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domingo, 6 de setembro de 2026

"Luís, o poeta salva a nado o poema" - Poema de Almada Negreiros



Francisco José Resende
(Pintor romântico, escultor e professor de 
Belas Artes português, 1825–1893), Camões salvando "Os Lusíadas", 1867,
Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado, Lisboa.


[Descrição: Pintura de História. Num cenário de tempestade, vê-se a figura magra a corpo inteiro do poeta Luís de Camões, tentando subir para um grande rochedo, de olhar no céu, agarrando-se com a mão esquerda numa esquina e pousando o pé esquerdo numa reentrância, tendo o outro pé esticado à frente, equilibrando-se num madeiro. Junto do peito, segura firmemente com a mão direita o manuscrito de "Os Lusíadas". No fundo, vê-se uma tábua boiando num mar revolto e o céu nublado. Composição romântica que encena um episódio mítico da vida do poeta: Camões terá salvo a sua obra-prima durante um violento naufrágio no delta do rio Mékong.] (daqui)
 
 
Luís, o poeta salva a nado o poema


Era uma vez
um português
de Portugal.
O nome Luís
há de bastar
toda a nação
ouviu falar.
Estala a guerra
e Portugal
chama Luís
para embarcar.
Na guerra andou
a guerrear
e perde um olho
por Portugal.
Livre da morte
pôs-se a contar
o que sabia
de Portugal.
Dias e dias
grande pensar
juntou Luís
a recordar.
Ficou um livro
ao terminar
muito importante
para estudar.
Ia num barco
ia no mar
e a tormenta
vá d’estalar.
Mais do que a vida
há de guardar
o barco a pique
Luís a nadar.
Fora da água
um braço no ar
na mão o livro
há de salvar.
Nada que nada
sempre a nadar
livro perdido
no alto mar.
– Mar ignorante
que queres roubar?
a minha vida
ou este cantar?
A vida é minha
ta posso dar
mas este livro
há de ficar.
Estas palavras
hão de durar
por minha vida
quero jurar.
Tira-me as forças
podes matar
a minha alma
sabe voar.
Sou português
de Portugal
depois de morto
não vou mudar.
Sou português
de Portugal
acaba a vida
e sigo igual.
Meu corpo é Terra
de Portugal
e morto é ilha
no alto mar.
Há portugueses
a navegar
por sobre as ondas
me hão de achar.
A vida morta
aqui a boiar
mas não o livro
se há de molhar.
Estas palavras
vão alegrar
a minha gente
de um só pensar.
À nossa terra
irão parar
lá toda a gente
há de gostar.
Só uma coisa
vão olvidar:
o seu autor
aqui a nadar.
É fado nosso
é nacional
não há portugueses
há Portugal.
Saudades tenho
mil e sem par
saudade é vida
sem se lograr.
A minha vida
vai acabar
mas estes versos
hão de gravar.
O livro é este
é este o cantar
assim se pensa
em Portugal.
Depois de pronto
faltava dar
a minha vida
para o salvar.

Madrid, 1931

Almada Negreiros
(1893–1970)
in Obras Completas – Poesia


[Este poema "Luís, o Poeta Salva a Nado o Poema" de José de Almada Negreiros é uma homenagem intensa e simbólica a Luís de Camões, autor d’Os Lusíadas, e, mais amplamente, à ligação entre a identidade portuguesa e a sua literatura.] 

sexta-feira, 19 de junho de 2026

"Árvore, cujo pomo, belo e brando" - Poema de Luís de Camões

 

 
Henri Harpignies
(Peintre paysagiste, aquarelliste et graveur français
 de l'École de Barbizon, 1819–1916), 'Clair de lune', 1889.


Árvore, cujo pomo, belo e brando

 
Árvore, cujo pomo, belo e brando,
natureza de leite e sangue pinta,
onde a pureza, de vergonha tinta,
está virgíneas faces imitando;

nunca da ira e do vento, que arrancando
os troncos vão, o teu injúria sinta;
nem por malícia de ar te seja extinta
a cor, que está teu fruto debuxando.

Que pois me emprestas doce e idóneo abrigo
a meu contentamento, e favoreces
com teu suave cheiro minha glória,

se não te celebrar como mereces,
cantando-te, sequer farei contigo
doce, nos casos tristes, a memória.


Luís de Camões (1524–1580), 'Sonetos',
in 'Obras completas'





"Já matei bastantes árvores no mundo."


