. 
E nenhum milagre te espera, 
nenhum.


Emílio Moura
 (1902-1971), 
in "Canto da hora amarga", 1936.
 
 

Tarsila do Amaral, Palmeiras, 1925.


(Olhando os Babaçus em Alcântara)


A palmeira e sua palma
Ondulam o ideal
Da calma.


Millôr Fernandes, in "Hai-kais",
Porto Alegre: L&PM, 1997.
 

sábado, 7 de março de 2026

"Deveras" - Poema de Luci Collin

 

Tarsila do Amaral (Pintora, desenhista, escultora, ilustradora, cronista
e tradutora brasileira, 1886
1973), "Rio de Janeiro", 1923.
 

Deveras 


o poeta finge
e enquanto isso
cigarras estouram
pontes caem
azaleias claudicam
édipos ressonam
vacinas vencem
a bolsa quebra e
o poeta finge
e enquanto isso
vagalhões explodem
o pão adoece
astros desviam-se
manadas inteiras se perdem
a noite range
o vento derruba ninhos e
o poeta finge
e enquanto isso
vozes racham
veias entopem
galeões afundam
medeias abatem crias
turvam-se as corredeiras
o sapato aperta e
o poeta finge
que as mãos cheias de súbitos
não são as suas


Luci Collin, in "A palavra algo"
Iluminuras, 2016.
 
 
Tarsila do Amaral, "São Paulo", 1924.


"Sou poeta quando entendo a voz do vento,
E me vejo fantasma e sentimento."


Teixeira de Pascoaes, do poema Humildade,
em "Vida Etérea", 1906.
 

[A obra "São Paulo", de Tarsila do Amaral, é uma pintura que faz parte de uma série conhecida como "Pau-brasil", que incluía paisagens tipicamente brasileiras, tanto rurais quanto urbanas. No que se refere à forma, Tarsila desenvolveu uma abordagem ousada, estilizada para obter figuras que poderiam transmitir o dinamismo da rápida modernização do país. Neste quadro, a artista preenche a metrópole com ícones de progresso: bombas de gasolina e um poste de eletricidade se destacam em primeiro plano; no fundo, um bonde, uma ponte de ferro, um edifício em construção e um cartaz com números expressam a chegada da modernidade.] (daqui)
 


Tarsila do Amaral, A gare, 1925. 
 

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

"Vozes do Mar" - Poema de Florbela Espanca


Firmino Monteiro (Pintor brasileiro, 1855 - 1888), Paisagem, 1885, Museu Afro Brasil.
 
 
Vozes do Mar


Quando o sol vai caindo sobre as águas
Num nervoso delíquio d'oiro intenso,
Donde vem essa voz cheia de mágoas
Com que falas à terra, ó mar imenso?

Tu falas de festins, e cavalgadas
De cavaleiros errantes ao luar?
Falas de caravelas encantadas
Que dormem em teu seio a soluçar?

Tens cantos d'epopeias? Tens anseios
D'amarguras? Tu tens também receios,
Ó mar cheio de esperança e majestade?!

Donde vem essa voz, ó mar amigo?
... Talvez a voz do Portugal antigo,
Chamando por Camões numa saudade


Florbela Espanca
, Poesia Completa,
Publicações Dom Quixote, 2000. 

quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

"Natal Divino" - Poema de Miguel Torga

 


Di Cavalcanti
(Pintor modernista, desenhista, ilustrador, muralista e caricaturista
brasileiro, 1897–1976), Natal, 1969. Óleo sobre tela.

 Natal Divino


Natal divino ao rés-do-chão humano,
Sem um anjo a cantar a cada ouvido.
Encolhido
À lareira,
Ao que pergunto
Respondo
Com as achas que vou pondo
Na fogueira.

