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terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

"Lugar" - Poema de W. S. Merwin



John Frederick Kensett
(American landscape painter and engraver born in Cheshire,
Connecticut, 1816–1872), "The Old Pine", Darien, Connecticut, c. 1872.
Metropolitan Museum of Art, New York City.


Lugar

 
No último dia do mundo
gostaria de plantar uma árvore
não para que
dê frutos
a árvore que carrega os frutos
não é a mesma que foi plantada
Quero a árvore que fica de pé
na terra pela primeira vez
com o sol
a desaparecer
e a água
tocando as suas raízes
na terra cheia de mortos
e as nuvens que passam
uma a uma
sobre as suas folhas 
 
 
 

W. S. Merwin, c. 1972. Photograph by Douglas Kent Hall 
(daqui)
 
William Stanley Merwin foi um autor norte-americano nascido a 20 de setembro de 1927, em Nova Iorque. Um dos mais importantes poetas de língua inglesa do nosso tempo, Merwin foi também um exímio tradutor, ecologista e antibelicista.
Duas vezes poeta laureado dos EUA, ganhou os prémios National Book Award e duas vezes o Pulitzer.
Em 1976, mudou-se para o Havai, onde combateu pela preservação da floresta tropical. Aí morreu, a 15 de março de 2019. (daqui)
 
 

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

"Escrito na Ponte de Westminster, a 3 de Setembro de 1802" - Poema de William Wordsworth

 

 
André Derain (French artist, painter, sculptor and co-founder, with Henri Matisse,
of Fauvism, 1880–1954), Big Ben, 1906 – Musée d'Art moderne de Troyes.


Escrito na Ponte de Westminster,
a 3 de Setembro de 1802


Não tem a terra nada mais belo para mostrar
Pobre de espírito seria aquele que pudesse ignorar
esta visão tão comovente na sua majestade
Como um traje veste agora esta cidade

a beleza da manhã. Silenciosas e nuas
torres cúpulas navios teatros catedrais a prumo
erguem-se no céu e estendem-se pelas ruas
brilhantes e reluzentes no ar sem fumo

Nunca o sol se ergueu com tanta alma
por sobre vales rochedos e colinas
nunca vi nunca senti uma tão profunda calma

O rio desliza consoante o seu desejo
Meu Deus o casario parece que dorme
Dorme também aquele coração enorme 


William Wordsworth
 
Tradução de Jorge de Sousa Braga 

*** 

Composed upon Westminster Bridge,
 September 3, 1802

 
Earth hath not anything to show more fair:
Dull would he be of soul who could pass by
A sight so touching in its majesty:
This City now doth, like a garment, wear
The beauty of the morning; silent, bare,
Ships, towers, domes, theatres and temples lie
Open unto the fields, and to the sky;
All bright and glittering in the smokeless air.
Never did sun more beautifully steep
In his first splendor, valley, rock, or hill;
Ne'er saw I, never felt, a calm so deep!
The river glideth at his own sweet will:
Dear God! The very houses seem asleep;
And all that mighty heart is lying still!
 
 

André Derain, The Palace of Westminster, 1906–1907,
The Metropolitan Museum of Art.


André Derain, Charing Cross Bridge, London, 1906,
National Gallery of Art, Washington, D.C.



André Derain, Londres, Westminster, 1906, Musée de l'Annonciade à Saint-Tropez.


"Você não encontra nenhum homem, de forma alguma intelectual, que esteja disposto a deixar Londres.
Não, senhor, quando um homem está cansado de Londres, ele está cansado da vida;
porque há em Londres tudo que a vida pode oferecer."


Samuel Johnson (1709–1784), citado em "The Life of Samuel Johnson"
de James Boswell (1740–1795), 1791 (página 160) - 516 páginas.

 

sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

"Despedida do Outono" - Poema de Eugénio de Andrade



Armando Anjos (Pintor português, 1931-2017), Paisagem com lavadeiras, s.d.