Stephen Edwin King (Escritor norte-americano de terror e suspense, n. 1947)
[Stephen King anunciando que não escreverá mais e com isso economizará papel, poupando as árvores;
citado em Revista Veja, Edição 1737, 06-02-2002.]
 

quarta-feira, 10 de junho de 2026

"Camões e a tença" - Poema de Sophia de Mello Breyner Andresen

 


Francisco Augusto Metrass (Pintor romântico português, 1825–1861), 
'Camões na gruta de Macau', 1853, Museu do Chiado, Lisboa.


Camões e a tença


Irás ao Paço. Irás pedir que a tença
Seja paga na data combinada
Este país te mata lentamente
País que tu chamaste e não responde
País que tu nomeias e não nasce

Em tua perdição se conjuraram
Calúnias desamor inveja ardente
E sempre os inimigos sobejaram
A quem ousou seu ser inteiramente

E aqueles que invocaste não te viram
Porque estavam curvados e dobrados
Pela paciência cuja mão de cinza
Tinha apagado os olhos no seu rosto

Irás ao Paço irás pacientemente
Pois não te pedem canto mas paciência

Este País te mata lentamente


Sophia de Mello Breyner Andresen,
in 'Dual' [VI – Em Memória], Lisboa: Moraes, 1972.
Reprod. em 'Obra Poética III'. Lisboa: Caminho, 1991, p. 162.
 
***
 

A Bandeira de Portugal, criada por Columbano Bordalo Pinheiro,
adotada pelo governo em 1 de novembro de 1910 e aprovada
pelo parlamento em 19 de junho de 1911. 
 

Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas

O Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas celebra a data de 10 de Junho de 1580, data da morte de Camões, sendo também este o dia dedicado ao Anjo Custódio de Portugal. 
Este é também o dia da Língua Portuguesa, dos cidadãos e das Forças Armadas. 
Durante o Estado Novo, de 1933 até à Revolução dos Cravos de 25 de Abril de 1974, era celebrado como o Dia da Raça: a raça portuguesa ou dos portugueses. (daqui)
 
 ***
 
 


O artista plástico Francisco Augusto Metrass nasceu a 7 de fevereiro de 1825 e morreu a 14 de fevereiro de 1861.
Seguiu a carreira artística, contrariando a vontade do pai que preferia vê-lo prosseguir uma carreira no comércio. 
Em 1836 entrou para a Academia de Belas Artes de Lisboa, onde estudou com os mestres Joaquim Rafael e António Manuel da Fonseca. 
Em 1844 partiu para Roma onde teve como professores os pintores alemães Cornelius e Overbeck, que faziam parte do "Grupo dos Nazarenos", assim conhecidos porque se dedicavam especialmente à pintura religiosa. O primeiro quadro de Metrass com o título "Jesus acolhendo as crianças" foi realizado sob esta inspiração. 
Continuou a sua viagem por Itália, depois Paris, regressando a Lisboa onde realizou uma exposição nas salas da casa que ocupava no palácio dos condes de Lumiares a S. Roque. Não havendo qualquer reação do público ou da crítica, Metrass regressou a Paris e foi aí que, a partir de 1850, o seu talento começou a ser reconhecido, destacando se, então, não mais com temas religiosos, mas com a pintura histórica. 
O ano de 1856 trouxe-lhe a consagração com um dos seus quadros mais célebres: Só Deus retrata uma cena do dilúvio, onde uma mulher, tendo nos braços uma criança, é arrastada pelas águas. 
No apogeu do seu talento, e depois de ter pintado uma grande obra histórica intitulada "Camões lendo os Lusíadas", uma tuberculose não o deixou ir mas longe: em 1861, aos 36 anos, morreu na ilha da Madeira, deixando a sua obra incompleta. (daqui)
 


Francisco Augusto Metrass, 'Só Deus!', 1856, Museu do Chiado, Lisboa.


Descrição

Só Deus! – Numa composição de acentuado teor dramático, Metrass representa a figura de uma mulher com uma criança nos braços, deitada de costas sobre uns rochedos, inundados por uma forte torrente de água, segurando-se ela com a mão direita, ao alto, crispada, a um tronco partido. Salvas do naufrágio de que foram vítimas, a mãe olha para o céu, suplicante, agradecendo o milagre, estando a criança, nua e aterrorizada, agarrada a uma ponta dos cabelos da mãe, com uma expressão de pavor.
Destacam-se pormenores que contribuem para a expressão dinâmica e desesperada deste episódio, como o realismo dos rochedos musgosos e dos ramos de árvore empurrados pela torrente de água, em primeiro plano, reforçado pela posição em diagonal do corpo da mulher que cria instabilidade na cena, no branco lívido do seu rosto e do seu peito, sublinhados por uma iluminação eficaz. (daqui)

sexta-feira, 29 de maio de 2026

"Sempre a Razão vencida foi de Amor" - Poema de Luís de Camões



Arthur Hughes (English painter and illustrator, 1832–1915),
"Fair Rosamund" (Rosamund Clifford), 1854.
National Gallery of Victoria.


