Mostrar mensagens com a etiqueta Chuva. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Chuva. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 15 de junho de 2026

"Dentro da Vida" - Poema de Gastão Cruz

 

Jeff Rowland (British contemporary painter, 1964–2018)


Dentro da Vida


Não estamos preparados para nada:
certamente que não para viver
Dentro da vida vamos escolher
o erro certo ou a certeza errada

Que nos redime dessa magoada
agitação do amor em que prazer
nem sempre é o que fica de querer
ser o amador e ser a coisa amada?

Porque ninguém nos salva de não ser
também de ser já nada nos resgata
Não estamos preparados para o nada:
certamente que não para morrer


Gastão Cruz

[Poeta, crítico literário, escritor, encenador e tradutor português, 1941–2022]

***
 
Vida e obra de Jeff Rowland

Jeff Rowland (Romantic painter of the rain, 1964–2018

Jeff Rowland was born in 1964 – he recalled being inspired to create art from a young age, as he watched his grandmother working with oil paints. He studied art at Newcastle Tyneside college, and made his first attempt at becoming a self-employed professional artist in 1984. After struggling to find success, he was determined to hone his focus and skills, and studied advertising and illustration at the Newcastle School of Design.
Following this, Rowland was able to create a collection that earned him great success, exhibiting in Northumberland and then in London. Increasing sales enabled him to continue working in his desired career as a full-time artist.
Rowland was known for the commitment he showed to his work, and to creating art that was truly authentic. He immersed himself in the scenes he created – for example, before painting a series of scenes featuring fishermen and trawlers, he went out on a north sea trawler to experience the work first hand.
In the latter years of his life, Rowland was based in the North East of England, where he was able to find inspiration for his ongoing works. He died in 2018 at the age of 55, following a battle with leukaemia. (daqui)
 
 

Jeff Rowland, 'A Perfect Moment'
 
 
  
Jeff Rowland 

 
 
Jeff Rowland, 'Reunited'
 
 
Jeff Rowland
 

 
Jeff Rowland, 'And Then You Kissed Me'
 
 
 
Jeff Rowland, 'You Kept Me Warm'
  


Jeff Rowland, 'Goodnight Sweetheart'


"A única linguagem verdadeira no mundo é o beijo."

 
Alfred de Musset
[Poeta, novelista e dramaturgo francês, 1810–1857]
 

quinta-feira, 16 de janeiro de 2025

"Chuva e Sol" - Poema de Raimundo Correia



Norman Garstin
(Irish artist, teacher, art critic and journalist associated with the Newlyn School 
 of painters, 1847–1926), The Rain It Raineth Every Day, 1889, Penlee House.
 
 
 
Chuva e Sol 

 
Agrada à vista e à fantasia agrada
Ver-te, através do prisma de diamantes
Da chuva, assim ferida e atravessada
Do sol pelos venábulos radiantes...

Vais e molhas-te, embora os pés levantes:
– Par de pombos, que a ponta delicada
Dos bicos metem nágua e, doidejantes,
Bebem nos regos cheios da calçada...

Vais, e, apesar do guarda-chuva aberto,
Borrifando-te colmam-te as goteiras
De pérolas o manto mal coberto;

E estrelas mil cravejam-te, fagueiras,
Estrelas falsas, mas que assim de perto,
Rutilam tanto, como as verdadeiras...


Raimundo Correia, Versos e Versões, 1887.
In "Poesias completas". Org. pref. e notas Múcio Leão. 
São Paulo: Ed. Nacional, 1948.

 

Norman Garstin, A Steady Drizzle, Unknown date. Oil on canvas.


"... e eu imagino uma velhinha por trás da vidraça, jogando paciência com esta chuva tão sem pressa..." 


Mário Quintana
, in Poemas para a Infância.
Poesia Completa, RJ: Editora Nova Aguilar, 2005 
 

domingo, 5 de janeiro de 2025

"Tarde cinzenta" - Poema de Euler Cruz


 
Vincent van Gogh (Dutch Post-Impressionist painter, 1853–1890), 'Rain', 1889,
Philadelphia Museum of Art
  

 Tarde cinzenta


Tarde cinzenta
névoa.

Intensa
a chuva cai sobre as copas
mas pelo crivo das ramas
asperge o chão devagar.

De onde estou
vejo as gotas que insinuam-se
por folhas secas
raízes
como insetos de cristal.

Me aquieto aos poucos
me amanso
e do silêncio lanço
minha alma
aos líquidos fios que fluem.

Qual finos fusos a levam
lentos
pelos poros do solo
aos fundos
escuros lençóis.

Ali repousa minha alma
longamente adormentada
até que o sono a leva em sonhos
a nascente em meio à mata
e a faz ver acima
no azul
entre copas
a mais doce e fina luz do sol.

