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segunda-feira, 6 de julho de 2026

"Lá vêm as férias" - Poema de Ruth Rocha


Jim Daly (American painter, born 1940), 'To All a Good Night', 1993


Lá vêm as férias


Chegam as férias, 
que bom que vai ser!
Eu vou passear,
pular e correr!

Eu vou dormir tarde,
vou brincar lá fora...
Ver televisão
até fora de hora.

Vou ler o que eu quero,
de noite e de dia...
Brincar com o cachorro,
ou fazer folia!

Com todos os amigos
vou ficar de bem. 
Só volto pra escola
no ano que vem!


Ruth Rocha
,
in 'Almanaque de Ruth Rocha'
São Paulo: Ática, 2005

 

Jim Daly (American painter, born 1940), 'All Aboard', 1994


"Brincar com crianças não é perder tempo, é ganhá-lo; se é triste ver meninos sem escola, mais triste ainda é vê-los sentados enfileirados em salas sem ar, com exercícios estéreis, sem valor para a formação do homem."
 

Carlos Drummond de Andrade

(Poeta, contista e cronista brasileiro, 1902–1987)
 
 
Obras de Jim Daly

Jim Daly, 'Just Before The Bell', 1996



Jim Daly, 'A Golden Moment'
 
 

Jim Daly, 'Follow The Rainbow'



Jim Daly, 'Left Out'
 
 
 
Jim Daly, 'Can't Miss'
 
 

Jim Daly, 'High Fly'



Jim Daly, 'Just Out Of Reach'
 
 
 
Jim Daly, 'Eye To Eye', 1994



Jim Daly, 'Just Hanging Around'



Jim Daly, 'Flying Free'
 

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

"O Ano Passado" - Poema de Carlos Drummond de Andrade



Raimundo de Madrazo y Garreta (Spanish painter from the Madrazo family of artists,
 1841–1920), Coming out of Church, before 1875, Private collection. 
 
 

 O Ano Passado

 
O ano passado não passou,
continua incessantemente.
Em vão marco novos encontros.
Todos são encontros passados.

As ruas, sempre do ano passado,
e as pessoas, também as mesmas,
com iguais gestos e falas.
O céu tem exatamente
sabidos tons de amanhecer,
de sol pleno, de descambar
como no repetidíssimo ano passado.

Embora sepultos, os mortos do ano passado
sepultam-se todos os dias.
Escuto os medos, conto as libélulas,
mastigo o pão do ano passado.

E será sempre assim daqui por diante.
Não consigo evacuar
o ano passado.


Carlos Drummond de Andrade
, 
in Corpo, 1984.
 

quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

"Certas Palavras" - Poema de Carlos Drummond de Andrade



Knud Bergslien
(Norwegian painter, art teacher and master artist, 1827–1908),
"Familien Væringsaasen", ca. 1890.


Certas Palavras


Certas palavras não podem ser ditas
em qualquer lugar e hora qualquer.
Estritamente reservadas
para companheiros de confiança,
devem ser sacralmente pronunciadas
em tom muito especial
lá onde a polícia dos adultos
não adivinha nem alcança.

Entretanto são palavras simples:
definem
partes do corpo, movimentos, atos
do viver que só os grandes se permitem
e a nós é defendido por sentença
dos séculos.

E tudo é proibido. Então, falamos. 


Carlos Drummond de Andrade, in 'Boitempo'

sexta-feira, 14 de novembro de 2025

"No entardecer da terra" - Poema de Fernando Pessoa



Edward Cucuel (American Impressionist artist, 1875–1954), 'In Autumn Sunlight
'.


No entardecer da terra



No entardecer da terra
O sopro do longo Outono
Amareleceu o chão.
Um vago vento erra,
Como um sonho mau num sono,
Na lívida solidão.

Soergue as folhas, e pousa
As folhas, e volve, e revolve,
E esvai-se inda outra vez.
Mas a folha não repousa,
E o vento lívido volve
E expira na lividez.

Eu já não sou quem era;
O que eu sonhei, morri-o;
E até do que hoje sou
Amanhã direi, quem dera
volver a sê-lo!... Mais frio
O vento vago voltou.

s. d. 