O mito apenas velado
Como um cadáver
Familiar…
E neve, neve, a caiar
De triste melancolia
Os caminhos onde um dia
Vi os Magos galopar…

S. Martinho de Anta, 24 de Dezembro de 1970

Miguel Torga
Diário XI 
(2-8-1968 / 6-4-1973)

 

domingo, 21 de dezembro de 2025

"Inverno" - Poema de Jorge de Lima



Geza Heller
(Pintor, artista gráfico, desenhista, arquiteto e gravador 
húngaro-brasileiro, 1902-1992), Paisagem cultivada, 1972.

Inverno


Zefa, chegou o inverno!
Formigas de asas e tanajuras!
Chegou o inverno!
Lama e mais lama
chuva e mais chuva, Zefa!
Vai nascer tudo, Zefa,
Vai haver verde,
verde do bom,
verde nos galhos,
verde na terra,
verde em ti, Zefa,
que eu quero bem!
Formigas de asas e tanajuras!
O rio cheio,
barrigas cheias,
mulheres cheias, Zefa!
Águas nas locas,
pitus gostosos,
carás, cabojes,
e chuva e mais chuva!
Vai nascer tudo:
milho, feijão,
até de novo
teu coração, Zefa!
Formigas de asas e tanajuras!
Chegou o inverno!
Chuva e mais chuva!
Vai casar, tudo,
moça e viúva!
Chegou o inverno!
Covas bem fundas
pra enterrar cana;
cana caiana e flor de Cuba!
Terra tão mole
que as enxadas
nela se afundam
com olho e tudo!
Leite e mais leite
pra requeijões!
Cargas de imbu!
Em junho o milho,
milho e canjica
pra São João!
E tudo isto, Zefa...
E mais gostoso
que isso tudo:
noites de frio,
lá fora o escuro,
lá fora a chuva,
trovão, corisco,
terras caídas,
corgos gemendo,
os caborés gemendo,
os caborés piando, Zefa!
Os cururus cantando, Zefa!
Dentro da nossa
casa de palha:
carne-de-sol
chia nas brasas,
farinha d'água,
café, cigarro,
cachaça, Zefa...
...rede gemendo...

Tempo gostoso!
Vai nascer tudo!
Lá fora a chuva,
chuva e mais chuva,
trovão, corisco,
terras caídas,
e vento e chuva,
chuva e mais chuva!
Mas tudo isso, Zefa,
vamos dizer,
só com os poderes
de Jesus Cristo!


Jorge de Lima, in Melhores Poemas.
Global Editora, 2ª edição, 2001.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

"Minha culpa" - Poema de Maya Angelou



Rodolfo Amoedo (Pintor, desenhista, professor e decorador brasileiro, 1857-1941),  
Ciclo do Ouro, 1892, em exposição no Museu Paulista.


Minha culpa


Minha culpa são “as correntes da escravidão”, por muito tempo
o barulho do ferro caindo ao longo dos anos.
Este irmão vendido, esta irmã que se foi,
tornam-se uma cera amarga tapando os meus ouvidos.
Minha culpa fez música com as lágrimas.

Meu crime são “os heróis mortos e esquecidos”,
Vesey, Turner, Gabriel, mortos,
Malcolm, Marcus, Martin King, mortos.
Eles lutaram pesado e amaram bem.
Meu crime é estar viva para contar.

Meu pecado é “estar pendurada numa árvore”,
Eu não grito, isso me deixa orgulhosa.
Decidi morrer como um homem.
Faço isso para impressionar a multidão.
Meu pecado é não gritar mais alto.


Maya Angelou, in "Poesia Completa"
Editora: Astral Cultural, 2020
Tradução de Lubi Prates


* * *
My guilt
(original)

My guilt is “slavery’s chains,” too long
the clang of iron falls down the years.
This brother’s sold, this sister’s gone,
is bitter wax, lining my ears.
My guilt made music with the tears.

My crime is “heroes, dead and gone,”
dead Vesey, Turner, Gabriel*,
dead Malcolm, Marcus, Martin King.
They fought too hard, they loved too well.
My crime is I’m alive to tell.

