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quinta-feira, 6 de julho de 2023

"Amizade" - Poema de Paulo Leminski


Eugene de Blaas (Italian painter, 1843–1931), Two Venetian Women, 1898



Amizade


Meus amigos
quando me dão a mão
sempre deixam
outra coisa

presença
olhar
lembrança, calor.

Meus amigos
quando me dão
deixam na minha
a sua mão.
 

Paulo Leminski, in Caprichos e relaxos,
São Paulo, Brasiliense, 1983. p.86.
 

Vozes: Marisa Liz e Áurea 


"Nunca foi um bom amigo quem por pouco quebrou a amizade."
 
(Provérbio popular)
 

quarta-feira, 1 de março de 2023

"Iceberg" e "Profissão de febre" - Poemas de Paulo Leminski

 

Harald Sohlberg
(Norwegian Neo-romantic painter, 1869-1935), Vinternatt i Fellene III 
(Winter's Night in the Mountains III), between 1918 and 1924. 

 
 
Iceberg


Uma poesia ártica,
claro, é isso que desejo.
Uma prática pálida,
três versos de gelo.
Uma frase-superfície
onde vida-frase alguma
não seja mais possível.
Frase, não. Nenhuma,
Uma lira nula,
reduzida ao puro mínimo,
um piscar do espírito,
a única coisa única.
Mas falo. E, ao falar, provoco
nuvens de equívocos
(ou enxame de monólogos?).
Sim, inverno, estamos vivos. 
 

Paulo Leminski, in Toda poesia, 
São Paulo: Companhia das Letras, 2013
 
 
 
 Harald Sohlberg, The Old Captain’s House, Winter Afternoon, 1909
 
 
Profissão de febre

 
Quando chove,
eu chovo,
faz sol,
eu faço,
de noite,
anoiteço,
tem deus,
eu rezo,
não tem,
esqueço,
chove de novo,
de novo, chovo,
assobio no vento,
daqui me vejo,
lá vou eu,
gesto no movimento. 


Paulo Leminski
, La vie en close,
in Toda poesia, São Paulo: Companhia das Letras, 2013, p. 279.
 
 
Harald Sohlberg, Storgaten Røros (Røros main street), 1904
 
 
A Voz do Silêncio 

 
A pessoa que sou é única, limitada a um nascer e a um morrer, presente a si mesma e que só à sua face é verdadeira, é autêntica, decide em verdade a autenticidade de tudo quanto realizar. Assim a sua solidão, que persiste sempre talvez como pano de fundo em toda a comunicação, em toda a comunhão, não é 'isolamento'. Porque o isolamento implica um corte com os outros; a solidão implica apenas que toda a voz que a exprima não é puramente uma voz da rua, mas uma voz que ressoa no silêncio final, uma voz que fala do mais fundo de si, que está certa entre os homens como em face do homem só. O isolamento corta com os homens: a solidão não corta com o homem. A voz da solidão difere da voz fácil da fraternidade fácil em ser mais profunda e em estar prevenida.

Vergílio Ferreira
, in 'Espaço do Invisivel I'


Harald Sohlberg, Street in Røros in Winter, 1903


"O indeciso e flexível da imaginação é sempre mais fascinante do que a nitidez do real."

Vergílio Ferreira, Conta-Corrente 4 
 


Paulo Leminski - Toda poesia, Páginas: 424
Capa: Elisa von Randow
Companhia das Letras
 
 
Entre haikais e canções, poemas concretos e líricos, "Toda poesia" percorre, pela primeira vez, a trajetória poética completa do autor curitibano e revela por que Paulo Leminski é um dos poetas brasileiros mais lidos das últimas décadas. 
 
