quarta-feira, 6 de maio de 2026

"Sabedoria" - Poema de José Régio

 

 
Carl Georg Naumann (German painter, 1827–1902), 
 'The Escaped Canary', 1875.
 

Sabedoria


Desde que tudo me cansa,
Comecei eu a viver.
Comecei a viver sem esperança...
E venha a morte quando
Deus quiser.

Dantes, ou muito ou pouco,
Sempre esperara:
Às vezes, tanto, que o meu sonho louco
Voava das estrelas à mais rara;
Outras, tão pouco,
Que ninguém mais com tal se conformara.

Hoje, é que nada espero.
Para quê, esperar?
Sei que já nada é meu senão se o não tiver;
Se quero, é só enquanto apenas quero;
Só de longe, e secreto, é que inda posso amar...
E venha a morte quando Deus quiser.

Mas, com isto, que têm as estrelas?
Continuam brilhando, altas e belas.


José Régio, in "A Chaga do Lado", 1954.

 
Carl Georg Naumann'Man Walking his Dog by a Pond', 1881.



"A sabedoria nasce menos da inteligência e mais do coração."

Peter Rosegger (Escritor e poeta austríaco, 1843–1918),
Schriften: Die Schriften des Waldschulmeisters.
 23. Aufl‎ - Página 254, Harleben, 1897.
 

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