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domingo, 18 de janeiro de 2026

"O Inverno" - Poema de Eugénio de Andrade


 
Giulio Beda
(Italian-German painter, 1879-1954), "Wieninger Street in Winter", 1908.


O Inverno


Velho, velho, velho
Chegou o Inverno.

Vem de sobretudo,
Vem de cachecol,
O chão onde passa
Parece um lençol.

Esqueceu as luvas
Perto do fogão:
Quando as procurou,
Roubara-as um cão.

Com medo do frio
Encosta-se a nós:
Dai-lhe café quente
Senão perde a voz.

Velho, velho, velho.
Chegou o Inverno.


Eugénio de Andrade,
in "Aquela nuvem e outras", 1986.
 
 

Giulio Beda, "Winterlicher Weg", 1907.


Neve ou não neve
onde há amigos
a vida é leve

 Alice Ruiz, Haikais

sábado, 17 de janeiro de 2026

"Janeiro" - Poema de W. S. Merwin



Auguste Herbin (French painter of modern art, 1882–1960),
The Roofs of Paris in the Snow, 1902.



Janeiro


E assim depois de semanas de chuva
à noite as estrelas de inverno
tão mais distantes no céu
que não tivemos olhos para ver
seguem forjando na longínqua luz
os elementos pesados
que quando as estrelas se vão
voam pelo ar como pó muitas vezes
mais fino que um fio de cabelo
e se reconhecem
na escuridão viajando
em grande velocidade e tornando-se
nossos corpos no nosso tempo
olhando juntos para cima após
a chuva na noite fria


W. S. Merwin

Trad. de Nelson Santander


***

January 
(original)

So after weeks of rain
at night the winter stars
that much farther in heaven
without our having seen them
in far light are still forming
the heavy elements
that when the stars are gone
fly up as dust finer
by many times than a hair
and recognize each other
in the dark traveling
at great speed and becoming
our bodies in our time
looking up after rain
in the cold night together


W. S. Merwin,
in "The Pupil: Poems", 2001.



Auguste Herbin, Snow at Haut Isle, 1906.


"Na natureza não existem prémios, nem sequer punições. Existem consequências!"


James McNeill Whistler (Pintor norte-americano, 1834–1903),
Citado em Collins Quotation Finder‎ - Página 472. Publicado por HarperCollins, 2001 - 829 páginas.
 

segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

"Rosas de Inverno" - Poema de Camilo Pessanha



Aldo Parmigiani (Italian painter, 1935–2024), Rosas, s.d.



Rosas de Inverno


Corolas, que floristes
Ao sol do inverno, avaro,
Tão glácido e tão claro
Por estas manhãs tristes.

Gloriosa floração,
Surdida, por engano,
No agonizar do ano,
Tão fora da estação!

Sorrindo-vos amigas,
Nos ásperos caminhos,
Aos olhos dos velhinhos,
Às almas das mendigas!

Desse Natal de inválidos
Transmito-vos a bênção,
Com que vos recompensam
Os seus sorrisos pálidos.


Camilo Pessanha,
in "Clepsidra e outros poemas", 1962.




Aldo Parmigiani, "La rosa bianca", 2012.



"Você pode se queixar porque a rosa tem espinhos ou se alegrar porque os espinhos têm rosas."

Tom Wilson, citado in  Altered You!: Alter Your Style ... Your Stuff ... Your Space! - Página 79,
 Karin Buckingham - Kalmbach Books, 2013 - 96 páginas.
 

domingo, 21 de dezembro de 2025

"Inverno" - Poema de Jorge de Lima



Geza Heller
(Pintor, artista gráfico, desenhista, arquiteto e gravador 
húngaro-brasileiro, 1902-1992), Paisagem cultivada, 1972.