E à sombra do verde
em meio a pedras e troncos
em fria senda de areia
clara
minha alma corre em córregos
forma rios
e
serena
chega ao mar.

Visita os recifes
vê arraias
águas-vivas
peixes azuis
hipocampos
e se encanta com as estrelas
da noite das profundezas
a que desce
a sonhar.

Repousa minha alma
longamente
no oceano
até que alguma corrente
a faz emergir como espuma
sobre as ondas
a surfar.

Então
o vento a recolhe
a faz vapor e nuvem
a sopra até as montanhas
onde pura
renovada
cai em chuva sobre as copas
e orvalha o chão devagar
(meu corpo
já o sinto solo
folha tronco galho
areia pedra escolho
porto parte
vento
mar).


Euler C. Cruz, in "Ave Terra", 2000 


 
"Desmineração" de Euler Cruz
Mazza Edições 
 
 
Sinopse


"Desmineração" reúne em um só volume o poema que dá título à obra e a segunda edição de "Ave Terra", originalmente publicado no ano 2000. O conjunto trata de temas relativos à causa ambiental, em poemas que tentam aprofundar, com sensibilidade e argúcia, a reflexão sobre a trajetória de crescente destruição do nosso planeta. 
Os impactos negativos da mineração são tomados, na primeira parte da obra, como símbolo e exemplo de todas as atividades humanas que são lesivas à natureza. Assim, o autor toma a “mina como imagem do mundo / que estamos a destruir / mês a mês, noite e dia” e afirma que “é preciso desminerar / nosso planeta, nossa vida / desmineralizar a mente / e o petrificado coração”. 
Em tempos de mudanças climáticas, poluição excessiva e mortes provocadas pela busca exclusiva de lucros, a poesia se propõe como um dos caminhos para uma profunda mudança de vida e de atitudes. (daqui)
 

segunda-feira, 29 de janeiro de 2024

"Sob um guarda-chuva" - Poema de Cassiano Ricardo



Jean Béraud (Peintre français, 1849–1935), 'Parisienne un jour de pluie,
place de la Concorde'
, c.1890.

Sob um guarda-chuva 

I

As luzes caíram trémulas, na calçada.
E escorrem líquidas.

São luzes de todas as cores,
em pequenos naufrágios sobre o asfalto.

Se eu pudesse gemer como este vento,
como diria o poeta...
E abro o pequeno céu com asa de morcego
mas chove em mim pelo vão de uma estrela.

A chuva me dá, sempre, uma sensação de raiz.
Tenho a impressão de estar coberto
de folhas verdes, espirrando água.
O mar estronda, carregado de prata
e peixes.
E eu logo penso em meu pai, lavrador.
Roupa cheirando chuva, o cabelo escorrido na testa.
Os sapatos no barro.

A chuva, para ele, era uma festa com arco-íris
ou sem arco-íris.

Pássaro branco sob o guarda-chuva
em exercício de ficar parado
sinto-me preso entre os quatro pontos cardeais
desta esquina pingando horas.
Nada mais falso do que um boletim meteorológico.
Ganhou da lua e da minha esperança.
Onde estarão os pequeninos barcos de papel de minha infância?

 Estarão jogados, como objetos já sem uso
no cemitério dos navios mortos?

Penso na seca do Nordeste,
no país das fatalidades cíclicas e dos contrastes
entre a rosa do sol e o Dilúvio.
A rosa do sol escondida no abismo do mapa
inteiramente cor de cinza.
A sensação da ausência, a árvore da chuva
desfeita em galhos torrenciais.
E eu, aqui, a afogar-me em água e, lá, o Nordeste
de rosto enxuto.

II

O céu me atrai, porém a terra - com este cheiro de chuva -
me dá uma sensação de raiz.
A terra pode mais que o céu, quando a chuva
me molha a memória, me fecunda,
e eu sinto peixes e orquídeas no corpo.
Mas enquanto a chuva cai, torrencial,
e o vento a arrasta pelos cabelos de prata,
fico pensando, sob o meu guarda-chuva.

Penso que é absurdo comparar com a chuva
as nossas lágrimas (isso é demais, ó poeta).
Lágrimas quentes, que nos queimam os olhos,
e caem por dentro sobre ocultas feridas,
com este choro sem sal.

Além disso, os problemas municipais já esquecidos
e os nacionais, também, renascem, sob a chuva.
Os automóveis gritam, pedindo passagem,
uns roucos, outros tocando um começo de música.
Discutem prefeitura e tarde escura
a eterna questão do trânsito.
Um trovão quis contar-me um violento segredo
mas soletrou, apenas. Que monstruosa verdade
não terá ele pretendido dizer-me?

