Mostrar mensagens com a etiqueta Pintores Brasileiros. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Pintores Brasileiros. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 12 de outubro de 2026

"Ninguém sabe o que é um poema" - Poema de Ricardo Azevedo



Regina Ohlweiler
(Artista brasileira, n. 1954), O primeiro voo do pássaro azul,
óleo sobre tela, 1990.

Ninguém sabe o que é um poema


Ninguém sabe o que é um poema
Se é solução ou problema
Se pretende ser um lema
Se imita o canto da ema

Ninguém sabe o que é um poema
Se vira e mexe é esquema
Se finge ou tem um dilema
Se às vezes vai ao cinema

Ninguém sabe o que é um poema
Se morde, xinga e blasfema
Se é perfume de alfazema
Se gosta de teorema

Ninguém sabe o que é um poema
Se é a seca em Borborema
Se é a praia em Ipanema
Se é a fome em Diadema

Ninguém sabe o que é um poema
Se mata como enfisema
Se prende feito uma algema
Ou se é medida extrema

Ninguém sabe o que é um poema
Se é só palavra sem tema
Se é uma arte suprema
Ou se é mero estratagema.


Ricardo Azevedo,
do livro "Ninguém sabe o que é um poema",
Ática, 2005.



"Ninguém sabe o que é um poema", escrito e ilustrado
por Ricardo Azevedo. 
Ática, 2005.
 
 
SINOPSE

O livro "Ninguém sabe o que é um poema" é uma antologia de poemas. Poemas são textos inventados por poetas. Poetas são sujeitinhos inconvenientes, cheios de vontades, que adoram fazer bagunça e mudar tudo de lugar. Mal eles chegam, já vão logo enfiando o dinheiro no aquário, o peixe na carteira, pianos na planície e capim na lapela.

A fim de bagunçar de verdade, aproveitam-se da inocência das palavras: vão bolinando as mais sonsas e as obrigam a dizer coisas estranhas e imprevistas. Para tanto, valem-se não apenas do significado imediato de cada termo, mas também de seu som, seu peso, sua cor e do ritmo que muitas vezes se insinua entre duas sílabas, duas respirações. Contrariando dessa forma os hábitos e convenções, parece que eles acordam a linguagem de uma espécie de sono, enriquecendo-a com novas possibilidades de sentido.

Ricardo Azevedo
, autor deste livro, pertence a essa classe de bagunceiros que não vieram para explicar coisa alguma, mas antes para partilhar suas inquietações. Inquietações sobre a natureza e a vida na cidade, sobre o amor e a violência, o amadurecimento pessoal, o mistério que são os outros e a própria poesia.

Seus temas podem variar, assim como as formas por ele escolhidas (versos em redondilha, decassílabos, alexandrinos, versos livres, quadrinhas populares, estrofes com rima, sem rima etc.), mas em toda a parte você pode testemunhar a disposição para tratar concretamente de coisas abstratas e vagas, como ideias, sentimentos e sensações. É isso que o leva, por exemplo, a se perguntar sobre “a largura do tédio, o peso da tristeza, o limite do sonho” (“Problemas de cálculo”, p. 58), a falar da violência em termos botânicos (“Pézim de violência”, p. 43) ou a mobilizar noções da física para transfigurar uma declaração de amor (“Confissão com fissura”, p. 19).

Em suma, são mais de trinta poemas repletos de humor, lirismo e reflexão o que se oferece nas próximas páginas para deleite e espanto do leitor. E se no final “ninguém sabe o que é um poema” é porque esse é um conhecimento pessoal e intransferível, uma aventura que ninguém pode viver em nosso nome. (daqui)
 

sábado, 3 de outubro de 2026

"Desejar Ser – 8" - Poema de Manoel de Barros

 

Tarsila do Amaral (Pintora, desenhista, escultora, ilustradora, cronista
e tradutora brasileira, 1886–1973), A Cuca, 1923


Desejar Ser – 8


Nasci para administrar o à-toa
o em vão
o inútil.
Pertenço de fazer imagens.
Opero por semelhanças.
Retiro semelhanças de pessoas com árvores
de pessoas com rãs
de pessoas com pedras
etc etc.
Retiro semelhanças de árvores comigo.
Não tenho habilidade pra clarezas.
Preciso de obter sabedoria vegetal.
(Sabedoria vegetal é receber com naturalidade uma rã no talo.)
E quando esteja apropriado para pedra, terei também sabedoria mineral.


