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domingo, 26 de março de 2017

"A Guerra que aflige com seus esquadrões o Mundo" - Poema de Alberto Caeiro


Arpad Szenes (1897-1985), Les guerriers, 1938-1939, óleo s/ tela, 97 x 162 cm
Coleção da Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva


A Guerra que aflige com seus esquadrões


A guerra, que aflige com os seus esquadrões o Mundo, 
É o tipo perfeito do erro da filosofia. 

A guerra, como tudo humano, quer alterar. 
Mas a guerra, mais do que tudo, quer alterar e alterar muito 
E alterar depressa. 

Mas a guerra inflige a morte. 
E a morte é o desprezo do Universo por nós. 
Tendo por consequência a morte, a guerra prova que é falsa. 
Sendo falsa, prova que é falso todo o querer-alterar. 

Deixemos o universo exterior e os outros homens onde a Natureza os pôs. 

Tudo é orgulho e inconsciência. 
Tudo é querer mexer-se, fazer coisas, deixar rasto. 
Para o coração e o comandante dos esquadrões 
Regressa aos bocados o universo exterior. 

A química direta da Natureza 
Não deixa lugar vago para o pensamento. 

A humanidade é uma revolta de escravos. 
A humanidade é um governo usurpado pelo povo. 
Existe porque usurpou, mas erra porque usurpar é não ter direito. 

Deixai existir o mundo exterior e a humanidade natural! 
Paz a todas as coisas pré-humanas, mesmo no homem, 
Paz à essência inteiramente exterior do Universo! 
 
24-10-1917

Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos" 
Heterónimo de Fernando Pessoa


terça-feira, 14 de março de 2017

"Um encontro no canto da memória" - Poema de Nuno Júdice


Arpad Szenes (1897-1985), Conversation bleue, 1949, óleo s/ tela, 73 x 60 cm
Coleção da Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva


Um encontro no canto da memória



O que tenho para te dar? Uma gramática de sentimentos,
verbos sem o complemento de uma vida, os substantivos
mais pobres de um vocabulário íntimo — o amor, o desejo,
a ausência. Que frase construiremos com tão pouco? A
que léxico da paciência iremos roubar o que nos falta?

Então, ofereço-te uma outra casa. As paredes têm a
consistência do verso; o teto, o peso de uma estrofe.
Abro-te as suas portas; e o sol entra pela janela de
uma sílaba, com o seu logo vocálico, como se uma
palavra pudesse aquecer o frio que te envolve.

E pergunto-te: que outras palavras queres? A música
sonora de um ócio? O espesso manto com que o veludo
se escreve? O fundo luminoso do azul? Poderia dar-te
todas as palavras na caixa do poema; ou emprestar-te
o canto efémero em que se escondem do mundo.

Mas não é isso que me pedes. E a vida que pulsa
por entre advérbios e adjetivos esfuma-se depressa,
quando procuramos seguir a linha do verso, O que fica?,
perguntas-me. Um encontro no canto da memória. Risos,
lágrimas, o terno murmúrio da noite. Nada, e tudo.


Nuno Júdice, in "O estado dos Campos"

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

"O papagaio" - Poema de Sebastião da Gama


Arpad Szenes (1897-1985), Enfant au cerf-volant, óleo sobre tela, 1932

O papagaio 


Deixem-no lá, deixem-no lá, o papagaio!
Deixem-no lá, bem preso à terra,
vibrando!

Aos arranques,
a fazer tremer a terra,
a querer voar
pelo ar
até pertinho do Céu…

Deixem-no lá, deixem-no lá, o papagaio!
Deixem-no lá viver a sua inquietação
e ser verdade aquela ânsia
de fugir.
Não lhe cortem o cordel!
Poupem o papagaio à dor enorme
de cair,
papel inútil, roto, pelo chão.

Não lhe ensinem,
ao pobre papagaio de papel,
que a sua inquietação
é a única força que ele tem.

Deixem-no lá,
naquela ânsia de fuga,
no sonho (a que uma navalha
pode dar o triste fim)
de fazer ninho no Céu:
Sempre anda longe da terra, assim,
o comprimento do cordel…

Deixem-no lá, deixem-no lá,
o papagaio de papel!...