Apresentação

Paulo Leminski foi corajoso o bastante para se equilibrar entre duas enormes construções que rivalizavam na década de 1970, quando publicava seus primeiros versos: a poesia concreta, de feição mais erudita e superinformada, e a lírica que florescia entre os jovens de vinte e poucos anos da chamada "geração mimeógrafo".
Ao conciliar a rigidez da construção formal e o mais genuíno coloquialismo, o autor praticou ao longo de sua vida um jogo de gato e rato com leitores e críticos. Se por um lado tinha pleno conhecimento do que se produzira de melhor na poesia - do Ocidente e do Oriente -, por outro parecia comprazer-se em mostrar um "à vontade" que não raro beirava o improviso, dando um nó na cabeça dos mais conservadores. Pura artimanha de um poeta consciente e dotado das melhores ferramentas para escrever versos.
Entre sua estreia na poesia, em 1976, e sua morte, em 1989, a poucos meses de completar 45 anos, Leminski iria ocupar uma zona fronteiriça única na poesia contemporânea brasileira, pela qual transitariam, de forma legítima ou como contrabando, o erudito e o pop, o ultraconcentrado e a matéria mais prosaica. Não à toa, um dos títulos mais felizes de sua bibliografia é Caprichos & relaxos: uma fórmula e um programa poético encapsulados com maestria.
Este volume percorre, pela primeira vez, a trajetória poética completa do autor curitibano, mestre do verso lapidar e da astúcia. Livros hoje clássicos como Distraídos venceremos e La vie en close, além de raridades como Quarenta clics em Curitiba e versos já fora de catálogo estão agora novamente à disposição dos leitores, com inédito apuro editorial.
O haikai, a poesia concreta, o poema-piada oswaldiano, o slogan e a canção - nada parece ter escapado ao "samurai malandro", que demonstra, com beleza e vigor, por que tem sido um dos poetas brasileiros mais lidos e celebrados das últimas décadas. Com apresentação da poeta (e sua companheira por duas décadas) Alice Ruiz S, posfácio do crítico e compositor José Miguel Wisnik, e um apêndice que reúne textos de, entre outros, Caetano Veloso, Haroldo de Campos e Leyla Perrone-Moisés, Toda poesia é uma verdadeira aventura - para a inteligência e a sensibilidade. (Daqui)

terça-feira, 11 de janeiro de 2022

"Amar você é coisa de minutos" - Poema de Paulo Leminski


 
Albert Henry Collings (English, 1868-1947), The Proposal (Danae, Daylight and Lamplight)
 


Amar você é coisa de minutos

 
Amar você é coisa de minutos
A morte é menos que teu beijo
Tão bom ser teu que sou
Eu a teus pés derramado
Pouco resta do que fui
De ti depende ser bom ou ruim
Serei o que achares conveniente
Serei para ti mais que um cão
Uma sombra que te aquece
Um deus que não esquece
Um servo que não diz não
Morto teu pai serei teu irmão
Direi os versos que quiseres
Esquecerei todas as mulheres
Serei tanto e tudo e todos
Vais ter nojo de eu ser isso
E estarei a teu serviço
Enquanto durar meu corpo
Enquanto me correr nas veias
O rio vermelho que se inflama
Ao ver teu rosto feito tocha
Serei teu rei teu pão tua coisa tua rocha
Sim, eu estarei aqui.
in Toda Poesia
 
 
Albert Henry Collings, Portrait of a Lady


Amei em cheio
meio amei-o
meio não amei-o. 
 
  
 
 Albert Henry Collings, Woman with hat and veil
 
 
Que belo que é
não pensar ao ver um raio:
'A vida é fugaz'.
 (1644- 1694) 
(Haikai) 
 


Albert Henry Collings, Portrait of the actress and singer Marjorie Villis


"Admirável aquele
cuja vida é um contínuo
relâmpago." 
  

segunda-feira, 2 de agosto de 2021

"Sophia de Mello Breyner Andresen" - Poema de Adelina Barradas de Oliveira


 
Charles Conder (1868-1909, Australian), A holiday at Mentone, 1888


Sophia de Mello Breyner Andresen


Há mulheres que trazem o mar nos olhos
Não pela cor
Mas pela vastidão da alma
E trazem a poesia nos dedos e nos sorrisos
Ficam para além do tempo
Como se a maré nunca as levasse
Da praia onde foram felizes

Há mulheres que trazem o mar nos olhos
pela grandeza da imensidão da alma
pelo infinito modo como abarcam as coisas e os Homens...
Há mulheres que são maré em noites de tardes...
e calma
 
2009 
 (Juíza Desembargadora)
 
[Este poema, que se tornou viral, foi falsamente atribuído a Sophia de Mello Breyner Andresen com o título "O mar dos meus olhos". O texto original foi publicado no blogue Cleopatra Moon, onde a juíza Adelina Barradas de Oliveira costuma partilhar os seus escritos.]
 