Manoel de Barros, in "Livro Sobre Nada"
Ed. Record, 3a. ed., Rio de Janeiro, 1996;
in Poesia Completa, São Paulo: Leya, 2011.

 

Tarsila do Amaral, O Sapo, 1928


"A arte desafia a derrota pela sua própria existência, representando a celebração da vida, 
apesar de todas as tentativas para degradá-la e destruí-la." 
 
 Nadine Gordimer
[Escritora sul-africana, 1923–2014. Nobel de Literatura em 1991.]
 
 

sábado, 11 de julho de 2026

"A Fantasia da Natureza" - Poema de Antero Coelho Neto


 
Reynaldo Manzke (Pintor brasileiro, 1906–1980), 'Vilarejo', 1943.
Aguarela sobre papel, 19 x 28 cm.


A Fantasia da Natureza


Natureza alegre
do despertar repetido
que se eterniza plena
no horizonte colorido.

Ora a chuva cai
molhando terra e corpos.

Ora o pássaro azul
voa em canto e vai
dizendo que existe Deus.

Ora o céu é seco
e os animais sedentos
vagam loucos pelos campos
rachados, ardentes e mortos
parecendo não existir Deus.


Antero Coelho Neto
(Médico, escritor, professor e reitor brasileiro, 1931–2016)
 
 

Reynaldo Manzke, 'Uma carroça na estrada', s.d. Aguarela sobre papel.
 

"Acho que o mundo vai acabar em preto e branco, igual a um filme antigo.
Talvez, enquanto haja cores, consigamos sobreviver."
 

Neil Gaiman

(Autor britânico de contos, romances, banda desenhada e roteiros, n. 1960)
 

sexta-feira, 3 de julho de 2026

"Tem tudo a ver" e "Cuidado com a Língua" - Poemas de Elias José

 


Caetano Cury (Jornalista, podcaster, autor de banda desenhada, locutor
de rádio e cartunista brasileiro, n. 1985), 'Téo & O Mini Mundo'.



Tem tudo a ver


A poesia
tem tudo a ver
com tua dor e alegrias,
com as cores, formas, os cheiros,
os sabores e a música
do mundo.

A poesia
tem tudo a ver
com o sorriso da criança,
o dialogo dos namorados,
as lágrimas diante da morte,
os olhos pedindo pão.

A poesia tem tudo a ver
com a plumagem, o voo,
e o canto dos pássaros,
a veloz acrobacia dos peixes,
as cores todas do arco-íris,
o ritmo dos rios e cachoeiras,
o brilho da lua, do sol e das estrelas,
a explosão em verde, em flores e frutos.

A poesia
– é só abrir os olhos e ver –
tem tudo a ver com tudo.

 in 'Segredinhos de Amor', 1991 



Elias José (Escritor, poeta e professor brasileiro,
 1936–2008) por Caetano Cury 


Cuidado com a Língua

 
Você me chamou de feio,
e mais feio me enrusti.

Você me chamou de careca,
com frio na cuca me escondi.

Você me chamou de baixinho,
muito melhor me escolhi.

Você me chamou de barrigudo,
tentei, tentei, mas não diminuí.

Você falou que mesmo assim me ama,
foi assim, assim foi que me explodi. 
in 'Cantigas de Amor', 2006 
 
***
 
 

Caetano Cury é jornalista, aguarelista e quadrinista, autor das tirinhas 'Téo & O Mini Mundo', série bicampeã do prémio Angelo Agostini e sete vezes indicada ao troféu HQMix.
Caetano foi apresentador e repórter da Rádio Bandeirantes de São Paulo. Trabalhou também nas rádios BandNews FM e CBN de Ribeirão Preto-SP. Como repórter de rádio, ganhou o prémio Vladimir Herzog de Jornalismo e Direitos Humanos.
Caetano mora hoje em Guaxupé-MG e se dedica em tempo integral à criação e divulgação de seus quadrinhos.
'Téo & O Mini Mundo' são tirinhas de amor, humor e autoconhecimento. As histórias já foram publicadas em três livros. A primeira tira foi criada em 2012 e até hoje o autor mantém uma produção regular que conquista milhares de pessoas diariamente.
Hoje mais de 390 mil pessoas seguem o @teoeominimundo no Instagram. Os personagens principais são o menino Téo e a borboleta Eulália. Os dois caminham por belos cenários rurais enquanto conversam sobre os mistérios da vida.
Além dos livros da coleção 'Téo & O Mini Mundo', Caetano tem outras obras publicadas, como 'Jorge', um compilado de tirinhas de humor, e 'Click Plock' um livro imagem que faz pensar sobre o uso excessivo de celular.
 (daqui)
 


Téo & O Mini Mundo – Vol. 1 – O livro 
[O primeiro livro da série reúne as tirinhas criadas entre 2012 e 2019.]


