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sexta-feira, 5 de julho de 2024

"Canção à Ausente" - Poema de Pedro Homem de Mello



František Kupka, also known as Frank Kupka or François Kupka
(Czech painter and graphic artist, 1871–1957), Amorpha,
Fugue en deux couleurs (Fugue in Two Colors), 1912
,
oil on canvas, 210 × 200 cm, Národní Galerie.



Canção à Ausente


Para te amar ensaiei os meus lábios...
Deixei de pronunciar palavras duras.
Para te amar ensaiei os meus lábios!

Para tocar-te ensaiei os meus dedos...
Banhei-os na água límpida das fontes.
Para tocar-te ensaiei os meus dedos!

Para te ouvir ensaiei meus ouvidos!
Pus-me a escutar as vozes do silêncio...
Para te ouvir ensaiei meus ouvidos!

E a vida foi passando, foi passando...
E, à força de esperar a tua vinda,
De cada braço fiz mudo cipreste.

A vida foi passando, foi passando...
E nunca mais vieste!


Pedro Homem de Mello, in "Segredo",
Editora: Lello, 1953.
 

terça-feira, 2 de julho de 2024

"Labirinto" - Poema de Jorge Luis Borges



Jimmy Ernst
(American painter born in Germany, 1920–1984), Lookscape, 1952.

 

Labirinto 


Não haverá nunca uma porta. Já estás dentro.
E o alcácer abarca o universo
E não tem anverso nem reverso
Não tem extremo muro nem secreto centro.

Não esperes que o rigor do teu caminho
Que fatalmente se bifurca em outro,
Que fatalmente se bifurca em outro,
Terá fim. É de ferro teu destino

Como o juiz. Não creias na investida
Do touro que é um homem cuja estranha
Forma plural dá horror a essa maranha

De interminável pedra entretecida.
Não virá. Nada esperes. Nem te espera
No negro crepúsculo uma fera.


Jorge Luis Borges,
em “Quase Borges: 20 transpoemas e uma entrevista”.
São Paulo: Terracota, 2013.
Traduções de Augusto de Campos.


segunda-feira, 1 de julho de 2024

"A Música das Cores" - Poema de Eugénio Lisboa


Ângelo de Sousa (Escultor, pintor, professor e desenhador
 português, 1938 - 2011), S/título, s.d.


A Música das Cores

                                                          Ao Ângelo

A pintura; às vezes, sabe ser
uma forma de música: sugere,
no fluxo imparável do acontecer,
que a vida pode não acabar. Fere
o centro de nós mesmos. Amacia
e dissolve tensões que a vida impura,
em tantos momentos, cega, nos cria.
Como a música, é boa a pintura.


Eugénio Lisboa
, Matéria Intensa
Lisboa, Instituto Camões, 1999.
 
 
Ângelo de Sousa, S/título, 2009.
 


Ângelo de Sousa, Um ocre, 2006.
 
 
Ângelo de Sousa, S/título, s.d. (Estilo: Hard-edge painting).
 
 
Hard-edge painting
 
Hard-edge painting é um estilo de pintura em que há transições abruptas de cor entre as áreas coloridas, as quais geralmente são de uma única cor. É um estilo relacionado a Op art.

O Hard Edge Painting (pintura com contorno marcado) surgiu em Nova York, adotando o rigor do controle da técnica em função da liberdade sugerida pelo Expressionismo Abstrato. A pintura Hard Edge usa formas simples e contornos rígidos. Os quadros são precisos e frios, como se feitos à máquina. Foi neste estilo de arte que os artistas passaram a usar telas em que seus formatos de triângulos, círculos e outras formas irregulares passaram a tornar-se parte da composição.

O Hard-edge é a pintura em que as transições bruscas são encontradas entre as áreas de cor. Áreas de cor são muitas vezes de uma invariável cor. Transições de cor, muitas vezes ocorrem ao longo de linhas retas, porém as bordas curvilíneas de áreas de cores também são comuns.

O termo foi inventado pelo escritor Jules Langsner em 1959 para descrever o trabalho dos pintores da Califórnia, que, em sua reação às formas ou pintura gestual do expressionismo abstrato, aprovou uma aplicação de pintura impessoal e conscientemente áreas delimitadas de cor com particular nitidez e clareza. Esta abordagem à pintura abstrata se generalizou na década de 1960, embora a Califórnia fosse o centro criativo. (daqui)
 

domingo, 10 de dezembro de 2023

"Suposição teórica" - Poema de Dalila Teles Veras


 1881–1918), Figure, 1913, Amon Carter Museum.