 
Charles Conder, The hot sands, Mustapha, Algiers, 1891
 

Amar é um elo
entre o azul
e o amarelo.
 
 
 
Charles Conder, The Beach at Ambleteuse, c. 1900

 
Na ressaca da maré
pequenas conchas brilhantes
matizadas com pétalas de trevo.
 
Matsuo Bashō (1644-1694) 
Tradução de Casimiro de Brito
 

sexta-feira, 5 de março de 2021

"As casas vieram de noite" - Poema de Luiza Neto Jorge


William McGregor Paxton  (1869 – 1941), Tea Leaves, 1909, oil on canvas,
  91,6 x 71,9 cm, The Metropolitan Museum of Art


As casas vieram de noite
 
As casas vieram de noite
De manhã são casas
À noite estendem os braços para o alto
fumegam vão partir

Fecham os olhos
percorrem grandes distâncias
como nuvens ou navios

As casas fluem de noite
sob a maré dos rios

São altamente mais dóceis
que as crianças
Dentro do estuque se fecham
pensativas

Tentam falar bem claro
no silêncio
com sua voz de telhas inclinadas 
In: Os Sítios Sitiados, Plátano, Lisboa, 1973

 
William McGregor Paxton, The New Necklace, 1910


Viver é super difícil
o mais fundo
está sempre na superfície

(Paulo Leminski


domingo, 25 de setembro de 2016

"Não voltarás" - Poema de José Manuel Mendes


Mota Urgeiro (Pintor português, n. 1946), Pôr do sol no rio 
 


Não voltarás


não voltarás 
olhando as ruas 
na vidraça nua os zimbros 
da terra ocre 

moras secreta nestes barros 
tua flauta canta nas montanhas 
pedras e trepadeiras se enroscam 
perto do teu rosto 
e são de 
água 

sabes plantar o odor 
dos frutos 
tangerina limão 
pássaras orvalho 
a nervura das manhãs 
e o lume dos poemas 
quente metalurgia 
das palavras 

como ontem (tu eras morta) 
prolonga-te nestas mãos 
no maio das rotas 
de abril 
tecidas 


 in 'Rosto Descontínuo'


Mota Urgeiro, Outono na Cova da Beira


"Duas folhas na sandália
o outono
também quer andar"

(Haikai)


segunda-feira, 5 de setembro de 2016

"Luar de Janeiro" - Poema de Augusto Gil


Marcel Rieder  (1862-1942), A vigil by the sea, Côte d'Azur


Luar de Janeiro
                   
                     A Coelho de Carvalho
 Tout court, porque não há adjetivos
que não empalideçam ante a claridade dos seus talentos.

Luar de Janeiro,
Fria claridade

À luz dele foi talvez
Que primeiro
A boca dum português
Disse a palavra saudade...

Luar de platina;
Luar que alumia
Mas que não aquece,
Fotografia
De alegre menina
Que há muitos anos já... envelhecesse.

Luar de Janeiro,
O gelo tornado
Luminosidade...
Rosa sem cheiro,
Amor passado
De que ficou apenas a amizade...

Luar das nevadas,
Álgido e lindo,
Janelas fechadas,
Fechadas as portas,
E ele fulgindo,
Límpido e lindo,
Como boquinhas de crianças mortas,
Na morte geladas
-E ainda sorrindo...

Luar de Janeiro,
Luzente candeia
De quem não tem nada,
-Nem o calor dum braseiro,
Nem pão duro para a ceia,
Nem uma pobre morada...

Luar dos poetas e dos miseráveis...
Como se um laço estreito nos unisse,
São semelháveis
O nosso mau destino e o que tens;

De nós, da nossa dor, a turba - ri-se
- E a ti, sagrado luar... ladram-te os cães!


in Luar de Janeiro, 1909


Marcel Rieder, Moonlight on Annecy's lake


Lua na água
alguma lua
lua alguma