[Rosamund Clifford (c. 1140 – c. 1176), often called "The Fair Rosamund" or "Rose of the World", was a medieval English noblewoman and mistress of Henry II, King of England. She became famous in English folklore.] (daqui) 
 
 
Sempre a Razão vencida foi de Amor

 
Sempre a Razão vencida foi de Amor;
Mas, porque assim o pedia o coração,
Quis Amor ser vencido da Razão.
Ora que caso pode haver maior!

Novo modo de morte e nova dor!
Estranheza de grande admiração,
Que perde suas forças a afeição,
Por que não perca a pena o seu rigor.

Pois nunca houve fraqueza no querer,
Mas antes muito mais se esforça assim
Um contrário com outro por vencer.

Mas a Razão, que a luta vence, enfim,
Não creio que é Razão; mas há de ser
Inclinação que eu tenho contra mim.


Luís de Camões (1524–1580), 'Sonetos',
in 'Obras completas'
 


John William Waterhouse (English painter, 1849–1917),
"Fair Rosamund", 1917.


"Vi chorar uns claros olhos
Quando deles me partia.
Oh! Que mágoa! Oh! Que alegria!"
(Mote de um Vilancete)
 
*** 
 

Cesária Évora - 'Sodade'

'Sodade' é uma canção cabo-verdiana escrita por Armando Zeferino Soares na década de 1950, interpretada na década de 1970 por Bonga Kwenda, mais tarde popularizada por Cesária Évora no seu álbum 'Miss Perfumado' na década de 1990. O nome da canção, 'sodade', é uma variante crioula cabo-verdiana do termo português saudade.
 (daqui)
 
 

sexta-feira, 17 de janeiro de 2025

"Um mover de olhos brando e piedoso " - Poema de Luís de Camões


Nicolas de Largillière (French painter and draughtsman, 1656–1746),
The Beautiful Strasbourg Woman (La Belle Strasbourgeoise), 1703,
Musée des Beaux-Arts, Strasbourg.
 
 
Um mover de olhos brando e piedoso


Um mover de olhos, brando e piedoso,
Sem ver de quê; um riso brando e honesto,
Quase forçado; um doce e humilde gesto,
De qualquer alegria duvidoso;

Um despejo quieto e vergonhoso;
Um repouso gravíssimo e modesto;
Uma pura bondade, manifesto
Indício da alma, limpo e gracioso;

Um encolhido ousar; uma brandura;
Um medo sem ter culpa; um ar sereno;
Um longo e obediente sofrimento;

Esta foi a celeste formosura
Da minha Circe, e o mágico veneno
Que pôde transformar meu pensamento.


Luís de Camões, Sonetos 
 

Nicolas de Largillière, Self-portrait with family, c. 1710, Louvre Museum.


"Na arte a mão nunca pode executar algo superior ao que o coração pode inspirar."
 

terça-feira, 13 de agosto de 2024

"Última Folha" - Poema de Machado de Assis


Themistokles von Eckenbrecher (German landscape and marine painter, 1842–1921),
View of Lærdalsøyri, on the Sognefjord, 1901.


Última Folha
Tout passe,
Tout fuit
.

V. Hugo
Musa, desce do alto da montanha
Onde aspiraste o aroma da poesia,
E deixa ao eco dos sagrados ermos
A última harmonia.

Dos teus cabelos de ouro, que beijavam
Na amena tarde as virações perdidas,
Deixa cair ao chão as alvas rosas
E as alvas margaridas.

Vês? Não é noite, não, este ar sombrio
Que nos esconde o céu. Inda no poente
Não quebra os raios pálidos e frios
O sol resplandecente.

Vês? Lá ao fundo o vale árido e seco
Abre-se, como um leito mortuário;
Espera-te o silêncio da planície,
Como um frio sudário.

Desce. Virá um dia em que mais bela,
Mais alegre, mais cheia de harmonias,
Voltes a procurar a voz cadente
Dos teus primeiros dias.

Então coroarás a ingénua fronte
Das flores da manhã, — e ao monte agreste,
Como a noiva fantástica dos ermos,
Irás, musa celeste!