Téo & O Mini Mundo – Vol. 2 – O lugar do outro
[O segundo livro da coleção, lançado no auge da pandemia, traz as tirinhas de 2019 e 2020.]


Téo & O Mini Mundo – Vol. 3 – Quentinho no Coração
[As tirinhas produzidas entre 2020 e 2022 estão no terceiro livro da série.]
 
 
SINOPSE
 
Um menino, uma borboleta filosófica e um microscópio para ver a vida
 
Na companhia de sua amiga, a borboleta Eulália, o menino Téo observa atento nosso Mini Mundo através de um microscópio e dispara reflexões filosóficas sobre o quotidiano, sobre as pessoas e sobre o seu próprio eu. Juntos, eles protagonizam diálogos profundos, carregados de sensibilidade, traduzidos em palavras simples, mas que tocam corações e mentes de jovens e adultos. 
 
A coleção de livros Téo & O Mini Mundo (que nasceu como webcomic em 2012, reunindo milhares de fãs ao longo de sete anos), surge como um abraço acolhedor que, ao mesmo tempo, entretém, encanta e provoca reflexões, expressas em tirinhas com textos simples, ritmo tranquilo e belíssimas aguarelas. 
São três volumes com 271 tirinhas para ler, reler e se emocionar. Horas de leitura garantida para levar por onde você for e também para presentear pessoas queridas com afeto em forma de livro.
 (daqui)


 
 

quarta-feira, 20 de maio de 2026

"Biografia" - Poema de Carlos Nejar

 


Tarsila do Amaral (Pintora, desenhista, escultora, ilustradora, cronista
e tradutora brasileira, 1886
–1973), 'Distância', 1928.


Biografia

I

Não tive biografia
mas metáforas
Manga na praça
foi a infância

A alma dividida
de nascença
Com ela o mundo
arfava em cada coisa

O mar inchava
o Sol de maresia
Inchava na palavra
e as velas iam

Vivi sofri – eis tudo
e o vivido
arrasta o barco
pelo mar que é findo

II

A biografia
se instaurou
sem mim

Alguém a foi
vivendo
sem sabê-lo

Alguém deitou
no sono
em que acordei

Alguém
no meu lugar
foi biografado

III

Como se esperasse
de outra imagem

e música tornasse
ao bandolim

E nunca mais parasse
era voragem

alguém desvencilhava-se
de mim


Carlos Nejar (n. 1939)
in 'Um País o Coração', 1980.
 
 

Tarsila do Amaral, 'Cidade', 1929


“Sempre considerei as ações dos homens como as melhores intérpretes dos seus pensamentos.”


John Locke (Filósofo inglês, conhecido como o "pai do liberalismo", 1632–1704)
 

quarta-feira, 15 de abril de 2026

"Eu aprendi a dizer sim" - Poema de Antero Coelho Neto



Tarsila do Amaral (Pintora, desenhista, escultora, ilustradora, cronista
e tradutora brasileira, 1886–1973), 'Bandeira do Divino', 1939–1968.


Eu aprendi a dizer sim


Eu aprendi a dizer sim quando via natureza
molhada na manhã alegre do primeiro dia novo.

Eu aprendi a dizer não quando reconheci a fome
no homem indefeso e não achei nenhuma razão.

Eu aprendi a dizer sim quando o dia amanheceu
e fiquei deslumbrado com a esperança renovada.

Eu aprendi a dizer não quando quiseram que traísse
os princípios fundamentais da humanidade em luta.

Eu aprendi a dizer sim quando fui à escola
de minha infância e corri, gritei e... aprendi.

E então o sim e o não passaram a ser inexoráveis
durante todo o resto da vida, depois que aprendi.


