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sexta-feira, 28 de outubro de 2022

"De um sonho" - Poema de Armando Freitas Filho


Albert Edelfelt (Finnish-Swedish painter, 1854-1905), "Boys Playing Upon the Shore", 1884,
 Ateneu Art Museum: Finnish National Gallery
 

De um sonho


A areia retida nas mãos em concha
vaza, e inicia a ampulheta
preenchendo as formas das letras
e de algumas figuras:
a do A surge consistente
seguida do molde do rosto de uma criança
dentro da bacia oval e húmida que as mãos
escavaram, à beira da baía de igual formato
no intervalo de uma onda mais forte e outra.
O avanço do mar acaba apagando
a construção na praia, mas a memória
a reescreve com o mesmo espírito, método
e redundância, nas linhas da maré.


Armando Freitas Filho
, em "Dever" (Suíte - 1ª parte).
São Paulo: Companhia das Letras, 2013.

 

"Dever", 2013. Editora: Companhia das Letras
 

Armando Freitas Filho estreou em livro em 1963. Com "Dever" (2013), comemora 50 anos de carreira e deixa claro por que é um dos maiores poetas em atividade no país.
Na primeira parte, "Suíte", o autor se detém em "casas, roupas, móveis etc.", objetos do quotidiano que a princípio não teriam eco poético, caso não fossem, como afirma o autor, "dispostos de tal forma que sirvam para fins estéticos".
A segunda, "Anexo", já está na rua, é "jornalística", mas sem abrir mão do transfigurador trabalho literário, dando conta dos eventos de antes e de agora, que atravessaram o poeta.
A terceira, "Numeral", que desde 2003 é a coda dos livros de Armando, continua a passar em revista sua poética, sempre sujeita a retificações futuras.
É digna de nota sua capacidade de mesclar poemas íntimos, sobre a vida amorosa e familiar, a poemas que conversam com o noticiário contemporâneo, como o massacre da Candelária e o goleiro Bruno, e ainda dialogar com a novíssima poesia brasileira, como no poema feito a partir do último livro de Angélica Freitas, Um útero é do tamanho de um punho.
Num dos poemas do livro, o autor traça uma genealogia breve da literatura brasileira, propondo um elo entre Machado de Assis, Graciliano Ramos, Carlos Drummond de Andrade, Antonio Candido e João Cabral de Melo Neto.
Armando Freitas Filho é sem dúvida um herdeiro dessa linha mestra da literatura brasileira.
(Daqui)

 
Albert Edelfelt, Shipbuilders, 1886, Private collection
 
 

A Tempestade do Destino


"Em certas ocasiões, o destino se assemelha a uma pequena tempestade de areia, cujo curso sempre se altera. Você procura fugir dela e orienta seus passos noutra direção. Mas então, a tempestade também muda de direção e o segue. Você muda mais uma vez seu rumo. A tempestade faz o mesmo e o acompanha. As mudanças se repetem muitas e muitas vezes, como num balé macabro que se dança com a deusa da morte antes do alvorecer. Isso acontece porque a tempestade não é algo independente, vindo de um local distante. A tempestade é você mesmo. Algo que existe em seu íntimo. Portanto, o único recurso que lhe resta é se conformar e corajosamente pôr um pé dentro dela, tapar olhos e ouvidos com firmeza a fim de evitar que se encham de areia e atravessá-la passo a passo até emergir do outro lado. É muito provável que lá dentro não haja sol, nem lua, nem norte e, em determinados momentos, nem hora certa. O que há são apenas grãos de areia finos e brancos como osso moído dançando vertiginosamente no espaço. Imagine uma tempestade de areia desse jeito. E você vai atravessá-la, claro.
Falo da tempestade. Dessa tempestade violenta, metafísica e simbólica. Metafísica e simbólica, mas ao mesmo tempo cortante como mil navalhas, ela rasga a carne sem piedade. Muita gente verteu sangue dentro dela, e você mesmo verterá o seu. Sangue rubro e morno. E você vai apará-lo com suas próprias mãos em concha. O seu sangue e também o de outras pessoas.
E, quando a tempestade passar, na certa lhe será difícil entender como conseguiu atravessá-la e ainda sobreviver. Aliás, nem saberá com certeza se ela realmente passou. Uma coisa porém é certa:
Ao emergir do outro lado da tempestade, você já não será o mesmo de quando nela entrou.
Exatamente, esse é o sentido da tempestade de areia…"