My sin is “hanging from a tree,”
I do not scream, it makes me proud.
I take to dying like a man.
I do it to impress the crowd.
My sin lies in not screaming loud.
Nota: VeseyTurner Gabrielassim como os também citados (e mais conhecidos) Malcolm XMarcus Garvey Martin Luther King, foram lutadores pela liberdade dos negros. (daqui) 
 
 
portrait of maya angelou
Maya Angelou, photo by Deborah Feingold 
(daqui)

Maya Angelou, escritora norte-americana, cujo nome de nascimento é Marguerite Johnson, nasceu a 4 de abril em 1928, no Missouri, e morreu a 28 de maio de 2014, na Carolina do Norte.

Uma das temáticas recorrentes na sua obra gira em torno das pressões sociais exercidas sobre as mulheres afro-americanas. Após um percurso vivencial cujo itinerário se estende desde St. Louis e S. Francisco até ao Egito e ao Gana, publicou, em 1970, o romance, de cunho autobiográfico, I Know Why the Caged Bird Sings com o qual alcançou notoriedade pública.

O romance seguinte, Gather Together in My Name, descreve não só a sua demanda de identidade mas a luta pela sobrevivência como mãe solteira. Seguem-se outros romances, igualmente de teor autobiográfico, nomeadamente All God's Children Need Traveling Shoes, onde examina a relação entre a África e a cultura negra na América.

Autora de numerosos artigos literários e jornalísticos, escreveu também diversas peças para o teatro e televisão bem como alguns volumes de poesia, incluindo Just Give Me a Cool Drink of Water 'fore I Diiie, And Still I Rise e Shaker, Why Don't You Sing?. (daqui)

sábado, 29 de novembro de 2025

"Quando eu era menino" - Poema de Friedrich Hölderlin

 


Almeida Júnior (Pintor, professor e gravurista brasileiro, 1850 -1899),
 Garoto com Banana, 1897.


Quando eu era menino


Quando eu era menino,
Um deus muitas vezes me salvava
Do tumulto e da vergasta dos homens,
E eu brincava, tranquilo e feliz,
Com as flores do bosque,
E as brisas do céu
Brincavam comigo.

E tal como tu alegras
O coração das plantas
Quando para ti estendem
Os delicados braços,

Assim também, Hélio, pai!, me encheste
De alegria a alma, e como Endimião,
Sagrada Lua,
Fui teu favorito!

Oh, deuses fiéis, todos
Vós, e amáveis!
Se soubésseis
Como vos amava este meu coração!

Então, é verdade, ainda vos não chamava
Pelos vossos nomes, nem vós
A mim me nomeáveis, como fazem os humanos,
Julgando que assim se conhecem.

Mas eu a vós conhecia-vos melhor
Do que jamais conheci os humanos,
Compreendia o silêncio do éter,
As palavras dos homens nunca as entendi.

A mim, criou-me o murmúrio
Harmonioso das árvores do bosque
E fui aprendendo a amar
No meio das flores.

E nos braços dos deuses me fiz grande.


Friedrich Hölderlin
, in "Todos os Poemas" 
Tradução de João Barrento 


[Friedrich Hölderlin, poeta lírico alemão, dos mais influentes do seu tempo, nasceu a 20 de março de 1770, na Alemanha, e morreu a 7 de junho de 1843, também na Alemanha.
Licenciou-se em Teologia, mas não pôde seguir a vida religiosa devido ao seu posicionamento filosófico e mesmo estético, que atribuía grande valor à tradição mitológica clássica.
Em 1795 apaixonou-se por Susette Gontard, a "Diotima" dos seus poemas. Este amor impossível marcou toda a sua escrita posterior. A sua obra mais conhecida é o romance Hyperion (1799). 
Hölderlin deixou uma obra que é uma constante interrogação metafísica, uma tentativa de diálogo com o transcendente.(daqui)
 
 

"Todos os Poemas seguido de Esboço de uma Poética",
de Friedrich Hölderlin. Editora: Assírio & Alvim, 2021.
 
 
Uma vida contada a verso a verso, Assírio & Alvim publica Todos os Poemas seguido de Esboço de uma Poética, volume que nos revela, pela primeira vez, «um Hölderlin de corpo inteiro».