III

Deus rabiscou no espaço uma palavra de fogo
que não pude entender, por não saber hebraico,
mas que deve estar escrita em alguma passagem da Bíblia.
Onde terá caído esta faísca elétrica?

O que vale, pra mim, é que a casinha pequenina
onde nasceu o nosso amor, tem um coqueiro ao lado.

E se Franklin inventou para-raios de luxo
para os arranha-céus, Deus botou um coqueiro
para servir de para-raios junto à casa do pobre.

Dia sem céu.
(Nisto um transeunte
saiu correndo, atrás do seu chapéu.)


Cassiano Ricardo
, in 'Poesias Completas', 
Rio de Janeiro, 1957.


Cassiano Ricardo (daqui)


Poeta, jornalista e ensaísta brasileiro Cassiano Ricardo, nascido a 26 de julho de 1895, em São José de Campos, São Paulo, e falecido a 14 de janeiro de 1974, no Rio de Janeiro, destacou-se enquanto autor modernista, embora também tenha assinado obras em outras áreas.
Aos dezasseis anos, Cassiano Ricardo publicou o seu primeiro livro de poesia, Dentro da Noite.
Ingressou no curso de Direito em São Paulo, que viria a concluir no Rio de Janeiro, em 1917. Ainda nesse ano, publicou o livro A Flauta de Pã ligado ao parnasianismo e ao simbolismo. Depois regressou a São Paulo onde em 1922 foi um dos líderes da reforma literária iniciada na Semana de Arte Moderna.
Um ano mais tarde, dedicou-se também ao jornalismo, passando pelo Correio Paulistano e por A Manhã, do Rio de Janeiro, do qual foi diretor. Entretanto, em 1924 havia fundado a revista literária Novíssima, dedicada essencialmente ao movimento modernista e ao intercâmbio cultural panamericano. Mais tarde, fundou ainda as revistas Planalto e Invenção.
Em 1928, lançou aquela que seria considerada a sua obra-prima, Martim Cererê, uma obra modernista. Nesta fase modernista da sua carreira dedica-se a temas nacionalistas, mas sem acompanhar a tendência da época, que se associava muito ao nazismo. Assim, incide sobre a epopeia dos Bandeirantes, passando depois a dedicar-se a temas mais intimistas e do quotidiano.
Em 1937 foi um dos fundadores do movimento político "A Bandeira", que fazia frente ao Integralismo. Nessa época, dirigiu o jornal O Anhanguer, defensor das suas ideologias. Ainda nesse ano, entrou na Academia de Letras Brasileira.
Em 1943, com o Sangue das Horas, deu início a uma nova fase da sua carreira, associada ao lirismo introspetivo-filosófico, do qual Um Dia Depois do Outro, de 1947, é o exemplo mais marcante.
Em 1950, Cassiano Ricardo foi eleito presidente do Clube de Poesia de São Paulo e uma das suas ações neste organismo foi lançar a publicação Novíssimos, destinada a divulgar a poesia brasileira.
Nas décadas de 50 e 60 surgiu associado ao concretismo e ao praxismo.
Cassiano Ricardo foi também um reconhecido ensaísta e nesta área o seu principal trabalho é Marcha Para Oeste, de 1940. (daqui)
 

sexta-feira, 7 de outubro de 2022

"Chuva de pedra" - Poema de Menotti Del Picchia


Wassily Kandinsky (1866-1944), Landscape with Rain, January, 1913 – óleo sobre tela, 
70,2 x 78,1 cm,  Solomon R. Guggenheim Museum - New York, USA (Abstract art)
 

 
Chuva de pedra


O granizo salpica o chão como se as mãos das nuvens
quebrassem com estrondo um pedaço de gelo
para a salada de fruta dos pomares...

O cafezal, numa carreira alucinada,
grimpa as lombas de ocre
apedrejada matilha de cães verdes...

Fremem, gotejam eriçadas suas copas
como pelos de um animal todo molhado.

O céu é uma pedreira cor de zinco
onde estoura a dinamite dos coriscos.

Rola de fraga em fraga a lasca retumbante
de um trovão.

Os riachos
correm com seus pés invisíveis e líquidos
para o abrigo das furnas. No terreiro,
as roupas penduradas nos varais
dançam, funambulescas, com as pedradas,
numa fila macabra de enforcados! 


Menotti Del Picchia
, Chuva de pedra, 1925

 

Maurice Prendergast (American (born in Canada), 1858–1924), Umbrellas in the Rain,
 

"Um dia de chuva é tão belo como um dia de sol.
Ambos existem; cada um como é."

8-11-1915  
 

“Poemas Inconjuntos”. In Poemas de Alberto Caeiro
(Heterónimo de  Fernando Pessoa)

 
Claude Monet (French, 1840-1926), Morning on the Seine in the Rain, 1897-1898, 
óleo sobre tela. National Museum of Western Art, Toquio, Japão (Impressionism)



Provérbios portugueses (daqui)
 
 
“Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura.”
 