Despedida do Outono


Eu já ouvira o apelo do tordo
junto às águas velhas
do rio, ou na luz vidrada
das lentas oliveiras do sul.

Pensava então que não podia morrer
quem tanto amou o claro timbre
das vogais trazidas pelo mar 

- o outono, esse morria nas chamas
altas dos castanheiros,
na sonâmbula ondulação
dos rebanhos,
nos olhos das mulheres
de coração fatigado,
semelhantes a ramos partidos
- elas, que foram irmãs do orvalho.
 
 
 

Armando Anjos (Pintor português, 1931-2017), Paisagem, s.d.


Outono –
Empoleirado num ramo seco
um corvo
in "O Gosto Solitário do orvalho"  

 

Matsuo Bashō, "O Gosto Solitário do orvalho"
 e "O Caminho Estreito". Editora: Assírio e Alvim.
  Edição/reimpressão: 04-2003. 
 

SINOPSE 
 
Matsuo Bashō (Japão, 1644-1694), "o eterno vagabundo" - assim lhe chama Jorge de Sousa Braga, autor destas versões portuguesas de "O Gosto Solitário do Orvalho", um volume de haikus, e "O Caminho Estreito", um diário de viagem.
Como diz Eugénio de Andrade ("Rosto Precário"), Bashô, "com um cânone de apenas dezassete sílabas, fez uma das mais esplêndidas poesias de que há memória." 
O haiku (JSB) é "um momento único na eternidade: não se repete, nem se desvanece nunca". Bashô é um dos seus maiores executores. Vejam-se dois, de entre muitos:

Uma rã mergulha
no velho tanque...
o ruído da água

Preso na cascata
um instante:
o verão
 
 
 Matsuo Bashō
 
Poeta e viajante, Matsuo Bashô nasceu em 1644, na pequena aldeia de Ueno, e morreu a 28 de novembro de 1694. De acordo com a sua última vontade, foi sepultado nos terrenos do mosteiro de Gichu-Ji, nas margens do Lago Biwa, perto de Zeze. Sobre a sua sepultura foi plantada uma bananeira. É considerado o poeta nacional do Japão. (daqui)
 

segunda-feira, 2 de junho de 2025

"Oração do camelo" - Poema de Carmen Bernos de Gasztold



Amrita Sher-Gil 
(Hungarian–Indian painter, 1913–1941), 
Camels, 1941National Gallery of Modern Art, New Delhi.
 

Oração do camelo

 
Senhor,
não te ofendas.
Não há nada como o orgulho
contra a sede, as miragens,
e as tempestades de areia!

E eu devo dizer
que para enfrentar e ultrapassar
estes áridos dramas do deserto,
duas bossas
não são demasiado,
nem tão pouco um lábio arrogante.

Algumas pessoas criticam
as minhas quatro patas,
as nodosidades das minhas articulações,
mas como é que faria
com tacões altos,
para atravessar tantos países,
tantos sonhos inconstantes,
e proteger a minha dignidade?

O meu coração atormenta-se
com os gritos dos chacais e das hienas,
com o silêncio ardente,
com a magnitude das suas estrelas frias.

Dou-te graças, Senhor,
por este meu reino,
espaçoso como os meus sonhos
e a largura dos meus passos.

Carregando a minha realeza
na curva aristocrática do meu pescoço
de oásis para oásis,
um dia será que vou encontrar de novo
a caravana dos magos
e as portas do Teu paraíso?


Carmen Bernos de Gasztold
Tradução de Jorge de Sousa Braga, in "Animal Animal"
Assírio & Alvim, fev. 2005, página 48.



