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quarta-feira, 29 de abril de 2026

"Ofélia" - Poema de Maria da Saudade Cortesão


 
John William Waterhouse (English painter, 1849–1917),"Ophelia", 1910.


Ofélia


Que perfil perdi no vento
Que rosto perdi na água,
Transparência perturbada,
Íris d’água cor do tempo.

Nunca a figura do sonho
Me pareceu tão velada 
Vejo só a meia-lua
Da sua nuca inclinada.

Edifício d’água e sombra
Que a corrente desmanchava
E em meus cabelos ao sul
As grinaldas desfolhava.

Deixai-me afundar nas frias
Solidões de junco e mágoa,
E de mim própria ausente
Repousar à sombra d’água.


Maria da Saudade Cortesão Mendes
,
in "O dançado destino", 1955.
 
 

Friedrich Heyser (German portrait, landscape, and history painter, 1857–1921),
"Ophelia", c. 1900, Museum Wiesbaden, Wiesbaden.
 

sexta-feira, 10 de abril de 2026

"Ofélia" - Poema de Arthur Rimbaud (2 traduções)



Ernest Hébert (Peintre français, 1817-1908), "Ophélie aux liserons", 1876,
Huile sur toile, Paris, Musée d'Orsay.


Ofélia 

(Tradução de Maria Gabriela Llansol)

I

Sobre a onda serena e negra onde dormem as estrelas
A branca Ofélia flutua como um lírio imenso, flutua
Quase impercetível, recostada nos seus grandes véus...
— Ouvem-se nos bosques distantes clamores de rendição.

Eis que há mais de mil anos a triste Ofélia
Passa, espectro branco, vogante sobre o negro rio,
Há mais de mil anos, eis o seu doce desvario
Sussurrando à brisa do entardecer seu novelo de amor.

O vento beija-lhe os seios e desdobra em corola
Seus grandes véus molemente afagados pelas águas;
Os salgueiros frementes choram sobre seu ombro,
Sobre a sua imensa fronte de sonho inclinam-se os juncos.

Os nenúfares pisados suspiram à volta de Ofélia;
Por vezes, ela acorda, num amieiro que dorme,
Um ou outro ninho, donde se escapa, breve, uma asa trémula:
— Um cântico misterioso cai dos astros d'ouro.

II

Ó pálida Ofélia!, bela como a neve bela!
Sim, tu morreste, infanta, levada por um rio!
— É porque os ventos que descem dos grandes montes da Noruega
Te haviam falado ao ouvido da áspera liberdade!

É porque um sopro-brisa, emaranhado na tua imensa cabeleira,
Ao teu espírito sonhante levava estranhos rumores;
O teu coração escutava o cântico da Natura
Na árvore das dores e nos suspiros das noites;

É porque a voz dos loucos mares, imenso estertor-ruído,
Quebrava teu peito de infanta, humano de mais, demasiado doce.
É porque, numa manhã de Abril, um belo cavaleiro pálido,
Um pobre louco, nos teus joelhos se sentou mudo!

Céu!, amor!, liberdade! Que sonho, ó pobre louca!
Tu te fundavas nele, neve no fogo fundida:
Tuas grandes visões estrangulavam-te a palavra
— E o Infinito implacável assombrou teu olhar azul!

III

— E o Poeta diz que os raios estelares
Vens tu buscar, de noite, as flores que hás colhido;
E que viu sobre as águas, reclinada nos seus longos véus,
A branca Ofélia a flutuar — tal um lírio imenso.

15 de Maio de 1870

Arthur Rimbaud
,
in O Rapaz Raro — Iluminações e Poemas.
Tradução de Maria Gabriela Llansol,
Relógio D'Água, 1998, pp. 139-141.



 
O Rapaz Raro - Iluminações e Poemas de Arthur Rimbaud,
Tradução de Maria Gabriela Llansol, Relógio D'Água, 1998.



"Um homem deve ler segundo o que as suas inclinações o conduzem; 
porque o que ler como tarefa pouco bem lhe fará."


Samuel Johnson (1709–1784), citado em "The Life of Samuel Johnson"
de James Boswell (1740–1795), 1791.



Jules Lefebvre
(Peintre français, 1836-1911), "Ophélie", 1890.


Ofélia

(Tradução de Jorge Wanderley)

I

Na onda calma e negra, entre os astros e os céus,
A branca Ofélia, como um grande lírio, passa;
Flutua lentamente e dorme em longos véus…
– Longe, no bosque, o caçador chamando a caça…

Mais de mil anos faz que a triste Ofélia abraça,
Fantasma branco, o rio negro em que perdura.
Mais de mil anos: toda noite ela repassa
À brisa a romança que em delírio murmura.