 
 
Suposição teórica

 para guedo gallet

se
de oxigénio, carbono, hidrogénio, azoto, nitrogénio, cálcio, fósforo,
potássio, enxofre, sódio, cloro, magnésio, ferro, cobre, zinco, selénio,
molibdénio, flúor, iodo, manganês, lítio, cobalto, estrôncio, alumínio,
silício, chumbo, arsénio, vanádio e outras partículas químicas
é composto meu corpo
se
recebi todo esse material de um bilhão de estrelas (as identificadas)
se
esta minha complexa, mas minúscula máquina
há setenta invernos
diuturnamente
trabalha e pensa e cria e procria
não devo, não posso ser um mero acidente biológico

quando, estrela ínfima
minha luz pessoal
por fim
explodir
nada acidental, essa poeira
haverá de formar outras
outras
e
outras
dalilas
cósmicas
integradas
intergalácticas


Dalila Teles Veras, in "Tempo em fuga".
 

domingo, 26 de novembro de 2023

"Viajar? Para viajar basta existir" - Texto de Bernardo Soares / Fernando Pessoa


Paul Klee (Swiss-born German artist, 1879 –1940), Insula dulcamara, 1938,
Zentrum Paul Klee, Berne
 


Viajar? Para viajar basta existir

 
Viajar? Para viajar basta existir. Vou de dia para dia, como de estação para estação, no comboio do meu corpo, ou do meu destino, debruçado sobre as ruas e as praças, sobre os gestos e os rostos, sempre iguais e sempre diferentes, como, afinal, as paisagens são.

Se imagino, vejo. Que mais faço eu se viajo? Só a fraqueza extrema da imaginação justifica que se tenha que deslocar para sentir.

“Qualquer estrada, esta mesma estrada de Entepfuhl, te levará até ao fim do mundo”. Mas o fim do mundo, desde que o mundo se consumou dando-lhe a volta, é o mesmo Entepfuhl de onde se partiu. Na realidade, o fim do mundo, como o princípio, é o nosso conceito do mundo. É em nós que as paisagens têm paisagem. Por isso, se as imagino, as crio; se as crio, são; se são, vejo-as como às outras. Para quê viajar? Em Madrid, em Berlim, na Pérsia, na China, nos Polos ambos, onde estaria eu senão em mim mesmo, e no tipo e género das minhas sensações?

A vida é o que fazemos dela. As viagens são os viajantes. O que vemos, não é o que vemos, senão o que somos.


Bernardo Soares (Heterónimo de Fernando Pessoa),
in Livro do Desassossego, fragmento 451, ed. Richard Zenith, Assírio & Alvim, 11ª ed.
 

Paul Klee, Nach der Überschwemmung, 1936, Beyeler Foundation



Abstracionismo
 
 
O entendimento da arte como ato criativo situado para além da mera perceção visual do mundo sensível constitui o ponto de partida principal do abstracionismo. Nascida na segunda década do século XX, a arte abstrata tem origem nas diversas reações ao Impressionismo e desenvolve-se entre 1913 e 1933.
A primeira obra totalmente abstrata foi pintada por Kandinsky, uma das figuras históricas do abstracionismo, em 1913. Paralelamente à atividade pictórica, Kandinsky converteu-se no teorizador dos fundamentos do abstracionismo lírico, cujas linhas fundamentais são a liberdade da cor e do traço, enquadradas num entendimento filosófico e orgânico da pintura. Nas telas e aguarelas deste pintor alemão, as massas cromáticas, às quais o artista atribui um significado simbólico, enunciam uma plasticidade sem forma e uma nova sensibilidade. Cada obra é fruto de uma pesquisa controlada e metódica, de uma experiência espontânea vivida pelo autor, à qual não é estranha a exploração incessante das suas emoções e sensações perante o real.
Em França, o fauvismo e os primórdios do cubismo influenciam outros autores que enveredam pelo caminho da não figuração, como Delaunay, Kupka e Picabia.
Noutros países são experimentadas outras vias da abstração, de cariz mais geométrico: o Raionismo, o Suprematismo e o construtivismo na Rússia, e o Neoplasticismo da Holanda. Os fundamentos deste último movimento, igualmente conhecido por De Stijl, são definidos essencialmente por Piet Mondrian, cuja obra se define através de uma gramática geométrica clara e objetiva, na qual a harmonia é obtida através de um equilíbrio entre a forma e a cor. (daqui)
 

segunda-feira, 3 de julho de 2023

"Cântico do pássaro azul em Sharpeville" - Poema de José Craveirinha



Jimmy Ernst (American painter born in Germany, 1920-1984), Chronicle, 1964



Cântico do pássaro azul em Sharpeville

 
Os homens negros como eu
não pedem para nascer
nem para cantar.
Mas nascem e cantam
que a nossa voz é a voz incorruptível
dos momentos de angústia sem voz
e dos passos arrastados nas velhas machambas.

