quinta-feira, 30 de novembro de 2017

"De amarelo" - Poema de Deborah Brennand



Herbert James Gunn (Scottish landscape and portrait painter, 1893–1964),
'Pauline in the Yellow Dress', 1944, oil on canvas. 



De amarelo


Hoje devo me vestir de amarelo:
espantar os olhos negros da solidão,
tal a luz do girassol de ouro dourado
que abre pétalas iluminando nuvens.

Quem saberá (nem ela mesma) o artifício
usado para enganá-la? Sonhos? Jardins?
Não digo. Hoje me visto de amarelo
e vou, nos ramos, entoar da ave o canto.

Quero espantar olhos de solidão
que vem das grutas e abandona montes
para comer a relva rubra do meu coração.
Mas hoje, de amarelo, espantarei a fera

Fugindo, à procura de outra vítima:
Quem sabe, a mata?


Deborah Brennand,
in 'Poesia reunida', 2007



segunda-feira, 27 de novembro de 2017

"A Ponte de Ferro" - Poema de Yves Bonnefoy



Willem Koekkoek (Dutch cityscape painter and marine artist, 1839–1885),
'A Morning Walk by a Dutch Canal'


A Ponte de Ferro


Existe ainda por certo ao fim de uma longa rua
Onde andava eu criança um pântano estagnado
Retângulo pesado de morte ao céu negro.

Desde então a poesia
Separou de outras águas suas águas,
Beleza alguma, ou cor a vão reter,
Por ferro ela angustia-se e por noite.

Nutre um longo
Pesar de margem morta, uma ponte de ferro
Lançada à outra margem mais noturna ainda
É sua só memória e só real amor.


Yves Bonnefoy, in 'Obra Poética'.
Tradução de Mário Laranjeira 
 


Willem Koekkoek, 'Dutch street scene by a canal' 



"A verdadeira generosidade para com o futuro consiste em dar tudo ao presente."

(Albert Camus)

domingo, 26 de novembro de 2017

"Prognóstico" - Poema de Ada Ciocci Curado



August Macke (German Expressionist painter, 1887–1914),
'Saint George and the Dragon', 1912


Prognóstico


Poeta,
creia,
nem tudo está perdido,
porque,
felizmente,
sobretudo o mais,
o seu ideal,
a muitos outros ainda comove,
demove
e
predomina.


Ada Ciocci Curado, in 'Acalanto'


August Macke

(Suor Angelica - 'Senza mamma', de Giacomo Puccini, na voz de Maria Callas)


"É através dos outros que nos tornamos nós mesmos."

(Lev Vygotsky)

"A construção do corpo" - Poema de António Ramos Rosa


George Bellows (American realist painter, 1882–1925),
 'Nude girl with a parrot', 1915 


A construção do corpo


Sempre a tentativa nunca vã...
O equilíbrio musical dos instrumentos,
a paciência do teu pulso suave e certo,
o teu rosto mais largo e a calma força
que sobe e que modelas palmo a palmo,
rio que ascende como um tronco em plena sala.
A tua casa habita entre o silêncio e o dia,
Entre a calma e a luz o movimento é livre.

Acordar a leve chama veia a veia,
erguê-la do fundo e solta propagá-la
aos membros e ao ventre, até ao peito e às mãos
e que a cabeça ascenda, cordial corola plena.
Todo o corpo é uma onda, uma coluna flexível.
Respiras lentamente. A terra inteira é viva.
E sentes o teu sangue harmonioso e livre
correr ligado à água, ao ar, ao fogo lúcido.

No interior centro cálido abre-se a flor de luz,
rigor suave e óleo, música de músculos, roda
lenta girando das ancas ao busto ondeado
e cada vez mais ampla a onda livre ondula
a todo o corpo uno, num respirar de vela.
Sobre a toalha de água, à luz de um sol real,
dança e respira, respira e dança a vida,
o seu corpo é um barco que o próprio mar modela.


António Ramos Rosa,
in 'A construção do corpo', 1969

sábado, 25 de novembro de 2017

"Secretamente" - Poema de Virgínia Schall


Jean-Baptiste Greuze (French painter, 1725–1805), 'The White Hat', 1780


Secretamente 


Seus olhos estão perigosamente dentro
de mim
aqui fizeram morada
e estão como Deus
em toda parte
se interpondo
entre a paisagem mais próxima
entre a fresta de luz e a imagem
tangenciando meu olhar
que não sabe olhar puro
que se trai a cada segundo.