[Significa que «a tenacidade vence todas as dificuldades» (in Dicionário Prático de Locuções e Expressões Correntes, de Emanuel de Moura Correia e Persília de Melim Teixeira, Papiro Editora).]


“Não se pode ter sol na eira e chuva no nabal.”

[Significa que «é difícil ter, ao mesmo tempo, duas coisas opostas.»]

quinta-feira, 19 de maio de 2022

"Solidão" - Poema de Irene Lisboa


'Young People in a Parisian Garden', 1881. 


Solidão 

 
Cai chuva, chora.
Chora, chora.
Solidão, solidão!

Já não canta o pássaro.
Calou-se a voz, a alegre, a rara.
A que se ouvia solitária.
Cai chuva.

Não sou freira e estou num convento.
A paz, o silêncio, a chuva, os claustros...
Ser freira!

O sequestro, cantar, rezar.
Cai chuva, rude e sem dor.
Tu não choras.
Sou eu que choro.

Que é do pássaro, como cantava?
Voltou, voltou. Pia!
Bendito pássaro, onde estás?
Acompanha-me, já não chove.
Solidão, melancolia. 


Irene Lisboa
, in 'Outono Havias de Vir', 1937.


Francisco Miralles y Galup, 'Street Scene on a Rainy Day', c. 1891.


"O importante não é aquilo que fazem de nós, mas o que nós mesmos fazemos do que os outros fizeram de nós."

"l'important n'est pas ce que l'on a fait de nous mais ce que nous faisons nous-mêmes de ce qu'on a fait de nous."

Jean-Paul Sartre (Nobel de Literatura, 1964),
 

quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

"Chuva" - Poema de Ribeiro Couto



Frederick Childe Hassam (American Impressionist painter, 1859–1935),
'A Rainy Day in Boston', 1885, oil on canvas, 66.4 x 121.9 cm,
Toledo Museum of Art


Chuva


A chuva fina molha a paisagem lá fora.
O dia está cinzento e longo... Um longo dia!
Tem-se a vaga impressão de que o dia demora...
E a chuva fina continua, fina e fria,
Continua a cair pela tarde, lá fora.

Da saleta fechada em que estamos os dois,
Vê-se, pela vidraça, a paisagem cinzenta:
A chuva fina continua, fina e lenta...
E nós dois em silêncio, um silêncio que aumenta
se um de nós vai falar e recua depois.

Dentro de nós existe uma tarde mais fria...

Ah! Para que falar? Como é suave, branda,
O tormento de adivinhar — quem o faria? —
As palavras que estão dentro de nós chorando...

Somos como os rosais que, sob a chuva fria,
Estão lá fora no jardim se desfolhando.

Chove dentro de nós... Chove melancolia...


Ribeiro Couto

[Jornalista, magistrado, diplomata, poeta, contista
 e romancista brasileiro, 1898–1963]
 
 

quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

"Meditação sob a chuva" - Poema de Anderson Braga Horta


Leonid Afremov (Pintor israelense de origem bielorrussa, n. 1955),
 'Rainy Kiss', s.d.


Meditação sob a chuva


Estas águas banharam outras terras,
foram rios e lagos, foram mares,
nos céus flocos de espuma e depois chumbo,
relâmpagos, trovões e depois água.
E, no eterno girar do eterno ciclo,
o céu as verte sobre nós agora.
Como um jardim, uma árvore, uma ave,
a terra, a natureza, aqui, desnudo,
de suas bagas vou colhendo o sumo.
Possa, sob o seu signo, como outrora
e sempre, o estrume redimir-se em flores.
E eu possa, no bebê-las, compreender
a experiência milenar que bebo.
Vento, chuva, relâmpagos — matéria
contemporânea a todas as idades,
passageira de todas as viagens,
moradora de todas as paragens,
possamos compreender que, de ti feitos,
somos cosmopolitas por herança,
somos intemporais, se não na forma,
ao menos na substância.


Anderson Braga Horta, in 'Marvário', 1976
Clube de Poesia de Brasília
 
 

segunda-feira, 27 de agosto de 2018

"Chuva da tarde" - Poema de António Sardinha



Leonid Afremov (Pintor israelense de origem bielorrussa, n. 1955),
 'Under my umbrella' 


Chuva da tarde


Chuva da tarde, – melodia mansa,
desejos vagos de chorar baixinho...
Voltei aos meus caprichos de criança,
- só quero, Amor, saber do teu carinho!

Chuva da tarde... Na poeira ardente
cai um frescor inesperado e calmo.
É um frescor que purifica a gente
- como a leitura mística dum Salmo!