"Animal Animal - Um Bestiário Poético" 
de Jorge Sousa Braga
Edição/reimpressão: 09-2011
Editor: Assírio & Alvim
 
 
SINOPSE

Quantos animais (para além de nós) existirão à face da terra? Ninguém é capaz de responder a esta questão. Só sabemos que são inumeráveis como as estrelas do céu. Muitos de nós vivem como se eles não existissem. Contudo, somos companheiros de viagem. E simultaneamente o produto dessa viagem. A maioria deles partiu muito antes de nós. Só muito recentemente nos juntámos a eles. O nosso futuro e o deles são indissociáveis. A nossa história conjunta é uma história de fascínio e de repulsa, de extermínio e de amor.
Os primeiros poemas sobre animais são provavelmente tão velhos como a própria poesia. Há um poema dos «inuit» que fala de um tempo em que as palavras eram mágicas e em que os homens se podiam transformar em animais e os animais em homens. Todos eles falavam a mesma linguagem. Com o passar dos milénios perdemos essas capacidades. Já não nos podemos transformar em animais (e vice-versa) e as palavras deixaram de ser mágicas. Passaram a ser apenas palavras e a magia uma palavra entre elas. […]
Um provérbio japonês diz que «todo o animal, até o mais pequeno, tem uma alma». Procurei os poemas em que se podia ver essa «alma». Espero que ela seja também percetível a olhos desabituados.  Jorge de Sousa Braga (daqui)
 

domingo, 23 de março de 2025

"Como cortar uma romã" - Poema de Imtiaz Dharker


 
Henri Fantin-Latour (French painter and lithographer, 1836–1904), Still Life 
(Flowers, Fruits, Wineglass, and Tea Cup), 1865. 


Como cortar uma romã


“Nunca”, disse o meu pai,
“nunca cortes o coração
de uma romã. Vai chorar sangue.
Trata-a com delicadeza, com respeito.
Basta cortar a casca em quatro quartos.
É uma fruta mágica,
quando a abrires, está preparada
para que as joias caiam,
mais preciosas do que granadas,
mais lustrosas do que rubis,
como se iluminadas por dentro.
Cada joia contém uma semente viva.
Separa um cristal.
Segura-o para captar a luz.
Por dentro é um universo inteiro.
Nenhuma joia vulgar te pode dar isso”.
Já tentei fazer colares
de sementes de romã.
O sumo de um carmesim brilhante jorrou
e manchou os meus dedos, depois a minha boca.
Não me importei. O sumo tinha o gosto de jardins
que nunca tinha visto, a volúpia
da murta, do limão, do jasmim,
vivo com asas de papagaio.
A romã recordou-me
que em algum lugar tive outra casa.


Imtiaz Dharker
Tradução de Jorge de Sousa Braga
 

segunda-feira, 17 de junho de 2024

"Gato Preto" - Poema de Rainer Maria Rilke (2 traduções)

 
Pierre Carrier-Belleuse (Peintre français, 1851-1932),
 Jeune ballerine tenant un chat noir, 1895.
 


 Gato Preto
 
Um fantasma, apesar de invisível,
acusa o toque do teu olhar,
o que não acontece com o teu pelo
negro e felpudo, que absorve tudo.

Como um louco que, num acesso
de mania, destrói tudo em redor,
e de súbito cai numa espécie de torpor,
no chão acolchoado da cela,

ele parece dissimular dentro de si,
todos os olhares que nele pousaram,
para agastado e ameaçador
se enroscar e com eles adormecer.

Mas, de súbito, desperta de novo,
volta-se para ti e olha-te nos olhos:
descobres-te, então, a ti próprio, suspenso
no âmbar amarelo dos seus olhos ovais
como se fosses um inseto e nada mais. 
 

Rainer Maria Rilke,
in Animal Animal – Um Bestiário Poético,
Assírio & Alvim, fev. 2005, página 97,
 tradução de Jorge de Sousa Braga
 
 

Lionel Lindsay
(Australian artist, 1874 - 1961)
 
 
 Gato Preto

 
Um fantasma é ainda como que um lugar
de que o teu olhar faz depender um som;
mas aqui, na negrura deste pelo,
dissolve-se a mais forte visão:
como um louco raivoso que, mesmo no auge
da fúria, bate os pés na escuridão,
de repente se achasse entre os chumaços abafantes
duma cela onde cessa e se evapora.

