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segunda-feira, 20 de outubro de 2014

"Suma Teológica" - Poema de Jorge de Sena


Cruzeiro SeixasSem título, sem data. Serigrafia, 30.7 x 21.7 cm



Suma Teológica


Não vim de longe, meu amor, nem sossobraram 
navios no alto mar, quando nasci. 

Nada mudou. Continuaram as guerras; 
continuou a subir o preço do pão; 
continuaram os poetas, uma vez por outra, 
a perguntar por ti. 

É certo que, então, imensa gente 
envelheceu instantânea e misteriosamente. 

Mas até isso, meu amor, se não sabe ainda 
se foi por minha causa, 
se por causa de outros que terão nascido 
ao mesmo tempo que eu. 


Jorge de Sena, in 'Coroa da Terra'


Cruzeiro Seixas, Sem título, 1954. Serigrafia, 30,7 x 21.7 cm


"A vida não passa de uma oportunidade de encontro; só depois da morte se dá a junção; os corpos apenas têm o abraço, as almas têm o enlace." 



Cruzeiro Seixas

quinta-feira, 24 de abril de 2014

"Eu Sou Português Aqui" - Poema de José Fanha


Júlio Pomar, Café Nicola - Serigrafia



Eu Sou Português Aqui


Eu sou português
aqui
em terra e fome talhado
feito de barro e carvão
rasgado pelo vento norte
amante certo da morte
no silêncio da agressão.

Eu sou português
aqui
mas nascido deste lado
do lado de cá da vida
do lado do sofrimento
da miséria repetida
do pé descalço
do vento.

Nasci
deste lado da cidade
nesta margem
no meio da tempestade
durante o reino do medo.
Sempre a apostar na viagem
quando os frutos amargavam
e o luar sabia a azedo.

Eu sou português
aqui
no teatro mentiroso
mas afinal verdadeiro
na finta fácil
no gozo
no sorriso doloroso
no gingar dum marinheiro.

Nasci
deste lado da ternura
do coração esfarrapado
eu sou filho da aventura
da anedota
do acaso
campeão do improviso,
trago as mão sujas do sangue
que empapa a terra que piso.

Eu sou português
aqui
na brilhantina em que embrulho,
do alto da minha esquina
a conversa e a borrasca
eu sou filho do sarilho
do gesto desmesurado
nos cordéis do desenrasca.

Nasci
aqui
no mês de Abril
quando esqueci toda a saudade
e comecei a inventar
em cada gesto
a liberdade.

Nasci
aqui
ao pé do mar
duma garganta magoada no cantar.
Eu sou a festa
inacabada
quase ausente
eu sou a briga
a luta antiga
renovada
ainda urgente.

Eu sou português
aqui
o português sem mestre
mas com jeito.
Eu sou português
aqui
e trago o mês de Abril
a voar
dentro do peito.

Júlio Pomar
Retrato de Júlio Pomar por Bottelho
(Carlos Botelho ou Bottelho (Chaves, 1964) é um pintor e escultor português.)


Artista português, Júlio Pomar nasceu a 10 de janeiro de 1926, na rua das Janelas Verdes, em Lisboa. Frequentou a Escola de Artes Decorativas António Arroio e inscreveu-se aos 16 anos na ESBAL. A primeira exposição, juntamente com Vespeira, Fernando Azevedo e Pedro Oom, foi realizada num atelier da rua das Flores, e aí Almada Negreiros comprou-lhe o primeiro quadro, Saltimbancos.


Júlio Pomar, O Gadanheiro, 1945

Na Escola de Belas-Artes do Porto conhece o arquiteto e pintor Fernando Lanhas. Por esta época defende uma arte de intervenção, exemplificada em O Gadanheiro (1945) e, mais tarde, no conhecido O Almoço do Trolha, que ficaria para a História como um símbolo de uma época.



Júlio Pomar, O almoço do trolha, 1946-50, óleo sobre tela, 120 x 150 cm

Durante a prisão em Caxias, consequência da sua atividade militante, retrata o futuro presidente da república Mário Soares, na altura um companheiro de cela.


