Mostrar mensagens com a etiqueta Arthur Sarnoff. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Arthur Sarnoff. Mostrar todas as mensagens

sábado, 12 de setembro de 2020

"Vento que passas" - Poema de Miguel Torga


Arthur Sarnoff (1912 – 2000), Kids on Swing


Vento que passas


Vento que passas, leva-me contigo
Sou poeira também, folha de outono,
Rês tresmalhada que não quer abrigo
No calor do redil de nenhum dono.
Leva-me, e livre deixa-me cair.
No deserto de todas as lembranças,
Onde eu possa dormir
Como no limbo dormem as crianças.


Miguel Torga
, Diário, vol. V, 1951



Arthur Sarnoff, Kids and Dog under a Tree


"A infância não se repete, nem na lembrança, nem na imaginação. Quando, muito, dá-se outra infância. As cenas ingénuas, porque eram ingénuas, não tinham consciência; e as humilhações, de tão pungentes, não há memória que consinta na sua perfeita expressão."
(Miguel Torga)


Arthur Sarnoff, Boy and Girl by a Church


"Não te preocupes com os que não te conhecem, mas esforça-te por seres digno de ser conhecido."

(Confúcio)


quinta-feira, 15 de setembro de 2016

"Onde o Homem não chega tudo é puro" - Poema de Fernanda de Castro


Ilustração de Arthur Sarnoff
 


Onde o Homem não chega tudo é puro


Onde o Homem não chega tudo é puro, 
dessa pureza da primeira infância. 
Tudo é medida, ritmo, concordância, 
tudo é claro e auroral: a noite, o escuro. 

E nem o vendaval é dissonância 
mas promessa de sol e de futuro. 
Quem levantou esse primeiro Muro 
que do perto fez longe, ergueu distância? 

Foi o Homem, com suas mãos de barro, 
com suas mãos perjuras, fel e sarro 
de inútil sofrimento e vil prazer. 

Não é tarde, porém: sacode a lama, 
ergue o facho, levanta a Deus a chama 
e recomeça: acabas de nascer. 


in "Ronda das Horas Lentas"


Ilustração de Arthur Sarnoff


"A primeira adoração dos ídolos foi sem dúvida o medo das coisas, mas também, relacionado com este, o medo da necessidade das coisas e, relacionado com isso, o medo da responsabilidade por elas. Essa responsabilidade parecia tão gigantesca, que nem mesmo se ousou impô-la a um único ser humano, pois, pela mera mediação de um ser, a responsabilidade humana não teria sido aliviada o suficiente, o convívio com um ser apenas teria sido contaminado de uma maneira mais profunda ainda pela responsabilidade; por isso, deu-se a cada coisa a responsabilidade por si mesma, mais: deu-se a essas coisas, também, uma medida da responsabilidade para o ser humano."

Franz Kafka, in 'Os Aforismos de Zurau ou Reflexões no Pecado, Esperança, Sofrimento, e o Caminho da Verdade' 


Ilustração de Arthur Sarnoff


"Crueldade é algo que está presente em famílias humanas por incontáveis eras. É quase impossível alguém que é cruel com os animais ser generoso com as crianças. Se se permite às crianças a crueldade contra seus animais de estimação ou outros que cruzem seus caminhos, elas aprenderão facilmente a ter o mesmo prazer com a miséria de seus semelhantes. Essas tendências podem facilmente levá-las ao crime."
 
Frederic McGrand, in "The extended circle: a dictionary of humane thought"


Ilustração de Arthur Sarnoff


"Os animais selvagens nunca matam por diversão. O homem é a única criatura para quem a tortura e a morte de seus semelhantes são divertidas." - James Froude

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

"Arte Poética" - Poema de Mário Dionísio



Arthur Saron Sarnoff (American artist and illustrator, 1912–2000).
 
 
 
ARTE POÉTICA

A poesia não está nas olheiras imorais de Ofélia
nem no jardim dos lilases.
A poesia está na vida,
nas artérias imensas cheias de gente em todos os sentidos,
nos ascensores constantes,
na bicha de automóveis rápidos de todos os feitios e de todas as cores,
nas máquinas da fábrica e nos operários da fábrica
e no fumo da fábrica.
A poesia está no grito do rapaz apregoando jornais,
no vaivém de milhões de pessoas conversando ou prague­jando ou rindo.
Está no riso da loira da tabacaria,
vendendo um maço de tabaco e uma caixa de fósforos.
Está nos pulmões de aço cortando o espaço e o mar.
A poesia está na doca,
nos braços negros dos carregadores de carvão,
no beijo que se trocou no minuto entre o trabalho e o jantar
— e só durou esse minuto.
A poesia está em tudo quanto vive, em todo o movimento,
nas rodas do comboio a caminho, a caminho, a caminho
de terras sempre mais longe,
nas mãos sem luvas que se estendem para seios sem véus,
na angústia da vida.
A poesia está na luta dos homens,
está nos olhos abertos para amanhã.


Mário Dionísio, in "Poemas", 1941.
 

terça-feira, 30 de agosto de 2016

"Se existisses" - Poema de Manuel António Pina




Se existisses

Se existisses, serias tu,
talvez um pouco menos exata,
mas a mesma existência, o mesmo nome, a mesma morada.

Atrás de ti haveria
as mesmas duas palmeiras, e eu estaria
sentado a teu lado como numa fotografia.

Entretanto dobrar-se-ia o mundo
(o teu mundo: o teu destino, a tua idade)
entre ser e possibilidade,

e eu permaneceria acordado
e em prosa, habitando-te como uma casa
ou uma memória.






Juncos em movimento. 
Os cabelos da água 
penteados pelo vento.

 

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

"Não diga tudo o que sabe" - Sabedoria popular






Não diga tudo o que sabe


Não digas tudo o que sabes,
Não faças tudo o que podes,
Não acredites em tudo o que ouves,
Não gastes tudo o que tens,


Porque:
Quem diz tudo o que sabe,
Quem faz tudo o que pode,
Quem acredita em tudo o que ouve,
Quem gasta tudo o que tem,


Muitas vezes:
Diz o que não convém,
Faz o que não deve,
Julga o que não vê,
Gasta o que não pode.


(Sabedoria popular)



Sarah Mclachlan - In The Arms Of The Angel 


"Um livro tem que ser um machado para o mar congelado dentro de nós. 
A literatura só é digna desse nome quando descongela o sangue de quem lê."


(Franz Kafka)

 Franz Kafka (Praga, 3 de julho de 1883 — Klosterneuburg, 3 de junho de 1924) foi um dos maiores escritores de ficção da língua alemã do século XX. Kafka nasceu numa família de classe média judia em Praga, Áustria-Hungria (atual República Checa). O corpo de suas obras escritas— a maioria incompleta e publicadas postumamente — destaca-se entre as mais influentes da literatura ocidental. Seu estilo literário presente em obras como a novela A Metamorfose (1915) e romances incluindo O Processo (1925) e O Castelo (1926) retrata indivíduos preocupados com o pesadelo de um mundo impessoal e burocrático.