Assim ele parece disfarçar dentro de si
todos os olhares que jamais nele pousaram,
para sobre eles, ameaçador e agastado,
se fechar num arrepio e com eles dormir.
Mas súbito, como que desperto, volta
o rosto para ti e contempla-te nos olhos:
e então encontras o teu próprio olhar no âmbar
amarelo das pedras redondas dos seus olhos,
inesperadamente: incrustado e fóssil
como um inseto de remotas eras.


Rainer Maria Rilke,
in Poemas, As elegias de Duino e Sonetos a Orfeu
Oiro do Dia, set. 1983, página 170, 
tradução de Paulo Quintela
 

domingo, 2 de junho de 2024

"Raízes" - Poema de Jorge Sousa Braga


William Bliss Baker (American artist, 1859 –1886), Fallen Monarchs, 1886.
Brigham Young University Museum of Art



Raízes


Quem me dera ter raízes,
que me prendessem ao chão.
Que não me deixassem dar
um passo que fosse em vão.

Que me deixassem crescer
silencioso e ereto,
como um pinheiro de riga,
uma faia ou um abeto.

Quem me dera ter raízes,
raízes em vez de pés.
Como o lodão, o aloendro,
o ácer e o aloés.

Sentir a copa vergar,
quando passasse um tufão.
E ficar bem agarrado,
pelas raízes, ao chão.


Jorge de Sousa Braga,
in "Herbário", Assírio & Alvim, 1999.

Grande Prémio Gulbenkian de Literatura para Crianças e Jovens

 


William Bliss Baker
(American artist, 1859 –1886), Hiding in the Haycocks, 1881.
 
 
"A maturidade do homem consiste em ter reencontrado a seriedade que em criança se colocava nos jogos." 

Friedrich Nietzsche
, Werke - volume 2, página 629, C. Hanser, 1956
 
 

quarta-feira, 22 de maio de 2024

"O gato" - Poema de Guillaume Apollinaire

 

 
Elin Danielson-Gambogi (Finnish painter, 1861-1919),
 Girl with Cats in a Summer Landscape, 1892.
 

O gato


Na minha casa desejo ter
uma mulher que imponha a sua razão
um gato passeando por entre os livros
e porque sem eles não posso viver
amigos seja qual for a estação


Guillaume Apollinaire,
in O século das nuvens, Hiena Editora, 1989, página 20.
 (Versão para português de Jorge de Sousa Braga)
 
 
Guillaume Apollinaire (1880-1918), Setembro, 1911
 
 
Biografia de Guillaume Apollinaire


Poeta e homem de letras naturalizado francês, de nome verdadeiro Wilhelm Apollinaris de Kostrowitzky, nasceu a 26 de agosto de 1880 na cidade de Roma. Fruto ilegítimo do encontro de dois aventureiros da alta aristocracia, uma jovem polaca viciada no jogo, Angelica de Kostrovitzky, e de um suiço-italiano, Flugi d'Aspermont, Apollinaire cresceu nas cercanias dos sumptuosos casinos das estâncias blaneares onde os mais ricos se congregavam.

Aos sete anos de idade iniciou a sua escolaridade no Colégio de São Carlos, no Mónaco, transitando depois para as escolas de Cannes e Nice. Não chegou a terminar os estudos secundários. Em vez disso, empreendeu aos dezanove anos de idade uma viagem que o levou até às Ardenas, na Bélgica, fazendo-se passar por um príncipe russo.
No ano de 1900 estabeleceu-se em Paris onde, após ter trabalhado durante algum tempo na Bolsa de Valores, começou a colaborar com a imprensa, em especial com o Mercure de France e La Revue Blanche. No ano seguinte surgiu-lhe a oportunidade de acompanhar como precetor as crianças de uma família alemã, residente na bacia do Reno. Aceitando o cargo, aproveitou a deslocação para percorrer extensivamente o território alemão, bem como o do então Império Austro-Húngaro.