Fernando Pessoa, 'Poesias'.
(Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) 
Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 91. 
[1ª publ. in Ilustração Portuguesa, 2ª série, nº 83. Lisboa: 28-1-1922.] 


 

"Enquanto durar o outono, não terei mãos, telas e cores suficientes para pintar as coisas bonitas que vejo."
 
  

Edward Cucuel, 'Autumn Sun', 1918.


"Repara que o outono é mais estação da alma do que da natureza."

Carlos Drummond de Andrade, 'Fala, amendoeira', 1957.
 
 
Fala, amendoeira de Carlos Drummond de Andrade
Companhia das Letras

Fala, amendoeira é uma reunião de crónicas originalmente publicadas no jornal Correio da Manhã, em que o poeta mantinha uma coluna desde 1954. Em texto introdutório, Drummond escreve uma espécie de tratado do género: “Este ofício de rabiscar sobre as coisas do tempo exige que prestemos alguma atenção à natureza - essa natureza que não presta atenção em nós. Abrindo a janela matinal, o cronista reparou no firmamento, que seria de uma safira impecável se não houvesse a longa barra de névoa a toldar a linha entre o céu e o chão - névoa baixa e seca, hostil aos aviões. [...]”. 

Porque a crónica vive em grande parte desses contrastes, daquilo que poderia ter sido (antigamente, num tempo ameno, na infância do autor, numa era de ouro) e aquilo que de fato é (a vida em cidades que crescem e se transformam desordenadamente, o próprio envelhecimento do autor, as atordoantes mudanças de costumes a cada passagem de geração). Não foi à toa que, à época da publicação do volume, Rubem Braga saudou o Drummond cronista. Como o autor capixaba, o mineiro investia com o arsenal clássico: memória, comentários sobre a mudança do tempo e dos costumes, críticas municipais, um pouco de vida literária e outros textos de circunstância.

O Drummond de Fala, amendoeira é um dos grandes artífices da crónica. Injeta a medida certa de lirismo, é um observador astuto e mescla comentário com um pouco de ficção. Quanto à linguagem, estes textos são puro Drummond: calorosos e informais, suavemente cultivados e ligeiramente emburrado. Uma leitura sempre fluente e prazerosa. (daqui)
 

segunda-feira, 14 de julho de 2025

"O elefante" - Poema de Carlos Drummond de Andrade

Amrita Sher-Gil (Hungarian–Indian painter, 1913–1941), 
 'Two Elephants', 1940.
 
 
O elefante

 
Fabrico um elefante
de meus poucos recursos.
Um tanto de madeira
tirado a velhos móveis
talvez lhe dê apoio.
E o encho de algodão,
de paina, de doçura.
A cola vai fixar
suas orelhas pensas.
A tromba se enovela,
é a parte mais feliz
de sua arquitetura.

Mas há também as presas,
dessa matéria pura
que não sei figurar.
Tão alva essa riqueza
a espojar-se nos circos
sem perda ou corrupção.
E há por fim os olhos,
onde se deposita
a parte do elefante
mais fluida e permanente,
alheia a toda fraude.

Eis o meu pobre elefante
pronto para sair
à procura de amigos
num mundo enfastiado
que já não crê em bichos
e duvida das coisas.
Ei-lo, massa imponente
e frágil, que se abana
e move lentamente
a pele costurada
onde há flores de pano
e nuvens, alusões
a um mundo mais poético
onde o amor reagrupa
as formas naturais.

Vai o meu elefante
pela rua povoada,
mas não o querem ver
nem mesmo para rir
da cauda que ameaça
deixá-lo ir sozinho.

É todo graça, embora
as pernas não ajudem
e seu ventre balofo
se arrisque a desabar
ao mais leve empurrão.
Mostra com elegância
sua mínima vida,
e não há na cidade
alma que se disponha
a recolher em si
desse corpo sensível
a fugitiva imagem,
o passo desastrado
mas faminto e tocante.