E se cantam e nascem
os homens magros de olheiras fundas como eu
não pediram a blasfémia
de um sol que não fosse o mesmo
para uma criança banto
e o menino africânder.

Mas homens somos
e com o mesmíssimo encanto magnífico
dos filhos que geramos
aqui estamos
na vontade viril de viver o canto que sabemos
e tornar também uma vida
a vida de voluntário que não pedimos
nem queremos
e odiamos na ganga africana que vestimos
e na ração de farinha que comemos.

E com as sementes rongas
as flores silvestres das montanhas zulos
e a dose de pólen das metralhadoras no ar de Sharpeville
um xitotonguana azul canta num braço de imbondeiro
e levanta no feitiço destes céus
a volúpia terrível do nosso voo.
 
 
José Craveirinha (daqui)
 
 
 Escritor moçambicano, José Craveirinha nasceu a 28 de maio de 1922, em Lourenço Marques (atual Maputo), e faleceu a 6 de fevereiro de 2003 em Joanesburgo, África do Sul.
Filho de pai algarvio cuja família partira para Moçambique em 1908 em busca de fortuna, estudou na escola «Primeiro de janeiro», pertencente à Maçonaria. Ainda adolescente, começou a frequentar a Associação Africana. Colaborou n'O Brado Africano, que tratava de assuntos de carácter local e que dissessem principalmente respeito à faixa da população mais desprotegida. Fez campanha contra o racismo no Notícias, onde trabalhava, tendo sido o primeiro jornalista oficialmente sindicalizado.
Em 1958, começou a trabalhar também na Imprensa Nacional. Continuou no Notícias até à fundação do jornal A Tribuna, em 1962. Entre 1964 e 1968 esteve preso, em virtude da sua ligação à FRELIMO, mas teve a oportunidade de conhecer na prisão o pintor Malangatana.
Começou a escrever cedo, mas a sua poesia demorou a ser publicada. Em Lisboa, a primeira obra a surgir foi Xigubo, em 1964, através da Casa dos Estudantes do Império. A partir de determinada altura, a consciência política do autor passou a refletir-se em obras como O Grito e O Tambor.
Apesar de a sua obra refletir a influência dos surrealistas, é fortemente marcada por todo um carácter popular e tipicamente moçambicano. A sua poesia possui um carácter social que radica nas camadas mais profundas do povo moçambicano.
Escritor de ligações afetivas com Portugal, foi-lhe atribuído o Prémio Camões em 1991 e recebeu condecorações dos presidentes de Portugal e de Moçambique, Jorge Sampaio e Joaquim Chissano respetivamente.
Vice-presidente do Fundo Bibliográfico de Língua Portuguesa, escritor galardoado com o prémio "Vida Literária" da Associação de Escritores Moçambicanos, foi homenageado no dia 28 de maio de 2002, na sequência da iniciativa do governo moçambicano em consagrar o ano de 2002 a José Craveirinha. (daqui)
 

