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terça-feira, 31 de março de 2026

"O Tango" - Poema de Jorge Luis Borges



Marthe Donas (Belgian abstract and cubist painter, 1885–1967),
"Le Tango", 1920.
 

O Tango


Onde estarão? Pergunta a elegia
Sobre os que já não são, como se houvesse
Uma região onde o Ontem pudesse
Ser o Hoje, o Ainda, o Todavia.

Onde estará (repito) esse selvagem
Que ergueu, em tortuosas azinhagas
De terra ou em perdidas plagas,
A seita do punhal e da coragem?

Onde estarão aqueles que passaram,
Deixando à epopeia um episódio,
Uma fábula ao tempo, e que sem ódio,
Lucro ou paixão de amor se esfaquearam?

Procuro-os na lenda, na apagada
Brasa que, como uma indecisa rosa,
Conserva dessa chusma valorosa
De Corrales e Balvanera um nada.

Que escuras azinhagas ou que ermo
Do outro mundo habitará a dura
Sombra daquele que era sombra escura,
Muranã, essa faca de Palermo?

E esse Iberra (tenham dele piedade
Os santos) que na ponte duma via,
Matou o irmão, Ñato, que devia
Mais mortes que ele, ficando em igualdade?

Uma mitologia de punhais
No esquecimento aos poucos se desgasta.
E dispersou-se uma canção de gesta
Em sórdidas notícias policiais.

Há outra brasa, outra candente rosa
Dos seus restos totais conservadores;
Aí estão os soberbos matadores
E o peso da adaga silenciosa.

Embora a adaga hostil ou essa adaga,
O tempo, os dispersassem pelos lodos,
Hoje, pra além do tempo e da aziaga
Morte, no tango vivem eles todos.

Na música prosseguem, na mensagem
Das cordas da viola trabalhosa,
Que tece na toada venturosa
A festa, a inocência da coragem.

Vejo a roda amarela circular
Com leões e cavalos, oiço o eco
Desses tangos de Arolas e de Greco
Que vi bailar no meio da vereda,

Num instante que emerge hoje isolado,
Sem antes nem depois, contra o olvido,
E que tem o sabor do que, perdido,
Perdido está mas foi recuperado.

Os acordes conservam velhas cousas:
Ou a parreira ou o pátio ancestral.
(E por trás das paredes receosas
O Sul tem uma viola, um punhal.)

O tango, essa rajada, diabrura,
Os trabalhosos anos desafia;
Feito de pó e tempo, o homem dura
Menos que a leviana melodia,

Que é tempo somente. O tango cria
Um passado irreal, real embora.
Recordação que não pôde ir-se embora
Morta na luta, algures na periferia.


Jorge Luis Borges, in Poemas Escolhidos
Edição bilingue. Seleção e Trad. de Ruy Belo.
Dom Quixote, Lisboa, 2003, pp.43-47.

sexta-feira, 3 de outubro de 2025

"Morte ao meio-dia" - Poema de Ruy Belo



Armando Anjos (Pintor português, 1931-2017), "Ferragudo", Lagoa (Algarve), s.d.
 


Morte ao meio-dia


No meu país não acontece nada
à terra vai-se pela estrada em frente
Novembro é quanta cor o céu consente
às casas com que o frio abre a praça

Dezembro vibra vidros brande as folhas
a brisa sopra e corre e varre o adro menos mal
que o mais zeloso varredor municipal
mas que fazer de toda esta cor azul
que cobre os campos neste meu país do sul?
A gente é previdente tem saúde e assistência cala-se
e mais nada

A boca é pra comer e pra trazer fechada
o único caminho é direito ao sol

No meu país não acontece nada
o corpo curva ao peso de uma alma que não sente
Todos temos janela para o mar voltada
o fisco vela e a palavra era para toda a gente

E juntam-se na casa portuguesa
a saudade e o transístor sob o céu azul
A indústria prospera e fazem-se ao abrigo
da velha lei mental pastilhas de mentol

O português paga calado cada prestação
Para banhos de sol nem casa se precisa
E cai-nos sobre os ombros quer a arma quer a sisa
e o colégio do ódio é a patriótica organização

Morre-se a ocidente como o sol à tarde
Cai a sirene sob o sol a pino
Da inspeção do rosto o próprio olhar nos arde
Nesta orla costeira qual de nós foi um dia menino?

