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quinta-feira, 4 de julho de 2024

"Imagens que passais pela retina" - Poema de Camilo Pessanha


Genco Gulan (Contemporary conceptual artist and theorist, who lives and works
in Istanbul, b. 1969), Self-portrait with 4 eyes, 2011. Oil on Canvas.



Imagens que passais pela retina


Imagens que passais pela retina
Dos meus olhos, porque não vos fixais?
Que passais como a água cristalina
Por uma fonte para nunca mais!...

Ou para o lago escuro onde termina
Vosso curso, silente de juncais,
E o vago medo angustioso domina,
— Porque ides sem mim, não me levais?

Sem vós o que são os meus olhos abertos?
— O espelho inútil, meus olhos pagãos!
Aridez de sucessivos desertos...

Fica, sequer, sombra das minhas mãos,
Flexão casual de meus dedos incertos,
— Estranha sombra em movimentos vãos.


Camilo Pessanha, in 'Clepsidra'
 

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

"Dizes-me: tu és mais alguma coisa" - Poema de Alberto Caeiro



Shawn Van DaeleIn The Springtime of an Idea


Dizes-me: tu és mais alguma coisa


Dizes-me: tu és mais alguma coisa
Que uma pedra ou uma planta.
Dizes-me: sentes, pensas e sabes
Que pensas e sentes.
Então as pedras escrevem versos?
Então as plantas têm ideias sobre o mundo?

Sim: há diferença.
Mas não é a diferença que encontras;
Porque o ter consciência não me obriga a ter teorias sobre as coisas:
Só me obriga a ser consciente. 

Se sou mais que uma pedra ou uma planta? Não sei.
Sou diferente. Não sei o que é mais ou menos.

Ter consciência é mais que ter cor?
Pode ser e pode não ser.
Sei que é diferente apenas.
Ninguém pode provar que é mais que só diferente. 

Sei que a pedra é a real, e que a planta existe.
Sei isto porque elas existem.
Sei isto porque os meus sentidos mo mostram.
Sei que sou real também.
Sei isto porque os meus sentidos mo mostram,
Embora com menos clareza que me mostram a pedra e a planta.
Não sei mais nada. 

Sim, escrevo versos, e a pedra não escreve versos.
Sim, faço ideias sobre o mundo, e a planta nenhumas.
Mas é que as pedras não são poetas, são pedras;
E as plantas são plantas só, e não pensadores.
Tanto posso dizer que sou superior a elas por isto,
Como que sou inferior.
Mas não digo isso: digo da pedra, «é uma pedra»,
Digo da planta, «é uma planta»,
Digo de mim «sou eu».
E não digo mais nada. Que mais há a dizer?


Alberto Caeiro, in “Poemas Inconjuntos”
Heterónimo de Fernando Pessoa


domingo, 7 de outubro de 2012

"Contos" - Texto de Eça de Queirós


Marcel Duchamp, Fonte (urinol), 1917 
 


Maravilhosa invenção!