Com tradução, introdução, comentários e notas de João Barrento, Todos os Poemas seguido de Esboço de uma Poética é um verdadeiro acontecimento editorial pois reúne, pela primeira vez e num único volume, em Portugal, a obra poética de Friedrich Hölderlin. O livro inclui ainda uma cronologia ilustrada da vida e do legado do autor alemão cuja obra permaneceu desconhecida até meados do século XIX e só viria a ser reconhecida depois da sua morte, transformando-o num dos mais influentes poetas de todos os tempos e de todos os lugares.

«Não se fecha do espírito ao homem a via sã,
É esse o fio que segue a sua vida,
Esse é da vida o dia, é da vida a manhã,
Pois o tempo do espírito é riqueza infinita.

O que faz o esplendor da natureza
É a alegria que pomos no olhar,
São os dias, a vida que sabemos amar,
Em comunhão com o espírito e a beleza.»
 
SINOPSE
 
«Trazer ao leitor português toda a poesia de Hölderlin significa entrar num mar desconhecido desse leitor, num território de contradições, de uma diversidade não imaginada e desigual de registos poéticos, do mais naïf e convencional ao mais elaborado e sublime, do mais heróico ao mais prosaico, do poema transbordante à brevidade do dístico epigramático. Mas é altura de esta poesia nos ser dada de corpo inteiro. Só assim se compreenderá o percurso trágico, intenso e nele mesmo tenso e contraditório desta figura singular da Poesia, corrigindo ao mesmo tempo uma certa visão, mitificada e totalmente sublimizada, de um poeta que, como tantos outros, tem lados bem mais humanos e vulneráveis do que aqueles que os chamados “grandes poemas” nos dão.» (daqui)
 

sexta-feira, 22 de agosto de 2025

"Vida das Lavadeiras" - Poema de Cora Coralina


 
Anita Malfatti (Pintora, desenhista, gravadora, ilustradora e professora ítalo-brasileira,
1889 - 1964), "As lavadeiras", déc. 1920. Óleo sobre madeira, 35 x 43 cm.


Vida das Lavadeiras

Sombra da mata
sobre as águas quietas
onde as iaras
vêm dançar à noite...
Não. Mentira.
Façamos versos sem mentir.
— Onde batem roupa
as lavadeiras pobres.

Sombra verde dos morros
no poço fundo
da Carioca
onde as mulheres sem marido
carregadas de necessidades,
mães de muitos filhos
largados pelo mundo
batem roupa nas pedras
lavando a pobreza,
sem cantiga, sem toada, sem alegria.

Quero escrever versos verdadeiros.
Por que será, Senhor
que a mentira se insinua
nos meus versos?
Onde vive você, poeta, meu irmão
que faz versos sem mentir?


Cora Coralina (1889 - 1985), 
in Meu Livro de Cordel, 1976.


sexta-feira, 18 de julho de 2025

"O nome da gente" - Poema de Pedro Bandeira

 


Clodoaldo Martins (Artista plástico brasileiro, n. 1985), 'Hora da leitura', 70x70cm.



O nome da gente


Por que é que eu me chamo isso
E não me chamo aquilo?
Por que é que o jacaré
Não se chama crocodilo?

Eu não gosto
do meu nome,
não fui eu
quem escolheu.
Eu não sei porque se metem
com um nome que é só meu!

O nenê
que vai nascer
vai chamar
como o padrinho,
vai chamar
como o vovô,
mas ninguém vai perguntar
o que pensa
o coitadinho.

Foi meu pai quem decidiu
que o meu nome fosse aquele.
Isso só seria justo
se eu escolhesse
o nome dele.

Quando eu tiver um filho,
não vou pôr nome nenhum.
Quando ele for bem grande,
ele que escolha um! 


Pedro Bandeira
, em "Cavalgando o arco-íris",
São Paulo, Moderna: 1984.
 