Então, nas horas solenes
Em que o místico himeneu
Une em abraço divino
Verde a terra, azul o céu;

Quando, já finda a tormenta
Que a natureza enlutou,
Bafeja a brisa suave
Cedros que o vento abalou;

E o rio, a árvore e o campo,
A areia, a face do mar,
Parecem, como um concerto,
Palpitar, sorrir, orar;

Então sim, alma de poeta,
Nos teus sonhos cantarás
A glória da natureza,
A ventura, o amor e a paz!

Ah! mas então será mais alto ainda;
Lá onde a alma do vate
Possa escutar os anjos,
E onde não chegue o vão rumor dos homens;

Lá onde, abrindo as asas ambiciosas,
Possa adejar no espaço luminoso,
Viver de luz mais viva e de ar mais puro,
Fartar-se do infinito!

Musa, desce do alto da montanha
Onde aspiraste o aroma da poesia,
E deixa ao eco dos sagrados ermos
A última harmonia! 


Machado de Assis, in 'Crisálidas',
Rio de Janeiro: B. L. Garnier, 1864.


Themistokles von Eckenbrecher, Raftsundet, 1906.


Vi já das altas aves a harmonia,
Que até aos montes duros convidava
A um modo suave de alegria.
 

sábado, 10 de junho de 2023

"A Camões" - Poema de Soares de Passos

[Luís de Camões (Lisboa[?], 1524 ou 1525 – Lisboa, 10 de junho de 1580) foi um poeta português, considerado uma das maiores figuras da literatura lusófona e um dos grandes poetas da tradição ocidental. A sua literatura envolvia poesias tanto líricas quanto épicas, além de peças teatrais. Foi responsável por obras muito conhecidas, tais como: “Os Lusíadas”, que é considerada uma obra-prima. A 10 de junho, comemora-se o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas.] 
 
 
A Camões


Ai do que a sorte assinalou no berço
Inspirado cantor, rei da harmonia!
Ai do que Deus às gerações envia
Dizendo – vai, padece, é teu fadário;
Como um astro brilhante o mundo o admira,
Mas não vê que essa chama abrasadora
Que o cerca d'esplendor, também devora
Seu peito solitário.

Pairar nos céus em alteroso adejo,
Buscando amor, e vida, e luz, e glórias;
E ver passar, quais sombras ilusórias,
Essas imagens de fulgor divino:
Tais os vossos destinos, ó poetas,
Almas de fogo, que um vil mundo encerra;
Tal foi, grande Camões, tal foi na terra
Teu mísero destino.

A cruz levaste desde o berço à campa:
Esgotaste a amargura até às fezes:
Parece que a fortuna em seus revezes
Te mediu pelo génio a desventura.
Combateste com ela como o cedro
Que provoca o rancor da tempestade,
Mas cuja inabalável majestade
Lhe resiste segura.

Foste grande na dor como na lira!
Quem soube mais sofrer, quem sofreu tanto?
Um anjo viste de celeste encanto,
E aos pés caíste da visão querida...
Engano! foi um astro passageiro,
Foi uma flor de perfumado alento
Que ao longe te sorriu, mas que sedento
Jamais colheste em vida.

Sob a couraça que cingiste ao peito
Do peito ansioso sufocaste a chama,
E foste ao longe procurar a fama,
Talvez, quem sabe? procurar a morte.
Mas, qual onda que o náufrago arremessa
Sobre inóspita praia sem guarida,
A morte crua te arrojou a vida,
E as injúrias da sorte.

De praia em praia divagando incerto
Tuas desditas ensinaste ao mundo:
A terra, os homens, até o mar profundo
Conspirados achavas em teu dano.
Ave canora em solidão gemendo,
Tiveste o génio por algoz ferino:
Teu alento imortal era divino,
Perdeste em ser humano:

Índicos vales, solidões do Ganges,
E tu, ó gruta de Macau, sombria,
Vós lhe ouvistes as queixas, e a harmonia
Desses hinos que o tempo não consome.
Foi lá, nessa rocha solitária,
Que o vate desterrado e perseguido,
À pátria, ingrata, que lhe dera o olvido,
Deu eterno renome.

"Cantemos!" disse, e triunfou da sorte.
"Cantemos!" disse, e recordando glórias,
Sobre o mesmo teatro das vitórias,
Bardo guerreiro, levantou seus hinos.
Os desastres da pátria, a sua queda,
Temendo já no meditar profundo,
Quis dar-lhe a voz do cisne moribundo
Em seus cantos divinos.