Há neste mundo seres para quem
a vida não contém contentamento
E a nação faz um apelo à mãe
atenta a gravidade do momento

O meu país é o que o mar não quer
é o pescador cuspido à praia à luz do dia
pois a areia cresceu e o povo em vão requer
curvado o que de fronte erguida já lhe pertencia

A minha terra é uma grande estrada
que põe a pedra entre o homem e a mulher
O homem vende a vida e verga sob a enxada
O meu país é o que o mar não quer


Ruy Belo, in "País Possível", 1973.
Edição/reimpressão: 01-2016 
Editor: Assírio & Alvim 
 
 
 
Armando Anjos (Pintor português, 1931-2017), Regresso da faina, s.d.


"Nada há de constante neste mundo, exceto a inconstância." 

Jonathan Swift, "Uma Modesta Proposta", 1729.
 
 

quinta-feira, 12 de junho de 2025

"Oh as casas as casas as casas" - Poema de Ruy Belo

 


Claude Monet (French painter and founder of impressionist painting, 1840–1926),
The Luncheon: Camille Doncieux and Jean Monet (Le Déjeuner), 1868,
Städel Museum, Frankfurt.
 

Oh as casas as casas as casas


Oh as casas as casas as casas
as casas nascem vivem e morrem
Enquanto vivas distinguem-se umas das outras
distinguem-se designadamente pelo cheiro
variam até de sala pra sala
As casas que eu fazia em pequeno
onde estarei eu hoje em pequeno?
Onde estarei aliás eu dos versos daqui a pouco?
Terei eu casa onde reter tudo isto
ou serei sempre somente esta instabilidade?
As casas essas parecem estáveis
mas são tão frágeis as pobres casas
Oh as casas as casas as casas
mudas testemunhas da vida
elas morrem não só ao ser demolidas
Elas morrem com a morte das pessoas
As casas de fora olham-nos pelas janelas
Não sabem nada de casas os construtores
os senhorios os procuradores
Os ricos vivem nos seus palácios
mas a casa dos pobres é todo o mundo
os pobres sim têm o conhecimento das casas
os pobres esses conhecem tudo
Eu amei as casas os recantos das casas
Visitei casas apalpei casas
Só as casas explicam que exista
uma palavra como intimidade
Sem casas não haveria ruas
as ruas onde passamos pelos outros
mas passamos principalmente por nós
Na casa nasci e hei de morrer
na casa sofri convivi amei
na casa atravessei as estações
Respirei – ó vida simples problema de respiração
Oh as casas as casas as casas 
 
 
Ruy Belo, in "País possível", 1973. 


"País possível" de Ruy Belo 
Editor: Assírio & Alvim



SINOPSE


Escrito em 1973, este é um livro que permanece extremamente atual e que possui uma indubitável unidade temática: «a do mal-estar de um homem que ao longo da vida, tem pagado caro o preço por ter nascido em Portugal», tal como afirma o próprio Ruy Belo na sua nota introdutória. Estamos pois perante um volume que aborda Portugal como um país real, não mítico ou mitificado, ou então como um país ainda irreal, mas que depois de tornado real, tende a tornar-se impossível. Nas próprias palavras de Ruy Belo: «Portugal, país que só existe em pensamento». 
O prefácio da presente edição é de Nuno Júdice. (daqui)
 

sábado, 21 de dezembro de 2024

"Cinco palavras cinco pedras" - Poema de Ruy Belo


Charles Frederic Ulrich (American Realist painter who spent most of his career in Germany, 
1858 –1908), In the Land of Promise, Castle Garden, 1884, National Gallery of Art.



Cinco palavras cinco pedras 


Antigamente escrevia poemas compridos
Hoje tenho quatro palavras para fazer um poema
São elas: desalento prostração desolação desânimo
E ainda me esquecia de uma: desistência
Ocorreu-me antes do fecho do poema
E em parte resume o que penso da vida
Passado o dia oito de cada mês
Destas cinco palavras me rodeio
E delas vem a música precisa
Para continuar. Recapitulo:
desistência desalento prostração desolação desânimo
Antigamente quando os deuses eram grandes
Eu sempre dispunha de muitos versos
Hoje só tenho cinco palavras cinco pedrinhas 
 

Ruy Beloem "Homem de Palavras", 1969.
"Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, 1984.
"Todos os Poemas", 2001.

Charles Frederic Ulrich, Waifs in an Orphanage, 1884.


