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segunda-feira, 13 de abril de 2026

"Pensar em Deus é desobedecer a Deus" - Poema de Alberto Caeiro


 
Henri Biva (French artist, 1848-1928), "The canal". Oil on canvas, 64.7 x 54.6 cm.
Private collection
 
 
Pensar em Deus é desobedecer a Deus 

VI

Pensar em Deus é desobedecer a Deus, 
Porque Deus quis que o não conhecêssemos, 
Por isso se nos não mostrou... 

Sejamos simples e calmos, 
Como os regatos e as árvores, 
E Deus amar-nos-á fazendo de nós 
Belos como as árvores e os regatos, 
E dar-nos-á verdor na sua primavera, 
E um rio aonde ir ter quando acabemos!...
 
s.d.

 Alberto Caeiro, "O Guardador de Rebanhos",
in Poemas de Alberto Caeiro / Fernando Pessoa.
(Nota explicativa e notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.)
Lisboa: Ática, 1946 (10ª ed. 1993). - 31.
 
 
 
Henri Biva, "A quiet stretch of the river"Oil on canvas, 50 × 61 cm.


Eu queria ter o tempo e o sossego suficientes



Eu queria ter o tempo e o sossego suficientes 
Para não pensar em coisa nenhuma, 
Para nem me sentir viver, 
Para só saber de mim nos olhos dos outros, refletido. 

21-5-1917 

 Alberto Caeiro
, "Poemas Inconjuntos",
Poemas Completos de Alberto Caeiro / Fernando Pessoa.
(Recolha, transcrição e notas de Teresa Sobral Cunha.)
Lisboa: Presença, 1994. - 134.
 

quarta-feira, 14 de agosto de 2024

"Árvore" - Poema de Mia Couto


Henri Biva (French artist, 1848–1929), Forest in the spring, oil on canvas, 73 x 60 cm.



Árvore


Onde os frutos maduram:
sal e sol em minhas veias
luz e mel em boca alheia.

Onde plantei
a alta acácia das febres
eu mesmo me deitei,
para ser a raiz da semente,
e da madeira e seiva
se fez o meu corpo.

Agora,
chove dentro de mim,
em minhas folhas se demoram gotas,
suspensas entre um e outro Sol.

Em mim pousam
cantos e sombras
e eu não sei
se são aves ou palavras. 


Mia Couto
, in "Vagas e Lumes"



Henri Biva, Étang en Ile de France, oil on canvas, 54 x 65 cm.
 

"Quem voa depois da morte? É a folha da árvore."

Mia Couto, in "O Último Voo do Flamingo" 
 

terça-feira, 23 de julho de 2024

"Os rios" - Poema de João Cabral de Melo Neto


Henri Biva (French artist, 1848–1929), By the river, oil on canvas, 122 x 162 cm.
 


Os rios


Os rios que eu encontro
vão seguindo comigo.
Rios são de água pouca,
em que a água sempre está por um fio.
Cortados no verão
que faz secar todos os rios.
Rios todos com nome
e que abraço como a amigos.
Uns com nome de gente,
outros com nome de bicho,
uns com nome de santo,
muitos só com apelido.
Mas todos como a gente
que por aqui tenho visto:
a gente cuja vida
se interrompe quando os rios. 
 

[O Rio ou Relação da Viagem que Faz o Capibaribe de Sua Nascente à Cidade do Recife publicado em 1953 é um livro de João Cabral de Melo Neto, na sua linha mais popular, como Morte e vida severina.
O Rio é um poema narrativo que tem como narrador o próprio rio que narra a sua viagem, partindo da nascente na aridez do sertão, passando através da fértil zona da mata, até chegar à cidade de Recife.] (daqui)


Henri Biva, Les Nénuphar, oil on canvas, 82 x 65 cm.
 

Henri Biva, A sun drenched river view, oil on canvas, 64.8 x 54 cm.


Henri Biva, Punts moored on still waters, oil on canvas, 61 x 50 cm.
 