De regresso a França, empregou-se junto de um banco, prosseguindo simultaneamente no jornalismo, escrevendo regularmente para o L'Européen. Em 1902 publicou o seu primeiro livro, escrito em coautoria com Molina da Silva, La Grace et Le Mainties Français e, no ano seguinte, fundou uma revista intitulada Le Festin d'Esope. A partir de 1906 passou também a dedicar-se à literatura erótica, dando ao prelo, Les Onze Mille Verges (As Onze Mil Vergas), uma das suas obras mais célebres, e Les Memoires d'un Jeune Don Juan (1907, As Proezas Amorosas de um Jovem Don Juan).

Apollinaire estreou-se como poeta em 1909, com o aparecimento da sua primeira coletânea, L'Enchanteur Pourrissant, cuja temática aludia ao aprisionamento do mago Merlim dentro de uma gruta, pelas artes mágicas de Morgana. Seguiram-se, entre outras obras, Le Bestiaire ou Cortège d'Orphée (1911) e Alcools (1914, Mais Novembro do que Setembro), trabalho marcado pela supressão de todos os sinais de pontuação, o que na época constituiu uma inovação e revelou o seu espírito modernista, que veio estabelecer definitivamente Apollinaire como poeta.

No ano de 1914 deflagrou a Primeira Grande Guerra, pelo que Apollinaire, sentindo grandes afinidades com a nação que o acolhera, decidiu pedir a cidadania francesa e alistou-se no exército. Serviu num regimento de infantaria e, em 1915, foi promovido a primeiro-brigadeiro. Logo após ter-se declarado voluntário para a frente de combate, ascendeu a marechal.
Em 1916 o governo francês deferiu o seu requerimento de nacionalidade e, pouco tempo depois, o poeta foi ferido com gravidade na cabeça, por um obus, o que o levou a ser submetido a uma trepanação. Nesse ano apareceu um dos seus trabalhos mais importantes, Le Poète Assassiné (O Poeta Assassinado).

Em 1917 publica Les Mamelles de Tirésias (Os Seios de Tirésias, 1917), obra que anuncia o chegar do surrealismo. Apollinaire foi um grande divulgador da arte africana, da arte "naïve", do Fauvismo, e do Cubismo, correntes de vanguarda que revolucionaram o seu tempo.

A saúde de Apollinaire começou a degradar-se seriamente no ano de 1918. No dia de Ano Novo desse ano foi internado no hospital com uma congestão pulmonar e, receando a morte, casou-se no dia seguinte. Aparentemente restabelecido ao cabo de alguns meses, assistiu ao aparecimento da primeira edição da compilação de poemas Calligrammes (1918), mais uma obra modernista em que busca a associação entre a imagem e a sua expressão verbal.

Nos finais do ano, uma grande epidemia de gripe espanhola assolou a cidade de Paris e, entre as vítimas, contou-se Apollinaire, que faleceu a 9 de novembro de 1918.
Tido como o criador do termo 'surrealista', tinha apenas trinta e oito anos por altura da sua morte. (daqui)

 

domingo, 12 de maio de 2024

"As árvores e os livros" - Poema de Jorge Sousa Braga



Joaquín Vayreda (Pintor español, 1843 - 1894), La terraza, c. 1891.
 Museu Nacional d'Art de Catalunya


As árvores e os livros


As árvores como os livros têm folhas
e margens lisas ou recortadas,
e capas (isto é copas) e capítulos
de flores e letras de oiro nas lombadas.

E são histórias de reis, histórias de fadas,
as mais fantásticas aventuras,
que se podem ler nas suas páginas,
no pecíolo, no limbo, nas nervuras.

As florestas são imensas bibliotecas,
e até há florestas especializadas,
com faias, bétulas e um letreiro
a dizer: «Floresta das zonas temperadas».

É evidente que não podes plantar
no teu quarto, plátanos ou azinheiras.
Para começar a construir uma biblioteca,
basta um vaso de sardinheiras.