Mas faminto de seres
e situações patéticas,
de encontros ao luar
no mais profundo oceano,
sob a raiz das árvores
ou no seio das conchas,
de luzes que não cegam
e brilham através
dos troncos mais espessos.
Esse passo que vai
sem esmagar as plantas
no campo de batalha,
à procura de sítios,
segredos, episódios
não contados em livro,
de que apenas o vento,
as folhas, a formiga
reconhecem o talhe,
mas que os homens ignoram,
pois só ousam mostrar-se
sob a paz das cortinas
à pálpebra cerrada.

E já tarde da noite
volta meu elefante,
mas volta fatigado,
as patas vacilantes
se desmancham no pó.
Ele não encontrou
o de que carecia,
o de que carecemos,
eu e meu elefante,
em que amo disfarçar-me.
Exausto de pesquisa,
caiu-lhe o vasto engenho
como simples papel.
A cola se dissolve
e todo o seu conteúdo
de perdão, de carícia,
de pluma, de algodão,
jorra sobre o tapete,
qual mito desmontado.
Amanhã recomeço.


Carlos Drummond de Andrade
,
in "A rosa do povo", 1945.
 

sábado, 7 de junho de 2025

"Canção Amiga" - Poema de Carlos Drummond de Andrade



Leopoldo Gotuzzo (Pintor brasileiro, 1887–1983), Centro da cidade do Rio de Janeiro, 1936.
 

Canção Amiga 


Eu preparo uma canção
em que minha mãe se reconheça,
todas as mães se reconheçam,
e que fale como dois olhos.

Caminho por uma rua
que passa em muitos países.
Se não me vêem, eu vejo
e saúdo velhos amigos.

Eu distribuo um segredo
como quem ama ou sorri.
No jeito mais natural
dois carinhos se procuram.

Minha vida, nossas vidas
formam um só diamante.
Aprendi novas palavras
e tornei outras mais belas.

Eu preparo uma canção
que faça acordar os homens
e adormecer as crianças.


Carlos Drummond de Andrade,
in Novos Poemas, José Olympio, 1948.

 

quinta-feira, 23 de janeiro de 2025

"Levava eu um jarrinho" - Poema de Fernando Pessoa


William-Adolphe Bouguereau (French painter, 1825–1905),
The Water Girl or Young Girl Going to the Spring, 1885,
Dahesh Museum of Art


Levava eu um jarrinho


Levava eu um jarrinho
Pra ir buscar vinho
Levava um tostão
Pra comprar pão;
E levava uma fita
Para ir bonita.

Correu atrás
De mim um rapaz:
Foi o jarro pro chão,
Perdi o tostão,
Rasgou-se-me a fita...
Vejam que desdita!

Se eu não levasse um jarrinho,
Nem fosse buscar vinho,
Nem trouxesse uma fita
Para ir bonita,
Nem corresse atrás
De mim um rapaz
Para ver o que eu fazia,
Nada disto acontecia.

s.d.

Fernando Pessoa, "Poemas para Lili".
Quadras ao Gosto Popular (Texto estabelecido e prefaciado
 por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.)
 Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 118-119.
 
 
 
 
Água

"Tudo é simples diante de um copo d’água."

Carlos Drummond de Andrade
, in O Avesso das Coisas (Aforismos)
 
 
Carlos Drummond de Andrade: O Avesso das Coisas
Capa: Estúdio Bogotá - Páginas: 288
Companhia das Letras, 2019
 
 
 Sinopse
 
Lançado originalmente em 1987, este volume reúne verbetes que, em ordem alfabética, elencam assuntos dos mais diversos diante do olhar aguçado de um dos nossos poetas fundamentais. Em O avesso das coisas, Carlos Drummond de Andrade compila, numa espécie de dicionário, suas próprias e idiossincráticas definições para cada palavra, convidando o leitor a "repensar suas ideias". O resultado é um conjunto de aforismos perspicaz e extremamente bem-humorado. (daqui)
 

Humorismo 

"O humorismo é a aptidão para despertar nos outros a alegria que não sentimos." 
 
Carlos Drummond de Andrade, in O Avesso das Coisas (Aforismos)
 

terça-feira, 7 de janeiro de 2025

"A Lebre" - Poema de Carlos Drummond de Andrade



Albrecht Dürer 
(German painter, printmaker, and theorist of the German Renaissance,
1471–1528), Young Hare, 1502, watercolour and gouache, 25 × 22.5 cm, Albertina, Vienna.

