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domingo, 11 de março de 2018

"Filha" - Poema de Paula Glenadel



Harold Gilman (British painter, 1876–1919), 'Mother and Child', 1918 


Filha

                          para Luísa

A menina que, em sustos,
vejo crescer depressa,
que nutro com meus nervos
e que descubro falar, e ser,

me veio de um imemorial
naufrágio
em que perecemos eu e ele:
pequena pérola do pior. 

Como o traço oblíquo de luz
riscado sobre uma tela
de nuvens branco-cinza,
figura, tornado agora visível,
o subtil equilíbrio instável
entre dois planos.


Paula Glenadel, in "A vida espiralada".
Rio de Janeiro: Editora Caetés, 1999.



Harold Gilman, 'Self-portrait', c. 1910 



"Sejam quais forem os resultados com êxito ou não,
o importante é que no final cada um possa dizer: fiz o que pude."


(Louis Pasteur) 
 

sábado, 24 de setembro de 2011

"O Nosso Livro" - Poema de Florbela Espanca



Harold Gilman (British painter, 1876–1919), 'Studio Interior'



O Nosso Livro


Livro do meu amor, do teu amor,
Livro do nosso amor, do nosso peito...
Abre-lhe as folhas devagar, com jeito,
Como se fossem pétalas de flor.

Olha que eu outro já não sei compor
Mais santamente triste, mais perfeito
Não esfolhes os lírios com que é feito
Que outros não tenho em meu jardim de dor! 

Livro de mais ninguém! Só meu! Só teu!
Num sorriso tu dizes e digo eu:
Versos só nossos mas que lindos sois! 

Ah, meu Amor! Mas quanta, quanta gente
Dirá, fechando o livro docemente:
"Versos só nossos, só de nós os dois!..."


Florbela Espanca,
in "Livro de Sóror Saudade" 



Antonio Vivaldi - Wiosna