Jimmy Ernst, Silence at Sharpeville, 1962
 

Matanças de Sharpeville e Langa

Também conhecido como o "Massacre de Sharpeville", este acontecimento teve como origem os problemas raciais na África do Sul entre as várias comunidades étnicas, mesmo entre brancos ingleses e afrikaners.
Em 1958, o Dr. Hendrik Verwoerd ocupou o cargo de chefe de Estado da República da África do Sul, mantendo a política extremista e segregacionista dos seus antecessores (Malan, Strijdom). Aliás, enquanto ministro dos Assuntos Nativos, em 1956, fora mesmo autor de um Plano de Segregação Racial que dividia o país em territórios para brancos e para negros, que a ONU e a comunidade internacional viria a criticar.
Do mesmo modo, já em 1957 houvera contestação e desobediência civil na população.
A 21 e 22 de março de 1960 sucederam-se manifestações da população negra nos subúrbios da Cidade do Cabo, como protesto a uma ordem do Governo que exigia documentos especiais de identidade aos negros para viverem e trabalharem em áreas urbanas. A Polícia disparou contra os manifestantes em Langa e Sharpeville, ação que se traduziu num saldo trágico de 72 mortos.
A 30 de março de 1960, os negros declararam greve e organizaram uma manifestação na Cidade do Cabo. O Governo tomou medidas de exceção e declarou o estado de emergência. Muitos dos manifestantes, entre os quais se contaram também brancos, foram presos. Até 31 de agosto a situação manter-se-ia, com o estado de emergência. O descontentamento e as críticas no estrangeiro, nomeadamente por parte da ONU, foram uma constante. Na África do Sul, contudo, o ANC (Congresso Nacional Africano) de Nelson Mandela foi proibido, acusado de instigar os manifestantes. A política segregacionista de apartheid persistiu apesar das condenações internacionais e do isolamento da África do Sul até finais da década de 80. (daqui)
 

domingo, 5 de março de 2023

"Távola" - Poema de Luís Adriano Carlos


Jimmy Ernst (American painter born in Germany, 1920-1984), Abstraction in green and black, 1946



Távola


Teu carro parado
nada tem a ver com as pirâmides
nem com o percurso das aves. Não
conhece o monumento
dos séculos, a ilustração
das capas dos filósofos ou
dos cavaleiros prediletos
de um rei transparente. A sombra
da tua voz não fala dos poetas
crucificados nos próprios versos
nem da arquitetura
de uma humanidade exilada.
A mala do teu carro
leva palavras vazias. Não tem
lugar para os pássaros.


Luís Adriano Carlos
,
Poesia digital - 7 poetas dos anos 80,
Campo das Letras,  2002
 
 
Jimmy Ernst, Paysage, 1942
 


Artes

"Somos pessoas racionais, animais racionais, se bem que a nossa animalidade seja discutível. Porém, os artistas não criam em função da razão ou do bom senso. Criam em função de um estímulo de qualquer coisa, que os ofusca e interroga. E, se tem uma tradução imagética, essa tradução é a primeira manifestação de arte propriamente dita. A essência da arte é a mimesis. Estamos cercados de objetos e tentamos perceber de que é que eles nos falam. Com exceção da música, as artes são imitativas e nasceram de uma cópia da própria natureza." 

Eduardo Lourenço, in Expresso, 2017 (daqui)
 
 
Jimmy Ernst, Biological Discovery, 1944


"Nunca sabemos o que verdadeiramente nos move. Gostava de acabar os dias reconciliado com o mundo, e sobretudo saber que mundo foi este em que vivi e o que é a vida. Sei disso tanto agora que tenho quase cem anos como quando tinha dois anos."

Eduardo Lourenço (Professor e filósofo português, 1923–2020), in Público, 2017 (daqui)
 

sexta-feira, 7 de outubro de 2022

"Chuva de pedra" - Poema de Menotti Del Picchia


Wassily Kandinsky (1866-1944), Landscape with Rain, January, 1913 – óleo sobre tela, 
70,2 x 78,1 cm,  Solomon R. Guggenheim Museum - New York, USA (Abstract art)
 

 
Chuva de pedra


O granizo salpica o chão como se as mãos das nuvens
quebrassem com estrondo um pedaço de gelo
para a salada de fruta dos pomares...

O cafezal, numa carreira alucinada,
grimpa as lombas de ocre
apedrejada matilha de cães verdes...

Fremem, gotejam eriçadas suas copas
como pelos de um animal todo molhado.

O céu é uma pedreira cor de zinco
onde estoura a dinamite dos coriscos.

Rola de fraga em fraga a lasca retumbante
de um trovão.

Os riachos
correm com seus pés invisíveis e líquidos
para o abrigo das furnas. No terreiro,
as roupas penduradas nos varais
dançam, funambulescas, com as pedradas,
numa fila macabra de enforcados! 


Menotti Del Picchia
, Chuva de pedra, 1925

 

Maurice Prendergast (American (born in Canada), 1858–1924), Umbrellas in the Rain,
 

"Um dia de chuva é tão belo como um dia de sol.
Ambos existem; cada um como é."

8-11-1915  
 

“Poemas Inconjuntos”. In Poemas de Alberto Caeiro
(Heterónimo de  Fernando Pessoa)

 
Claude Monet (French, 1840-1926), Morning on the Seine in the Rain, 1897-1898, 
óleo sobre tela. National Museum of Western Art, Toquio, Japão (Impressionism)



Provérbios portugueses (daqui)
 
 
“Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura.”
 