Jorge de Sousa Braga, in “Herbário”, 1999
(poesia)
Grande Prémio Gulbenkian de Literatura para Crianças e Jovens

 

Herbário de Jorge Sousa Braga e Cristina Valadas
Edição/reimpressão: 09-2009. Editor: Assírio & Alvim
Coleção: Assirinha


Livro recomendado no programa de português do 5º ano de escolaridade, destinado a leitura orientada na sala de aula.
Um magnífico Herbário, onde através da poesia ficamos a conhecer algumas plantas e flores, de uma forma que só a poesia consegue transmitir. 


A ABECEDÁRIA

E eu que pensava que era,
não uma planta de interior,
que só muito raramente,
se digna a dar flor,
mas uma coisa bem pior -
mais vogais e consoantes,
para eu saber de cor.

 (daqui)

 

Joaquín Vayreda, Árboles en flor, 1982, Museu Nacional d'Art de Catalunya


"O verdadeiro lugar de nascimento é aquele em que lançamos pela primeira vez um olhar inteligente sobre nós mesmos: minhas primeiras pátrias foram os livros. Em menor escala, as escolas".

Marguerite Yourcenar
, Memórias de Adriano, Capítulo I (1951).


quarta-feira, 8 de julho de 2020

"Mãe" - Poema de Jorge de Sousa Braga


Cyprien Eugène Boulet (1877-1927), Mother with Sons, c. 1910


Mãe



Mãe
Não consigo adormecer
Já experimentei tudo. Até contar carneirinhos
Não consigo adormecer
Nem chorar
(Que maior tragédia poderá acontecer a um homem do
que a de já não ser
capaz de chorar?)


Mãe
Sabias que o cordão umbilical pode funcionar
como uma corda num enforcamento?
— tenho aprendido coisas bem singulares neste
convívio com os deuses —

Um dia destes regressarei a Tebas para ser coroado 

Reservei hoje mesmo um lugar num avião das Linhas 
Aéreas Gregas

Gostaria de brindar contigo com uma taça de orvalho 
antes de partir

Mãe
Detesto coberturas de açúcar mesmo que levem limão 

Isto é tão certo como o é tu não me compreenderes 

Estava a sonhar que estava a sonhar e assim por aí adiante até ao infinito.
Depois
 acordei. E fui descendo vertiginosamente de sonho 
para sonho 

Ainda não parei de acordar. E de sonhar

Mãe
Tenho uma surpresa para ti

um caramanchão para que te possas sentar todas as 

tardes a catar estrelas 
na minha cabeça

Mãe
Abriu um concurso para preencher uma vaga de

ascensorista no Paraíso e eu concorri

Achas que tenho alguma hipótese de ser admitido?

— tenho a boca cheia de formigas —

Mãe
um dia hei de subir contigo
degrau
a degrau
o arco-íris
 

in 'Antologia Poética'

sábado, 20 de maio de 2017

"Incubadora" - Poema de Jorge de Sousa Braga


Hugues Merle (french, 1823-1881),  Mother and child, 1869
 


 Incubadora


Era tão pequena a mão
que nem o seu dedo mendinho
conseguia agarrar.

Pesava quinhentos gramas
e respirava sem ajuda do ventilador

O coração da sua mãe quase que não batia
com receio de que ele sufocasse
sob o peso do seu amor.


A Ferida Aberta, 2001


Léon Bazille Perrault (french, 1832-1908)


"À medida que os filhos crescem, a mãe deve diminuir de tamanho. Mas a tendência da gente é continuar a ser enorme."
 


William-Adolphe Bouguereau (1825-1905), Maternal Admiration, 1869
 

"Mães, sois vós que tendes nas mãos a salvação do mundo."

terça-feira, 9 de maio de 2017

"Mendel" - Poema de Jorge de Sousa Braga



Berthe Morisot (French painter, 1841–1895), The Lesson in the Garden, 1886


Mendel


Ao contrário dos monges beneditinos,
Que ficaram a meditar nas suas celas,
Ele gostava de meditar entre os pepinos,
Os bróculos, as favas e as beringelas.