 

A Lebre 
 
 
Apareceu não sei como.
Queria por toda lei
desaparecer num relâmpago.
Foi encurralada
e é recolhida,
orelhas em pânico,
ao pátio dos pavões estupefactos.
Lá está, infeliz, roendo o tempo.
Eu faço o mesmo.


Carlos Drummond de Andrade
, in Boitempo
 


 A Lebre e a Tartaruga
 
 [A Lebre e a Tartaruga é uma das Fábulas de Esopo, que foi posteriormente recontada por La Fontaine, na qual uma lenta tartaruga vence a corrida de uma lebre.]
 

A Lebre e a Tartaruga


A Lebre andava sempre ligeira, quase a correr como o vento, e fazia-lhe nervoso ver a pachorrenta da Tartaruga a caminhar vagarosamente para onde quer que fosse. Chovesse ou fizesse sol, houvesse perigo ou não, a Sra. Tartaruga não passava do seu passo habitual, pausado e sossegado.
Nos dias de festa, enquanto a bicharada combinava sair junta e todos se punham a andar, era certo e sabido que a velha Tartaruga ficava à cauda do rancho, a fechar a marcha, a andar compassada, tão mole, tão mole, que a Lebre tomava fôlego, andava pelas duas e punha-se à frente de todos, a correr, como lebre que era.
E um belo dia não se conteve e disse para a Tartaruga: — E se eu fosse como a senhora, já tinha morrido de aborrecimentos. Eu podia cá andar nesse passinho de enterro! Eu sempre queria vê-la a correr comigo, a ver se espertava.
Muito bem — respondeu a Tartaruga, pacatamente. — Vamos lá experimentar isso. Fazemos uma corrida de cinco quilómetros, e aposto quem vai ganhá-la sou eu.
Bonita aposta! — respondeu a Lebre — Vamos já sair de dúvidas.
Convidaram a Raposa para juiz e ambas partiram para a corrida. A Lebre, como sempre, largou veloz como um foguete e em pouco tempo se perdeu de vista. A Tartaruga, como era seu costume, deixou-se ficar a andar lentamente, a andar… a andar… pela estrada fora.
Depois de correr um bocado, a Lebre voltou-se para trás e, não avistando a Tartaruga, deu uma gargalhada.
— A esta hora ainda ela está dando as primeiras passadas. Nem me vale a pena andar mais por agora. Até tenho tempo de dormir uma soneca enquanto espero por essa papa-açorda.
E deitou-se na relva fresquinha e apetitosa que havia à beira do caminho, principiando logo a dormir. Dormiu, sonhou, ressonou… e entretanto a Tartaruga, que vinha a andar devagar, muito devagarinho, mas sem perder um momento, passou junto dela, viu como a sua contendora dormia descuidadamente, sorriu-se e continuou o seu caminho.
Quando a Lebre acordou voltou a olhar para trás.
«Ainda não há de vir a meio caminho — pensou. — Agora em quatro pulos chego ao fim e ganhei a aposta.»
Mas quando olhou para diante viu a Tartaruga, que acabava de chegar naquele instante ao lugar combinado para o fim da corrida. Tinha ganho a aposta!
E a Lebre, abatida no seu orgulho de boa corredora, ficou a pensar:
«Não é por muito madrugar que amanhece mais cedo». (daqui)

Reprodutor de áudio (aqui)
 

domingo, 24 de novembro de 2024

"Resíduo" - Poema de Carlos Drummond de Andrade



Win van Dijk
 (Pintor e desenhista holandês, naturalizado brasileiro, 1905-1990),
Vista da cidade da Bahia, 1960. Óleo sobre tela.


 Resíduo


De tudo ficou um pouco
Do meu medo. Do teu asco.
Dos gritos gagos. Da rosa
ficou um pouco.

Ficou um pouco de luz
captada no chapéu.
Nos olhos do rufião
de ternura ficou um pouco
(muito pouco).

Pouco ficou deste pó
de que teu branco sapato
se cobriu. Ficaram poucas
roupas, poucos véus rotos
pouco, pouco, muito pouco.