[Significa que «a tenacidade vence todas as dificuldades» (in Dicionário Prático de Locuções e Expressões Correntes, de Emanuel de Moura Correia e Persília de Melim Teixeira, Papiro Editora).]


“Não se pode ter sol na eira e chuva no nabal.”

[Significa que «é difícil ter, ao mesmo tempo, duas coisas opostas.»]

quinta-feira, 21 de outubro de 2021

"Sobra a construção de obras duradouras" - Poema de Bertold Brecht


 
Tomie Ohtake, Sem Título, 1954, óleo sobre tela



Sobra a construção de obras duradouras 
 
 
Quanto tempo
Duram as obras? Tanto
Quanto o preciso para ficarem prontas.
Pois enquanto dão que fazer
Não ruem.

Convidando ao esforço
Compensando a participação
A sua essência é duradoura enquanto
Convidam e compensam.

As úteis
Pedem homens
As artísticas
Têm lugar para a arte
As sábias
Pedem sabedoria
As destinadas à perfeição
Mostram lacunas
As que duram muito
Estão sempre para cair
As planeadas verdadeiramente em grande
Estão por acabar.

Incompletas ainda
Como o muro à espera da hera
(Esse esteve um dia inacabado
Há muito tempo, antes de vir a hera, nu!)
Insustentável ainda
Como a máquina que se usa
Embora já não chegue
Mas promete outra melhor.
Assim terá de construir-se
A obra para durar como
A máquina cheia de defeitos. 
 in 'Lendas, Parábolas, Crónicas, Sátiras e outros Poemas'
Tradução de Paulo Quintela


terça-feira, 14 de maio de 2019

"Hoje para morrer" - Poema de Fernando Echevarria


Hessam Abrishami, Harmonic Night



Hoje para morrer


Hoje, para morrer era preciso
que a música viesse. E nos beijasse
as pálpebras por dentro. E um sorriso
desceria da água à nossa face.

Tudo seria finalmente liso
como um rio que nunca mais passasse.
Tudo seria tudo, não sendo preciso
um relógio qualquer que nos guardasse

o grande amor que então percorreria
o corpo. Chamar-lhe-iam gravidade,
ou peso, ou nada, ou, simplesmente, fria

inércia, fim. Mas quem respira sabe-
-lhe a fundo o nome. De raiz diria:
"amor irresistível. Terra. Ou nave."


 in "Sobre as Horas", 1963
 

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

"Meu Pai, o que é a Liberdade?" - Poema de Moacyr Félix


Wassily Kandinsky, Improvisation 27 (Garden of Love II), 1912,  



Meu Pai, o que é a Liberdade?


- Meu pai, o que é a liberdade?

- É o seu rosto, meu filho,
o seu jeito de indagar
o mundo a pedir guarida
no brilho do seu olhar.
A liberdade, meu filho,
é o próprio rosto da vida
que a vida quis desvendar.
É sua irmã numa escada
iniciada há milénios
em direção ao amor,
seu corpo feito de nuvens
carne, sal, desejo, cálcio
e fundamentos de dor.
A liberdade, meu filho,
é o próprio rosto do amor.

- Meu pai, o que é a liberdade?

A mão limpa, o copo d’água
na mesa qual num altar
aberto ao homem que passa
com o vento verde do mar.
É o ato simples de amar
o amigo, o vinho, o silêncio
da mulher olhando a tarde
- laranja cortada ao meio,
tremor de barco que parte,
esto de crina sem freio.

- Meu pai, o que é a liberdade?

É um homem morto na cruz
por ele próprio plantada,
é a luz que sua morte expande
pontuda como uma espada.
É Cuauhtemoc a criar
sobre o brasileiro que o mata
uma rosa de ouro e prata
para altivez mexicana.
São quatro cavalos brancos
quatro bússolas de sangue
na praça de Vila Rica
e mais Felipe dos Santos
de pé a cuspir nos mantos
do medo que a morte indica.
É a blusa aberta do povo
bandeira branca atirada
jardim de estrelas de sangue
do céu de maio tombadas
dentro da noite goyesca.
É a guilhotina madura
cortando o espanto e o terror
sem cortar a luz e o canto
de uma lágrima de amor.
É a branca barba de Karl
a se misturar com a neve
de Londres fria e sem lã,
seu coração sobre as fábricas
qual gigantesca maçã.
É Van Gogh e sua tortura
de viver num quarto em Arles
com o sol preso em sua pintura.
É o longo verso de Whitman
fornalha descomunal
cozendo o barro da Terra
para o tempo industrial.
É Federico em Granada.
É o homem morto na cruz
por ele próprio plantada
e a luz que sua morte expande
pontuda como uma espada.