Inverno


Zefa, chegou o inverno!
Formigas de asas e tanajuras!
Chegou o inverno!
Lama e mais lama
chuva e mais chuva, Zefa!
Vai nascer tudo, Zefa,
Vai haver verde,
verde do bom,
verde nos galhos,
verde na terra,
verde em ti, Zefa,
que eu quero bem!
Formigas de asas e tanajuras!
O rio cheio,
barrigas cheias,
mulheres cheias, Zefa!
Águas nas locas,
pitus gostosos,
carás, cabojes,
e chuva e mais chuva!
Vai nascer tudo:
milho, feijão,
até de novo
teu coração, Zefa!
Formigas de asas e tanajuras!
Chegou o inverno!
Chuva e mais chuva!
Vai casar, tudo,
moça e viúva!
Chegou o inverno!
Covas bem fundas
pra enterrar cana;
cana caiana e flor de Cuba!
Terra tão mole
que as enxadas
nela se afundam
com olho e tudo!
Leite e mais leite
pra requeijões!
Cargas de imbu!
Em junho o milho,
milho e canjica
pra São João!
E tudo isto, Zefa...
E mais gostoso
que isso tudo:
noites de frio,
lá fora o escuro,
lá fora a chuva,
trovão, corisco,
terras caídas,
corgos gemendo,
os caborés gemendo,
os caborés piando, Zefa!
Os cururus cantando, Zefa!
Dentro da nossa
casa de palha:
carne-de-sol
chia nas brasas,
farinha d'água,
café, cigarro,
cachaça, Zefa...
...rede gemendo...

Tempo gostoso!
Vai nascer tudo!
Lá fora a chuva,
chuva e mais chuva,
trovão, corisco,
terras caídas,
e vento e chuva,
chuva e mais chuva!
Mas tudo isso, Zefa,
vamos dizer,
só com os poderes
de Jesus Cristo!


Jorge de Lima, in Melhores Poemas.
Global Editora, 2ª edição, 2001.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2024

"Sonho de uma tarde de inverno" - Poema de João Guimarães Rosa



Karl Schmidt-Rottluff (1884–1976, German expressionist painter and printmaker;
he was one of the four founders of the artist group Die Brücke), Garden in Winter, 1969.



Sonho de uma tarde de inverno

 
Fiquei, longamente, a ler, no frio
da tarde quieta,
uma crónica do tempo merovíngio,
dos monges da Abadia de Cluny.
E um rádio gritante trouxe pela janela,
todo o banzo e o azougue de um samba sensual:
voo de cantáridas tontas
no hálito de incenso de uma nave,
fenestrada de ogivas e ventanas
e toda colorida de vitrais…
E no vago torpor do meu subsonho,
vi como trabalhava,
extasiado, na penumbra
parda de um meio inverno,
um monge
rendilhador de joias de ouro,
discípulo, talvez, de Santo Elói:
depois de modelar um cimo de coroa,
com Virtudes de auréola
em meio de anjos louros,
e de cinzelar,
na pasta de sol frio do rebordo
de um anel real,
uma rosácea, um gládio e um globo,
deixou errar seus dedos e seus sonhos,
e fez crescer, no jalde de um cibório,
o relevo de uma Vénus
com um Cupido ao solo…

E era tão bela a sua ideia de ouro,
e foi tão casto e cristão o beijo longo
que ele pôs na deusa,
que a ténue poeira flava do seu êxtase
de pronto se esvaiu.

E então, febril,
murmurando, constante, um exorcismo,
santificando traços, disfarçando os nus,
fez depressa da Vénus uma Virgem,
e do pagãozinho alado um menino Jesus.
Depois, sorrindo, o santo joalheiro
rezou, com outro beijo, a sua contrição…

E mil diabinhos crepitaram nas chamas,
rubros, rindo,
porque agora o seu beijo
fora ardente e pagão.
 
 
João Guimarães Rosa, do livro 'Magma'
Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997, p. 95-96.

domingo, 22 de dezembro de 2024

"Paisagens de Inverno" - Poema de Camilo Pessanha

 

Edward Cucuel (American Impressionist artist, 1879–1954),
Girl with fur coat, Bad Tolz. Oil on canvas, 100 x 90 cm.



Paisagens de Inverno 

I

Ó meu coração, torna para trás.
Onde vais a correr, desatinado?
Meus olhos incendiados que o pecado
Queimou - o sol! Volvei, noites de paz.