Seus olhos estão perigosamente pousados
sobre mim
como borboleta em flor
cobrindo minha pele em ternura
suaves como seda
a farfalhar sobre os poros
e os pelos.
Luzes que incendeiam
em sublime música
meu corpo aceso em sede
Sombras sobre minha noite
embalam meu sono
devassando meus sonhos
onde secretamente me assombram
estando fora e sendo dentro
espelhos de amor intenso
e imenso.

Nossos olhos estão perigosamente
em comunhão
a despeito da separação
que a vida nos impõe.
E nossas vidas
sob risco
entre sermos felizes
ou tristes
e nossos destinos
por um triz
entre sucessos
e desatinos.
Secretamente
espreitamos-nos
como caminhos
à beira
de atraentes abismos.




Jean-Baptiste Greuze, 'Young girl leaning on the neck of a horse'


"A necessidade de procurar a verdadeira felicidade é o fundamento da nossa liberdade."

(John Locke)

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

"Definição do Amor" - Soneto de Lope de Vega



Federico Andreotti (Italian painter, 1847–1930), 'An Afternoon Tea' 


Definição do Amor


Desmaiar-se, atrever-se, estar furioso,
áspero, terno, liberal, esquivo,
alentado, mortal, defunto, vivo,
leal, traidor, covarde e valoroso;

não ver, fora do bem, centro e repouso,
mostrar-se alegre, triste, humilde, altivo,
enfadado, valente, fugitivo,
satisfeito, ofendido, receoso;

furtar o rosto ao claro desengano,
beber veneno qual licor suave,
esquecer o proveito, amar o dano; 

acreditar que o céu no inferno cabe,
doar sua vida e alma a um desengano,
isto é amor; quem o provou bem sabe.


Lope de Vega (1562–1635) 

 

Federico Andreotti, 'Young Couple', also known as 'Young Couple 
in a Magnificent Rococo Interior'


"O amor é cego, por isso os namorados nunca veem as tolices que praticam."


(William Shakespeare)

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

"Ah! Os Relógios" - Poema de Mário Quintana



David Burliuk (Russian poet, artist and publicist of Ukrainian origin,
1882–1967), 'The time', 1910


Ah! Os Relógios


Amigos, não consultem os relógios
quando um dia eu me for de vossas vidas
em seus fúteis problemas tão perdidas
que até parecem mais uns necrológios...

Porque o tempo é uma invenção da morte:
não o conhece a vida - a verdadeira -
em que basta um momento de poesia
para nos dar a eternidade inteira.

Inteira, sim, porque essa vida eterna
somente por si mesma é dividida:
não cabe, a cada qual, uma porção.

E os anjos entreolham-se espantados
quando alguém - ao voltar a si da vida -
acaso lhes indaga que horas são...


Mário Quintana
,
in 'A Cor do Invisível'

domingo, 12 de novembro de 2017

"Colhe o dia, porque és ele" - Poema de Ricardo Reis



Emil Nolde (German painter and printmaker, 1867–1956),
'Summer Afternoon', 1903


Colhe o dia, porque és ele


Uns, com os olhos postos no passado,
Veem o que não veem; outros, fitos
Os mesmos olhos no futuro, veem
O que não pode ver-se.

Porque tão longe ir pôr o que está perto —
A segurança nossa? Este é o dia,
Esta é a hora, este o momento, isto
É quem somos, e é tudo.

Perene flui a interminável hora
Que nos confessa nulos. No mesmo hausto
Em que vivemos, morreremos. Colhe
O dia, porque és ele.

28-8-1933

Odes de Ricardo Reis. Fernando Pessoa.
(Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.)
Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). - 154.


Emil Nolde, 'Sommerwolken' ('Summer clouds'), 1913, óleo sobre lienzo, 
73 x 88 cm, Museo Thyssen-Bornemisza, Madrid


"Para vermos o azul, olhamos para o céu. A Terra é azul para quem a olha do céu. Azul será uma cor em si, ou uma questão de distância? Ou uma questão de grande nostalgia? O inalcançável é sempre azul."
 