Floresçam jasmineiros e açucenas,
- acuda-se à tristeza das raízes!
Que tu, Amor, com tuas mãos pequenas,
as guardes da estiagem e as batizes!

Meu coração doente remoçou-se,
quando o tocaram essas mãos piedosas...
Chuva da tarde, – enfermaria doce,
onde vão convalescer as rosas!

Chuva da tarde... Ao longo das varandas
reza mistérios lentos a noitinha.
Que bem não é sonhar em coisas brandas,
nas tuas brandas asas de andorinha!

Deixa que a sombra te emoldure a face,
- eleva no silêncio a tua voz!
O Cântico dos Cânticos renasce,
- diria até que se escreveu p'ra nós!



quinta-feira, 13 de abril de 2017

"A Invenção do Amor" - Poema de Daniel Filipe



Leonid Afremov (Pintor israelense de origem bielorrussa, n. 1955),
 'Dance Under The Rain' 


A Invenção do Amor 


Em todas as esquinas da cidade 
nas paredes dos bares à porta dos edifícios públicos nas janelas dos autocarros 
mesmo naquele muro arruinado por entre anúncios de aparelhos de rádio e detergentes 
na vitrine da pequena loja onde não entra ninguém 
no átrio da estação de caminhos de ferro que foi o lar da nossa esperança de fuga 
um cartaz denuncia o nosso amor 

Em letras enormes do tamanho 
do medo da solidão da angústia 
um cartaz denuncia que um homem e uma mulher 
se encontraram num bar de hotel 
numa tarde de chuva 
entre zunidos de conversa 
e inventaram o amor com carácter de urgência 
deixando cair dos ombros o fardo incómodo da monotonia quotidiana 

Um homem e uma mulher que tinham olhos e coração e fome de ternura 
e souberam entender-se sem palavras inúteis 
Apenas o silêncio
A descoberta
A estranheza 
de um sorriso natural e inesperado 

Não saíram de mãos dadas para a humidade diurna 
Despediram-se e cada um tomou um rumo diferente 
embora subterraneamente unidos pela invenção conjunta 
de um amor subitamente imperativo 

Um homem uma mulher um cartaz de denúncia 
colado em todas as esquinas da cidade 
A rádio já falou a TV anuncia iminente a captura
A polícia de costumes avisada 
procura os dois amantes nos becos e avenidas 
Onde houver uma flor rubra e essencial 
é possível que se escondam tremendo a cada batida na porta fechada para o mundo 
É preciso encontrá-los antes que seja tarde 
Antes que o exemplo frutifique 
Antes que a invenção do amor se processe em cadeia 

Há pesadas sanções para os que auxiliarem os fugitivos 

Chamem as tropas aquarteladas na província
Convoquem os reservistas os bombeiros os elementos da defesa passiva
Todos
Decrete-se a lei marcial com todas as consequências
O perigo justifica-o
Um homem e uma mulher
conheceram-se amaram-se perderam-se no labirinto da cidade
É indispensável encontrá-los dominá-los convencê-los
antes que seja demasiado tarde
e a memória da infância nos jardins escondidos
acorde a tolerância no coração das pessoas

Fechem as escolas
Sobretudo protejam as crianças da contaminação
uma agência comunica que algures ao sul do rio
um menino pediu uma rosa vermelha
e chorou nervosamente porque lha recusaram
Segundo o diretor da sua escola é um pequeno triste
Inexplicavelmente dado aos longos silêncios e aos choros sem razão
Aplicado no entanto 
Respeitador da disciplina
Um caso típico de inadaptação congénita disseram os psicólogos
Ainda bem que se revelou a tempo
Vai ser internado
e submetido a um tratamento especial de recuperação
Mas é possível que haja outros. É absolutamente vital
que o diagnóstico se faça no período primário da doença
E também que se evite o contágio com o homem e a mulher
de que fala no cartaz colado em todas as esquinas da cidade

Está em jogo o destino da civilização que construímos
o destino das máquinas das bombas de hidrogénio
das normas de discriminação racial
o futuro da estrutura industrial de que nos orgulhamos
a verdade incontroversa das declarações políticas

Procurem os guardas dos antigos universos concentracionários
precisamos da sua experiência onde quer que se escondam
ao temor do castigo

Que todos estejam a postos
Vigilância é a palavra de ordem
Atenção ao homem e à mulher de que se fala nos cartazes
À mais ligeira dúvida não hesitem denunciem
Telefonem à  polícia ao comissariado ao Governo Civil
não precisam de dar o nome e a morada
e garante-se que nenhuma perseguição será movida
nos casos em que a denúncia venha a verificar-se falsa