- Meu pai, o que é a liberdade?

A liberdade, meu filho,
é coisa que assusta:
visão terrível (que luta!)
da vida contra o destino
traçado de ponta a ponta
como já contada conta
pelo som dos altos sinos.
É o homem amigo da morte
Por querer demais a vida
- a vida nunca podrida.
É sonho findo em desgraça
desta alma que, combalida,
deixou suas penas de graça
na grade em que foi ferida...
a liberdade, meu filho,
é a realidade do fogo
do meu rosto quando eu ardo
na imensa noite a buscar
a luz que pede guarida
nas trevas do meu olhar. 


Moacyr Félix,
in 'Canto para As Transformações do Homem', 1964


sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

"Gargalhada" - Poema de Cecília Meireles

 
Giacomo Balla, Pessimism and Optimism, 1923
 

Gargalhada


Homem vulgar! Homem de coração mesquinho!
eu te quero ensinar a arte sublime de rir.
Dobra essa orelha grosseira, e escuta
o ritmo e o som da minha gargalhada:

Ah! Ah! Ah! Ah!
Ah! Ah! Ah! Ah!

Não vês?
É preciso jogar por escadas de mármore baixelas de ouro.
Rebentar colares, partir espelhos, quebrar cristais,
vergar a lâmina das espadas e despedaçar estátuas,
destruir as lâmpadas, abater cúpulas,
e atirar para longe os pandeiros e as liras...

O riso magnífico é um trecho dessa música desvairada.

Mas é preciso ter baixelas de ouro,
compreendes?
- e colares, e espelhos, e espadas e estátuas.
E as lâmpadas. Deus do céu!
E os pandeiros ágeis e as liras sonoras e trémulas...

Escuta bem:

Ah! Ah! Ah! Ah!
Ah! Ah! Ah! Ah!

Só de três lugares nasceu até hoje esta música heróica:
do céu que venta,
do mar que dança,
e de mim. 


Cecília Meireles
In Viagem, 1939 


domingo, 8 de fevereiro de 2015

"Aprendendo a Viver" - Crónica de Clarice Lispector


Gregory Deane, "Infinity Mix" Mixed Media on Canvas Painting, 58" x 58"


Aprendendo a Viver



Thoreau era um filósofo americano que, entre coisas mais difíceis de se assimilar assim de repente, numa leitura de jornal, escreveu muitas coisas que talvez possam nos ajudar a viver de um modo mais inteligente, mais eficaz, mais bonito, menos angustiado.
Thoreau, por exemplo, desolava-se vendo seus vizinhos só pouparem e economizarem para um futuro longínquo. Que se pensasse um pouco no futuro, estava certo. Mas «melhore o momento presente», exclamava. E acrescentava: «Estamos vivos agora.» E comentava com desgosto: «Eles ficam juntando tesouros que as traças e a ferrugem irão roer e os ladrões roubar.»
A mensagem é clara: não sacrifique o dia de hoje pelo de amanhã. Se você se sente infeliz agora, tome alguma providência agora, pois só na sequência dos agoras é que você existe.
Cada um de nós, aliás, fazendo um exame de consciência, lembra-se pelo menos de vários agoras que foram perdidos e que não voltarão mais. Há momentos na vida que o arrependimento de não ter tido ou não ter sido ou não ter resolvido ou não ter aceito, há momentos na vida em que o arrependimento é profundo como uma dor profunda.
Ele queria que fizéssemos agora o que queremos fazer. A vida inteira Thoreau pregou e praticou a necessidade de fazer agora o que é mais importante para cada um de nós.
Por exemplo: para os jovens que queriam tornar-se escritores mas que contemporizavam — ou esperando uma inspiração ou se dizendo que não tinham tempo por causa de estudos ou trabalhos — ele mandava ir agora para o quarto e começar a escrever.
Impacientava-se também com os que gastam tanto tempo estudando a vida que nunca chegam a viver. «É só quando esquecemos todos os nossos conhecimentos que começamos a saber.»
E dizia esta coisa forte que nos enche de coragem: «Por que não deixamos penetrar a torrente, abrimos os portões e pomos em movimento toda a nossa engrenagem?» Só em pensar em seguir o seu conselho, sinto uma corrente de vitalidade percorrer-me o sangue. Agora, meus amigos, está sendo neste próprio instante.
Thoreau achava que o medo era a causa da ruína dos nossos momentos presentes. E também as assustadoras opiniões que nós temos de nós mesmos. Dizia ele: «A opinião pública é uma tirana débil, se comparada à opinião que temos de nós mesmos.» É verdade: mesmo as pessoas cheias de segurança aparente julgam-se tão mal que no fundo estão alarmadas. E isso, na opinião de Thoreau, é grave, pois «o que um homem pensa a respeito de si mesmo determina, ou melhor, revela seu destino».
E, por mais inesperado que isso seja, ele dizia: tenha pena de si mesmo. Isso quando se levava uma vida de desespero passivo. Ele então aconselhava um pouco menos de dureza para com eles próprios. O medo faz, segundo ele, ter-se uma covardia desnecessária. Nesse caso devia-se abrandar o julgamento de si próprio. «Creio», escreveu, «que podemos confiar em nós mesmos muito mais do que confiamos. A natureza adapta-se tão bem à nossa fraqueza quanto à nossa força.» E repetia mil vezes aos que complicavam inutilmente as coisas — e quem de nós não faz isso? —, como eu ia dizendo, ele quase gritava com quem complicava as coisas: simplifique! simplifique! 