E que sentidos cantos! d'Inês triste
Se ouve mais triste o derradeiro alento,
Ensinando o que pode o sentimento
Quando um seio que amou d'amores canta:
No brado heróico da guerreira tuba
O valor português soa tremendo,
E o fero Adamastor com gesto horrendo
Inda hoje o mundo espanta!

Mas ai! a pátria não lhe ouvia o canto!
Da pátria e do cantor findava a sorte:
Aos dois juraram perdição e morte,
E os dois juntaram na mansão funérea...
Ingratos! ao que, alçando a voz do génio
Além dos astros nos erguera um sólio,
Decretaram por louro e capitólio
O leito da miséria!

Ninguém o pranto lhe enxugou piedoso...
Valeu-lhe o seu escravo, o seu amigo:
"Dai esmola a Camões, dai-lhe um abrigo!"
Dizia o triste a mendigar confuso!
Homero, Ovídio, Tasso, estranhos cisnes,
Vós, que sorvestes do infortúnio a taça,
Vinde depor as c'roas da desgraça
Aos pés do cisne luso!

Mas não tardava o derradeiro instante...
O raio ardente, que fulmina a rocha,
Também a flor que nela desabrocha,
Cresta, passando, coas etéreas lavas!
Que cena! enquanto ao longe a pátria exangue
Aos alfanges mouriscos dava o peito,
De mísero hospital num pobre leito,
Camões, tu expiravas!

Oh! quem me dera desse leito à beira
Sondar teu grande espírito nessa hora,
Por saber, quando a mágoa nos devora,
Que dor pode conter um peito humano;
Palpar teu seio, e nesse estreito espaço
Sentir a imensidade do tormento,
Combatendo-te n'alma, como o vento,
Nas ondas do Oceano!

O amor da pátria, a ingratidão dos homens,
Natércia, a glória, as ilusões passadas,
Entre as sombras da morte debuxadas,
Em teu pálido rosto já pendido;
E a pátria, oh! e a pátria que exaltaras
Nessas canções d'inspiração profunda,
Exalando contigo moribunda
Seu último gemido!

Expirou! como o nauta destemido,
Vendo a procela que o navio alaga,
E ouvindo em roda no bramir da vaga
D'horrenda morte o funeral presságio,
Aos entes corre que adorou na vida,
Em seguro baixel os põe a nado,
E esquecido de si morre abraçado
Aos restos do naufrágio:

Assim, da pátria que baixava à tumba,
Em cantos imortais salvando a pátria,
E entregando-a dos tempos à memória,
Como em gigante pedestal segura:
"Pátria querida, morreremos juntos!"
Murmurou em acento funerário,
E envolvido da pátria no sudário
Baixou à sepultura.

Quebrando a lousa do feral jazigo,
Portugal ressurgiu, vingando a afronta,
E inda hoje ao mundo sua glória aponta
Dos cantos de Camões no eterno brado;
Mas do vate imortal as frias cinzas
Esquecidas deixou na sepultura,
E o estrangeiro que passa, em vão procura
Seu túmulo ignorado.

Nenhuma pedra ou inscrição ligeira
Recorda o grã cantor... porém calemos!
Silêncio! do imortal não profanemos
Com tributos mortais a alta memória.
Camões, grande Camões; foste poeta!
Eu sei que tua sombra nos perdoa:
Que valem mausoléus antes a coroa
De tua eterna glória?


Soares de Passos
, in Poesias
(1ª ed. em 1856)
 
 
Retrato de Soares de Passos, publicado em 1860, por Ernesto Biester 


Poeta portuense, expoente máximo do Ultrarromantismo em Portugal, António Augusto Soares de Passos (Porto, 27 de Novembro de 1826 – Porto, 8 de Fevereiro de 1860) nasce no seio da média burguesia comerciante da Invicta. O seu pai, perseguido durante as guerras civis pelas suas ideias liberais, vivia largas temporadas escondido e afastado da família, o que teria marcado o temperamento algo soturno do jovem António Augusto. 
Tendo aprendido francês e inglês durante a juventude, e depois de trabalhar algum tempo no armazém do pai, ingressa na Universidade de Coimbra, em 1849, para cursar Direito. Aí convive com outros estudantes do Porto, como Alexandre Braga, Silva Ferraz e Aires de Gouveia, com quem fundaria, em 1851, a revista Novo Trovador. 
Em 1854, já formado, regressa ao Porto e, depois de uma passagem pelo Tribunal da Relação e da tentativa frustrada de obter um lugar de bibliotecário, decide dedicar-se exclusivamente à literatura, colaborando nos jornais de poesia O Bardo (1852-1854) e A Grinalda (1855-1869) e preparando a edição em volume das suas Poesias (1856).
Para a sua celebridade contribuiu não apenas a sua imagem de misantropo e a frequência dos salões portuenses, como também o bom acolhimento dos críticos (é conhecida a carta de Alexandre Herculano em que o autor de Eurico, o Presbítero considera Soares de Passos "o primeiro poeta lírico português deste século"). 
Morre precocemente aos trinta e quatro anos, vítima da tuberculose, deixando um livro único onde confluem todas as tendências do imaginário poético seu contemporâneo. (daqui)
 