Mas de tudo fica um pouco.
Da ponte bombardeada,
de duas folhas de grama,
do maço
― vazio ― de cigarros, ficou um pouco.

Pois de tudo fica um pouco.
Fica um pouco de teu queixo
no queixo de tua filha.
De teu áspero silêncio
um pouco ficou, um pouco
nos muros zangados,
nas folhas, mudas, que sobem.

Ficou um pouco de tudo
no pires de porcelana,
dragão partido, flor branca,
ficou um pouco
de ruga na vossa testa,
retrato.

Se de tudo fica um pouco,
mas por que não ficaria
um pouco de mim? no trem
que leva ao norte, no barco,
nos anúncios de jornal,
um pouco de mim em Londres,
um pouco de mim algures?
na consoante?
no poço?

Um pouco fica oscilando
na embocadura dos rios
e os peixes não o evitam,
um pouco: não está nos livros.
De tudo fica um pouco.
Não muito: de uma torneira
pinga esta gota absurda,
meio sal e meio álcool,
salta esta perna de rã,
este vidro de relógio
partido em mil esperanças,
este pescoço de cisne,
este segredo infantil...
De tudo ficou um pouco:
de mim; de ti; de Abelardo.
Cabelo na minha manga,
de tudo ficou um pouco;
vento nas orelhas minhas,
simplório arroto, gemido
de víscera inconformada,
e minúsculos artefactos:
campânula, alvéolo, cápsula
de revólver... de aspirina.
De tudo ficou um pouco.

E de tudo fica um pouco.
Oh abre os vidros de loção
e abafa
o insuportável mau cheiro da memória.

Mas de tudo, terrível, fica um pouco,
e sob as ondas ritmadas
e sob as nuvens e os ventos
e sob as pontes e sob os túneis
e sob as labaredas e sob o sarcasmo
e sob a gosma e sob o vómito
e sob o soluço, o cárcere, o esquecido
e sob os espetáculos e sob a morte escarlate
e sob as bibliotecas, os asilos, as igrejas triunfantes
e sob tu mesmo e sob teus pés já duros
e sob os gonzos da família e da classe,
fica sempre um pouco de tudo.
Às vezes um botão. Às vezes um rato.


Carlos Drummond de Andrade,
in 'A Rosa do Povo', 1945.

 

terça-feira, 8 de outubro de 2024

"Outubro" - Poema de Carlos Drummond de Andrade

 

Gustavo Dall'Ara (Itália-Brasil, 1865-1923), Arcos da Lapa, Rio de Janeiro, s.d.
 

 
 Outubro

 
Outubro eleitoral, que desabrochas
da vaga primavera de setembro,
misturando biquínis e galochas,
ardor a frio, e coisas que relembro;

outubro já verão na areia clara
de praias leblonianas, espera
um silfo, uma sereia, forma rara
a desfazer-se em rosa na atmosfera;

outubro a despertar em rebeldia
(ó meu passado!) e tropas se alinhando
no caminho do Túnel: quem diria
que a liberdade é um não sei quê nem quando?

Outubro que em tu mesmo te pintavas
para fazer do sangue o selo rubro,
penhor de novos tempos, fúrias, lavas
de puro entusiasmo, ingénuo outubro;

eis que de novo trazes no regaço,
político, um mistério, ó mês estranho.
Outubro, tem paciência, o tempo é escasso
à solução de enigma assim tamanho.

À tua brisa, outubro, se renova
nossa velha esperança malograda
depois de tanta luta e tanta prova,
rumo a Juarez e Mílton, na alvorada.

Que nos darás, amigo? Um homem puro,
numa quadra de paz e grandes feitos?
Ou temos de chorar, de encontro ao muro,
nossos erros, nos erros dos eleitos?

Voltará o passado, outubro, outubro?
Voltarão as misérias e os enganos?
(Como sacerdotisa no delubro,
a musa explora em vão os teus arcanos.)

