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quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

"Para a minha filha" - Poema de Joseph Brodsky


Luigi Amato (Italian painter, 1889-1961), Soap bubbles



Para a minha filha


Dai-me outra vida e estarei no Caffè Rafaella
a cantar. Ou estarei sentado a uma mesa,
simplesmente. Ou de pé, como um móvel no corredor,
caso essa vida seja menos generosa que a anterior.

Contudo, em parte porque nenhum século daqui em diante
conseguirá passar sem jazz nem cafeína, aguentarei esse desplante,
e pelas minhas rachas e poros, verniz e todo de pó coberto,
observarei, daqui a vinte anos, como a tua flor se terá aberto.

De um modo geral, lembra-te de que estou por ali. Ou melhor, que
um objeto inanimado pode ser o teu pai, sobretudo se
os objetos forem mais velhos do que tu, ou maiores. Não
os percas de vista, pois, sem dúvida, te julgarão.

Seja como for, ama essas coisas, haja ou não encontro.
Além disso, pode ser que ainda te lembres duma silhueta, dum contorno,
ao passo que eu até isso perderei, juntamente com a restante bagagem.
Daí estes versos, algo toscos, na nossa comum linguagem.


(Nobel de Literatura de 1987)


segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

"Bolinhas de sabão" - Poema de Valéria Tarelho


Luigi Amato (italian painter, 1889-1961), Blowing Bubbles



Bolinhas de sabão


Bolinhas de sabão
sobem sobem
até que explodem
desaparecem no ar

Mais um sopro
e lá vão elas
- tão belas e circulares -
soltas tontas pelos ares

Cintilantes e molhadas
as bolhas são recheadas
de gostosas gargalhadas
e doces sonhos de criança

Todas elas redondinhas
grandes e pequenininhas
pairam brilham bailam
se movimentam
na dança
no embalo do vento

Sobem sobem
se desmancham
- uma a uma
então estoura -
e vão-se embora por fim

Nem assim
o encantamento
evapora





Danny MacAskill's Imaginate


sexta-feira, 14 de março de 2014

"Antes do nome" - Poema de Adélia Prado


Luigi Amato (italian painter, 1889-1961)


Antes do nome


Não me importa a palavra, esta corriqueira.
Quero é o esplêndido caos de onde emerge a sintaxe,
os sítios escuros onde nasce o “de”, o “aliás”,
o “o”, o “porém” e o “que”, esta incompreensível
muleta que me apoia.
Quem entender a linguagem entende Deus
cujo Filho é Verbo. Morre quem entender.
A palavra é disfarce de uma coisa mais grave, surda-muda,
foi inventada para ser calada.
Em momentos de graça, infrequentíssimos,
se poderá apanhá-la: um peixe vivo com a mão.
Puro susto e terror.


Pintura de Luigi Amato


«Sou feliz só por preguiça. A infelicidade dá uma trabalheira pior que a doença: é preciso entrar e sair dela...»

Pintura de Luigi Amato


"A intimidade desta vida de aldeia é um espetáculo ao mesmo tempo repugnante e maravilhoso. Estrume da cabeça aos pés. Entre o porco e o dono não há destrinça. Mas, ao cabo, esta animalidade toda, de tão natural, acaba por ser pura e limpa como a bosta de boi."

Miguel Torga, Diário (1936)


Pintura de Luigi Amato


"Um dos meus sete pecados mortais: a sede de amor absoluto que me devora."

Miguel Torga, Diário (1938)


Pintura de Luigi Amato


"Quando um homem tem dentro de si uma verdade que quer ouvidos, até peixes lhe servem para auditório. Santo António que o diga..."

Miguel Torga, Diário (1941)


Pintura de Luigi Amato


"A vida à beira-mar, para um escritor, tem a desvantagem de o fazer esquecer o mundo. É tão absorvente e tão embalador este ritmo contínuo das ondas, que se perde a memória do resto."

Miguel Torga, Diário (1948)


Pintura de Luigi Amato


"Que belo é ter um amigo! Ontem eram ideias contra ideias. Hoje é este fraterno abraço a afirmar que acima das ideias estão os homens. Um sol tépido a iluminar a paisagem de paz onde esse abraço se deu, forte e repousante. Que belo e que natural é ter um amigo!"

Miguel Torga, Diário (1935)


John Legend - Everybody Knows