'Cavalgando o arco-íris' de Pedro Bandeira
Ilustrações Michio - Série Risos e Rimas
 
 
 SINOPSE

Amizade, medo do escuro, namoro, escola, a chegada do irmãozinho, a perda do animal de estimação, são alguns dos temas que Pedro Bandeira transformou em poesia. Cavalgando o arco-íris é um livro divertido, que, com muita ternura e simplicidade, fala sobre o quotidiano das crianças, suas experiências, alegrias e expectativas. Na verdade, Cavalgando o arco-íris é um livro para todas as idades. O poema "Nana, mamãe" era uma antiga canção de ninar que a mãe do autor cantava para ele dormir e que continua embalando várias gerações. O livro é um convite à poesia, feito por quem entende de crianças. 

terça-feira, 24 de junho de 2025

"Junho" - Poema de Olavo Bilac

 


Alberto da Veiga Guignard (Pintor e professor brasileiro, 1896-1962), 
"Tarde de São João", 1959. Óleo sobre tela,  30 x 40 cm. 


Junho 
 

Coro de crianças:

Passem os meses desfilando!
Venha cada um por sua vez!
Dancemos todos, escutando
O que nos conta cada mês!

Junho:

Em chamas alvissareiras,
Ardem, crepitam fogueiras...
— E os balões de S. João
Vão luzir, entre as neblinas,
Como estrelas pequeninas,
Entre as outras, na amplidão.

Não há casinha modesta
Que não se atavie, em festa,
Nestas noites, a brilhar:
Não se recordam tristezas . . .
Estalam bichas chinesas,
Estouram foguetes no ar.

Fogos alegres, pistolas,
Bombas! ao som das violas,
Ardei! cantai! crepitai!
Num largo e claro sorriso.
Seja a terra um paraíso!
Folgai, crianças, folgai!

Coro de crianças:

Aí vem Julho, o mês do frio...
Vamos os corpos aquecer,
Acelerando o rodopio...
— Pode outro mês aparecer!


Olavo Bilac
, em Poesias infantis.
RJ: Francisco Alves. 1929.
 
 
 Óleo sobre tela, 61 x 46 cm. Museu de Arte da Pampulha


Quando vieste da festa


Quando vieste da festa,
Vinhas cansada e contente.
A minha pergunta é esta:
Foi da festa ou foi da gente?

s.d.

Fernando Pessoa, Quadras ao Gosto Popular.

(Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.)
Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 61.
 

sábado, 7 de junho de 2025

"Canção Amiga" - Poema de Carlos Drummond de Andrade



Leopoldo Gotuzzo (Pintor brasileiro, 1887–1983), Centro da cidade do Rio de Janeiro, 1936.
 

Canção Amiga 


Eu preparo uma canção
em que minha mãe se reconheça,
todas as mães se reconheçam,
e que fale como dois olhos.

Caminho por uma rua
que passa em muitos países.
Se não me vêem, eu vejo
e saúdo velhos amigos.

Eu distribuo um segredo
como quem ama ou sorri.
No jeito mais natural
dois carinhos se procuram.

Minha vida, nossas vidas
formam um só diamante.
Aprendi novas palavras
e tornei outras mais belas.

Eu preparo uma canção
que faça acordar os homens
e adormecer as crianças.


Carlos Drummond de Andrade,
in Novos Poemas, José Olympio, 1948.

 

quarta-feira, 4 de junho de 2025

"Meio-Dia" - Poema de Olavo Bilac



Pedro Weingärtner (Pintor, desenhista e gravurista brasileiro, 1853 –1929), 
Cena campestre, s. d. Coleção particular.
 

Meio-Dia


Meio-dia. Sol a pino.
Corre de manso o regato.
Na igreja repica o sino;
Cheiram as ervas do mato.

Na árvore canta a cigarra;
Há recreio nas escolas:
Tira-se, numa algazarra,
A merenda das sacolas.

O lavrador pousa a enxada
No chão, descansa um momento,
E enxuga a fronte suada,
Contemplando o firmamento.

Nas casas ferve a panela
Sobre o fogão, nas cozinhas;
A mulher chega à janela,
Atira milho às galinhas.