Vergam da neve os olmos dos caminhos.
A cinza arrefeceu sobre o brasido.
Noites da serra, o casebre transido...
Ó meus olhos, cismai como os velhinhos.

Extintas primaveras evocai-as:
— Já vai florir o pomar das macieiras.
Hemos de enfeitar os chapéus de maias. —

Sossegai, esfriai, olhos febris.
— E hemos de ir cantar nas derradeiras
Ladainhas... Doces vozes senis...

II

Passou o Outono já, já torna o frio...
— Outono de seu riso magoado.
Álgido Inverno! Oblíquo o sol, gelado...
— O sol, e as águas límpidas do rio.

Águas claras do rio! Águas do rio,
Fugindo sob o meu olhar cansado,
Para onde me levais meu vão cuidado?
Aonde vais, meu coração vazio?

Ficai, cabelos dela, flutuando,
E, debaixo das águas fugidias,
Os seus olhos abertos e cismando...

Onde ides a correr, melancolias?
— E, refratadas, longamente ondeando,
As suas mãos translúcidas e frias...


Camilo Pessanha
, in 'Clepsidra'
 

quinta-feira, 28 de dezembro de 2023

"Ode ao Inverno" - Poema de Pablo Neruda



Edvard Munch
 (Norwegian painter, 1863–1944), 'Building Workers in the Snow', 1920.
Óleo sobre tela, 71 x 100 cm, Munch Museum, Oslo, Noruega.


Ode ao Inverno 


Inverno, algo entre nós
existe,
colinas sob a chuva,
galopes
no vento,
janelas
onde se amontoaram as tuas vestes,
a tua camisa de ferro,
as tuas calças molhadas,
o teu cinturão de couro transparente. 

Inverno,
para alguns
és neblina
sobre as represas,
clamorosa clâmide,
rosa branca,
corola de neve,
mas para mim, Inverno,
és
um cavalo,
sobe-te do focinho a névoa,
gotas de chuva caem-te
da cauda,
rajadas elétricas
são as tuas crinas,
galopas
desenfreadamente
salpicando de lama
o viandante,
olhamos
e já passaste,
não te vemos a cara,
não sabemos
se são de água de mar
ou de cordilheira
os teus olhos, passaste
como a cabeleira
de um relâmpago,
não ficou ilesa uma árvore sequer,
as folhas
amontoaram-se
no solo,
os ninhos
ficaram esgarçados
no cimo das copas,
enquanto tu galopavas
na luz moribunda do planeta. 

És frio, inverno,
e os teus cachos
de neve negra e água
no telhado
perfuram
as casas
como agulhas,
ferem como facas oxidadas.
Nada te detém. 

Começam
os ataques de tosse, saem as crianças
com os sapatos encharcados,
nas camas a febre
é como
a vela dum navio
incendiada,
a cidade dos pobres
navegando para a morte,
a mina
escorregadia,
a batalha do vento.

Desde então,
inverno, passei a conhecer
a tua esburacada roupa
e o silvo
da tua buzina entre as araucárias
quando clamas
e choras,
cavaca na chuva louca,
desatado trovão
ou coração de neve.

O homem
na areia agigantou-se,
cobriu-se de tormenta,
o sal e o sol vestiram
de seda salpicada
o corpo da nova nadadora. 

Mas
quando chega o inverno
o homem
transforma-se num pequeno novelo
que caminha
com funerário guarda-chuva,
cobre-se
com asas impermeáveis,
torna-se húmido
e mole
como uma papa, refugia-se
nas igrejas,
ou lê notícias necrológicas. 

Entretanto,
em cima,
entre os carvalhos,
na cabeça das nevadas,
no litoral,
tu reinas
com a tua espada,
com o teu gelado violino,
com as plumas que esvoaçam
do teu peito indomável. 

Qualquer dia
encontrar-nos-emos,
quando
a grandeza
da tua formosura
não se abater
sobre o homem,
quando
deixares de perfurar
o teto
do meu irmão,
quando
puder amparar a mais alta
brancura do teu espaço
sem ser mordido,
passarei saudando
a tua majestade desatada. 