Antero Coelho Neto
(Médico, escritor, professor e reitor brasileiro, 1931
–2016)

domingo, 12 de abril de 2026

"Mãe, eu quero ir-me embora" - Poema de Maria do Rosário Pedreira



Rodolfo Amoedo (Pintor, desenhista, professor e decorador brasileiro, 1857-1941),
"Más Notícias", 1895, Museu Nacional de Belas Artes.


Mãe, eu quero ir-me embora


Mãe, eu quero ir-me embora – a vida não é nada
daquilo que disseste quando os meus seios começaram
a crescer. O amor foi tão parco, a solidão tão grande,
murcharam tão depressa as rosas que me deram –
se é que me deram flores, já não tenho a certeza, mas tu
deves lembrar-te porque disseste que isso ia acontecer.

Mãe, eu quero ir-me embora – os meus sonhos estão
cheios de pedras e de terra; e, quando fecho os olhos,
só vejo uns olhos parados no meu rosto e nada mais
que a escuridão por cima. Ainda por cima, matei todos
os sonhos que tiveste para mim – tenho a casa vazia,
deitei-me com mais homens do que aqueles que amei
e o que amei de verdade nunca acordou comigo.

Mãe, eu quero ir-me embora – nenhum sorriso abre
caminho no meu rosto e os beijos azedam na minha boca.
Tu sabes que não gosto de deixar-te sozinha, mas desta vez
não chames pelo meu nome, não me peças que fique –
as lágrimas impedem-me de caminhar e eu tenho de ir-me
embora, tu sabes, a tinta com que escrevo é o sangue
de uma ferida que se foi encostando ao meu peito como
uma cama se afeiçoa a um corpo que vai vendo crescer.

Mãe, eu vou-me embora – esperei a vida inteira por quem
nunca me amou e perdi tudo, até o medo de morrer. A esta
hora as ruas estão desertas e as janelas convidam à viagem.
Para ficar, bastava-me uma voz que me chamasse, mas
essa voz, tu sabes, não é a tua – a última canção sobre
o meu corpo já foi há muito tempo e desde então os dias
foram sempre tão compridos, e o amor tão parco, e a solidão
tão grande, e as rosas que disseste um dia que chegariam
virão já amanhã, mas desta vez, tu sabes, não as verei murchar.


Maria do Rosário Pedreira
,
in "O Canto do Vento nos Ciprestes",
Lisboa: Gótica, 2001.


quarta-feira, 1 de abril de 2026

"Aqui termina o caminho" - Poema de Emílio Moura



Tarsila do Amaral (Pintora, desenhista, escultora, ilustradora, cronista
e tradutora brasileira, 1886-1973),
 Lagoa Santa, 1925.

Aqui termina o caminho


Os sinos cantando, as sombras todas se diluindo 
dentro da tarde. Dentro da tarde, o teu grave 
pensamento de exílio.

Porque ainda esperas? Aqui termina o caminho, 
aqui morre a voz, e não há mais eco, nem nada.

Por que não esquecer, agora, as imagens que tanto 
nos perturbaram 
e que inutilmente nos conduziram 
para nos deixar de súbito na primeira esquina?

Essa voz que vem não sei de onde, 
esses olhos que olham não sei o quê, 
esses braços que se estendem não sei para onde...

Debalde esperarás que o eco de teus passos acorde 
os espaços que já não têm voz.

As almas já desertaram daqui. 
E nenhum milagre te espera, 
nenhum.


Emílio Moura
 (1902-1971), 
in "Canto da hora amarga", 1936.
 
 

Tarsila do Amaral, Palmeiras, 1925.


(Olhando os Babaçus em Alcântara)


A palmeira e sua palma
Ondulam o ideal
Da calma.


Millôr Fernandes, in "Hai-kais",
Porto Alegre: L&PM, 1997.
 

sábado, 7 de março de 2026

"Deveras" - Poema de Luci Collin

 

Tarsila do Amaral (Pintora, desenhista, escultora, ilustradora, cronista
e tradutora brasileira, 1886
–1973), "Rio de Janeiro", 1923.
 

Deveras 


o poeta finge
e enquanto isso
cigarras estouram
pontes caem
azaleias claudicam
édipos ressonam
vacinas vencem
a bolsa quebra e
o poeta finge
e enquanto isso
vagalhões explodem
o pão adoece
astros desviam-se
manadas inteiras se perdem
a noite range
o vento derruba ninhos e
o poeta finge
e enquanto isso
vozes racham
veias entopem
galeões afundam
medeias abatem crias
turvam-se as corredeiras
o sapato aperta e
o poeta finge
que as mãos cheias de súbitos
não são as suas


Luci Collin, in "A palavra algo", 
Iluminuras, 2016.
 