Meio-dia! O sol escalda,
E brilha, em toda a pureza,
Nos campos cor de esmeralda,
E no céu cor de turquesa...

E a voz do sino, ecoando
Longe, de atalho em atalho,
Vai pelos campos, cantando
A Vida, a Luz, o Trabalho! 


Olavo Bilac
, em 'Poesias infantis'.
RJ: Francisco Alves, 1929.

sábado, 3 de maio de 2025

"Telha de menos" - Poema de Gilberto Mendonça Teles

 

João Batista da Costa
(Pintor, desenhista, professor e ilustrador brasileiro, 1865-1926),
 Fazenda de Brejinho, c. 1920.


Telha de menos

 
Minha casa tem uma telha de menos
e uns macaquinhos brincando no sótão.

Quando há chuva,
cai um pouco de chuva na varanda;
quando há sol,
passa um feixe de luz nos remansos da sala;
e quando há vento,
a música se esparrama pelo quarto
embalando alguns sonhos e pesadelos.
 
Às vezes passa rápido a figura de um pássaro,
outras vezes apenas um riso de borboleta,
uma nesga de nuvem e o brilho de um avião
nos rumos do Brasil.

Mas é a noite que uma das três Marias
se debruça no espaço azul da minha casa.


 Gilberto Mendonça Teles, in "Plural de nuvens".
Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 1990.
 
 
João Batista da Costa, Paisagem de Petrópolis (Bosque com Riacho), s.d.
Museu de Arte de São Paulo



"O mundo é um belo lugar e vale a pena lutar por ele e eu detesto muito deixá-lo."

Ernest Hemingway, For Whom the Bell Tolls, 1940.
 
 

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2025

"Ao Sol" - Poema de Adelina Lopes Vieira

 


Amrita
 (Pintora brasileira, n. 1961), Camponesas, 2010, Galeria Don Quixote.


Ao Sol


A natureza em festa ao sol desata
As grinaldas de rubras trepadeiras;
Revolve os seus diamantes a cascata
Ao sol, que doira as relvas e as roseiras.

O mar cantando rola ondas de prata,
Brilham as alterosas cachoeiras;
Ao sol, a abelha célere arrebata
Mel e perfume à flor das laranjeiras.

Pombas passam no azul com voo incerto;
E ao sol, sem medo à intensa claridade,
Na ramagem as aves dão concerto.

Tudo na terra exulta! a Humanidade
Alegra, expande, aquece o seio aberto,
Ao sol sem mancha, ao sol da Liberdade. 


Adelina Lopes Vieira
(Escritora, poeta, contista, teatróloga e educadora brasileira, 1850 - 1923) 

 

terça-feira, 18 de fevereiro de 2025

"Quando eu partir" - Poema de Cruz e Sousa


Alberto da Veiga Guignard (Pintor e professor brasileiro, 1896-1962), 
Paisagem de Ouro Preto, 1958.



Quando eu partir


Quando eu partir, que eterna e que infinita
há de crescer-me a dor de tu ficares;
quanto pesar e mesmo que pesares,
que comoção dentro desta alma aflita.

Por nossa vida toda sol, bonita,
que sentimento, grande como os mares,
que sombra e luto pelos teus olhares
onde o carinho mais feliz palpita…

Nesse teu rosto da maior bondade
quanta saudade mais, que atroz saudade…
Quanta tristeza por nós ambos, quanta,

quando eu tiver já de uma vez partido,
ó meu amor, ó meu muito querido
Amor, meu bem, meu tudo, ó minha santa! 


Cruz e Sousa, "O livro Derradeiro", 1961.
 
["O livro Derradeiro" é uma publicação póstuma de poemas de autoria de Cruz e Sousa, contendo inéditos e outros publicados anteriormente apenas pela imprensa. Sua primeira publicação se deu em 1945, sendo expandida novamente em 1961.] 

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2025

"A laranja que escolheste" - Poema de Fernando Pessoa


Damião Martins (Pintor cubista brasileiro desde 1978), Colheita de laranjas, s. d.