Organizem em cada bairro em cada rua em cada prédio
comissões de vigilância. Está em jogo a cidade
o país a civilização do ocidente
esse homem e essa mulher têm de ser presos
mesmo que para isso tenhamos de recorrer às  medidas mais drásticas

Por decisão governamental estão suspensas as liberdades individuais
a inviolabilidade do domicílio o habeas corpus o sigilo da correspondência
Em qualquer parte da cidade um homem e uma mulher amam-se ilegalmente
espreitam a rua pelo intervalo das persianas
beijam-se soluçam baixo e enfrentam a hostilidade noturna
É preciso encontrá-los
É indispensável descobri-los
Escutem cuidadosamente a todas as portas antes de bater
É possível que cantem
mas defendam-se de entender a sua voz
Alguém que os escutou
deixou cair as armas e mergulhou nas mãos o rosto banhado de lágrimas
E quando foi interrogado em Tribunal de Guerra
respondeu que a voz e as palavras o faziam feliz
lhe lembravam a infância
Campos verdes floridos água simples correndo 
A brisa das montanhas

Foi condenado à  morte é evidente
É preciso evitar um mal maior
Mas caminhou cantando para o muro da execução
foi necessário amordaçá-lo e mesmo assim desprendia-se dele
um misterioso halo de uma felicidade incorrupta

Impõe-se sistematizar as buscas 
Não vale a pena procurá-los
nos campos de futebol no silêncio das igrejas nas boites com orquestra privativa
Não estarão nunca aí
Procurem-nos nas ruas suburbanas onde nada acontece
A identificação é fácil
Onde estiverem estará também pousado sobre a porta
um pássaro desconhecido e admirável
ou florirá na soleira a mancha vegetal de uma flor luminosa
Será então aí
Engatilhem as armas invadam a casa disparem à  queima roupa
Um tiro no coração de cada um
Vê-los-ão possivelmente dissolver-se no ar 
Mas estará completo o esconjuro
e podereis voltar alegremente para junto dos filhos da mulher

Mais ai de vós se sentirdes de súbito o desejo de deixar correr o pranto
Quer dizer que fostes contagiados 
Que estais também perdidos para nós
É preciso nesse caso ter coragem para desfechar na fronte
o tiro indispensável
Não há outra saída 
A cidade o exige
Se um homem de repente interromper as pesquisas
e perguntar quem é e o que faz ali de armas na mão
já sabeis o que tendes a fazer
 Matai-o 
Amigo irmão que seja matai-o 
Mesmo que tenha comido à  vossa mesa e crescido a vosso lado matai-o 
Talvez que ao enquadrá-lo na mira da espingarda
os seus olhos vos fitem com sobre-humana náusea
e deslizem depois numa tristeza líquida até ao fim da noite
 Evitai o apelo a prece derradeira
um só golpe mortal misericordioso basta
para impor o silêncio secreto e inviolável

Procurem a mulher o homem que num bar
de hotel se encontraram numa tarde de chuva
Se tanto for preciso estabeleçam barricadas
senhas salvo-condutos horas de recolher
censura prévia à  imprensa tribunais de exceção
Para bem da cidade do país da cultura
é preciso encontrar o casal fugitivo
que inventou o amor com carácter de urgência

Os jornais da manhã publicam a notícia
de que os viram passar de mãos dadas sorrindo
numa rua serena debruada de acácias
Um velho sem família a testemunha diz
ter sentido de súbito uma estranha paz interior
uma voz desprendendo um cheiro a primavera
o doce bafo quente da adolescência longínqua
No inquérito oficial atónito afirmou
que o homem e a mulher tinham estrelas na fronte
e caminhavam envoltos numa cortina de música
com gestos naturais alheios 
Crê-se que a situação vai atingir o climax
e a polícia poderá cumprir o seu dever


Daniel  Filipe, in 'A Invenção do Amor e Outros Poemas' 
Lisboa, Presença, 1972


sábado, 10 de setembro de 2016

"Tu à Noite" - Poema de Harold Pinter



Jeff Rowland (British painter, b. 1964), 'Last embrace' 


Tu à Noite


Tu à noite havias de escutar 
A trovoada e o ar ambulante. 
Tu nessa margem hás de virar 
Para onde estão as intempéries dominantes. 

Toda essa honrada esperança 
Ruirá na ardósia, 
E destroçará o inverno 
Que vocifera a teus pés. 

Se bem que ardam os altares apaixonantes, 
E que o sol deliberado 
Faça ladrar a águia, 
Tu avançarás na corda bamba. 


Harold Pinter, in "Várias Vozes"



Jeff Rowland (British painter, b. 1964), 'The Embrace'


Derrete-se o gelo.
Porém se resfria a água:
Ela fria, eu ardo...