Beija-lhe o seio o vento e liberta em corola
Os grandes véus nas águas acalentadoras;
Sobre os seus ombros o salgueiro se desola,
Reclina-se o caniço à fronte sonhadora.

Nenúfares feridos suspiram por perto;
Às vezes ela acorda, em vidoeiro ocioso
Um ninho de onde vem tremor de um voo incerto…
– De astros dourados desce um canto misterioso…

II

Morreste sim, menina que um rio carrega,
Ó pálida Ofélia, tão bela como a neve!
– É que algum vento montanhês da Noruega
Contou que a liberdade é rude, mas é leve;

– É que um sopro, liberta a cabeleira presa,
Em teu espírito estranhos sons fez nascer
E em teu coração logo ouviste a Natureza
No queixume da árvore e do anoitecer.

– É que a voz do mar furioso, tumulto impávido,
Rasgou teu seio de menina, humano e doce;
– E em manhã de abril, certo cavalheiro pálido,
Um belo e pobre louco, aos teus pés ajoelhou-se.

E aí o céu, o amor: – que sonho, pobre louca!
Ante ele eras a neve, desmaiando à luz;
Visões estrangulavam-te a fala na boca,
O Infinito aterrava os teus olhos azuis!

III

– E o Poeta diz que sob os raios das estrelas
Procuras toda noite as flores em delírio
E diz que viu na água, entre véus, a colhê-las
Vogar a branca Ofélia como um grande lírio.


Arthur Rimbaud
Tradução de Jorge Wanderley


Paul Steck (Peintre, compositeur, librettiste et fonctionnaire français,
1866-1924), "Ophélie", 1894-1895, Paris, Petit Palais.



Ophélie

I

Sur l’onde calme et noire où dorment les étoiles
La blanche Ophélia flotte comme un grand lys,
Flotte très lentement, couchée en ses longs voiles…
– On entend dans les bois lointains des hallalis.

Voici plus de mille ans que la triste Ophélie
Passe, fantôme blanc, sur le long fleuve noir;
Voici plus de mille ans que sa douce folie
Murmure sa romance à la brise du soir.

Le vent baise ses seins et déploie en corolle
Ses grands voiles bercés mollement par les eaux;
Les saules frissonnants pleurent sur son épaule,
Sur son grand front rêveur s’inclinent les roseaux.

Les nénuphars froissés soupirent autour d’elle;
Elle éveille parfois, dans un aune qui dort,
Quelque nid, d’où s’échappe un petit frisson d’aile :
– Un chant mystérieux tombe des astres d’or.

II

Ô pâle Ophélia! belle comme la neige!
Oui tu mourus, enfant, par un fleuve emporté!
– C’est que les vents tombant des grands monts de Norwège
T’avaient parlé tout bas de l’âpre liberté;

C’est qu’un souffle, tordant ta grande chevelure,
A ton esprit rêveur portait d’étranges bruits;
Que ton cœur écoutait le chant de la Nature
Dans les plaintes de l’arbre et les soupirs des nuits;

C’est que la voix des mers folles, immense râle,
Brisait ton sein d’enfant, trop humain et trop doux ;
C’est qu’un matin d’avril, un beau cavalier pâle,
Un pauvre fou, s’assit muet à tes genoux!

Ciel! Amour! Liberté! Quel rêve, ô pauvre folle!
Tu te fondais à lui comme une neige au feu :
Tes grandes visions étranglaient ta parole
– Et l’infini terrible effara ton oeil bleu!

III

– Et le poète dit qu’aux rayons des étoiles
Tu viens chercher, la nuit, les fleurs que tu cueillis,
Et qu’il a vu sur l’eau, couchée en ses longs voiles,
La blanche Ophélia flotter, comme un grand lys. 


