sábado, 8 de agosto de 2026

"Tu és parte da minha existência" - Texto de Charles Dickens



William Powell Frith (English painter, 1819–1909), "Charles Dickens in his study"
(English writer and journalist, 1812–1870), 1859, Victoria and Albert Museum.



Tu és parte da minha existência

 
Tu és parte da minha existência, uma parte de mim mesmo. Tu tens estado presente em cada linha que eu li, desde que aqui cheguei, o rapaz grosseirão cujo pobre coração tu magoaste até nessa altura. Tu tens estado em tudo para onde eu olhava desde aí - no rio, nas velas dos navios, nos pântanos, nas nuvens, na luz, na escuridão, no vento, na floresta, no mar, nas ruas. Tens sido a personificação de cada fantasia graciosa com que a minha mente alguma vez se tornou familiarizada. As pedras com que as mais fortes construções de Londres são feitas, não são mais reais, ou mais impossíveis de deslocar com as mãos, do que a tua presença e influência têm sido para mim, por toda a parte, e continuará a ser. Estella, até à última hora da minha vida, farás sempre parte da minha personalidade, parte do pouco de bom que há em mim, e parte do mal. Mas nesta separação eu associo-te apenas com o bom, e irei fielmente manter-te associada a isso para sempre, pois tu fizeste-me muito mais bem do que mal, deixa-me ficar agora com o meu sofrimento acentuado. Oh Deus te abençoe, Deus te perdoe! 
Primeira página da primeira edição do livro, de 1861
 

SINOPSE 
de
«Grandes Esperanças»
 
O jovem órfão Philip Pirrip, de todos conhecido por Pip foi criado pela sua irmã que vive com o ferreiro Joe numa pequena povoação perto de Kent em meados do século XIX. Um dia Pip é convidado pela misteriosa Miss Havisham, uma velha senhora proprietária da mais rica mas decrépita mansão de todo o condado. A sua missão é ser o companheiro de Estella, a jovem protegida de Miss Havisham mas a realidade é bem diferente do que aparenta: Pip é a mera cobaia para uma Estella que está a ser treinada por Miss Havisham como a derradeira vingança contra todos os homens cujo objetivo é "partir corações".

«Grandes Esperanças» foi o maior sucesso editorial de Dickens e marcou o imaginário de gerações de leitores. Romance de formação que acompanha o protagonista Pip dos últimos anos da sua infância à idade adulta é também uma obra portentosa sobre as relações entre homens e mulheres e o ódio e o amor que as atravessam; um retrato de uma época e de uma moral que é ainda a nossa; ao mesmo tempo romance de aventuras, história romântica, meditação filosófica sobre os valores que nos regem e, acima de tudo, sobre as esperanças que temos e que de nós têm para o futuro. (daqui)



William Powell Frith, "The Signal", 1858



"A fé – um sexto sentido – transcende o intelecto sem contradizê-lo."

Mahatma Gandhi
i (1869–1948)
 
 

Mahatma Gandhi, 1931, by Elliott & Fry


Mohandas Karamchand Gandhi (Mahatma Gandhi), apóstolo da não violência e líder da causa independentista indiana, nasceu a 2 de outubro de 1869. O seu pai desempenhava funções de magistrado local e, com o objetivo último de seguir idêntica carreira, Gandhi foi para Londres cursar Direito, aí permanecendo de 1888 a 1891.
De volta à Índia, teve um ensaio pouco auspicioso na advocacia, o que o levou, em 1893, a assinar um contrato válido por um ano com uma empresa indiana sediada no Natal, uma província da África do Sul. Aí teve Gandhi consciência plena, pela primeira vez, de como os preconceitos raciais cerceavam a liberdade e corrompiam a justiça.
Começou então a sua atividade política, em defesa da minoria indiana naquele país. Acabaria por ficar na África do Sul muito mais tempo do que previra, só regressando definitivamente à Índia em 1914.
Por essa altura a vivência sul-africana levara-o a amadurecer o seu posicionamento político-ideológico. No regresso ao país natal, Gandhi era já um homem seguro das suas opiniões, dos seus valores e objetivos. Ao mesmo tempo, tivera oportunidade de aprofundar a sua opção de fé (afinal de contas, a verdadeira matriz do seu pensamento), tendo evoluído para uma forma de Hinduísmo que propunha um ideal de vida austera, levada com desprendimento dos bens terrenos, com humildade e equanimidade.
Foi, de facto, na religião que colheu os princípios inspiradores de toda a sua ação política. De abnegação e sacrifício, aliás, daria largas provas ao longo dos anos. Entretanto, Gandhi ia manifestando o seu desacordo perante os excessos que o governo colonial inglês, do seu ponto de vista, cometia.
A partir de 1920, nomeadamente, ocupou o lugar cimeiro no Congresso Nacional Indiano, e pôde então pôr em prática a sua estratégia de ação política através de um programa de oposição pacífica à potência colonizadora. Esse programa previa um boicote às manufaturas inglesas e uma atitude de desobediência civil por parte dos indianos nas mais variadas instituições do país, tendo gerado uma onda de adesão massiva no país.
Mais tarde o projeto nacional de Gandhi incluiria ainda objetivos educacionais e o desenvolvimento da produção artesanal, realizada por cada um, autonomamente e em autossuficiência, no seu lar (ele próprio se encarregava da produção das vestes que usava).
O longo caminho a percorrer não deixaria de ser atribulado: enquanto apresentava a resistência passiva como uma estratégia política e uma força moral, Gandhi teve que enfrentar, em certos momentos, a violência no país (da parte dos ingleses, mas também da parte de indianos e muçulmanos) e conheceu até o cárcere; por mais de uma vez, ainda, teve que recorrer a jejuns como meio de pressão para acabar com tumultos entre a população.
Em 1934 afastou-se do partido, mas nessa altura as suas linhas de ação haviam já deixado uma marca indelével na consciência nacional indiana.
Em 1947 deu-se a independência, obtida contudo em moldes inesperados: o território do país era dividido, surgindo o Paquistão como Estado muçulmano separado. Apenas alguns meses mais tarde, em janeiro de 1948, Gandhi foi assassinado a tiro por um fanático hindu.
A admiração dos seus compatriotas valera-lhe já o epíteto "Mahatma", a grande alma. A admiração de muitos outros homens asseguraria a sobrevivência dos seus valores e métodos de ação, sobrevivência que bem se revela, por exemplo, no percurso de Martin Luther King, o conhecido ativista norte-americano dos direitos cívicos dos negros. (daqui)
 
 

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