Mostrar mensagens com a etiqueta Maria da Saudade Cortesão. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Maria da Saudade Cortesão. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 29 de abril de 2026

"Ofélia" - Poema de Maria da Saudade Cortesão


 
John William Waterhouse (English painter, 1849–1917),"Ophelia", 1910.


Ofélia


Que perfil perdi no vento
Que rosto perdi na água,
Transparência perturbada,
Íris d’água cor do tempo.

Nunca a figura do sonho
Me pareceu tão velada 
Vejo só a meia-lua
Da sua nuca inclinada.

Edifício d’água e sombra
Que a corrente desmanchava
E em meus cabelos ao sul
As grinaldas desfolhava.

Deixai-me afundar nas frias
Solidões de junco e mágoa,
E de mim própria ausente
Repousar à sombra d’água.


Maria da Saudade Cortesão Mendes
,
in "O dançado destino", 1955.
 
 

Friedrich Heyser (German portrait, landscape, and history painter, 1857–1921),
"Ophelia", c. 1900, Museum Wiesbaden, Wiesbaden.
 

sexta-feira, 20 de março de 2026

"Primavera" - Poema de Maria da Saudade Cortesão



Edwin Blashfield (American painter and muralist, 1848– 1936),
"Spring Scattering Stars", 1927, Private collection.
 

Primavera 


A Musa que passava
Não era a que sabias.
Vinha em lua minguante
A espaços vestida
Por espelhos azuis
E narcisos de frio.

Que remanso tão meigo
Em seus peitos havia!
Que miosótis de leite
Em suas veias tíbias,
Três tangentes tocavam
O seu coração dúbio.

Não lhe soubeste o corpo —
Terra da madrugada
Que se dava ferida,
Nem os seus cursos de água.
Olhavas tão ao longe
Enquanto o amor te olhava.


Maria da Saudade Cortesão, 
em Literatura & Arte (Suplemento),
Jornal de São Paulo Nº 60/1950.




Murilo Mendes e Maria da Saudade Cortesão em Bruxelas, 1954.
 (daqui)
 
 
Maria da Saudade Cortesão Mendes (Porto, 1913 - Lisboa, 2010), poeta e tradutora, filha de Jaime Cortesão viveu grande parte da vida no estrangeiro acompanhando seu pai no exílio, primeiro em Paris (1927), depois em Madrid e, por fim, no Rio de Janeiro, onde conheceu o poeta Murilo Mendes  com quem veio a casar-se em 1947. 
Entre 1952 e 1956 viajou pela Europa acompanhando o marido em missões culturais de difusão da literatura brasileira. 
Em 1957 fixaram-se em Roma, onde, durante 18 anos, a sua casa se tornou lugar de referência para escritores e artistas plásticos. Foi amiga de Albert Camus, René Char, Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto, Luciana Stegagno Picchio, Sophia de Mello Breyner e Maria Helena Vieira da Silva, entre outros.
O seu livro de estreia Dançado Destino, foi Prémio Fábio Prado de Poesia. 
Traduziu Murder in the Cathedral, de T. S. Eliot, A Midsummer Night's Dream, de Shakespeare, e Calígula, de Albert Camus. 
Publicou também traduções do italiano e poemas em revistas e antologias no Brasil e na Itália. (daqui)