Arthur Rimbaud, in "Cahier de Douai"

segunda-feira, 10 de agosto de 2020

"Ser ou não ser, eis a questão" - Poema de William Shakespeare


Hugues Merle, Hamlet and Ophelia, 1873


Ser ou não ser
(tradução de Machado de Assis)

Hamlet, Ato 3 Cena 1

Ser ou não ser, eis a questão. Acaso
É mais nobre a cerviz curvar aos golpes
Da ultrajosa fortuna, ou já lutando
Extenso mar vencer de acerbos males?
Morrer, dormir, não mais. E um sono apenas,
Que as angústias extingue e à carne a herança
Da nossa dor eternamente acaba,
Sim, cabe ao homem suspirar por ele.
Morrer, dormir. Dormir? Sonhar, quem sabe!
Ai, eis a dúvida. Ao perpétuo sono,
Quando o lodo mortal despido houvermos,
Que sonhos hão de vir? Pesá-lo cumpre.
Essa a razão que os lutuosos dias
Alonga do infortúnio. Quem do tempo
Sofrer quisera ultrajes e castigos,
Injúrias da opressão, baldões do orgulho,
Do mal prezado amor choradas mágoas,
Das leis a inércia, dos mandões a afronta,
E o vão desdém que de rasteiras almas
O paciente mérito recebe,
Quem, se na ponta da despida lâmina
Lhe acenara o descanso? Quem ao peso
De uma vida de enfados e misérias
Quereria gemer, se não sentira
Terror de alguma não sabida coisa
Que aguarda o homem para lá da morte,
Esse eterno país misterioso
Donde um viajor sequer há regressado?
Este só pensamento enleia o homem;
Este nos leva a suportar as dores
Já sabidas de nós, em vez de abrirmos
Caminho aos males que o futuro esconde,
E a todos acovarda a consciência.
Assim da reflexão à luz mortiça
A viva cor da decisão desmaia;
E o firme, essencial cometimento,
Que esta ideia abalou, desvia o curso,
Perde-se, até de ação perder o nome.


William Shakespeare,
em “Poesias Ocidentais”/Obra Completa,
de Machado de Assis, vol. III. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994.
(Publicado originalmente em Poesias Completas: 
Machado de Assis, Rio de Janeiro: Garnier, 1901)



John William Waterhouse, Ophelia, 1894


Ser ou não ser
(Tradução de  Bárbara Heliodora)

 Hamlet, ato III, cena 1

Ser ou não ser, essa é que é a questão:
Será mais nobre suportar na mente
As flechadas da trágica fortuna,
Ou tomar armas contra um mar de escolhos
E, enfrentando-os, vencer? Morrer, dormir,
Nada mais; e dizer que pelo sono
Findam-se as dores, como os mil abalos
Inerentes à carne – é a conclusão
Que devemos buscar. Morrer – dormir;
Dormir, talvez sonhar – eis o problema:
Pois os sonhos que vierem nesse sono
De morte, uma vez livres deste invólucro
Mortal, fazem cismar. Esse é o motivo
Que prolonga a desdita desta vida.
Quem suportara os golpes do destino,
Os erros do opressor, o escárnio alheio,
A ingratidão no amor, a lei tardia,
O orgulho dos que mandam, o desprezo
Que a paciência atura dos indignos,
Quando podia procurar repouso
Na ponta de um punhal? Quem carregara
Suando o fardo da pesada vida
Se o medo do que vem depois da morte –
O país ignorado de onde nunca
Ninguém voltou – não nos turbasse a mente
E nos fizesse arcar co’o mal que temos
Em vez de voar para esse, que ignoramos?
Assim nossa consciência se acovarda,
E o instinto que inspira as decisões
Desmaia no indeciso pensamento,
E as empresas supremas e oportunas
Desviam-se do fio da corrente
E não são mais ação. Silêncio agora!
A bela Ofélia! Ninfa, em tuas preces
Recorda os meus pecados.

 
William Shakespeare
,
em “Por que ler Shakespeare,
 de Bárbara Heliodora, 1923-2015


Benjamin West (1738-1820), Hamlet: Act IV, Scene V (Ophelia Before the King and Queen), 1792,
Cincinnati Art Museum


To be or not to be

Spoken by Hamlet, Act 3 Scene 1


To be, or not to be: that is the question:
Whether ’tis nobler in the mind to suffer
The slings and arrows of outrageous fortune,
Or to take arms against a sea of troubles,
And by opposing end them? To die: to sleep;
No more; and by a sleep to say we end
The heart-ache and the thousand natural shocks
That flesh is heir to, ’tis a consummation
Devoutly to be wish’d. To die, to sleep;
To sleep: perchance to dream: ay, there’s the rub;
For in that sleep of death what dreams may come
When we have shuffled off this mortal coil,
Must give us pause: there’s the respect
That makes calamity of so long life;
For who would bear the whips and scorns of time,
The oppressor’s wrong, the proud man’s contumely,
The pangs of despised love, the law’s delay,
The insolence of office and the spurns
That patient merit of the unworthy takes,
When he himself might his quietus make
With a bare bodkin? who would fardels bear,
To grunt and sweat under a weary life,
But that the dread of something after death,
The undiscover’d country from whose bourn
No traveller returns, puzzles the will
And makes us rather bear those ills we have
Than fly to others that we know not of?
Thus conscience does make cowards of us all;
And thus the native hue of resolution
Is sicklied o’er with the pale cast of thought,
And enterprises of great pith and moment
With this regard their currents turn awry,
And lose the name of action.–Soft you now!
The fair Ophelia! Nymph, in thy orisons
Be all my sins remember’d.