"Não tenho saudade da infância, mas sinto falta da forma como eu encontrava prazer em coisas pequenas, mesmo quando coisas maiores desmoronavam. Eu não podia controlar o mundo no qual vivia, não podia fugir de coisas nem de pessoas nem de momentos que me faziam mal, mas tinha prazer nas coisas que me deixavam feliz."


Neil Gaiman, em "O Oceano no Fim do Caminho" (The Ocean at the End of the Lane), 2013.
 

terça-feira, 19 de março de 2024

"Grandeza do Homem" - Poema de Ruy Belo


Antonio Rotta (Italian painter, 1828–1903), A Man and his Dog (The Hunter), 1872.
 
 
 
Grandeza do Homem 


Somos a grande ilha do silêncio de deus 

Chovam as estações soprem os ventos
jamais hão de passar das margens 

Caia mesmo uma bota cardada
no grande reduto de deus e não conseguirá
desvanecer a primitiva pegada 

É esta a grande humildade a pequena
e pobre grandeza do homem


in "Aquele Grande Rio Eufrates", 1961.

 

quarta-feira, 18 de outubro de 2023

"Temporal" - Poema de Lya Luft



Louisa Matthíasdóttir (Icelandic-American painter, 1917-2000),
Self-portrait, 1984 
 

 

 Temporal

O tempo rasteja no telhado
depois de se fazerem filhos e dívidas,
e as dúvidas brotarem nas frestas
da porta.

O tempo trança bordados no rosto
e manchas na mão,
mas a gente não muda: ainda chove
no escuro e um pássaro começa a cantar,
um amigo morre antes dos quarenta anos,
e nossa mãe, com quase cem, nem está
nem se ausenta.
Como tudo o mais,
o tempo não tem explicação:
corrói e transfigura, expande
ou empobrece, conforme a escolha
de cada um.

(Eu, com medo e susto,
escolho a multiplicação.)


Lya Luft, em "Para não dizer adeus", 2005.

 


Louisa Matthíasdóttir (Icelandic-American painter, 1917-2000),
Self-portrait with Dark Coat, 1991



Remate para qualquer poema

 
Passeou pelos espelhos dos dias
suas clandestinas alegrias
que mal se refletiram desertaram


Ruy Belo
, Todos os Poemas I,
Assírio & Alvim
 
 
Edição/reimpressão: 10-2004
Editor: Assírio & Alvim
 
O volume «Todos os Poemas», editado em 2000 (Assírio & Alvim), foi reeditado em três volumes, respeitando a organização que o autor tinha originalmente concebido. Esta edição segue o estabelecimento de texto efetuado por Gastão Cruz e Teresa Belo. A revisão do texto agora concluída obedece às normas ortográficas vigentes, exceto nos casos em que as opções do autor são um desvio intencional a essas normas, passando o presente volume a constituir a edição de referência da poesia de Ruy Belo.
 

segunda-feira, 31 de julho de 2023

"Vila do Conde" - Poema de Ruy Belo

 

Armando Aguiar (Pintor português, n. 1964), Vila do Conde, Portugal
 


Vila do Conde


O lugar onde o coração se esconde
é onde o vento norte corta luas brancas no azul do mar
e o poeta solitário escolhe igreja para casar.

O lugar onde o coração se esconde
é em dezembro o sol cortado pelo frio
e à noite as luzes a alinhar o rio.

O lugar onde o coração se esconde
é onde contra a casa soa o sino
e dia a dia o homem soma o seu destino.

O lugar onde o coração se esconde
é sobretudo agosto vento música raparigas em cabelo
feira das sextas feiras gado pó e povo
é onde se consente que nasça de novo
àquele que foi jovem e belo
mas o tempo a pouco e pouco arrefeceu.

O lugar onde o coração se esconde
é o novo passado a ida para o liceu.

Mas onde fica e como é que se chama
a terra do crepúsculo de algodão em rama
das muitas procissões dos contra-luz no bar
da surpresa violenta desse sempre renovado mar?

O lugar onde o coração se esconde
e a mulher eterna tem luz na fronte
fica no norte e é Vila do Conde.


Ruy Belo
, in Homem de Palavra(s), 1969 
 
 
Ruy Belo - "Vila do Conde"
Voz: Luís Miguel Cintra



“Aquilo que está escrito no coração não necessita de agendas, porque a gente não esquece. O que a memória ama fica eterno.”

Rubem Alves, "O Retorno e Terno", Editora Papirus.