 
Tarsila do Amaral, "São Paulo", 1924.


"Sou poeta quando entendo a voz do vento,
E me vejo fantasma e sentimento."


Teixeira de Pascoaes, do poema Humildade,
em "Vida Etérea", 1906.
 

[A obra "São Paulo", de Tarsila do Amaral, é uma pintura que faz parte de uma série conhecida como "Pau-brasil", que incluía paisagens tipicamente brasileiras, tanto rurais quanto urbanas. No que se refere à forma, Tarsila desenvolveu uma abordagem ousada, estilizada para obter figuras que poderiam transmitir o dinamismo da rápida modernização do país. Neste quadro, a artista preenche a metrópole com ícones de progresso: bombas de gasolina e um poste de eletricidade se destacam em primeiro plano; no fundo, um bonde, uma ponte de ferro, um edifício em construção e um cartaz com números expressam a chegada da modernidade.] (daqui)
 


Tarsila do Amaral, "A gare", 1925. 
 

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

"Vozes do Mar" - Poema de Florbela Espanca



Firmino Monteiro (Pintor brasileiro, 1855–1888), Paisagem, 1885, Museu Afro Brasil.
 
 
Vozes do Mar


Quando o sol vai caindo sobre as águas
Num nervoso delíquio d'oiro intenso,
Donde vem essa voz cheia de mágoas
Com que falas à terra, ó mar imenso?

Tu falas de festins, e cavalgadas
De cavaleiros errantes ao luar?
Falas de caravelas encantadas
Que dormem em teu seio a soluçar?

Tens cantos d'epopeias? Tens anseios
D'amarguras? Tu tens também receios,
Ó mar cheio de esperança e majestade?!

Donde vem essa voz, ó mar amigo?
... Talvez a voz do Portugal antigo,
Chamando por Camões numa saudade


Florbela Espanca
, Poesia Completa,
Publicações Dom Quixote, 2000. 

quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

"Natal Divino" - Poema de Miguel Torga

 


Di Cavalcanti
(Pintor modernista, desenhista, ilustrador, muralista e caricaturista
brasileiro, 1897–1976), Natal, 1969. Óleo sobre tela.

 Natal Divino


Natal divino ao rés-do-chão humano,
Sem um anjo a cantar a cada ouvido.
Encolhido
À lareira,
Ao que pergunto
Respondo
Com as achas que vou pondo
Na fogueira.

O mito apenas velado
Como um cadáver
Familiar…
E neve, neve, a caiar
De triste melancolia
Os caminhos onde um dia
Vi os Magos galopar…

S. Martinho de Anta, 24 de Dezembro de 1970

Miguel Torga, 
Diário XI 
(2-8-1968 / 6-4-1973)

 

domingo, 21 de dezembro de 2025

"Inverno" - Poema de Jorge de Lima



Geza Heller
(Pintor, artista gráfico, desenhista, arquiteto e gravador 
húngaro-brasileiro, 1902-1992), Paisagem cultivada, 1972.

Inverno


Zefa, chegou o inverno!
Formigas de asas e tanajuras!
Chegou o inverno!
Lama e mais lama
chuva e mais chuva, Zefa!
Vai nascer tudo, Zefa,
Vai haver verde,
verde do bom,
verde nos galhos,
verde na terra,
verde em ti, Zefa,
que eu quero bem!
Formigas de asas e tanajuras!
O rio cheio,
barrigas cheias,
mulheres cheias, Zefa!
Águas nas locas,
pitus gostosos,
carás, cabojes,
e chuva e mais chuva!
Vai nascer tudo:
milho, feijão,
até de novo
teu coração, Zefa!
Formigas de asas e tanajuras!
Chegou o inverno!
Chuva e mais chuva!
Vai casar, tudo,
moça e viúva!
Chegou o inverno!
Covas bem fundas
pra enterrar cana;
cana caiana e flor de Cuba!
Terra tão mole
que as enxadas
nela se afundam
com olho e tudo!
Leite e mais leite
pra requeijões!
Cargas de imbu!
Em junho o milho,
milho e canjica
pra São João!
E tudo isto, Zefa...
E mais gostoso
que isso tudo:
noites de frio,
lá fora o escuro,
lá fora a chuva,
trovão, corisco,
terras caídas,
corgos gemendo,
os caborés gemendo,
os caborés piando, Zefa!
Os cururus cantando, Zefa!
Dentro da nossa
casa de palha:
carne-de-sol
chia nas brasas,
farinha d'água,
café, cigarro,
cachaça, Zefa...
...rede gemendo...