Que depende de nós, eu sei. No entanto,
à cósmica energia de teu bojo,
o amante e o cidadão se enchem de espanto,
e sob o influxo astral tombam de rojo…

Outubro escorpional, meu aracnídeo
postado entre Balança e Sagitário:
Órion persegue Diana? em vão: agride-o
teu pungente ferrão, de efeito vário.

Outubro americano, porta aberta
a mundos novos que eram velhos mundos,
permite-nos chegar à descoberta
de nós mesmos, nos pegos mais profundos.

Outubro, que afinal não és diverso
de outro qualquer dos meses da folhinha,
perdoa a sem-razão deste meu verso,
que eu te agradeço, outubro, a croniquinha.

02/10/1955

Carlos Drummond de Andrade
,
Versiprosa, 1967
 
"Versiprosa, palavra não dicionarizada, como tantas outras, acudiu-me para qualificar a matéria deste livro. Nele se reúnem crónicas publicadas no Correio da Manhã e em outros jornais do país; umas poucas, no Mundo Ilustrado. Crónicas que transferem para o verso comentários e divagações da prosa. Não me animo a chamá-las de poesia. Prosa, a rigor, deixaram de ser. Então, versiprosa. 
Quero lembrar que as farpas dirigidas nestes escritos à ação de políticos jamais filtraram paixão ou interesse partidário nem assumiram cunho pessoal. Exprimiram a reação de um observador sem compromisso, que há muito se desligou de ilusões políticas, e, geralmente, prefere falar de outras coisas mais gratas entre o céu e a terra." - Carlos Drummond de Andrade
 
 
Carlos Drummond de Andrade, Versiprosa
Capa: Raul Loureiro
Companhia das Letras
 
 
RESUMO
 
 
Versiprosa é composto por "crónicas que transferem para o verso comentários e divagações da prosa", conforme esclarece o próprio Drummond. O resultado é uma dicção literária original, pronta a decifrar o quotidiano e propor um enquadramento inquieto do Brasil das décadas de 1950 e 1960. Em possível diálogo com o exemplo de Machado de Assis, que também publicou crónicas em verso, o escritor itabirano apresenta, nos mais de cem textos reunidos no volume, uma voz sensível e mordaz, que persegue com tenacidade as novidades e assombros de seu tempo. Escolado nos diversos assuntos propostos pelo noticiário, o cronista-poeta de Versiprosa forja uma linguagem espirituosa, cuja agilidade se propõe a tomar o pulso à atualidade com graça e leveza. (daqui)
 
  

segunda-feira, 23 de setembro de 2024

"As aves migram em setembro" - Poema de Vasco Graça Moura

 

William Anderson Coffin (American painter and art critic, 1855–1925),
 September, c. 1907, Smithsonian American Art Museum.
 


As aves migram em setembro

 
as aves migram em setembro.
nem vou com elas, nem
guardo delas
a mínima memória.

escurece mais cedo,
o tempo não se rouba,
escoa-se como o frio
por uma camisola

até dentro da pele.
as aves migram
calmamente, eu
permaneço aqui

de guarda à água lisa
 que viu passar seus bandos
e em que hás de
 debruçar-te. 


Vasco Graça Moura
 

William Anderson Coffin, Summer, c. 1890.
 


Recomendação


Neste botânico setembro,
que pelo menos você plante
com eufórica
emoção ecológica
num pote de plástico
uma flor de retórica.


Carlos Drummond de Andrade
,
in Discurso de Primavera e Algumas Sombras, 1977

sexta-feira, 13 de setembro de 2024

"Quase elegia" - Poema de Carlos Drummond de Andrade


Augusto Bracet (Pintor e professor brasileiro, 1881-1960), Paisagem serrana, 1932.



Quase elegia


No tempo dos afonsinhos
havia um homem Fiúza.
Tinha uma cara qualquer
e a engenharia confusa.

Vivendo só na montanha,
respirava ares lavados.
Supunham-lhe mente arguta,
pensamentos elevados.

Saberia as buenas-artes,
seus planos eram geniais.
Tiraram-no então da toca,
levaram-no aos maiorais.

Queremos — clamam as massas —
esse para presidente.
Por trás daqueles bigodes
uma alma palpita e sente.

Fiúza baixou da serra
qual novo homem do destino.
Sucede que aqui embaixo
as coisas piam mais fino.

