sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

"Uma Flor" - Poema de Helder Moura Pereira



Marie Spartali Stillman, A Rose from Armida's Garden, 1894



Uma Flor


Descobre a flor que há
na rosa, as coisas
mais para lá do que é
visível. A serrilha
da fotografia magoa
as mãos, quando entrei
pentearam-me, fizeram
incidir o projetor, eu
não sabia que tudo ia
ficar para sempre
Depois repeti algumas
vezes: descobre a flor
que há na rosa, espera
que a adivinhem
sob as pétalas. Olho
a cegonha no álbum,
sorrio quando vejo
os cantos fixados, o nó
da gravata, a seleção
do melhor fundo.
Crescia a voz no quarto
dos sinais, crescia
o vento no quintal
da infância. As folhas
do eucalipto tapavam o ar
do minério, o petromax
dirigia a luz no túnel.
Cada vez mais para dentro
da terra, antes de cada
desabamento eu ouvia
a própria voz: descobre
a flor que há na rosa,
oferece apenas aparência.
Se ao nascer do dia
caminhas na superfície
da terra aguardas
que nada tenha mudado.
Surpresa de ver
o sol, o rosto de sobre quem
te deitas, os dedos
reconhecendo as formas.
Conhecem-te os gestos. Mas
só tu saberás a flor
que há na rosa.


Helder Moura Pereira
, 
“Uma Flor” (p. 158)

Os Cem Melhores Poemas Portugueses dos Últimos Cem Anos,
José Mário Silva
(org.), Companhia das Letras, 1.ª Edição, Novembro 2017



 

"Não há amor como o primeiro, mesmo que esse primeiro seja o último."

Vergílio Ferreira, in Pensar, 1992


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