Tempo gostoso!
Vai nascer tudo!
Lá fora a chuva,
chuva e mais chuva,
trovão, corisco,
terras caídas,
e vento e chuva,
chuva e mais chuva!
Mas tudo isso, Zefa,
vamos dizer,
só com os poderes
de Jesus Cristo!


Jorge de Lima, in Melhores Poemas.
Global Editora, 2ª edição, 2001.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

"Minha culpa" - Poema de Maya Angelou



Rodolfo Amoedo (Pintor, desenhista, professor e decorador brasileiro, 1857-1941),  
Ciclo do Ouro, 1892, em exposição no Museu Paulista.


Minha culpa


Minha culpa são “as correntes da escravidão”, por muito tempo
o barulho do ferro caindo ao longo dos anos.
Este irmão vendido, esta irmã que se foi,
tornam-se uma cera amarga tapando os meus ouvidos.
Minha culpa fez música com as lágrimas.

Meu crime são “os heróis mortos e esquecidos”,
Vesey, Turner, Gabriel, mortos,
Malcolm, Marcus, Martin King, mortos.
Eles lutaram pesado e amaram bem.
Meu crime é estar viva para contar.

Meu pecado é “estar pendurada numa árvore”,
Eu não grito, isso me deixa orgulhosa.
Decidi morrer como um homem.
Faço isso para impressionar a multidão.
Meu pecado é não gritar mais alto.


Maya Angelou, in "Poesia Completa"
Editora: Astral Cultural, 2020
Tradução de Lubi Prates


* * *
My guilt
(original)

My guilt is “slavery’s chains,” too long
the clang of iron falls down the years.
This brother’s sold, this sister’s gone,
is bitter wax, lining my ears.
My guilt made music with the tears.

My crime is “heroes, dead and gone,”
dead Vesey, Turner, Gabriel*,
dead Malcolm, Marcus, Martin King.
They fought too hard, they loved too well.
My crime is I’m alive to tell.

My sin is “hanging from a tree,”
I do not scream, it makes me proud.
I take to dying like a man.
I do it to impress the crowd.
My sin lies in not screaming loud.
Nota: Vesey, Turner e Gabriel, assim como os também citados (e mais conhecidos) Malcolm X, Marcus Garvey e Martin Luther King, foram lutadores pela liberdade dos negros. (daqui) 
 
 
portrait of maya angelou
Maya Angelou, photo by Deborah Feingold 
(daqui)

Maya Angelou, escritora norte-americana, cujo nome de nascimento é Marguerite Johnson, nasceu a 4 de abril em 1928, no Missouri, e morreu a 28 de maio de 2014, na Carolina do Norte.

Uma das temáticas recorrentes na sua obra gira em torno das pressões sociais exercidas sobre as mulheres afro-americanas. Após um percurso vivencial cujo itinerário se estende desde St. Louis e S. Francisco até ao Egito e ao Gana, publicou, em 1970, o romance, de cunho autobiográfico, I Know Why the Caged Bird Sings com o qual alcançou notoriedade pública.

O romance seguinte, Gather Together in My Name, descreve não só a sua demanda de identidade mas a luta pela sobrevivência como mãe solteira. Seguem-se outros romances, igualmente de teor autobiográfico, nomeadamente All God's Children Need Traveling Shoes, onde examina a relação entre a África e a cultura negra na América.

Autora de numerosos artigos literários e jornalísticos, escreveu também diversas peças para o teatro e televisão bem como alguns volumes de poesia, incluindo Just Give Me a Cool Drink of Water 'fore I Diiie, And Still I Rise e Shaker, Why Don't You Sing?. (daqui)

sábado, 29 de novembro de 2025

"Quando eu era menino" - Poema de Friedrich Hölderlin

 


Almeida Júnior (Pintor, professor e gravurista brasileiro, 1850 -1899),
 Garoto com Banana, 1897.