Henri Biva, La Rivère, oil on canvas, 61.5 x 50.5 cm.
 

"Os pais se perguntam porque os rios são amargos, quando eles mesmos envenenaram a fonte."
 
John Locke
, Some Thoughts Concerning Education. London: A. and J. Churchill, 1693. 

sexta-feira, 26 de abril de 2024

"Crisântemos" - Poema de Florbela Espanca


Henri Biva (French artist, 1848–1929), Chrysanthemums and roses in a vase on a salver
Oil on canvas, 122 x 77.8 cm. Private collection.
 
 
Crisântemos


Sombrios mensageiros das violetas,
De longas e revoltas cabeleiras;
Brancos, sois o casto olhar das virgens
Pálidas que ao luar, sonham nas eiras.

Vermelhos, gargalhadas triunfantes,
Lábios quentes de sonhos e desejos,
Carícias sensuais d’amor e gozo;
Crisântemos de sangue, vós sois beijos!

Os amarelos riem amarguras,
Os roxos dizem prantos e torturas,
Há-os também cor de fogo, sensuais...

Eu amo os crisântemos misteriosos
Por serem lindos, tristes e mimosos,
Por ser a flor de que tu gostas mais! 


 Florbela Espanca, in Trocando Olhares
(Coletânea de poemas)


Henri Biva, Fleurs près d'un puits, oil on canvas, 181 x 118.
 
 
"Não sou como a abelha saqueadora que vai sugar o mel de uma flor, e depois de outra flor. Sou como o negro escaravelho que se enclausura no seio de uma única rosa e vive nela até que ela feche as pétalas sobre ele; e abafado neste aperto supremo, morre entre os braços da flor que elegeu".

Roger Martin du Gard, "Os Thibault".
Tradução de Casemiro Fernandes, 
Editora Globo, 1986.

 l'année du Prix Nobel.
 
Roger Martin du Gard (Escritor francês, 1881-1958) é o autor de Jean Barois (1913), romance baseado no caso Dreyfus, e do fresco Les Thibault (1922-1940), que retrata a vida de uma família francesa nas duas primeiras décadas do século XX, demonstrando uma técnica romanesca extremamente eficaz. A sua obra final, Souvenirs du lieutenant-colonel de Maumort (1942-1958), testemunha uma obsessão com a morte. Em 1968 foi editada a correspondência que manteve com André Gide. Recebeu o Prémio Nobel da Literatura em 1937. (daqui)

 
Couverture du premier volume "Le cahier gris",
 édition originale, 1922.
 

RESUMO


'Os Thibault' - escrito em oito partes, entre 1922 e 1940 e reunido pela Editora Globo em cinco volumes, é considerado um dos grandes clássicos da literatura universal. Adotando os cânones do roman-fleuve [romance-rio] e do realismo do final do século XIX e início do século XX - desenvolvimento da narrativa em um longo espaço de tempo, adoção de um ponto de vista puramente objetivo para a obtenção da verdade e a apresentação da visão de conjunto de uma sociedade - Os Thibault revela os impasses morais e políticos de uma família francesa, católica e burguesa, diante dos eventos dramáticos que culminaram com a deflagração da Primeira Guerra Mundial, em 1914. 
Narrado ao longo das duas primeiras décadas do século XX, Du Gard contrasta a figura do velho Thibault, um conformista social e religioso, com o retrato dos seus dois filhos: Jacques, um revoltado espiritual, e Antoine, um médico prático e enérgico.
Em 1920, Roger Martin du Gard estabeleceu-se em Clermont, perto de Paris, para elaborar aquela que seria considerada a sua obra-prima. Em reclusão quase total, começou a escrever Os Thibault, cujas seis primeiras partes foram publicadas entre 1922 e 1929 (O Caderno Gris, A Penitenciária, Primavera, A Clínica, La Sorellina e A Morte do Pai). 
Du Gard só retoma a saga de Os Thibault em 1933, realizando novas pesquisas e consultas, já que considerou ser necessária uma perfeita documentação histórica para a conclusão da obra. Então, em 1936, surge Verão de 1914, a sétima parte de Os Thibault e, finalmente, em 1939, quando uma nova guerra começava, conclui a obra, lançando Epílogo, sua última parte. (daqui)
 

segunda-feira, 28 de março de 2022

"Fuga" - Poema de Luís Amaro


Henri Biva (French artist, 1848-1928), River Scene in Spring, France (View of Willow Trees 
on the Bank of a River with Waterlilies), oil on canvas, approx 60 x 49 cm.


