quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

"Chuva" - Poema de Ribeiro Couto



Frederick Childe Hassam (American Impressionist painter, 1859–1935),
'A Rainy Day in Boston', 1885, oil on canvas, 66.4 x 121.9 cm,
Toledo Museum of Art


Chuva


A chuva fina molha a paisagem lá fora.
O dia está cinzento e longo... Um longo dia!
Tem-se a vaga impressão de que o dia demora...
E a chuva fina continua, fina e fria,
Continua a cair pela tarde, lá fora.

Da saleta fechada em que estamos os dois,
Vê-se, pela vidraça, a paisagem cinzenta:
A chuva fina continua, fina e lenta...
E nós dois em silêncio, um silêncio que aumenta
se um de nós vai falar e recua depois.

Dentro de nós existe uma tarde mais fria...

Ah! Para que falar? Como é suave, branda,
O tormento de adivinhar — quem o faria? —
As palavras que estão dentro de nós chorando...

Somos como os rosais que, sob a chuva fria,
Estão lá fora no jardim se desfolhando.

Chove dentro de nós... Chove melancolia...


Ribeiro Couto

[Jornalista, magistrado, diplomata, poeta, contista
 e romancista brasileiro, 1898–1963]
 
 

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