domingo, 6 de setembro de 2026

"Luís, o poeta salva a nado o poema" - Poema de Almada Negreiros



Francisco José Resende
(Pintor romântico, escultor e professor de 
Belas Artes português, 1825–1893), Camões salvando "Os Lusíadas", 1867,
Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado, Lisboa.


[Descrição: Pintura de História. Num cenário de tempestade, vê-se a figura magra a corpo inteiro do poeta Luís de Camões, tentando subir para um grande rochedo, de olhar no céu, agarrando-se com a mão esquerda numa esquina e pousando o pé esquerdo numa reentrância, tendo o outro pé esticado à frente, equilibrando-se num madeiro. Junto do peito, segura firmemente com a mão direita o manuscrito de "Os Lusíadas". No fundo, vê-se uma tábua boiando num mar revolto e o céu nublado. Composição romântica que encena um episódio mítico da vida do poeta: Camões terá salvo a sua obra-prima durante um violento naufrágio no delta do rio Mékong.] (daqui)
 
 
Luís, o poeta salva a nado o poema


Era uma vez
um português
de Portugal.
O nome Luís
há de bastar
toda a nação
ouviu falar.
Estala a guerra
e Portugal
chama Luís
para embarcar.
Na guerra andou
a guerrear
e perde um olho
por Portugal.
Livre da morte
pôs-se a contar
o que sabia
de Portugal.
Dias e dias
grande pensar
juntou Luís
a recordar.
Ficou um livro
ao terminar
muito importante
para estudar.
Ia num barco
ia no mar
e a tormenta
vá d’estalar.
Mais do que a vida
há de guardar
o barco a pique
Luís a nadar.
Fora da água
um braço no ar
na mão o livro
há de salvar.
Nada que nada
sempre a nadar
livro perdido
no alto mar.
– Mar ignorante
que queres roubar?
a minha vida
ou este cantar?
A vida é minha
ta posso dar
mas este livro
há de ficar.
Estas palavras
hão de durar
por minha vida
quero jurar.
Tira-me as forças
podes matar
a minha alma
sabe voar.
Sou português
de Portugal
depois de morto
não vou mudar.
Sou português
de Portugal
acaba a vida
e sigo igual.
Meu corpo é Terra
de Portugal
e morto é ilha
no alto mar.
Há portugueses
a navegar
por sobre as ondas
me hão de achar.
A vida morta
aqui a boiar
mas não o livro
se há de molhar.
Estas palavras
vão alegrar
a minha gente
de um só pensar.
À nossa terra
irão parar
lá toda a gente
há de gostar.
Só uma coisa
vão olvidar:
o seu autor
aqui a nadar.
É fado nosso
é nacional
não há portugueses
há Portugal.
Saudades tenho
mil e sem par
saudade é vida
sem se lograr.
A minha vida
vai acabar
mas estes versos
hão de gravar.
O livro é este
é este o cantar
assim se pensa
em Portugal.
Depois de pronto
faltava dar
a minha vida
para o salvar.

Madrid, 1931

Almada Negreiros
(1893–1970)
in Obras Completas – Poesia


[Este poema "Luís, o Poeta Salva a Nado o Poema" de José de Almada Negreiros é uma homenagem intensa e simbólica a Luís de Camões, autor d’Os Lusíadas, e, mais amplamente, à ligação entre a identidade portuguesa e a sua literatura.] 

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