Enquanto ele oferta às massas
o seu sorriso contente,
eis que surge na surdina
Lacerda, e ferra-lhe o dente.

Corre o pobre à sua furna
e muitos anos passaram.
Tal como os dias e as noites,
as águas surdas rolaram.

Não rolam mais hoje em dia
e os cristãos morrem de sede.
Pois vamos (diz o Velhinho)
tirar Fiúza da rede.

Que venha sem mais tardança
a esta terra comburida.
E aqui, como um taumaturgo,
faça reflorir a vida.

Seria o Velho ou o Capeta
a voz que assim lhe falava?
Se a tentação nos visita,
a razão torna-se escrava.

Descer o alcantil é doce
depois de tanto jejum.
Se der certo, muito bem;
se não, o risco é nenhum.

Chega Fiúza à planície
e vê as casas sem água.
Vê as escolas fechadas
e a moça sem sua anágua,

pois não a pode lavar,
e o jeito é vestir biquíni.
E na soalheira a cigarra,
irónica, tanto mais zine.

Viu os doentes sem banho
e os curumins sem asseio.
E tudo era triste e sujo,
e o belo tornou-se feio.

Isso para mim é sopa,
diz o sábio a seu bigode.
Quero dinheiro graúdo,
comigo a seca não pode.

Deram-lhe toda a pecúnia,
ele tirou o casaco.
Pegou de uma escavadeira,
começa a abrir um buraco.

Lá bem no centro da terra
tem água que é um desperdício.
Dentro, se tanto, de um mês,
quem não se banha é por vício.

Um mês passou-se e outro mês,
sem a menor esperança.
Água é a que corre dos olhos,
numa fluência bem mansa.

Abre-se um poço e outro poço,
a terra inteira se empoça;
mas a bica no ora-veja,
e a multidão geme: “Nossa!”

Sobre a garganta abissal
dos poços, quem se debruça
enxerga o lodo, o calcário,
ou talvez a mula ruça.

Mas água? Na Paulo Afonso,
no Niágara talvez.
(Ou mineral, na garrafa,
como um ovo para endez.)

As procissões ad petendam
comovem Nosso Senhor.
E só assim se tem água,
por obra do seu Amor.

Então, nas altas esferas
se perde a santa paciência.
Fiúza, que fim levou
a tua hidráulica ciência?

E chamando Edgard, conferem-lhe
(a história já chega ao fim)
plenos poderes: até
sobre o caudilho Delfim.

Do pensamento às palavras,
ou desta ao mundo das obras,
uma verdade indiscreta
surge: são tudo manobras.

Volta Fiúza a seu serro,
lá vai sem deixar saudade.
E fica Edgard, nesta história
sem a menor novidade.

Um dia desses o sábio
ressurge, pleno de luz.
(Diz Comte que o homem se agita,
mas a tolice o conduz.)

Edgard que se previna
para levar marretada:
em vez de nova adutora,
que faz o Governo? Nada.

18-02-1954

Carlos Drummond de Andrade,
in Versiprosa, 1967.

 

sábado, 10 de agosto de 2024

"Os Velhos" - Poema de Carlos Drummond de Andrade


Charles Spencelayh (English genre painter and portraitist in the Academic style, 1865–1958),
Grandfather's and grandmother's treasures, 1945.
 


Os Velhos
 

Todos nasceram velhos — desconfio.
Em casas mais velhas que a velhice,
em ruas que existiram sempre — sempre
assim como estão hoje
e não deixarão nunca de estar:
soturnas e paradas e indeléveis
mesmo no desmoronar do Juízo Final. 

Os mais velhos têm 100, 200 anos
e lá se perde a conta.
Os mais novos dos novos,
não menos de 50 — enormidade.
Nenhum olha para mim.
A velhice o proíbe. Quem autorizou
existirem meninos neste largo municipal?
Quem infringiu a lei da eternidade
que não permite recomeçar a vida? 

Ignoram-me. Não sou. Tenho vontade
de ser também um velho desde sempre.
Assim conversarão
comigo sobre coisas
seladas em cofre de subentendidos
a conversa infindável de monossílabos, resmungos,
tosse conclusiva. 