Clarice Lispector, in Crónicas no 'Jornal do Brasil (1968)'


Gregory Deane, Red Flora, 58 "x 58"


"My art, at its best, is a continuous process of self-discovery…sometimes headlong, sometime introspective…but always dynamic. I work to create paintings that are pleasing to the eye… Paintings that are filled with energy and generosity… Paintings that are instinctive and fluid…not contrived. I paint because I do what I enjoy doing!"

 
Gregory Deane, Notas Past, 60 "x 50"


"Fui para a mata porque queria viver deliberadamente, enfrentar apenas os factos essenciais da vida e ver se não poderia aprender o que ela tinha a ensinar, em vez de, vindo a morrer, descobrir que não tinha vivido."
 
 
 

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

"Dói-me a vida aos poucos" - Carta de Fernando Pessoa a Mário de Sá-Carneiro


Gregory Deane, Glacier Ridge
 


Dói-me a vida aos poucos


 Estou num daqueles dias em que nunca tive futuro. Há só um presente imóvel com um muro de angústia em torno. A margem de lá do rio nunca, enquanto é a de lá, é a de cá, e é esta a razão íntima de todo o meu sofrimento. Há barcos para muitos portos, mas nenhum para a vida não doer, nem há desembarque onde se esqueça. Tudo isto aconteceu há muito tempo, mas a minha mágoa é mais antiga.
Em dias da alma como hoje eu sinto bem, em toda a consciência do meu corpo, que sou a criança triste em quem a vida bateu. Puseram-me a um canto de onde se ouve brincar. Sinto nas mãos o brinquedo partido que me deram por uma ironia de lata. Hoje, dia catorze de Março, às nove horas e dez da noite, a minha vida sabe a valer isto.
No jardim que entrevejo pelas janelas caladas do meu sequestro, atiraram com todos os balouços para cima dos ramos de onde pendem; estão enrolados muito alto, e assim nem a ideia de mim fugido pode, na minha imaginação, ter balouços para esquecer a hora.
Pouco mais ou menos isto, mas sem estilo, é o meu estado de alma neste momento. Como à veladora do «Marinheiro» ardem-me os olhos, de ter pensado em chorar. Dói-me a vida aos poucos, a goles, por interstícios. Tudo isto está impresso em tipo muito pequeno num livro com a brochura a descoser-se.
Se eu não estivesse escrevendo a você, teria que lhe jurar que esta carta é sincera, e que as cousas de nexo histérico que aí vão saíram espontâneas do que sinto. Mas você sentirá bem que esta tragédia irrepresentável é de uma realidade de cabide ou de chávena — cheia de aqui e de agora, e passando-se na minha alma como o verde nas folhas.
Foi por isto que o Príncipe não reinou. Esta frase é inteiramente absurda. Mas neste momento sinto que as frases absurdas dão uma grande vontade de chorar. Pode ser que se não deitar hoje esta carta no correio amanhã, relendo-a, me demore a copiá-la à máquina, para inserir frases e esgares dela no «Livro do Desassossego». Mas isso nada roubará à sinceridade com que a escrevo, nem à dolorosa inevitabilidade com que a sinto.