Descobrirei a cabeça
sob a mesma chuva
da minha infância
porque confiarei
nas tuas águas:
elas lavam o mundo,
arrastam os papéis,
trituram a pequena
imundice dos dias,
lavam
o rosto da terra,
as tuas mãos lavam,
e descem até ao fundo
lá onde
a primavera
dorme. 

Tu fá-la estremecer, feres
as suas pernas transparentes,
desperta-la, molha-la,
começa a trabalhar,
varre as folhas mortas,
reúne a sua fragrante
mercadoria,
sobe as escadas
das árvores
e de repente vemo-la
no cimo
com o seu novo vestido
e os seus antigos olhos verdes.
 

Pablo Neruda (1904–1973)
in "Odes Elementares", 1954.
Tradução de José Bento
 
 
Edvard Munch, 'From Saxegårdsgate', c. 1882, oil on canvas, 
Lillehammer Art Museum, Lillehammer 


"Que fogo poderia se igualar a um raio de sol num dia de inverno?"
 
"What fire could ever equal the sunshine of a winter's day [...]"

Henry David Thoreau
, Excursions - Página 115 - Ticknor and Fields, 1863
 

domingo, 21 de janeiro de 2018

"O Inverno que vem" - Poema de Jules Laforgue


 
Charles Webster Hawthorne (American painter and teacher,
1872–1930), Rainy Day, Provincetown


O Inverno que vem


Bloqueio sentimental! Despachos do Levante!...
Oh, cair da chuva! Oh! cair da noite,
Oh! o vento!...
O Dia de Todos os Santos, o Natal e o Ano Entrante,
Oh! na garoa, todos as minhas chaminés!...
De fábricas...

Não se pode mais sentar, todos os bancos, molhados;
Creia-me, tudo acabado até o ano que vem,
Todos os bancos, molhados, com os bosques embotados,
E assim as trompas sopraram ton ton, sopraram ton taine!...

Ah! nuvens vindas lá da Mancha,
Nosso último domingo, vocês mancham.

Está garoando;
As teias de aranha na floresta molhada
Vergam sob as gotas e ficam aruinadas.
Sóis plenipotenciários da lavoura
Em fontes de ouro
Dos espetáculos agrículas,
Onde estais sepultados? 
Esta tarde um sol que morre
Jaz no cume do morro
Jaz sobre o flanco
Nas giestas, sobre um manto.
Um sol branco 
Como tabuleta de boteco
Sobre uma liteira de giestas amarelas,
As giestas amarelas do outono.
E soam-lhe as trompas!
Que ele retorne...
Que a si próprio retorne!
Taïaut! Taïaut! e hallali!
Ó triste antífona, chegas ao fim!...
E fingem-se em folia!...
Ele alí jaz, como uma glândula arrancada de um pescoço,
E fremente, 
sem ninguém presente!...

Vamos, vamos e hallali!
É o Inverno conhecido que se avizinha;
Oh! as curvas das grandes estradas,
E sem o pequeno Chapeuzinho Vermelho que caminha!...
Oh! seus sulcos dos carros do outro mês,
Subindo em trilhas quixotescas
Rumo às patrulhas das nuvens em derrota
Que o vento maltrate os apriscos transatlânticos!...
Aceleremos, aceleremos, é a estação agora conhecida.

E o vento, nesta noite, fez das suas!
Ó ninhos, ó ruínas, ó jardins desgados!
Meu coração e meu sono: ó ecos de machados!...

Todos estes ramos ainda tinham folhas verdes,
Sob as plantas apenas um esterco de folhas mortas;
Folhas, folíolos, que vos leve um bom vento
Para os charcos, aos enxames,
Ou para o fogo dos couteiros,
Ou os enxergões das ambulâncias
Para os soldados longe da França.

É a estação, é a estação, a ferrugem invade as massas,
Rói a ferrugem em seus spleens quilométricos
Os fios telegráficos das grandes estradas onde nada passa.