(Haikai)

sábado, 7 de maio de 2016

"Meados de Maio" - Poema de Irene Lisboa


 
Aleksandra Savina
(Ukrainian artist, b. 1962), 'Umbrella Series' 


Meados de Maio


Chuvoso maio!

Deste lado oiço gotejar
sobre as pedras.
Som da cidade...
Do outro via a chuva no ar.
Perpendicular, fina,
Tomava cor,
distinguia-se
contra o fundo das trepadeiras
do jardim.
No chão, quando caía,
abria círculos
nas pocinhas brilhantes,
já formadas.

Há lá coisa mais linda
que este bater de água
na outra água?
Um pingo cai
E forma uma rosa...
um movimento circular,
que se espraia.
Vem outro pingo
E nasce outra rosa...
e sempre assim!

Os nossos olhos desconsolados,
sem alegria nem tristeza,
tranquilamente
vão vendo formar-se as rosas,
brilhar
e mover-se a água...


Irene Lisboa,
in
'Antologia Poética' 
 

 
Aleksandra Savina, 'Umbrella Series', acrylic on canvas
.


"Alguns pressentem a chuva; outros contentam-se em molhar-se."

(Henry Miller)

sexta-feira, 1 de maio de 2015

"Soneto da Chuva" - Poema de Carlos de Oliveira


 
Leonid Afremov (Pintor israelense de origem bielorrussa, n. 1955)



Soneto da Chuva


Quantas vezes chorou no teu regaço
a minha infância, terra que eu pisei:
aqueles versos de água onde os direi,
cansado como vou do teu cansaço? 

Virá abril de novo, até a tua
memória se fartar das mesmas flores
numa última órbita em que fores
carregada de cinza como a lua.

Porque bebes as dores que me são dadas,
desfeito é já no vosso próprio frio
meu coração, visões abandonadas. 

Deixem chover as lágrimas que eu crio:
menos que chuva e lama nas estradas
és tu, poesia, meu amargo rio.