Quando eu era menino


Quando eu era menino,
Um deus muitas vezes me salvava
Do tumulto e da vergasta dos homens,
E eu brincava, tranquilo e feliz,
Com as flores do bosque,
E as brisas do céu
Brincavam comigo.

E tal como tu alegras
O coração das plantas
Quando para ti estendem
Os delicados braços,

Assim também, Hélio, pai!, me encheste
De alegria a alma, e como Endimião,
Sagrada Lua,
Fui teu favorito!

Oh, deuses fiéis, todos
Vós, e amáveis!
Se soubésseis
Como vos amava este meu coração!

Então, é verdade, ainda vos não chamava
Pelos vossos nomes, nem vós
A mim me nomeáveis, como fazem os humanos,
Julgando que assim se conhecem.

Mas eu a vós conhecia-vos melhor
Do que jamais conheci os humanos,
Compreendia o silêncio do éter,
As palavras dos homens nunca as entendi.

A mim, criou-me o murmúrio
Harmonioso das árvores do bosque
E fui aprendendo a amar
No meio das flores.

E nos braços dos deuses me fiz grande.


Friedrich Hölderlin
, in "Todos os Poemas" 
Tradução de João Barrento 


[Friedrich Hölderlin, poeta lírico alemão, dos mais influentes do seu tempo, nasceu a 20 de março de 1770, na Alemanha, e morreu a 7 de junho de 1843, também na Alemanha.
Licenciou-se em Teologia, mas não pôde seguir a vida religiosa devido ao seu posicionamento filosófico e mesmo estético, que atribuía grande valor à tradição mitológica clássica.
Em 1795 apaixonou-se por Susette Gontard, a "Diotima" dos seus poemas. Este amor impossível marcou toda a sua escrita posterior. A sua obra mais conhecida é o romance Hyperion (1799). 
Hölderlin deixou uma obra que é uma constante interrogação metafísica, uma tentativa de diálogo com o transcendente.(daqui)
 
 

"Todos os Poemas seguido de Esboço de uma Poética",
de Friedrich Hölderlin. Editora: Assírio & Alvim, 2021.
 
 
Uma vida contada a verso a verso, Assírio & Alvim publica Todos os Poemas seguido de Esboço de uma Poética, volume que nos revela, pela primeira vez, «um Hölderlin de corpo inteiro».

Com tradução, introdução, comentários e notas de João Barrento, Todos os Poemas seguido de Esboço de uma Poética é um verdadeiro acontecimento editorial pois reúne, pela primeira vez e num único volume, em Portugal, a obra poética de Friedrich Hölderlin. O livro inclui ainda uma cronologia ilustrada da vida e do legado do autor alemão cuja obra permaneceu desconhecida até meados do século XIX e só viria a ser reconhecida depois da sua morte, transformando-o num dos mais influentes poetas de todos os tempos e de todos os lugares.

«Não se fecha do espírito ao homem a via sã,
É esse o fio que segue a sua vida,
Esse é da vida o dia, é da vida a manhã,
Pois o tempo do espírito é riqueza infinita.

O que faz o esplendor da natureza
É a alegria que pomos no olhar,
São os dias, a vida que sabemos amar,
Em comunhão com o espírito e a beleza.»
 
SINOPSE
 
«Trazer ao leitor português toda a poesia de Hölderlin significa entrar num mar desconhecido desse leitor, num território de contradições, de uma diversidade não imaginada e desigual de registos poéticos, do mais naïf e convencional ao mais elaborado e sublime, do mais heróico ao mais prosaico, do poema transbordante à brevidade do dístico epigramático. Mas é altura de esta poesia nos ser dada de corpo inteiro. Só assim se compreenderá o percurso trágico, intenso e nele mesmo tenso e contraditório desta figura singular da Poesia, corrigindo ao mesmo tempo uma certa visão, mitificada e totalmente sublimizada, de um poeta que, como tantos outros, tem lados bem mais humanos e vulneráveis do que aqueles que os chamados “grandes poemas” nos dão.» (daqui)
 

sexta-feira, 22 de agosto de 2025

"Vida das Lavadeiras" - Poema de Cora Coralina


 
Anita Malfatti (Pintora, desenhista, gravadora, ilustradora e professora ítalo-brasileira,
1889
–1964), "As lavadeiras", déc. 1920. Óleo sobre madeira, 35 x 43 cm.


