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William Mainwaring Palin (English painter and decorative artist, 1862-1947),
Mother and Child, 1899.
Silogismos
A minha filha perguntou-me
o que era para a vida inteira
e eu disse-lhe que era para sempre.
Naturalmente, menti,
mas também os conceitos de infinito
são diferentes: é que ela perguntou depois
o que era para sempre
e eu não podia falar-lhe em universos
paralelos, em conjunções e disjunções
de espaço e tempo,
nem sequer em morte.
A vida inteira é até morrer,
mas eu sabia ser inevitável a questão
seguinte: o que é morrer?
Por isso respondi que para sempre
era assim largo, abri muito os braços,
distraí-a com o jogo que ficara a meio.
(No fim do jogo todo,
disse-me que amanhã
queria estar comigo para a vida inteira.)
Ana Luísa Amaral, in "O Olhar Diagonal das Coisas"

"O Olhar Diagonal das Coisas" de Ana Luísa Amaral
Editor: Assírio & Alvim, 2022
SINOPSE
Estes são poemas de precisão, questionamento e de receitas para várias crises: O Olhar Diagonal das Coisas reúne os 17 livros de poesia de Ana Luísa Amaral, trinta anos em verso inaugurados por Minha Senhora de Quê (1990), até ao mais recente Mundo (2021).
Metafísico fruto
Um fruto reticente é a saudade:
a pele custosa à faca, olhos como
cavernas onde a faca não chega e
uma arte cirúrgica é precisa.
Não posso permiti-la no caixote
a insistir-me a alma. Por isso
insisto a arte e a minha perícia
em lhe arrancar a pele, os olhos
reticentes de Sibila.
Às fatias depois — tarefa
igual —

William Mainwaring Palin,
Portrait of Nora Allen, 1910.
"Minhas primeiras pátrias foram os livros."
Marguerite Yourcenar (1903-1987),
Pseudónimo da escritora francesa
Marguerite de Crayencour, nascida em 1903, em Bruxelas, Bélgica,
e que veio a naturalizar-se norte-americana. A sua mãe, a aristocrata
belga Fernande de Cartier, morreu 10 dias após o parto e a jovem
Marguerite mudou-se para o norte de França com seu pai, onde permaneceu até 1914, altura em que a Primeira Guerra Mundial obrigou a família a fixar residência em Londres.
Já
em Inglaterra, Marguerite aprendeu inglês e iniciou o estudo das
línguas clássicas com o seu pai, Michel de Crayencour. Marguerite nunca
frequentou a escola, tendo sempre estudado em casa com o pai ou com
precetores que lhe proporcionaram uma educação esmerada. O pai, Michel,
influenciou-lhe o gosto pela literatura francesa e pela literatura
russa, tendo ambos encetado inúmeras viagens pela Europa e pelo Médio e Extremo Oriente durante a juventude da autora.
Aos 16 anos escreveu o seu primeiro livro,
Le jardin des chimères (
O Jardim das Quimeras),
que foi publicado em 1921 numa edição paga pelo próprio pai, sob o
pseudónimo "Marg Yourcenar". O apelido "Yourcenar", anagrama de
Crayencour, o seu nome de família, foi criado por Marguerite e Michel.
Em 1926 o pai voltou a casar e a autora mudou-se para a Suíça. Publicou
Feux (
Fogos) em 1936 e, um ano depois, conheceu Virgínia Woolf com quem colaborou em várias traduções.
Antes de partir para os Estados Unidos publicou
Nouvelles orientales (
Contos Orientais)
do qual fazia parte o conto "A Fuga de Wang-fô". Depois de 10 anos a
viver nos Estados Unidos, Marguerite pediu a nacionalidade
norte-americana. Frequentou a Universidade de Yale e ensinou literatura
francesa no Sarah Lawrence College, em Nova Iorque.
Em 1951 publicou
Mémoires d'Hadrien (
Memórias de Adriano),
fruto de quinze anos de trabalho, a sua obra maior que a tornou
internacionalmente conhecida. Este sucesso seria confirmado com
L'oeuvre au Noir (
A Obra ao Negro),
1968, uma biografia imaginária de um herói do século XVI atraído pelo
hermetismo e a ciência. Publicou ainda poemas, ensaios e memórias,
manifestando uma atração pela Grécia e pelo misticismo oriental patente em trabalhos como
Mishima ou la vision du vide (1981,
Mishima ou a Visão do Vazio) e
Comme l'eau qui coule (1982,
Como a Água que Corre).
Marguerite
Yourcenar foi a primeira mulher convidada para a Academia Francesa de
Letras, em 1980, tendo ocupado o lugar em janeiro de 1981. A autora
faleceu a 17 de dezembro de 1987, nos Estados Unidos, deixando uma marca
profunda na literatura de expressão francesa.
(daqui)