Carlos de Oliveira,
in 'Terra de Harmonia', 1950
 

Carlos de Oliveira


Carlos de Oliveira (Belém do Pará1921 — Lisboa1981), poeta e romancista, veio para Portugal com dois anos de idade. Até à sua partida para Coimbra, onde se licenciaria em Ciências Histórico-Filosóficas, a região da Gândara, terra árida e pobre, onde o pai exerceu clínica, marcou profundamente a sua formação, vindo a constituir o cenário privilegiado da sua produção romanesca e poética. 
A sua estreia literária, na poesia, com Turismo, em 1942, e, no romance, com A Casa na Duna, em 1943, editados, respetivamente, pelas coleções "Novo Cancioneiro" e "Novos Prosadores", coleções consideradas ambas marcos no processo de afirmação da estética neorrealista, inscreve-o numa tradição literária que, na senda de Afonso Duarte (o "Mestre") ou Miguel Torga, conjuga, temática e formalmente, elementos populares e rurais com uma postura de modernidade. Colaborou, entre outras publicações, com Vértice, Seara Nova, Altitude, Portucale ou Cadernos do Meio-Dia. 
Segundo Manuel Gusmão, gerada no neorrealismo, a poesia de Carlos de Oliveira evoluiu em conexão com as várias tendências que marcaram a poesia portuguesa desde os anos 50 e até aos movimentos afirmados após os anos 60, num processo que apontaria para uma expressão onde "a poesia vai assumindo explicitamente a consciência de si como um trabalho específico, vai desagregando o discursivismo anterior, vai encontrando, na fragmentação e na descontinuidade e, ao mesmo tempo, no construtivismo interno, o tempo histórico da nossa contemporaneidade poética" (GUSMÃO, Manuel - A Poesia de Carlos de Oliveira, Lisboa, Ed. Comunicação, 1981, p. 25). O mesmo crítico divide a produção poética de Carlos de Oliveira em duas fases distintas, embora caracterizadas por certa unidade. Num primeiro momento, que englobaria as obras publicadas até Terra da Harmonia e Ave Solar, a escrita de Carlos Oliveira é marcada pela relação com uma tradição literária, popular e culta, clássica e moderna, numa relação pautada, a nível formal, pelo recurso a formas técnicas firmadas nesta tradição, embora com preferência pelo longo poema narrativo; e, a nível enunciativo, pela correlação entre o sujeito poético e a entidade coletiva ("Acusam-me de mágoa e desalento, / como se toda a pena dos meus versos / não fosse carne vossa, homens dispersos, / e a minha dor a tua, pensamento." ("Colheita Perdida", in Poesias). Ao mesmo tempo, esse conjunto aponta já para a recorrência de elementos que integram o mundo inorgânico, mineral e cósmico, apresentando uma rede de imagens que se organiza "por uma série de tensões dialéticas entre a realidade e o sonho (o apelo) de uma nova realidade, entre a vida e a morte, entre a esperança e o desespero" (GUSMÃO, Manuel, op. cit., p. 66), numa tentativa ainda de perceber "o que no real é fator de imobilidade (e logo de prolongamento da miséria, da estagnação), fator de decadência" ou fator, raiz, esperança de movimento e de transformação (id. ibi., p. 67). A segunda fase da sua poesia é pautada por uma "procura intensificada da depuração e da concentração expressiva "(id. ibi., p. 68), tendência que se reflete no "rigor de construção", no estilo mais elíptico e substantivo, mais "minucioso na escolha e ordenação das palavras" (id., ibi., p. 69), sendo que "a menor e regular dimensão dos poemas ou dos seus fragmentos-unidades internas, no caso dos poemas 'compostos', facilitam e produzem uma mais intensa tensão rítmica e expressiva interna". Neste momento, marcado por certo pendor auto-reflexivo, "o poema agudiza a consciência de si como trabalho específico sobre materiais próprios e com instrumentos próprios" (id. ibi., p. 70), num privilégio da relação "poesia-escrita", em detrimento da relação "poesia-voz"; ao mesmo tempo que o sujeito poético, privilegiando as referências ao mundo mineral e mineralizado, integra um "processo de 'apagamento'" (id., ibi., p. 72): "Se o poema / analisasse / a própria oscilação / interior, / cristalizasse / um outro movimento / mais subtil, / o da estrutura / em que se geram / milénios depois / estas imaginárias / flores calcárias, / acharia / o seu micro-rigor" ('Estalactite', in Micropaisagem). 
Muitos destes traços de caracterização sobre a evolução da estética poética de Carlos de Oliveira transparecem também na escrita romanesca, estabelecendo também, sem pôr em causa o seu empenhamento, em romances como Uma Casa na Duna, Pequenos Burgueses ou Uma Abelha na Chuva, uma abertura relativamente a certos modelos técnico-narrativos que o neorrealismo inicial tinha postergado, como o uso do monólogo interior e da focalização interna, a individualização da personagem (sem recusar o seu carácter de tipo social), ou a intrusão do discurso do narrador. Sintetizando, no volume O Aprendiz de Feiticeiro, muitas das reflexões sobre a sua postura estética, enumera do seguinte modo os aspetos que o definem como escritor: "a) o meu ponto de partida, como romancista e poeta, é a realidade que me cerca; tenho de equacioná-la em função do passado, do presente e do futuro; e, noutro plano, em função das suas características nacionais ou locais; b) o processo para a transpor em termos literários está sujeito a um condicionamento semelhante ao dela e até ao condicionamento dela [...]; c) é essencial porém não esquecer estas duas coisas: a realidade cria em si mesma os germes da transformação; o processo consiste em [...] captá-los e desenvolvê-los num sentido autenticamente moderno; d) não concebo uma literatura intemporal, nem fora de certo espaço geográfico, social, linguístico; quer dizer, não a vejo inteiramente desligada das condições de tempo, de lugar [...] ; e) o processo, para ter alguma validez, necessita portanto de atender às circunstâncias de época e de país, precisa de ser atual e português; f) não pode ignorar [...] a tradição literária, culta e popular [...]; g) por outro lado, sempre se fez ao longo da história literária aquilo a que chamarei 'transfusão cultural', isto é, emigração de ideias, homens, formas, estéticas, de país para país" (O Aprendiz de Feiticeiro, Lisboa, Dom Quixote, 1971, pp. 93-94). 
Escritor que não desistiu de ligar todos os seus pensamentos "ao mundo comum, quotidiano: os objetos, a paisagem, os homens." (ibi., p. 35), e que sempre entendeu "mal a incompatibilidade entre uma ideia ou uma imagem e a busca das palavras que as tornam cintilantes." (ibi., p. 90), na sua obra avultam, em suma, dois traços maiores, o "trabalho oficinal, trabalho que consiste quase sempre em alcançar um texto muito despojado e deduzido de si mesmo, o que [...] obriga por vezes a transformá-lo numa meditação sobre o seu próprio desenvolvimento." (ibi., p. 268), o que conflui tendencialmente num sentido profundo da "brevidade"; e uma problemática unitária: a da "imagem", já que, "mais do que informarem o sentido vital da poesia e de toda a obra de Carlos de Oliveira, as imagens constituem o mais constante corpo teórico e temático da sua obra", seja pelo carácter simbólico ou exegético-divinatório assumido pela descrição, seja globalmente por um "processo total da inscrição imagem / palavra" segundo o "modelo da cifra" (cf. BRANDÃO, Fiama Hasse Pais, "Nexos sobre a obra de Carlos de Oliveira", in Colóquio /Letras, n.º 26, julho de 1975, p. 64). (daqui)