Sebastião da Gama
Itinerário Paralelo
Lisboa, Ed. Ática, s/d.



Arpad Szenes, Autoportrait à la pupille rouge, 1924-1925, pastel s/ papel, 


Pintor de origem húngara, Arpad Szenes nasceu em 1897, em Budapeste, capital da Hungria. A partir de 1918 estudou na Academia de Budapeste, onde apresentou um especial interesse pela prática do desenho e da pintura. Procurou então conhecer e estudar as correntes artísticas de vanguarda no contexto europeu, abordando um largo espetro, desde as artes plásticas à música. 
Mais tarde viajou por vários países europeus, instalando-se em Paris em 1925. Dedicou-se à pintura e ao desenho, produzindo um conjunto de trabalhos figurativos de influência surrealista, dos quais se destaca o seu "Autoportrait à la pupille rouge", realizado entre 1924 e 1925. Estas pinturas, as menos conhecidas no contexto da sua obra, apresentam signos associados a figuras muito coloridas e assumem frequentemente um carácter agressivo e irónico.

Em 1929 Arpad conheceu a pintora portuguesa Maria Helena Vieira da Silva (na altura radicada em Paris onde estudava pintura na Académie de La Grande-Chaumière) com quem se casa no ano seguinte.

Após o curso o artista trabalhou com Stanley William Hayter, mestre de gravura e, sem abandonar a pintura (como o testemunha a série de telas "L'enfant au cerf-volant", realizada em meados da década de trinta), executou várias gravuras de carácter surrealista.

Desde o seu casamento, o pintor deslocou-se frequentemente a Portugal, onde participou em várias exposições coletivas. Nessa altura conhece vários artistas portugueses, como Carlos Botelho, com os quais desenvolve prolongadas relações de amizade. 

Com o eclodir da Segunda Guerra Mundial, em 1939, o casal voltou para Lisboa e tentou, sem sucesso, obter para Arpad Szenes (que se tornara apátrida desde que os nazis lhe tinham retirado a sua anterior nacionalidade devido à sua ascendência judaica) a nacionalidade portuguesa. No ano seguinte os dois artistas refugiaram-se no Rio de Janeiro, no Brasil, onde permanecem até 1947. 

A partir dos inícios dos anos 50, Arpad realizou as suas obras mais conhecidas, em formato alongado, enveredando por um abstracionismo de raiz informalista, assente na utilização de cromatismos serenos mas luminosos, constituídos por ocres e outras cores suaves e quentes.

Em 1956 foi-lhe atribuída a nacionalidade francesa, assim como a Vieira da Silva.
Arpad Szenes e Vieira da Silva conviveram e apoiaram toda uma geração de artistas portugueses que, bolseiros da Fundação Calouste Gulbenkian, se instalaram em Paris a partir da década de cinquenta. Foi o caso de Manuel Cargaleiro, Costa Pinheiro, Eduardo Luiz e dos artistas (Gonçalo Duarte, José Escada, Lourdes Castro, René Bertholo e João Vieira) que, nos finais da década constituíram o Grupo KWY, ativo em Paris até aos inícios da década seguinte. Foi nesta altura que Arpad Szenes, realizou a sua primeira exposição individual. Após da revolução de 1975 que depôs a ditadura em Portugal, tornou-se mais intensa a relação dos artistas com o país natal de Vieira da Silva. 

Autor de uma obra serena e discreta, Arpad Szenes, viu-se geralmente subjugado pelo apoio incondicional que prestou ao trabalho e à carreira da sua mulher, que obteria reconhecimento e projeção internacional a partir de 1950. O artista morreu em Paris em 1985 e, nove anos mais tarde, uma parte significativa da sua obra foi reunida pela Fundação Árpád Szenes-Vieira da Silva, criada em Lisboa em 1994. (Daqui)


Arpad Szenes, Marie-Hélène X, 1942, óleo s/ tela, 50 x 61 cm
Col. Fundação Arpad Szenes - Vieira da Silva


"A pintura é uma poesia muda, a poesia uma pintura que fala."

(Plutarco)