William Shakespeare
1564-1616




"Hamlet" é uma tragédia de William Shakespeare, escrita por volta de 1601. A história do príncipe dinamarquês dramatizada na obra de Shakespeare tem raízes no registos lendários do norte da Europa. O poeta deverá ter-se inspirado na versão de François de Belleforest inserida na sua obra Histoires Tragiques (1559), que por sua vez teve a sua fonte no cronista dinamarquês do século XIII, Saxo Grammaticus.

Existia uma peça com o mesmo título quando Shakespeare escreveu o Hamlet, supostamente da autoria de Thomas Kyd, podendo o autor ter-se inspirado nela. A peça de Shakespeare tem alguns paralelos com uma outra obra de Kyd, Spanish Tragedy.

Hamlet dramatiza uma situação de vingança: Hamlet descobre que o seu tio, Claudius, casado com a sua mãe, Gertrude, logo após a morte do seu pai (King Hamlet), foi na realidade o autor dessa morte. A revelação do assassínio é feita a Hamlet pelo fantasma do pai numa altura em que Claudius já usurpou o trono do irmão. A culpa de Claudius é transmitida ao público indiretamente, através de Hamlet, que partilha a verdade com o seu companheiro Horatio.
Atormentado pelo conhecimento dos factos e desconfiado de todos à sua volta, Hamlet acaba por causar a morte da sua amada Ophelia e de seu pai, Polonius. A hostilidade de Hamlet desencadeia uma outra vingança: Laertes, irmão de Ophelia, associa-se a Claudius para vingar a morte do pai e da irmã.

Através de Hamlet, Shakespeare desenvolveu a questão das relações entre a ação e o pensamento. As modulações de linguagem transmitem as hesitações de Hamlet perante uma verdade que ao mesmo tempo o incita a agir e lhe impede a ação. É o carácter de Hamlet que o impossibilita de cumprir a vingança e lhe prolonga um complexo sofrimento.

O adiamento da morte de Claudius e as constantes hesitações de Hamlet refletem a complexidade do seu carácter e a subtileza da análise proporcionada por Shakespeare. Os críticos debruçaram-se mais sobre esta do que sobre qualquer outra personagem das suas peças. Sobretudo a partir do Romantismo multiplicaram-se os estudos em torno da figura de Hamlet. Procuraram-se as razões que levaram Hamlet a hesitar e gerou-se uma controversa irresolúvel.

Para além de conter uma das mais notáveis análises psicológicas de toda a obra de Shakespeare, Hamlet revela ainda o conhecimento que o autor tinha das condições específicas de produção dramática. Do ponto de vista da linguagem, trata-se de uma das mais sugestivas peças de William Shakespeare. (Daqui)




Ophelia é uma das personagens secundárias da peça Hamlet. Na referida peça, a personagem Ophelia morre afogada, num provável suicídio. A bela Ophelia, que amava Hamlet, vê-se privada do seu amor, passa a dar mostras de loucura após a morte do seu pai, Polonius, que fora assassinado por Hamlet. 
Enquanto Ophelia enlouquece, Hamlet apenas finge perder o juízo para conseguir vingar a morte do falecido Rei Hamlet, seu pai; e a sua melancolia forjada atinge tal grau que o leva a divagar sobre o suicídio. 

Ao longo dos tempos o interesse de diversos pintores recaiu sobre Ophelia, mais precisamente sobre a sua loucura e morte nas águas. A predileção pela personagem, em detrimento de outras, é considerável: não há outra personagem de Shakespeare que tenha sido mais retratada na pintura. 
Desde 1740, quando se teve notícia das primeiras ilustrações da peça, ela foi retomada pelas artes plásticas como o arquétipo da donzela indefesa. Derivada do tipo feminino da noiva ou amada morta em plena juventude – tipo caro aos poetas românticos – representava um modelo espiritualizado e espectral de mulher.



Sir John Everett Millais, Ophelia, 1851-1852, óleo sobre tela, 76,2 cm × 111,8 cm, Tate Gallery,
now renamed Tate Britain. His painting influenced the image in Kenneth Branagh's film Hamlet.