As trompas, as trompas, as trompas – melancólicas!...
Melancólicas!...
Seguem, alterando o tom,
Alterando o tom e a música 
Ton ton, ton taine, ton ton!...
As trompas, as trompas, as trompas!...
Seguiram para o vento Norte.

Não posso deixar tal tom: que ecos!...
É a estação, é a estação, adeus vindimas!...
Com uma calma de anjo chegam as chuvas lá de cima.
Adeus vindimas e adeus a todos os cestos,
Todas os cestos Watteau feixes sob os castanheiros.
É a tosse, no dormitório da escola, que reentra,
É a tisana sem fogão,

É a tísica pulmonar contristando o quarteirão,
E toda a miséria dos grandes centros.

Milho, lanifícios, borracha, farmácia, sonhar,
Cortinas abertas nas varandas à beira-mar
Frente ao oceano dos telhados dos bairros,
Lâmpadas, estampas, chá, petits-fours,
Não sereis meus únicos amores!...
(Oh, e aliás conheces, além dos pianos,
O sóbrio e vesperal mistério hebdomadário
Das estatísticas sanitárias
Nos jornais?)

Não, não! é a estação e o planeta cómico!
Que a ventania, que a ventania
Desfia 
Os chinelos, pois o tempo se tricota!
É a estação, oh dilacerações! é a estação!
Todos os anos, todos os anos,
Tentarei em coro dar a nota.


em "Poetas franceses do século XIX". 
Tradução José Lino Grünewald


Charles Webster HawthorneRainy Day, San Antonio


"Enquanto o poço não seca, não sabemos dar valor à água."

(Thomas Fuller)


terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

"Manhã de Inverno" - Poema de Machado de Assis


Jozef Israëls (Dutch painter, 1824–1911), We Grow Old, 1878.



Manhã de Inverno


Coroada de névoas, surge a aurora 
Por detrás das montanhas do oriente; 
Vê-se um resto de sono e de preguiça, 
Nos olhos da fantástica indolente. 

Névoas enchem de um lado e de outro os morros 
Tristes como sinceras sepulturas, 
Essas que têm por simples ornamento 
Puras capelas, lágrimas mais puras. 

A custo rompe o sol; a custo invade 
O espaço todo branco; e a luz brilhante 
Fulge através do espesso nevoeiro, 
Como através de um véu fulge o diamante. 

Vento frio, mas brando, agita as folhas 
Das laranjeiras úmidas da chuva; 
Erma de flores, curva a planta o colo, 
E o chão recebe o pranto da viúva. 

Gelo não cobre o dorso das montanhas, 
Nem enche as folhas trémulas a neve; 
Galhardo moço, o inverno deste clima 
Na verde palma a sua história escreve. 

Pouco a pouco, dissipam-se no espaço 
As névoas da manhã; já pelos montes 
Vão subindo as que encheram todo o vale; 
Já se vão descobrindo os horizontes. 

Sobe de todo o pano; eis aparece 
Da natureza o esplêndido cenário; 
Tudo ali preparou co’os sábios olhos 
A suprema ciência do empresário. 

Canta a orquestra dos pássaros no mato 
A sinfonia alpestre, — a voz serena 
Acordo os ecos tímidos do vale; 
E a divina comédia invade a cena.


Machado de Assis, in Falenas, 1870.
 

domingo, 7 de dezembro de 2014

"Inverno" - Poema de Francisco Joaquim Bingre


 


Inverno


Já na quarta estação final da vida 
Estou, do triste Inverno rigoroso. 
Fustigado do tempo borrascoso, 
Com a saraiva das asas sacudida. 

Gelada tenho a fronte encanecida, 
O sangue frio, pálido e soroso. 
Compresso está o físico nervoso 
E a máquina de todo enfraquecida. 

Nesta quadra da fúnebre tristeza, 
Que alegria terei na sombra escura, 
Se enlutada se vê a Natureza? 

Só, com os frutos da má agricultura, 
Vago triste no espaço da incerteza 
De que a Morte me dê melhor ventura. 






"A sabedoria dos velhos é um grande engano. Eles não se tornam mais sábios,
 mas sim mais prudentes."