Clarice Lispector (1920–1977)

sábado, 11 de novembro de 2017

"A Dança e a Alma" - Poema de Carlos Drummond de Andrade



Hans Thoma (German painter, 1839–1924), 'Eight dancing women with bird bodies', 1886



A Dança e a Alma


A dança? Não é movimento,
súbito gesto musical.
É concentração, num momento,
da humana graça natural.

No solo não, no éter pairamos,
nele amaríamos ficar.
A dança – não vento nos ramos:
seiva, força, perene estar.

Um estar entre céu e chão,
novo domínio conquistado,
onde busque nossa paixão
libertar-se por todo lado…

Onde a alma possa descrever
suas mais divinas parábolas
sem fugir à forma do ser,
por sobre o mistério das fábulas.


Carlos Drummond de Andrade, in Obra completa,
 Rio de Janeiro: Aguilar, 1964.

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

"Esta dor que me faz bem" - Poema de Fernanda de Castro



William J. Whittemore (American painter, 1860–1955),
'Portrait of a Woman in Pearls', oil on canvas.



Esta dor que me faz bem


As coisas falam comigo
uma linguagem secreta
que é minha, de mais ninguém.
Quem sente este cheiro antigo,
o cheiro da mala preta,
que era tua, minha mãe? 

Este cheiro de além-vida
e de indizível tristeza,
do tempo morto, esquecido...
Tão desbotada e puída
aquela fita escocesa
que enfeitava o teu vestido.

Fala comigo e conversa,
na linguagem que eu entendo,
a tua velha gaveta,
a vida nela dispersa
chega à cama onde me estendo
num perfume de violeta.

Vejo as tuas joias falsas
que usavas todos os dias,
do princípio ao fim do ano,
e ainda oiço as tuas valsas,
minha mãe, e as melodias
que cantavas ao piano.

Vejo brancos, decotados,
os teus sapatos de baile,
um broche em forma de lira,
saia aos folhos engomados
e sobre o vestido um xaile,
um xaile de Caxemira.

Quantas voltas deu na vida
este álbum de retratos,
de veludo cor de tília?
Gente outrora conhecida,
quem lhe deu tantos maus tratos?
Serão todos da família?

Ai, vou fechar na gaveta
a lembrança dolorosa
dos teus laços de cetim,
dos teus ramos de violeta,
do leque de seda rosa
com varetas de marfim.

As coisas falam comigo
numa linguagem secreta,
que é minha, de mais ninguém.
Quero esquecer, não consigo.
Vou guardar na mala preta
esta dor que me faz bem.


Fernanda de Castro,
in "E Eu, Saudosa, Saudosa" 
 

"Romance" - Poema de Afonso Lopes Vieira



Giacomo Balla (Italian painter, art teacher and poet, 1871–1958),
'Flight of the Swallows' ('Voo das Andorinhas'), 1913.


Romance


Por noite velha, truz truz,
Bateram à minha porta.
— De onde vens, ó minha alma?
— Venho morta, quase morta.

Já eu mal a conhecia,
De tão mudada que vinha;
Trazia todas quebradas
Suas asas de andorinha.

Mandei-lhe fazer a ceia,
Do melhor manjar que havia.
— De onde vens, ó minha alma,
Que já mal te conhecia?

Mas a minha alma, calada,
Olhava e eu não respondia;
E nos seus formosos olhos
Quantas tristezas havia!

Mandei-lhe fazer a cama
Da melhor roupa que tinha
«Por cima damasco roxo
Por baixo cambraia fina».

— Dorme, dorme ó minha alma,
Dorme e, para te embalar,
A boca me está cantando
Com vontade de chorar.


Afonso Lopes Vieira,
in 'Ilhas de Bruma', 1917



Umberto Boccioni, 'Estados de espírito (estudo): aqueles que ficam', 1911.
 Óleo sobre tela, Museu de Arte Moderna de Nova York.



Umberto Boccioni, 'Estados de Alma III - Aqueles que permanecem', 1911,
 MoMA, Nova York


"A vida é o pouco que nos sobra da morte."

(Walt Whitman)