quinta-feira, 9 de julho de 2020

"Piscatória" - Poema de Luís de Camões

 

Piscatória

Sereno

Arde por Galateia branca e loura
Sereno, pescador pobre, forçado
d'uma estrela cruel que à míngua moura.
Os outros pescadores têm lançado
no Tejo as redes; ele só fazia
este queixume ao vento descuidado:
Quando virá, formosa Ninfa, o dia
em que te possa dar a conta estreita
desta doudice triste e vã porfia?
Não vês que me foge a alma e que me enjeita,
buscando num só riso da tua boca,
nos teus olhos azuis, mansa colheita?
Se a esse espírito alguma mágoa toca,
se de Amor fica nele uma pegada,
que te vai, Galateia, nesta troca?
Dar-te-ei minha alma; lá ma tens roubada;
não ta demandarei; dá-me por ela
uma só volta de olhos descuidada.
Se muito te parece, e minha estrela
não consentir ventura tão ditosa,
dou-te as asas do Amor perdidas nela.
Que mais te posso dar, Ninfa formosa,
inda que o mar d'aljôfar me cubrira
toda esta praia leda e graciosa?
Amansam ondas, quebra o vento a ira;
minha tormenta triste não sossega;
arde o peito em vão, em vão suspira.
Ao romper d'alva anda a névoa cega
sobre os montes da Arrábida viçosos,
enquanto a eles a luz do sol não chega.
Eu vejo aparecer outros formosos
raios, que a graça e cor ao céu roubaram;
ficam meus olhos cegos mais saudosos.
Quantas vezes as ondas se encresparam
com meus suspiros! Quantas com meu pranto
se pararam com mágoa e me escutaram!
Se na força da dor a voz levanto,
e ao som do remo que a água vai ferindo
por alta lua meu cuidado canto,
os maviosos delfins me estão ouvindo;
a noite sossegada; o mar, calado.
Só, Galateia, foges e vás rindo.
Estranhas, porventura, o mar cercado
da fraca rede, a barca ao vento solta,
e um pobre pescador aqui lançado?
Antes que o sol dê no céu uma volta
se pode melhorar minha ventura,
como acontece aos outros, n'água envolta.
Igual preço não é da formosura
areia de ouro, que o rico Tejo espraia,
mas um amor que para sempre dura.
Vejam teus olhos, bela Ninfa, a praia;
verás teu nome na mimosa areia.
Nunca sobre ele o mar com fúria saia,
que até agora nem vento e ar salteia!
Três dias há que escrito aqui o deixou
Amor, guardando-o a toda a força alheia.
Ele com suas mãos mesmo ajudou
escolher estas conchas que, guardando,
uma e uma para ti só ajuntou.
Um ramo te colhi de coral brando;
antes que o ar lhe desse, parecia
o que eu de tua boca estou cuidando.
Ditoso se o soubesse inda algum dia!


Luís de Camões,
 

segunda-feira, 6 de julho de 2020

"A minha vida é o mar o Abril a rua" - Poema de Sophia de Mello Breyner Andresen



Max Liebermann (German painter, 1847–1935), Boys Bathing, 1898, Neue Pinakothek


Poema


A minha vida é o mar o Abril a rua
O meu interior é uma atenção voltada para fora
O meu viver escuta
A frase que de coisa em coisa silabada
Grava no espaço e no tempo a sua escrita

Não trago Deus em mim mas no mundo o procuro
Sabendo que o real o mostrará

Não tenho explicações
Olho e confronto
E por método é nu meu pensamento

O quadrado da janela
O brilho verde de Vésper
O arco de oiro de Agosto
O arco de ceifeira sobre o campo
A indecisa mão do pedinte
São minha biografia e tornam-se o meu rosto

Por isso não me peçam cartão de identidade
Pois nenhum outro senão o mundo tenho
Não me peçam opiniões nem entrevistas

Não me perguntem datas nem moradas
De tudo quanto vejo me acrescento
E a hora da minha morte aflora lentamente
Cada dia preparada 


 
Jules Breton (French naturalist painter, 1827–1906), Fishermen at Menton, 1878


Quantas vezes as ondas se encresparam
com meus suspiros! Quantas com meu pranto
se pararam com mágoa e me escutaram!