 
Ao fundo, e como um altar-mor, era o gabinete de trabalho de Jacinto. A sua cadeira, grave e abacial, de couro, com brasões, datava do século XIV, e em torno dela pendiam numerosos tubos acústicos, que, sobre os panejamentos de seda cor de musgo e cor de hera, pareciam serpentes adormecidas e suspensas num velho muro de quinta. Nunca recordo sem assombro a sua mesa, recoberta toda de sagazes e subtis instrumentos para cortar papel, numerar páginas, colar estampilhas, aguçar lápis, raspar emendas, imprimir datas, derreter lacre, cintar documentos, carimbar contas! Uns de níquel, outros de aço, rebrilhantes e frios, todos eram de um manejo laborioso e lento: alguns, com as molas rígidas, as pontas vivas, brilhavam e feriam: e nas largas folhas de papel Whatman em que ele escrevia, e que custavam quinhentos réis, eu por vezes surpreendi gotas de sangue do meu amigo. Mas a todos ele considerava indispensáveis para compor as suas cartas (Jacinto não compunha obras), assim como os trinta e cinco dicionários, e os manuais, e as enciclopédias, e os guias, e os directórios, atulhando uma estante isolada, esguia, em forma de torre, que silenciosamente girava sobre o seu pedestal, e que eu denominara o Farol. O que, porém, mais completamente imprimia àquele gabinete um portentoso carácter de civilização eram, sobre as suas peanhas de carvalho, os grandes aparelhos, facilitadores do pensamento — a máquina de escrever, os autocopistas, o telégrafo Morse, o fonógrafo, o telefone, o teatrofone, outros ainda, todos com metais luzidios, todos com longos fios. Constantemente sons curtos e secos retiniam no ar morno daquele santuário. Tique, tique, tique! Dlim, dlim, dlim! Craque, craque, craque! Trrre, Trrre, Trrre!... Era o meu amigo comunicando. Todos esses fios mergulhados em forças universais transmitiam forças universais. E elas nem sempre, desgraçadamente, se conservavam domadas e disciplinadas! Jacinto recolhera no fonógrafo a voz do conselheiro Pinto Porto, uma voz oracular e rotunda, no momento de exclamar com respeito, com autoridade:
— Maravilhosa invenção! Quem não admirará os progressos deste século? 

Eça de Queirós, Civilização, 1892.


Vida e Obra de Marcel Duchamp
Marcel Duchamp, 1913, Roda de Bicicleta. Dadaismo
 
Marcel Duchamp foi um importante pintor, escultor e poeta francês. Nasceu em 28 de julho de 1887 na cidade francesa de Blainville-Crevon e faleceu em 2 de outubro de 1968, na cidade de Nova Iorque. É um dos grandes representantes do movimento artístico conhecido como dadaísmo.


Marcel Duchamp

Marcel Duchamp, aos 14 anos de idade, pintou suas primeiras obras com grande influência impressionista. Aos 16 anos de idade deixou a casa da família e foi morar em Paris com seu irmão. Nesta época, tentou entrar na Escola de Belas Artes, porém foi reprovado no exame. Foi então estudar artes na Academia Julian.
Entre 1906 e 1907 fez vários trabalhos de conotação humorística. Em 1907, cinco de seus trabalhos foram selecionados para o Primeiro Salão de Artistas Humoristas.
A partir de 1911 começou a pintar telas com influência cubista. É desta fase a obra Sonata. Ainda neste ano cria sua primeira obra inovadora, com influência cubista, Retrato de jogadores de xadrez.
Em 1913 criou o ready-made (manifestação artística que rompe com o tradicional e pega objetos práticos para transforma-los em obras de arte). Maior exemplo é a obra Fonte, criada em 1917, a partir de um urinol. Porém, sua primeira obra ready-made, Roda de bicicleta sobre um banquinho, foi criada em 1913.
 Em 1915, foi morar na cidade de Nova Iorque.  Em 1916, surgiu o dadaísmo e Duchamp passou a fazer parte do grupo de artistas dadaístas de Nova Iorque.
 Em 1920, viajou para Paris e entrou em contato com artistas dadaístas europeus, entre eles André Breton.

Marcel Duchamp
 
No começo da década de 1920, participou de vários torneios de xadrez, outra área que demonstrava grande interesse, além das artes plásticas. Em 1927 casou-se com Lydie Sarrazin-Levassor. Porém divorciou-se no ano seguinte. Em 1933 participou de seu último torneio de xadrez. Em 1955, Duchamp nacionalizou-se estadunidense.

Marcel Duchamp playing chess in 1952. 
(Kay Bell Reynal photo in the Smithsonian Institution Archives of American Art.)

Marcel Duchamp foi um dos precursores da arte conceitual e introduziu a ideia de ready made como objeto de arte. Quando tirava uma peça de seu ambiente natural - como fez com uma roda de bicicleta e um banquinho de madeira ou até com uma louça de sanitário masculino (urinol) - e dava aos objetos a envergadura de um objeto de arte, o que desejava era instigar o pensamento, provocar um raciocínio, destruir a quietude das coisas aceites e estabelecidas. Ele contribuiu para o infindável debate entre o que é e o que não é arte. 