Fuga



Numa nuvem de esquecimento
passar a vida,
sem mágoas, sem um lamento,
água correndo, impelida
pelo vento.

Ouvir a música do instante que passa
e recolhê-la no coração,
olhos fechados à dor e à desgraça,
os ouvidos atentos à canção
do instante que passa.

Beber a luz doirada que irradia
dos vastos horizontes,
e ver escoar-se o dia
entre pinhais e montes...
Doce melancolia.

Esquecer todas as agruras
que lá vão
e este negro mar de desventuras
em que voga ao sabor de torvas ondas
meu coração.


Luís Amaro
 
 

Luís Amaro (daqui)
 

Luís Amaro
(Aljustrel, 5 de maio de 1923 — Lisboa, 24 de agosto de 2018), poeta e crítico literário, co-dirigiu, com os poetas António Luís Moita, António Ramos Rosa, José Terra e Raul de Carvalho, entre 1951 e 1953, a revista Árvore, subscrevendo, no n.° 1, em "A Necessidade da Poesia", como imperativos da escrita poética, a liberdade e a isenção ("Não pode haver razões de ordem social que limitem a altitude ou a profundidade dum universo poético, que se oponham à liberdade de pesquisa e apropriação dum conteúdo cuja complexidade exige novas formas, o ir-até-ao-fim das possibilidades criadoras e expressivas."). 
 
Colaborou noutras publicações como Seara Nova, Távola Redonda e Portucale, e foi diretor-adjunto e consultor editorial da revista Colóquio/Letras. Mais conhecido pela sua atividade editorial e de investigação literária (organizou a edição de Ensaios Críticos Sobre José Régio, da Poesia Completa de Mário Beirão, entre outras iniciativas), desenvolveu uma atividade poética curta, mas significativa, tendo editado, em 1949, o volume Dádiva, reeditado com outros poemas, em 1975, sob o título de Diário Íntimo
 
Poeta predominantemente melancólico e disfórico, para António Ramos Rosa (cf. "Luís Amaro entre o sonho e a dor", in Rosa, António Ramos - A Parede Azul, Estudos sobre Poesia e Artes Plásticas, Lisboa, Caminho, 1991, pp. 75-78), "Luís Amaro é fiel a esse espaço interior a que se chama alma e a sua poesia é a tentativa permanente de se integrar nela ou de a habitar, mau grado todas as agressões do mundo exterior [...] o que ela diz é sempre a pureza do sonho irrealizado mas vivo na sua virtualidade permanente que ilumina a vida e secretamente a alimenta".(Daqui)
 
 
 Henri Biva, Matin à Villeneuve (From Waters Edge), c. 1905-06, oil on canvas, 153.7 x 127cm, 
painted at Villeneuve l'Etang, Marnes-la-Coquette (Seine-et-Oise), France, private collection


"A história provou a capacidade demolidora da poesia e nela me refugio incondicionalmente." 

(Pablo Neruda)

 
Henri Biva, Tranquility, oil on canvas, 61 x 74 cm, Signed and dedicated "a mes chers enfants 
Lison et Marcelle Maitre, Henri Biva."
 

"A poesia é um ato de paz. A paz entra dentro da composição de um poeta tal como a farinha
 entra na composição do pão."
 
in Confieso que he vivido. Memórias. (Autobiografia), Barcelona, Seix Barral, 1974.
[Prémio Nobel da Literatura em 1971]