Rubem Alves, "O Retorno e Terno", Papirus Editora, 
1ª Edição em 2013


Sinopse

A ideia para uma crónica me vem sempre como uma experiência de alegria, mesmo que o assunto seja triste. Ela aparece repentinamente, nos momentos mais inesperados, como a visão de uma imagem. O que tento fazer é simplesmente pintar com palavras a cena que se configurou na minha imaginação.
Sou psicanalista. Meu trabalho se baseia na escuta. Cada cliente fala e, ao fazer isso, me permite andar nas paisagens da sua alma. Ao escrever uma crónica faço o contrário: sou eu que ofereço as paisagens da minha alma aos olhos dos meus leitores. E eles, sem o saber, são os meus psicanalistas...
O escritor não é alguém que vê coisas que ninguém mais vê. O que ele faz é simplesmente iluminar com os seus olhos aquilo que todos vêem sem se dar conta disso. E o que se espera é que as pessoas tenham aquela experiência a que os filósofos Zen dão o nome de "satori": a abertura de um terceiro olho, para que o mundo já conhecido seja de novo conhecido como nunca o foi. (daqui)
 
 
Rubem Alves
 
Rubem Alves, pedagogo, educador, professor, psicanalista e escritor brasileiro, nasceu a 15 de setembro de 1933, em Boa Esperança, no estado de Minas Gerais e faleceu em Campinas a 19 de julho de 2014.
Aos doze anos mudou-se para o Rio de Janeiro. Estudou Teologia num seminário presbiteriano entre 1953 e 1957 e, no ano seguinte, tornou-se pastor em Lavras, no interior de Minas Gerais.
Com trinta anos, foi estudar para Nova Iorque, onde fez um mestrado em Teologia. Regressou ao Brasil em 1964 e, quatro anos mais tarde, foi considerado subversivo pela Igreja Presbiteriana. Decidiu abandonar esta igreja e ir viver para os Estados Unidos da América, onde continuou a estudar, concluindo um doutoramento em Filosofia. Já neste país publicou, em 1969, a sua tese A Theology of Human Hope, que entende ser um dos primeiros documentos da Teoria da Libertação.
Regressou, entretanto, ao Brasil para dar aulas de Filosofia na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Rio Claro, em São Paulo, e, mais tarde, na Universidade Estadual de Campinas, onde viria também a ocupar ao longo dos anos diversos cargos de relevo.
Já na década de 80, tornou-se psicanalista ao fazer o curso na Sociedade Paulista de Psicanálise. Paralelamente, foi docente convidado na Universidade de Birmingham, em Inglaterra, e no Bellagio Study Center, em Itália.
Passou posteriormente, ainda nos anos 80, por uma fase difícil na sua vida pessoal e resolveu começar a escrever para recuperar a alegria de viver, dividindo-se entre poesia, contos, romances, histórias para crianças e ensaios.
Várias das obras de Rubem Alves foram editadas em Portugal, nomeadamente A Escola com que sempre sonhei sem imaginar que pudesse existir, A Alegria de ensinar, As Cores do Crepúsculo - A Estética do Envelhecer, Conversas com quem gosta de ensinar, As Mais Belas Histórias de Rubem Alves (para crianças) e Se Eu Pudesse Viver a Minha Vida Novamente...
A Escola com que sempre sonhei sem imaginar que pudesse existir é uma obra sobre a Escola da Ponte, em Vila das Aves, em Portugal, onde o autor encontrou, no ano 2000, o modelo de ensino que considera ideal.
Quando deixou de lecionar, abriu um restaurante em Campinas onde pôde exercer o seu gosto pela culinária. No mesmo espaço, organizou cursos de cinema, pintura e literatura.
A cidade de Campinas reconheceu o mérito do trabalho de Rubem Alves fazendo-o membro da Academia Campinense de Letras, cidadão-honorário, e entregando-lhe a medalha Carlos Gomes pela sua contribuição para a cultura. (daqui)
 

quinta-feira, 8 de junho de 2023

"Tu estás aqui " - Poema de Ruy Belo


Tu estás aqui


Estás aqui comigo à sombra do sol.
Escrevo e oiço certos ruídos domésticos
e a luz chega-me humildemente pela janela
e dói-me um braço e sei que sou o pior aspeto do que sou.

Estás aqui comigo e sou sumamente quotidiano
e tudo o que faço ou sinto, como que me veste de um pijama
que uso para ser também, isto, este bicho de hábitos,
manias, segredos defeitos, quase todos desfeitos.