Marcel Duchamp, 1919, L.H.O.O.Q. 
(Lápis sobre uma gravura de Mona Lisa de Leonardo da Vinci)
 
Quando pintou bigodes na Mona Lisa de Leonardo da Vinci, colocava nitidamente o seu desprezo pela arte clássica. Colocar a Mona Lisa  e um urinol no mesmo patamar é uma provocação. Duchamp foi um provocador. Com o seu posicionamento, Duchamp não buscava o belo nem a aprovação do público. Ele procurava o âmago das emoções humanas, as reações instintivas. Disse na época:“Transformar todas as pequenas manifestações externas de energia, em excesso ou desperdiçadas, como por exemplo, o crescimento dos cabelos ou das unhas, a queda da urina ou das fezes, os movimentos impulsivos do medo, do assombro, do riso, a queda da lágrima, os gestos da mãos, o olhar frio, o ronco ao se dormir, a ejaculação, o vómito, o desmaio, etc".


Marcel Duchamp, Bottlerack, 1914
 
O que o artista propunha era uma arte conceitual, na qual a ideia era mais importante que a execução da obra pelas mãos do artista. Daí a sua série ready-made (o transporte de um elemento da vida quotidiana, a priori não reconhecido como artístico, para o campo das artes), objetos industriais que ele expunha como obra de arte. Ele pretendia despertar uma nova maneira de ver o mundo e as coisas.


Marcel Duchamp, A grande imagem de vidro, 1915-1923

A obra de Duchamp deixou um legado importante para as experimentações artísticas subsequentes, tais como o Dadaísmo, o Surrealismo, o Expressionismo Abstrato, a Arte Conceitual, entre outros.


Marcel Duchamp, Nude Descending a Staircase, 
No. 2 (1912). Oil on canvas.


domingo, 26 de agosto de 2012

"Turva hora" - Poema de Natália Correia


Rachel Perry Welty, Lost in my life



Turva hora 


Turva hora onde 
Principia a noite 
E o dia se esconde. 

Hora de abandonos 
Em que a gente esquece 
Aquilo que somos 
E o tempo adormece. 

Nevoenta hora, 
Hora de ninguém 
Em que a gente chora 
Não sabe por quem. 

E tudo se esconde 
Nessa hora onde 
Por estranha magia 
Brilha o sol da noite 
E o luar de dia.


Natália Correia, 
in "Poesia Completa",
Publicações Dom Quixote, Lisboa 1999


"When you think about it, it's really these small moments that make up most of our life," 
says artist Rachel Perry Welty. (Michele McDonald for The Boston Globe)


A artista  Rachel Perry Welty, nascida em 1962, em Tóquio, Japão e formada na Escola do Museu de Belas Artes de Boston é a criadora desta série muito atraente chamada "Lost in My Life". Com diferentes estilos gráficos de personalização, os modelos misturam-se à paisagem de fundo de modo a criar uma harmoniosa composição. Independente da quantidade de cores e texturas, Rachel  consegue sempre fazer com que sua arte se  confunda com a figura de fundo escolhida. A artista usa alguns itens de consumo muito familiares culturalmente, como etiquetas de frutas e embalagens, entre outros, para criar este caótico padrão de fundo. Mas isso não é tudo; ela então coloca-se no meio de tudo isso! Parte performance, parte instalação, a série é um olhar irónico sobre a forma como nós consumimos atualmente. "Essas sobras constituem a linguagem da vida moderna", Welty diz. "Através da repetição, eu recolho, acumulo e represento as lembranças esquecidas de consumo."


Capa da Vogue


 Rachel Perry Welty


 Rachel Perry Welty


 Rachel Perry Welty


 Rachel Perry Welty


 Rachel Perry Welty


 Rachel Perry Welty


Rachel Perry Welty Vogue


 Rachel Perry Welty Vogue


Rachel Perry Welty - Vogue