terça-feira, 5 de maio de 2026

"Talvez tenhamos tempo" - Poema de Pablo Neruda



Peter Paul Rubens (Flemish artist and diplomat, 1577–1640),
'The Four Continents', c. 1615, Kunsthistorisches Museum.


Talvez tenhamos tempo


Talvez tenhamos tempo ainda
para ser e para ser justos.
De uma maneira transitória
agonizou ontem a verdade
e embora o saiba todo o mundo
todo o mundo bem o disfarça:
ninguém mandou algumas flores:
ela morreu e ninguém chora.

Entre o esquecimento e a aflição
um pouco antes do funeral
teremos a oportunidade
da nossa morte e nossa vida
para sair de rua em rua,
de mar em mar, de porto em porto,
de cordilheira em cordilheira,
e sobretudo de homem em homem,
a perguntar se a assassinámos
ou se a mataram os outros,
se foram os nossos inimigos
ou o nosso amor o assassino.
Porque a verdade já morreu
e agora podemos nós ser justos.

Antes devíamos lutar
com armas de calibre escuro
e por ferir-nos esquecemos
qual era o fim da nossa luta.

Nunca se soube de quem era
o sangue que nos envolvia,
acusamos outros sem cessar,
sem cessar fomos acusados,
eles sofreram e sofremos,
e depois de eles terem ganho
e termos ganho nós também
a verdade tinha morrido
de antiguidade ou violência.
Não há nada a fazer agora:
todos perdemos a batalha.

Por isso penso que talvez
por fim pudéssemos ser justos
ou por fim pudéssemos ser:
temos este último minuto
e depois mil anos de glória
para não ser e não voltar.


Pablo Neruda, in 'Memorial de La Isla Negra', 1964;
in 'Antologia', seleção e tradução de José Bento,
Relógio D’Água Editores, Lisboa, 1998.


 
Antologia Poética de Pablo Neruda. 
Tradução: José Bento. Nº de páginas: 462.
Relógio D’Água, 1998.
 

"Os poetas odeiam o ódio e fazem guerra à guerra."

Pablo Neruda (1904-1973), 
Prémio Nobel da Literatura em 1971.

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