Quando depois lá fora na vida profissional ou social, só sou um nome e sabem o que sei,
o que faço, ou então sou eu que julgo que o sabem,
e sou amável, seleciono cuidadosamente os gestos e escolho as palavras
e sei que, afinal, posso ser isso, talvez porque aqui sentado dentro de casa sou outra coisa,
esta coisa que escreve e tem uma nódoa na camisa e só tem de exterior a manifestação
desta dor neste braço que afeta tudo o que faço, bem entendido o que faço com este braço.

Estás aqui comigo e à volta são as paredes
e posso passar de sala para sala a pensar noutra coisa
e dizer aqui é a sala de estar aqui é o quarto, aqui é a casa de banho,
e no fundo escolher cada uma das divisões segundo o que tenho a fazer. 

Estás aqui comigo e sei que só sou este corpo castigado
passado nas pernas de sala em sala.
Sou só estas salas, estas paredes, esta profunda vergonha de o ser
e não ser apenas a outra coisa, essa coisa que sou na estrada
onde não estou à sombra do sol.
Estás aqui e sinto-me absolutamente indefeso diante dos dias. 

Que ninguém conheça este meu nome, este meu verdadeiro nome
depois, talvez, encoberto noutro nome embora no mesmo nome
este nome de terra de dor de paredes este nome doméstico.
Afinal fui isto nada mais do que isto as outras coisas que fiz
fi-las para não ser isto ou dissimular isto a que somente não chamo merda,
porque ao nascer me deram outro nome que não merda,
e em princípio o nome de cada coisa serve para distinguir
umas coisas das outras coisas.

Estás aqui comigo e tenho pena acredita de ser só isto pena até mesmo de dizer
que sou só isto como se fosse também outra coisa uma coisa para além disto que não isto.
Estás aqui comigo deixa-te estar aqui comigo.
É das tuas mãos que saem alguns destes ruídos domésticos,
mas até nos teus gestos domésticos tu és mais que os teus gestos domésticos,
tu és em cada gesto todos os teus gestos
e neste momento eu sei eu sinto ao certo o que significam
certas palavras como a palavra paz. 

Deixa-te estar aqui e perdoa que o tempo
te fique na face na forma de rugas.
Perdoa pagares tão alto preço por estar aqui.
Perdoa eu revelar que há muito pagas tão alto preço por estar aqui.
Prossegue nos gestos não pares procura permanecer sempre presente.

Deixa docemente desvanecerem-se um por um os dias
e eu saber que aqui estás de maneira a poder dizer
sou isto é certo mas sei que tu estás aqui.


Ruy Belo
, in Toda a Terra, Todos os Poemas
Lisboa, Assírio & Alvim, 2000



Ruy Belo - "Tu estás aqui"
 

domingo, 4 de junho de 2023

"Quero só isso nem isso quero" - Poema de Ruy Belo


Raphaelle Peale (American painter of still-life, 1774 –1825), Still Life with Cake, 1818
Metropolitan Museum of Art


Quero só isso nem isso quero


Quero uma mesa e pão sobre essa mesa
na toalha de linho nódoas de vinho
quero só isso nem isso quero

Quero a casa de terra à minha volta
cães altos na noite a minha mãe mais nova
quero só isso nem isso quero

Quero a casa do forno onde eu me escondia dos relâmpagos
e trovões quando um ferro no cesto garantia uma feliz cria à galinha chocadeira
quero só isso nem isso quero

Quero de novo fundir ao lume os soldados de chumbo que no natal me punham no sapatinho
e tirar chouriço e toucinho do guarda-comidas
quero só isso nem isso quero

Quero fazer pequeninos adobes e construir casas pelo quintal
ver chegar o verão e comermos todos lá fora na varanda de tijolo
quero só isso nem isso quero

Quero uma aldeia umas pedras um rio
umas quantas mulheres de joelhos brancos esfregando a roupa nas pedras
quero só isso nem isso quero

Quero escrever fatais cartas de amor à rapariga dos meus oito anos
rasgar essas cartas deixá-las pra sempre dentro do tronco oco da oliveira
quero só isso nem isso quero

Quero umas cabras um pastor rico um pastor pobre
o leite quente na teta o cabrito morto soprado e esfolado
quero só isso nem isso quero

Quero a courela as perdizes no ovo a baba do cuco
laranjas de orvalho no ano novo colhidas na árvore
quero só isso nem isso quero

Quero dois montes e um paul de malmequeres a cheia na primavera
a asma o ruído dos ralos as pernas sombrias das raparigas
quero só isso nem isso quero