Haruki Murakami, do livro Kafka à beira-mar”.
Tradução: Leiko Gotoda

 

"Kafka à beira-mar", Editora Alfaguara
Edição brasileira (2008) 
 
 
"Kafka à beira-mar" é um dos romances mais ambiciosos do escritor japonês Haruki Murakami, e uma das mais surpreendentes obras da literatura contemporânea. Centrado na jornada de dois personagens, é um livro imaginativo, com referências que vão do mundo pop japonês às tragédias gregas. Kafka Tamura é um solitário menino de quinze anos que decide fugir da casa do pai para escapar de uma terrível profecia, além de tentar encontrar a mãe e a irmã, que partiram quando ele ainda era criança. Leva poucos pertences numa mochila e não sabe nem ao menos que rumo seguir. Sua rota de fuga irá se cruzar, inevitavelmente, com a de Satoru Nakata, um homem idoso que, após passar por um trauma inexplicável na infância, adquiriu estranhos poderes sobrenaturais. A odisseia desses personagens, tão misteriosa para eles quanto para nós, será pontilhada por provações e descobertas, numa das mais surpreendentes obras da literatura dos últimos anos. (Daqui)
 

domingo, 13 de setembro de 2020

"Céu menino" - Poema de Alessandro Riccioni


Alicia Baladan, Cielo bambino


Céu menino


Céu de palavras, céu de aventura,
céu de solina, de vento, de chuva,
céu lua cheia, de neve e estrela,
céu de aguaceiro caindo na telha,
céu de relâmpago, céu trovoada,
céu de oceano, de terra molhada,
céu que circula e se achega pertinho,
céu de poeta, meu céu menino.”


Alessandro Riccioni, in "Céu menino"
Editora Pulo do Gato


Alessandro Riccioni nasceu numa pequena vila na Itália, em 1956. Estudou línguas estrangeiras na Universidade de Bolonha, foi professor e atualmente é bibliotecário. Publicou vários livros para adultos. Céu menino é seu primeiro livro infantil. (alessandro riccioni )



Alicia Baladan, Cielo bambino


"Se apenas leres os livros que toda a gente lê, apenas podes pensar o mesmo que os outros estão a pensar." 

Haruki Murakami, Norwegian Wood


Alicia Baladan, Cielo bambino


"...Mas não é só a beleza. Não, as estrelas vivem e respiram, como as árvores na floresta. E me veem. Sabem tudo, o que fiz até agora e o que vou fazer depois. Nada escapa aos seus olhos vigilantes."

Haruki Murakami




Capa do livro


Para onde o sol vai ao anoitecer e de onde ele surge pela manhã? Em Céu menino, o ciclo da natureza e os mistérios do universo se mesclam ao mundo imaginário da criança em poemas que transbordam delicadeza e sonoridade, numa evocação ao sonho, à curiosidade e às descobertas da infância.

A partir de indagações infantis, que facilmente passam despercebidas para muitos adultos, Alessandro Riccioni cria uma “constelação” de poemas que provocam questionamentos e convidam ao exercício da percepção e à decifração de sentidos. As belíssimas ilustrações de Alicia Baladan oferecem uma leitura surpreendente e paralela ao texto verbal, tão ricas em poesia quanto em associações de imagens e significados. (Daqui)


Alicia Baladan, Cielo bambino


"Eu sonho. Por vezes penso que é a única coisa certa que se deve fazer."

Haruki Murakami, Sputnik, Meu Amor