 Júlio Pomar, Retrato de Mário Soares


 Nos anos 50 é representado na Bienal de São Paulo e viaja até Espanha e França. Inicia neste período um dos seus numerosos ciclos, o "ciclo do arroz", fase em que se aproxima do chamado realismo socialista. É um dos fundadores da Cooperativa "Gravura" e é representado na Bienal de gravura de Tóquio. Trabalha ainda em cerâmica e em escultura para decoração. 
Em 1961 ganha o prémio de Pintura da Fundação Gulbenkian e começa o ciclo das Tauromaquias. Parte para Paris em 1962 como bolseiro da Gulbenkian e dois anos depois faz a sua primeira exposição individual na capital francesa. Participa em inúmeros certames internacionais, nos Estados Unidos e no Japão.



Júlio Pomar - O Luxo, 1979, Tela da série Os tigres 


 Depois da série dos Tigres, do início dos anos 80, inicia uma reflexão sobre figuras da História portuguesa: Fernando Pessoa, Luís de Camões, Mário de Sá-Carneiro, Fernão Mendes Pinto.



Júlio Pomar - Fernando Pessoa


O Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian organiza uma exposição antológica da obra do artista, apresentada em Brasília, em São Paulo e no Rio de Janeiro em 1996, e em Lisboa em 1997. Em O Paraíso e outras histórias, exposição integrada no programa de Lisboa 94 - Capital Europeia da Cultura, reúne uma série de trabalhos datados de 1991 a 1994 em que evoca cenas bíblicas e episódios mitológicos sem negligenciar o tom irónico.



Júlio Pomar - D. Quixote 


Nos anos 90 Júlio Pomar reparte o seu tempo entre Paris e Lisboa. A galeria Piltzer, na exposição "Les Joies de Vivre", patente ao público em Paris de 12 de dezembro de 1997 a 29 de janeiro de 1998, apresenta 6 trípticos e 2 quadrípticos em que os temas mitológicos, a personagem de D. Quixote ou o percurso do artista por terras brasileiras servem de pretexto para a exaltação do prazer dos sentidos. 
Para além de pintor, Pomar revelou-se como poeta na "International Poetry Magazine" em 1973, estando os seus poemas reunidos no livro Alguns Eventos, editado pela D. Quixote em 1992. Em Da Cegueira dos Pintores (edição portuguesa - 1986) publica ensaios sobre a arte e a criação.

Júlio Pomar. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2014. [Consult. 2014-04-21].



Júlio Pomar - I



Júlio Pomar - II



segunda-feira, 16 de setembro de 2013

"No País dos Sacanas" - Poema de Jorge de Sena


Carlos Botelho (1899 1982), Vista de Lisboa, 1981Serigrafia



No País dos Sacanas


Que adianta dizer-se que é um país de sacanas? 
Todos os são, mesmo os melhores, às suas horas, 
e todos estão contentes de se saberem sacanas. 

Não há mesmo melhor do que uma sacanice 
para poder funcionar fraternalmente 
a humidade de próstata ou das glândulas lacrimais, 
para além das rivalidades, invejas e mesquinharias 
em que tanto se dividem e afinal se irmanam. 

Dizer-se que é de heróis e santos o país, 
a ver se se convencem e puxam para cima as calças? 
Para quê, se toda a gente sabe que só asnos, 
ingénuos e sacaneados é que foram disso? 

Não, o melhor seria aguentar, fazendo que se ignora. 
Mas claro que logo todos pensam que isto é o cúmulo da sacanice, 
porque no país dos sacanas, ninguém pode entender 
que a nobreza, a dignidade, a independência, a 
justiça, a bondade, etc., etc., sejam 
outra coisa que não patifaria de sacanas refinados 
a um ponto que os mais não são capazes de atingir. 

No país dos sacanas, ser sacana e meio? 
Não, que toda a gente já é pelo menos dois. 
Como ser-se então nesse país? Não ser-se? 
Ser ou não ser, eis a questão, dir-se-ia. 
Mas isso foi no teatro, e o gajo morreu na mesma.



Carlos Botelho, Lisboa, 1962, óleo sobre tela, 54 x 76,5 cm


"Encontrou-se, em boa política, o segredo de fazer morrer de fome aqueles que, 
cultivando a terra, fazem viver os outros."



Alejandro Sanz - Não Me Compares ft. Ivete Sangalo