Luís de Camões, Écloga

quarta-feira, 10 de junho de 2020

"Trovas a uma Cativa" - Poema de Luís de Camões



S.L. Haldankar (Indian painter, 1882–1968), "Woman With the Lamp"
(Glow of Hope), c. 1945
–1946


Aquela Cativa 

Endechas a uma cativa com quem andava d’amores
na Índia, chamada Bárbora

 
Aquela cativa
Que me tem cativo,
Porque nela vivo
Já não quer que viva.
Eu nunca vi rosa
Em suaves molhos,
Que para meus olhos
Fosse mais formosa.

Nem no campo flores,
Nem no céu estrelas,
Me parecem belas
Como os meus amores.
Rosto singular,
Olhos sossegados,
Pretos e cansados,
Mas não de matar.

Uma graça viva,
Que neles lhe mora,
Para ser senhora
De quem é cativa.
Pretos os cabelos,
Onde o povo vão
Perde opinião
Que os louros são belos.

Pretidão de Amor,
Tão doce a figura,
Que a neve lhe jura
Que trocara a cor.
Leda mansidão
Que o siso acompanha;
Bem parece estranha,
Mas bárbara não.

Presença serena
Que a tormenta amansa;
Nela enfim descansa
Toda a minha pena.
Esta é a minha cativa
Que me tem cativo,
E, pois nela vivo,
É força que viva.


Luís de Camões,
Lírica completa. Vol.1.
Lisboa: Imprensa Nacional 
 
 
S.L. Haldankar, Lady lighting the Lamp (Glow of Hope 2)


[A 10 de junho, comemora-se o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas.]


terça-feira, 15 de outubro de 2019

"Amantia Verba" - Poema de Azevedo Cruz


 
 
Amantia Verba

                     Ao Pereira Nunes
"Esta é a ditosa Pátria minha amada”
Campos formosa, intrépida amazona
Do viridente plaino Goitacás!
Predileta do Luar como Verona,
Terra feita de luz e madrigais!

Na planura sem fim do teu regaço
Quem poderá dizer que o sol se esconde?
Para subir aqui — sobra-lhe espaço!
Para descer aqui — não tem por onde!

Oh Paraíba, oh mágica torrente
Soberana dos prados e vergéis!
Por onde passas, como um rei do oriente,
Os teus vassalos vêm beijar-te os pés!

De Otelo tens a cólera, alteroso,
E o quebranto das pérfidas sereias:
Ora revel, nas formidáveis cheias,
Ora em tranquilo e plácido repouso!

Pelo teu dorso quérulo e undiflavo
Vogam lamentos como nunca ouvi...
Ecos talvez das lágrimas do Schiavo,
Ou dos tristes amores de Peri!

Quanta vez fui contar-te as minhas mágoas
(Tu, rio, és meu irmão, tu também penas!)
Embalavam-me as tuas cantilenas,
O doce arfar monótono das águas!

Os meus passeios preferidos lembro :
Beirando o rio, a Lapa, a Igreja, o Asilo,
Toda aquela paisagem, tudo aquilo,
Nas luminosas tardes de Dezembro!

O sol, tamanho gasto e desperdício
De tons e tintas, pródigo, fazia,
Que todo o Paraíba parecia
Iluminado a fogo de artifício!

Nos tempos do Liceu horas inteiras,
Ao pôr do sol, passava-as no mirante:
Monologavam pelo azul distante
Os perfis solitários das palmeiras!

E vinha-me a ilusão que era o rei mouro
O último rei que governou Granada:
Sobre a cidade a púrpura abrasada
E as torres altas, minaretes de ouro!

Em caprichosa curva em face, a franca,
A límpida caudal do Paraíba;
E ao largo, alvissareiro, rio arriba,
O traço alegre de uma vela branca!

Parecias-me muito mais estreito
Visto dali, talvez pela distância,
Companheiro fiel da minha infância,
Rio que rolas dentro do meu peito!

Faixa de opala que a cidade enlaça
Pela cintura, — cíngulo de neve!
Vendo-te, — vê-se bem que a vida é breve!
Corre, vai, rio amigo, tudo passa!