Quero os espargos os pinheiros bravos o primeiro pôr do sol
as noites de baile no carnaval as bandeiras da safra
quero só isso nem isso quero

Quero que voltem os que morreram os que emigraram
matar com eles o bicho com aguardente pela manhã antes da pega
quero só isso nem isso quero

Quero ver ao vento o véu das noivas apanhar os confeitos nos casamentos
saber pelos papéis dos registos o tempo da prenhez palavra misteriosa
quero só isso nem isso quero

Quero um páteo meu e da sombra e galinhas pedreses e árvores
uma mina de avencas uma horta uma sebe de cana umas casas caídas
quero só isso nem isso quero

Quero uma enxada uma gadanha calos nas mãos cuspo nos calos
a cava mais funda da vinha o capataz a fazer o vinho correr
quero só isso nem isso quero

Quero ajudar na rega do fim da tarde calcar os buracos das toupeiras
e dirigir com o sacho a água morna nos pés até aos regos do feijão
quero só isso nem isso quero

Quero em dezembro o varejo final da azeitona o búzio a tocar
a azeitona a cair dos ramos nos panos de serapilheira
quero só isso nem isso quero

Quero o meu pai de chapéu de chuva aberto nos dias de sol
o meu pai de manhãzinha a lavar-se e a explicar-nos latim e história
quero só isso nem isso quero

Quero nu em pelota entre todos tomar os banhos no marachão
os ninhos dos pássaros as andorinhas de asas escuras no céu azul
quero só isso nem isso quero

Quero o pátio da escola a roda das raparigas a cantar à volta do plátano
o primeiro sonho de amor as primeiras palavras gaguejadas trocadas com uma rapariga
quero só isso nem isso quero

Quero as feridas nos pés para poder sair à rua descalço
o pão com conduto entre os meninos pobres no recreio
quero só isso nem isso quero

Quero ir ao vale barco a malaquejo à marmeleira
roubar melões jogar ao murro ver nas festas o fogo preso
quero só isso nem isso quero

Que quero tanto que quero um mundo ou nem tanto só agora reparo
quero morder para sempre a almofada quente e densa da terra
quero só isso nem isso quero


Ruy Belo, in Toda a Terra, 1976
Editor: Assírio & Alvim 
 
[Ruy Belo nasceu em Rio Maior a 27 de fevereiro de 1933. Licenciou-se em Filologia Românica e Direito pela Universidade de Lisboa, mais tarde doutorando-se em Direito Canónico pela Universidade de S. Tomás de Aquino, em Roma. Lecionou no ensino secundário e foi leitor de português na Universidade de Madrid. Abarcando a crítica irónica da realidade social e a denúncia das diversas problemáticas que equacionam o ser humano, desde a sua vivência espiritual e religiosa até ao envolvimento concreto e existencial, a sua poesia é um dos maiores marcos na literatura portuguesa. Destacam-se os livros Aquele Grande Rio Eufrates (1961), País Possível (1973) ou Toda a Terra (1976). Morreu precocemente, vítima de um edema pulmonar, a 8 de agosto de 1978. daqui)]
 
 
Ruy Belo, "Toda a Terra",
Assírio & Alvim; Edição/reimpressão: 02-2023 
 

SINOPSE
 
Toda a Terra (1976) pode ser lido como uma síntese magistral do percurso de Ruy Belo na poesia portuguesa: aqui, estão manifestos os seus motivos recorrentes – o sentimento de exílio, o mar, a experiência religiosa – impressos em poemas longos, de grande fôlego, que percorrem uma biografia entre as geografias que organizam tematicamente o livro: «Areias de Portugal» e «Terras de Espanha». Nas palavras de Luís Adriano Carlos, prefaciador deste título: «A meu ver, a característica fundamental do poeta, impressiva no presente livro, é a sua capacidade de dominar a arte e a voz da poesia através de um verso de arte maior, exponencial e magistral, o verso livre que em Portugal atingira o seu auge com Álvaro de Campos e que ele sem dúvida transpõe para outra dimensão.» (daqui)

segunda-feira, 29 de maio de 2023

"O Portugal futuro" - Poema de Ruy Belo


Adolfo Rodrigues (Pintor português, 1867-1908), Esperando o peixe - Praia da Nazaré, 1893, 
 