Nem me veem passar. Não me dão confiança.
Confiança! Confiança!
Dádiva impensável
nos semblantes fechados,
nos felpudos redingotes,
nos chapéus autoritários,
nas barbas de milénios. 

Sigo, seco e só, atravessando
a floresta de velhos. 
 
 
Carlos Drummond de Andrade
, in 'Boitempo II'
São Paulo: Record, 1986.
 
 
Charles Spencelayh, Visitors Expected, s.d.
 
 
Charles Spencelayh, The Old Copyist, s.d.
 
 
Charles Spencelayh, The Latest News, s.d.
 
 
Charles Spencelayh, His Birthday, 1925.
 
 
 
Charles Spencelayh, Solitaire, s.d.
 
 
"Não honrar a velhice é demolir, de manhã, a casa onde vamos dormir à noite." 
 
"Ne pas honorer la vieillesse, c'est démolir le matin la maison où l'on doit coucher le soir."
 
Jean-Baptiste Alphonse Karr, "Une poignée de vérités: Mélanges philosophiques"‎
- Página 534, - Didier, 1853 - 344 páginas. 
 

quinta-feira, 6 de junho de 2024

"O Amor Antigo" - Poema de Carlos Drummond de Andrade



Adrien Moreau
(French genre and historical painter, sculptor and illustrator, 1843–1906),
  The Proposal, 1878, oil on canvas. Clark Art Institute, Williamstown, Massachusetts.
 
 

O Amor Antigo

 
O amor antigo vive de si mesmo,
não de cultivo alheio ou de presença.
Nada exige nem pede. Nada espera,
mas do destino vão nega a sentença.

O amor antigo tem raízes fundas,
feitas de sofrimento e de beleza.
Por aquelas mergulha no infinito,
e por estas suplanta a natureza.

Se em toda a parte o tempo desmorona
aquilo que foi grande e deslumbrante,
o antigo amor, porém, nunca fenece
e a cada dia surge mais amante.

Mais ardente, mas pobre de esperança.
Mais triste? Não. Ele venceu a dor,
e resplandece no seu canto obscuro,
tanto mais velho quanto mais amor.


Carlos Drummond de Andrade,
 in 'Amar se Aprende Amando', 1985
 
 
'Amar se aprende amando' de Carlos Drummond de Andrade.
Capa: Raul Loureiro. Editora: Companhia das Letras


'Amar se aprende amando' permite como nenhum outro livro de Drummond um percurso pelas diferentes formas que o sentimento amoroso assume em sua poética. Do amor sublime àquele que se atinge pelo convívio ideal, da fusão dos amantes em unidade perfeita à celebração da amizade, o que encontramos nos 68 poemas que compõem este volume é o fruto do esforço do poeta em conciliar sentimento e experiência.

Se o amor pode ser aprendido pela prática, como afirma o título do livro, a concretude do quotidiano permeia o sentimento romântico, dando a conhecer a dimensão política deste. Ao anseio do amor ideal somam-se as referências do contexto histórico do país, que vivia sob um regime militar, como deixa claro o poeta nos versos "O feijão é de todos, em princípio,/ tal como a liberdade, o amor, o ar./ Mas há que conquistá-lo a teus irmãos". Inclui posfácio de Fabio Cesar Alves. (daqui)

terça-feira, 28 de maio de 2024

"Qualquer Tempo" - Poema de Carlos Drummond de Andrade


Friedrich Wilhelm Schadow (German Romantic painter, 1789–1862), Self-portrait with his brother
Rudolph Schadow (German sculptor, 1786–1822) and Bertel Thorvaldsen (Danish sculptor, 1770–1844),
 1814, oil on canvas, 89 cm x114 cm, Alte Nationalgalerie. 



Qualquer Tempo
 
 
Qualquer tempo é tempo.
A hora mesma da morte
é hora de nascer.

Nenhum tempo é tempo
bastante para a ciência
de ver, rever.

Tempo, contratempo
anulam-se, mas o sonho
resta, de viver. 


Carlos Drummond de Andrade,
 in 'A Falta que Ama', 1968