Vida das Lavadeiras

Sombra da mata
sobre as águas quietas
onde as iaras
vêm dançar à noite...
Não. Mentira.
Façamos versos sem mentir.
— Onde batem roupa
as lavadeiras pobres.

Sombra verde dos morros
no poço fundo
da Carioca
onde as mulheres sem marido
carregadas de necessidades,
mães de muitos filhos
largados pelo mundo
batem roupa nas pedras
lavando a pobreza,
sem cantiga, sem toada, sem alegria.

Quero escrever versos verdadeiros.
Por que será, Senhor
que a mentira se insinua
nos meus versos?
Onde vive você, poeta, meu irmão
que faz versos sem mentir?


Cora Coralina (1889–1985), 
in 'Meu Livro de Cordel ', 1976.


sexta-feira, 18 de julho de 2025

"O nome da gente" - Poema de Pedro Bandeira

 


Clodoaldo Martins (Artista plástico brasileiro, n. 1985), 'Hora da leitura', 70x70cm.


O nome da gente


Por que é que eu me chamo isso
E não me chamo aquilo?
Por que é que o jacaré
Não se chama crocodilo?

Eu não gosto
do meu nome,
não fui eu
quem escolheu.
Eu não sei porque se metem
com um nome que é só meu!

O nenê
que vai nascer
vai chamar
como o padrinho,
vai chamar
como o vovô,
mas ninguém vai perguntar
o que pensa
o coitadinho.

Foi meu pai quem decidiu
que o meu nome fosse aquele.
Isso só seria justo
se eu escolhesse
o nome dele.

Quando eu tiver um filho,
não vou pôr nome nenhum.
Quando ele for bem grande,
ele que escolha um! 


Pedro Bandeira
, em "Cavalgando o arco-íris",
São Paulo, Moderna: 1984.
 


'Cavalgando o arco-íris' de Pedro Bandeira
Ilustrações Michio - Série Risos e Rimas
 
 
 SINOPSE

Amizade, medo do escuro, namoro, escola, a chegada do irmãozinho, a perda do animal de estimação, são alguns dos temas que Pedro Bandeira transformou em poesia. Cavalgando o arco-íris é um livro divertido, que, com muita ternura e simplicidade, fala sobre o quotidiano das crianças, suas experiências, alegrias e expectativas. Na verdade, Cavalgando o arco-íris é um livro para todas as idades. O poema "Nana, mamãe" era uma antiga canção de ninar que a mãe do autor cantava para ele dormir e que continua embalando várias gerações. O livro é um convite à poesia, feito por quem entende de crianças. 

terça-feira, 24 de junho de 2025

"Junho" - Poema de Olavo Bilac

 


Alberto da Veiga Guignard (Pintor e professor brasileiro, 1896-1962), 
"Tarde de São João", 1959. Óleo sobre tela,  30 x 40 cm. 


Junho 
 

Coro de crianças:

Passem os meses desfilando!
Venha cada um por sua vez!
Dancemos todos, escutando
O que nos conta cada mês!

Junho:

Em chamas alvissareiras,
Ardem, crepitam fogueiras...
— E os balões de S. João
Vão luzir, entre as neblinas,
Como estrelas pequeninas,
Entre as outras, na amplidão.

Não há casinha modesta
Que não se atavie, em festa,
Nestas noites, a brilhar:
Não se recordam tristezas . . .
Estalam bichas chinesas,
Estouram foguetes no ar.

Fogos alegres, pistolas,
Bombas! ao som das violas,
Ardei! cantai! crepitai!
Num largo e claro sorriso.
Seja a terra um paraíso!
Folgai, crianças, folgai!

Coro de crianças:

Aí vem Julho, o mês do frio...
Vamos os corpos aquecer,
Acelerando o rodopio...
— Pode outro mês aparecer!


Olavo Bilac
, em Poesias infantis.
RJ: Francisco Alves. 1929.
 
 
 Óleo sobre tela, 61 x 46 cm. Museu de Arte da Pampulha. 


Quando vieste da festa


Quando vieste da festa,
Vinhas cansada e contente.
A minha pergunta é esta:
Foi da festa ou foi da gente?

s.d.

Fernando Pessoa, Quadras ao Gosto Popular.

(Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.)
Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 61.