O Portugal futuro

O Portugal futuro é um país
aonde o puro pássaro é possível
e sobre o leito negro do asfalto da estrada
as profundas crianças desenharão a giz
esse peixe da infância que vem na enxurrada
e me parece que se chama sável
Mas desenhem elas o que desenharem
é essa a forma do meu país
e chamem elas o que lhe chamarem
Portugal será e lá serei feliz
Poderá ser pequeno como este
ter a oeste o mar e a Espanha a leste
tudo nele será novo desde os ramos à raiz
À sombra dos plátanos as crianças dançarão
e na avenida que houver à beira-mar
pode o tempo mudar será verão
Gostaria de ouvir as horas do relógio da matriz
mas isso era o passado e podia ser duro
edificar sobre ele o Portugal futuro 
 
 
 Ruy Belo, in 'Homem de Palavra[s]', 1969
 
 
 Óleo sobre tela colada em cartão. Coleção particular.


Adolfo de Sousa Rodrigues (Funchal, 13 jan. 1867; Lisboa, 9 mar. 1908). Tirou o curso da Academia de Belas Artes, com altas classificações, tendo-se dedicado à pintura histórica, sob orientação de José Ferreira Chaves (1838-1899) e conseguindo bolsa para se especializar em Paris, trabalhando nos ateliers de Jean Paul Laurens (1838-1921) e Benjamin Constant (1845-1902). No 2.º ano do curso em Lisboa já tinha alcançado o prémio Anunciação, vindo a ser depois distinguido, em Lisboa, no Grémio Artístico, em 1895, com a terceira medalha. Pintou Agostinho de Ornelas e Vasconcelos (1836-1901), hoje na coleção dos descendentes, em Paris e o rei D. Carlos (1863-1908), nas coleções da Câmara Municipal do Funchal, uma alegoria à História no teto da entrada do Museu Militar de Lisboa, etc., tendo as palmas da Academia de França e a ordem de Isabel, a Católica, de Espanha. (daqui)

quarta-feira, 16 de março de 2022

"Homem para Deus" - Poema de Ruy Belo



Charles E. Weir 
(American, 1823–1845), The Wood Sawyer, 1842, 
Metropolitan Museum of Art, New York City



Homem para Deus
 
 
 Ele vai só ele não tem ninguém
onde morrer um pouco toda a morte que o espera
Se é ele o portador do grande coração
e sabe abrir o seio como a terra
temei não partam dele as grandes negações
Que há de comum entre ele e quem na juventude foi
que mão estendem eles um ao outro
por sobre tanta morte que nos dias veio?
E no seu coração que todo o homem ri e sofre
é lá que as estações recolhem findo o fogo
onde aquecer as mãos durante a tentação
é lá que no seu tempo tudo nasce ou morre
Não leva mais de seu que esse pequeno orgulho
de saber que decerto qualquer coisa acabará
quando partir um dia para não voltar
e que então finalmente uma atitude sua há de implicar
embora diminuta uma qualquer consequência
O que deus terá visto nele para morrer por ele?
Oh que responsabilidade a sua
Que não dê como a árvore sobre a vida simples sombra
que faça mais do que crescer e ir perdendo vestes

Oh que difícil não é criar um homem para deus 


Ruy Belo
in "Aquele Grande Rio Eufrates"
Editora: Assírio & Alvim 
 
 


'Aquele Grande Rio Eufrates' é a estreia poética de Ruy Belo, em 1961. O livro foi reeditado em 1972, com profundas modificações por parte do autor.
Acerca deste livro, escreve o autor no prefácio a edição de 1972: «É claro, até para mim, que de inocente pouco tenho pelo menos como poeta, que, ao longo de todos estes poemas, certas palavras afloram com maior frequência [...]. Citamos, mais ou menos ao acaso e sem a menor preocupação de ordem: morte, deus, folhas, homem, árvore, estações, primavera, palavras, chuva, cidade, manhã, dia, crianças, infância, coração, pássaros, mar. Poesia metafísica a deste livro? Decerto. Mas também – e não faltou quem o visse e o dissesse e me fizesse tomar consciência disso – poesia do quotidiano, onde de certa maneira sobressai um real que sucessivamente chega até nós, dessa forma humilde e comezinha que convém a realidade.» (daqui)

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

"Condição da Terra" - Poema de Ruy Belo


Frederick Childe Hassam (1859-1935, American impressionist painter), High Bridge, 1922
 