Torres de usinas fumegando a um lado,
Para o poente o Itaoca e em cima e ao fundo,
Diáfano sempre, — um céu imaculado,
Céu de safira sem rival no mundo!

Noite! A esfera armilar da lua cheia
Do sudário das águas surge ao lume,
E tudo ao luar o estranho aspeto assume
Dos castelos da Espanha sobre a areia!

A extrema-unção do luar como que invade
A alma das coisas, sobre tudo esvoeja:
Faz-se toda de mármore a cidade,
Vê-se uma catedral em cada Igreja!

Junho, mês dos noctívagos, corria...
Julieta à varanda debruçada
Vinha escutar a flauta enamorada,
Nas horas mortas, pela noite fria...

Tudo no olvido cai, tudo fenece,
Banco das Cismas, tudo cai no olvido!
Teu nome hoje é vazio de sentido,
A nova geração não te conhece!

Eras outrora o nosso confidente,
O Parnaso da Roda, a nossa Ermida!
Banco das Cismas, quanto sonho ardente
Desfeito em fumo no correr da vida!

Como o rei Harfagar, meu derradeiro
Sono, em teu seio, mude-se em vigília!
Abrigo e lar dos que não têm família!
Meu amado torrão hospitaleiro!

Campos formosa, intrépida amazona
Do viridente plaino Goitacás!
Predileta do Luar como Verona,
Terra feita de luz e madrigais!

Nada iguala os teus dons, os teus primores,
Vai de delícias, o teu céu azul!
Minha terra natal, ninho de amores,
Urna de encantos, pérola do sul! 

1901

Azevedo Cruz, 
Profissão de Fé, págs. XV-XXVII.

“Amantia Verba” (Declaração de Amor) é um poema dedicado a Campos dos Goytacazes.
Versos desse poema foram utilizados pelo professor e musicista Newton Périssé Duarte ao criar a melodia do “Hino a Campos”. Seu livro póstumo, “Sonho”, reúne outros textos de alta qualidade, tendo sido editado pela Academia Campista de Letras, em 1943.


Garcia Bento, Saveiros, 1925


António Garcia Bento (1897, Campos dos Goytacazes, RJ - 1929, Rio de Janeiro, RJ). De origem pobre, foi funcionário da Estrada de Ferro Central do Brasil e desenhista contratado pela firma Haust e Cia. Estudou pintura ao ar livre com Levino Fânzeres, na Colmeia dos Pintores do Brasil, curso livre, sempre aos domingos, na Quinta da Boa Vista, em São Cristóvão, na cidade do Rio de Janeiro. No Salão Nacional de Belas Artes, conquistou menção honrosa em 1918, pequena medalha de prata em 1921 e prémio de viagem ao exterior em 1925. Acompanhado da mulher e dos filhos, viajou por dois anos pela Europa, visitando, entre outros países, Portugal, Espanha e Holanda. Os quadros que realizou na Europa, entre os melhores que produziu em sua curta carreira, foram expostos em São Paulo e no Rio de Janeiro em 1928, com sucesso de venda e de crítica. Em 1952, numa grande retrospetiva, o Museu Nacional de Belas Artes expôs mais de sessenta obras de sua autoria. O catálogo da mostra estampa um texto crítico de Gustavo Corção, que foi amigo do artista. No mesmo museu, integrou a mostra 150 Anos de Pintura de Marinha na História da Arte Brasileira (1982). Destacou-se sobretudo como marinhista. (daqui)



Garcia Bento, Luar


"Um fim de mar colore os horizontes." 


sexta-feira, 14 de junho de 2019

"Correm turvas as águas deste rio" - Poema de Luís de Camões


 
Patrick William Adam (Scottish painter, 1854–1929), 'Notre Dame and the Seine', 
Private Collection 


Correm turvas as águas deste rio


Correm turvas as águas deste rio
que as do Céu e as do monte as enturbaram;
os campos florecidos se secaram,
intratável se fez o vale, e frio.

Passou o verão, passou o ardente estio,
umas coisas por outras se trocaram;
os fementidos Fados já deixaram
do mundo o regimento, ou desvario.

Tem o tempo sua ordem já sabida;
o mundo, não; mas anda tão confuso,
que parece que dele Deus se esquece.

Casos, opiniões, natura e uso
fazem que nos pareça desta vida
que não há nela mais que o que parece.


Luís de Camões
, Sonetos


Patrick William Adam, 'Pont Neuf, near the Wine Market at the Edge of the Seine',
 Private Collection


Jornada

 
Tão longa a jornada!
E a gente cai, de repente,
No abismo do nada.


Helena Kolody
(Haicai)