E foi num momento de meditação
Entre ervilhas de casca lisa e rugosa,
Que descobriu por que é que os teus olhos
São castanhos e não azuis ou cor-de-rosa.


Jorge de Sousa Braga


Jorge de Sousa Braga (daqui)


Poetatradutor e médico português, Jorge de Sousa Braga  nasceu a 23 de dezembro de 1957, em Cervães, no concelho de Vila Verde. Após ter completado os estudos básicos e liceais em Viana do Castelo e em Braga, ingressou na faculdade de Medicina da Universidade do Porto. Concluiu o curso em 1981, tendo-se especializado em Obstetrícia/Ginecologia, e iniciou a sua carreira profissional no Hospital de Santo António, no Porto. Já casado e pai de dois filhos, dedicou-se posteriormente ao estudo e à consulta de casos de esterilidade/infertilidade. 
Desde muito cedo sentiu-se impelido para a poesia - tinha apenas oito anos quando escreveu o seu primeiro poema, uma espécie de homenagem ao então futebolista Eusébio, um dos seus ídolos de infância e representante, na altura, do Sport Lisboa e Benfica, clube de que sempre foi adepto. Seria, no entanto, a partir dos 14 anos que o autor começaria a escrever consciente de que a poesia começara já a fazer parte, de forma intrínseca, da sua vida. 

Jorge de Sousa Braga pertence à geração dos poetas da pós-revolução, revelando uma habilidade inata na construção poética, que, embora fecunda em cadências vivas, não se submete à rigidez de um esquema métrico. Na sua escrita destacam-se expressões simples e quotidianas, revestidas de um profundo sentimento de ternura - por vezes também de desalento - combinadas com notas de acentuada ironia ou de intensa sensualidade/intimidade. É notória, em toda a sua produção literária, uma instintiva aproximação aos elementos da Natureza.

Leitor impulsivo de poesia, o seu trabalho como autor manifesta-se também nas várias traduções que tem feito, assim como nas antologias de que é responsável, considerando-as como o resultado de um apaixonante exercício de transmutação. 

Frequentemente convidado para participar em eventos de índole cultural e/ou literária, apresenta, na sua bibliografia de originais, os seguintes títulos: De manhã vamos todos acordar com uma pérola no cu , Fenda, 1981; Plano para salvar Veneza , Fenda, 1981; A greve dos controladores do voo , Fenda, 1984;  Boca do Inferno, Gota de Água, 1987; Os pés luminosos, Centelha, 1987; Fogosobre fogo, Fenda, 1998; O poeta nu (poemas reunidos), Fenda, 1991 e 1999; Herbário, Assírio e Alvim, 1999, distinguido com o Grande Prémio Gulbenkian de Literatura Infantil; Balas de pólen (antologia), Quasi Edições, 2001; A ferida aberta, Assírio e Alvim, 2001; Pó de estrelas, Assírio e Alvim, 2004; Porto de abrigo, Assírio e Alvim, 2005. 

Relativamente a versões e antologias, destacam-se: Museu e outros poemas, Fenda, 1982; Filhos da neve (em colab.), de Leonard Cohen, Assírio e Alvim, 1985; O bosque sagrado (em colab.), Gota de Água, 1986; O gosto solitário do orvalho, de Matsuo Bashô, Assírio e Alvim, 1986; Sono de Primavera (poemas chineses), Litoral, 1987; O caminho estreito…, de Matsuo Bashô, Fenda, 1987 e 1995; O século das nuvens, de Guillaume Apollinaire, Hiena Editora, 1987; Ovinho e as rosas, Assírio e Alvim, 1995; A religião do girassol, Assírio e Alvim, 2000; Poemas com asas, Assírio e Alvim, 2001; Primeira neve, Assírio e Alvim, 2002; Qual é a minha ou a tua língua, Assírio e Alvim, 2003; Os cinquenta poemas do amor furtivo e outros poemas eróticos da Índia antiga, Assírio e Alvim, 2004; Animal Animal - um bestiário poético, Assírio e Alvim, 2005.  (daqui)