Condição da Terra 
 
 
A minha amada chega no ar dos pinhais
cingida de resina vária como o cedro
e a maresia. Levanta-se lábil
compromete solene o séquito da aurora
Ou vem sobre os rolos do mar
cheia de infância pequena de destino
Também a trazem às vezes aves como a pomba
que os mercadores ouviram
em países distantes. Tem brilhos
nos olhos de veado como se buscara
a grande fonte das águas
Que nome tem a minha amada?
Como chamá-la se nenhum
conceito a contempla?
Em que palavra envolvê-la?
A minha amada não é da raça de estar
como o homem posta sobre a terra
Que pés lhe darão
este destino de serem
 mais ágeis do que nós os sonhos?
Ombro como o meu será lugar para ela?
Que anjo em mim a servirá?
Ai eu não sei como recebê-la
Eu sou da condição da terra
que tateio de pé. Quase árvore
não me vestem convenientemente as estações
nem me comenta a sorte
o canto pontiagudo dos pássaros

Vem domesticamente minha amada
Receber-te-ei aquém dos olhos
com este humilde cabedal de dias

Mas basta que venhas quando eu diga
do alto de mim próprio sim à terra


Ruy Belo,
"Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 25
Editorial Presença Lda., 1984
 

Childe Hassam, Winter, Central Park, 1901


Nem sempre a neve
cai do céu: às vezes
explode numa flor.


Albano Martins
 
 

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2021

"Um dia não muito perto não muito longe" - Poema de Ruy Belo


Patrick William Adam (Scottish painter, 1854 - 1929), The Yellow Bed, 1917



Um dia não muito perto não muito longe


Às vezes sabes sinto-me farto
por tudo isto ser sempre assim
Um dia não muito longe não muito perto
um dia muito normal um dia quotidiano
um dia não é que eu pareça lá muito hirto
entrarás no quarto e chamarás por mim
e digo-te já que tenho pena de não responder
de não sair do meu ar vagamente absorto
farei um esforço parece mas nada a fazer
hás de dizer que pareço morto
que disparate dizias tu que houve um surto
não sabes de quê não muito perto
e eu sem nada para te dizer
um pouco farto não muito hirto e vagamente absorto
não muito perto desse tal surto
queres tu ver que hei de estar morto?
 
 
Patrick William Adam,  Afternoon Light


"No meio da dificuldade encontra-se a oportunidade." 
 

Patrick William Adam, Interior looking through to morning room 


"Eu nunca penso no futuro. Ele não tarda em chegar."
 
(Albert Einstein)
 

quarta-feira, 20 de janeiro de 2021

"E tudo era possível" - Poema de Ruy Belo


Georgios Jakobides (Greek, 1853-1932), Shepherd Boy


E tudo era possível


 
Na minha juventude antes de ter saído
da casa de meus pais disposto a viajar
eu conhecia já o rebentar do mar
das páginas dos livros que já tinha lido

Chegava o mês de maio era tudo florido
o rolo das manhãs punha-se a circular
e era só ouvir o sonhador falar
da vida como se ela houvesse acontecido

E tudo se passava numa outra vida
e havia para as coisas sempre uma saída
Quando foi isso? Eu próprio não o sei dizer

Só sei que tinha o poder duma criança
entre as coisas e mim havia vizinhança
e tudo era possível era só querer


Ruy Belo
,
in Homem de Palavra(s)
Lisboa, Editorial Presença, 1999 (5ª ed.)


Georgios Jakobides,  A young street urchin at rest, 1875, 
 
 
"Livre não sou, mas quero a liberdade. 
Trago-a dentro de mim como um destino."
 

segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

"Os estivadores" - Poema de Ruy Belo



Ivar Kamke (Swedish, 1882-1936), "Dockworkers on a North Sea Wharf", c. 1909, oil on canvas
 


Os estivadores


Só eles suam mas só eles sabem
o preço de estar vivo sobre a terra
Só nessas mãos enormes é que cabem
as coisas mais reais que a vida encerra

Outros rirão e outros sonharão
podem outros roubar-lhes a alegria
mas a um deles é que chamo irmão
na vida que em seus gestos principia

Onde outrora houve o deus e houve a ninfa
eles são a moderna divindade
e o que antes era pura linfa
é o que sobra agora da cidade

Vede como alheios a tudo o resto
compram com o suor a claridade
e rasgam com a decisão do gesto
o muro oposto pela gravidade

Ode marítima é que chamo à ode
escrita ali sobre a pedra do cais
A natureza é certo muito pode
mas um homem de pé pode bem mais
"Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 151 e 152 
 Editorial Presença Lda., 1984