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

"Movimento" - Poema de Octavio Paz


Wassily Kandinsky, Fuga, 1914, óleo sobre tela


Movimento


Se tu és a égua de âmbar 
eu sou o caminho de sangue 
Se tu és o primeiro nevão 
eu sou quem acende a fogueira da madrugada 
Se tu és a torre da noite 
eu sou o cravo ardendo em tua fronte 
Se tu és a maré matutina 
eu sou o grito do primeiro pássaro 
Se tu és a cesta de laranjas 
eu sou o punhal de sol 
Se tu és o altar de pedra 
eu sou a mão sacrílega 
Se tu és a terra deitada 
eu sou a cana verde 
Se tu és o salto do vento 
eu sou o fogo oculto 
Se tu és a boca da água 
eu sou a boca do musgo 
Se tu és o bosque das nuvens 
eu sou o machado que as corta 
Se tu és a cidade profunda 
eu sou a chuva da consagração 
Se tu és a montanha amarela 
eu sou os braços vermelhos do líquen 
Se tu és o sol que se levanta 
eu sou o caminho de sangue 


Octavio Paz, in "Salamandra" 
Tradução de Luis Pignatelli 


Octavio Paz

Octavio Paz Lozano (Cidade do México, 31 de Março de 1914 — Cidade do México, 19 de Abril de 1998) foi um poeta, ensaísta, tradutor e diplomata mexicano, notabilizado, principalmente, por seu trabalho prático e teórico no campo da poesia moderna ou de vanguarda. Recebeu o Nobel de Literatura de 1990.

Escritor prolífico cuja obra abarcou vários géneros, é considerado um dos maiores escritores do século XX e um dos grandes poetas hispânicos de todos os tempos.

Passou a infância nos Estados Unidos, acompanhando a família. De volta ao seu país, estudou direito na Universidade Nacional Autónoma do México. Cursou também especialização em literatura. Morou na Espanha, onde conviveu com diversos intelectuais. Viveu também em Paris, no Japão e na Índia.

Em 1945, ingressou no serviço diplomático mexicano. Quando morava em Paris, testemunhou e viveu o movimento surrealista, sofrendo grande influência de André Breton, de quem foi amigo. Em sua criação, experimentou a escrita automática, tendo praticado posteriormente uma poesia ainda vanguardista, porém mais concisa e objetiva, voltada a um uso mais preciso da função poética da linguagem.

Publicou mais de vinte livros de poesia e incontáveis ensaios de literatura, arte, cultura e política, desde Luna Silvestre, seu primeiro livro, de 1933.
Origem: Wikipédia


Composição VII - De acordo com Kandinsky, a peça mais complexa que ele já pintou (1913)


"A arte abstrata é a mais difícil de todas. Para entregar-se a ela é preciso ser bom desenhador, ter sensibilidade para a composição e para as cores e o que é mais importante, ser um poeta autêntico" - Kandinsky 
 

Wassily Kandinsky

Wassily Kandinsky (Moscou, 16 de dezembro de 1866 (4 de dezembro no calendário juliano então em vigor na Rússia) — Neuilly-sur-Seine, 14 de dezembro de 1944) foi um artista russo, professor da Bauhaus e introdutor da abstração no campo das artes visuais. Apesar da origem russa, adquiriu a nacionalidade alemã em 1928 e a francesa em 1939.

Na década de 1910 Kandinsky desenvolve seus primeiros estudos não figurativos, fazendo com que seja considerado o primeiro pintor ocidental a produzir uma tela abstrata. Algumas das suas obras desta época, como "murnau - Jardim 1" (1910) e "Grüngasse em Murnau" (1909) mostram a influência dos Verões que Kandinsky passava em Murnau nessa época, notando-se um crescente abstracionismo nas suas paisagens. Outra influência nas suas pinturas foi a música do compositor Arnold Schönberg, com quem Kandinsky manteve correspondência entre 1911 e 1914.

Kandinsky também escreveu poemas brilhantes, abstratos, que fazem referência a cores e linhas, tais quais surgiam na percepção do artista. Sendo eminentemente vanguardistas, no entanto, seus poemas diferem de tudo quanto foi produzido por qualquer "ismo" em literatura ou poeta vanguardista conhecido, inclusive do trabalho poético de outros artistas predominantemente plásticos, tais como Picasso e Hans Arp, que tenderam a aderir, na escrita, a alguma vanguarda poética conhecida, como o Surrealismo.
Origem: Wikipédia