A laranja que escolheste


A laranja que escolheste
Não era a melhor que havia.
Também o amor que me deste
Qualquer outra mo daria.

s.d. 

Fernando Pessoa
, Quadras ao Gosto Popular.
Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973).

Damião Martins, Colheita de laranjas, s.d.
 

O meu pomar


Se eu tivesse um pomar, um pequeno pomar que fosse, não lhe poria grades à roda, como os outros proprietários. Não poria, a guardá-lo, um desses cães enormes, rancorosos, que andam sempre rondando os pomares...
O meu pomar seria assim: todo aberto, para todos. E, quando o outono chegasse e as árvores ficassem cheias de frutos amarelos e vermelhos, nenhum pobrezinho teria fome, nenhuma criança choraria de sede, passando pelo meu pomar...
E, no inverno, ainda haveria lá onde alguém se abrigasse, quando chovesse muito ou fizesse muito frio...
E se eu tivesse um pomar, ele estaria sempre em festa, cheio de borboletas e de pássaros...
Como eu seria feliz, se tivesse um pomar!

Cecília Meireles, "Criança meu amor"
 
 
 
Cecília Meireles, "Criança meu amor"
Editora: GLOBAL - 3ª edição
 

Sinopse

O livro Criança, meu amor… é uma coletânea de textos dirigidos, sobretudo, às crianças. Nesta obra, publicada pela primeira vez em 1924, Cecília Meireles, proporciona aos leitores a alquimia do imaginário, do humor e da fantasia. Bonequinha, bonequinha/ Dorme, dorme sossegada/ Dorme, dorme filha minha! Bonequinha muito amada,/ Oxalá que embalem crianças/Como tu és embalada!… De forma singela e em doses precisas, a autora revaloriza a noção de brinquedo, discorre sobre bondade, respeito e amor ao trabalho, à natureza e ao próximo. Por ter sido professora, Cecília emprega com sabedoria sua sensibilidade pedagógica a ponto de permitir que sua obra seja sempre atual, independentemente da época. Por essa razão, Criança, meu amor… vem encantando várias gerações de leitores. (daqui)
 
 
Damião Martins, Colheita de laranjas, s.d.
 

"Na laranja e na couve
 picada – as cores brasileiras 
da feijoada."
 (Poeta brasileiro, 1928 - 2012)

domingo, 9 de fevereiro de 2025

"Soneto ao pai" - Edival Lourenço


João Baptista da Costa (Pintor, professor e ilustrador brasileiro, 1865 - 1926), Paisagem, s.d..
 

Soneto ao pai


Oh! Fluida infância! Pátria faz-de-conta!
Pobre de coisas com riqueza d’alma:
palhoça, vento, verde, aves e calma
para fruir a vida em toda monta.

Aquele ano choveu além da conta
e abriu-se um olho d’água em nossa casa
que meu pai ajudou, com fina vaza,
fazer o arroio: do Araguaia ponta.

Encanta-me o sentido que propala.
Maior riqueza, sei, ninguém encontra:
o nascente Araguaia nos escala.

A vida tem o rio a inspirá-la:
mereja, empoça, entorna, enfim desponta
promissora qual jorro de olho d’água!


Edival Lourenço
(Escritor romancista, poeta, cronista e contista brasileiro, n. 1952) 
 

terça-feira, 24 de dezembro de 2024

"Que Natal?" - Poema de Eugénio Lisboa

 

 
Tarsila do Amaral (Pintora, desenhista, escultora, ilustradora, cronista e 
tradutora brasileira, 1886-1973), Natal, 1940.


Que Natal?



Natal não tive. Ou tive
só o Natal que tiveram
minhas filhas. Esse vive
como as coisas que viveram
mas já não são. Que Natal
tenho hoje? Que alegria,
que festa, neste final,
nesta descida sombria?
Diz Natal quem diz começo,
ou chegada, ou descoberta...
Onde estou, só há tropeço,
terra fria e deserta.

Se, no fim, recomeçasse!
Se, descendo, eu subisse!
Se, parando, não parasse!
Ressuscitar... quem o disse?


Eugénio Lisboa