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terça-feira, 17 de dezembro de 2024

"Oh, Vida! Fugitiva Companheira" - Poema de Francisco Bugalho


Arvid Liljelund (Finnish painter, 1844-1899), Ferdinand von Wright at Work, 1897.
Finnish National Gallery
 
 
 
 Oh, Vida! Fugitiva Companheira
 
 
 Oh, Vida!
Fugitiva companheira,
Eu sinto que não posso acompanhar-te.
Por isso, nesta hora feiticeira,
Quisera erguer-te uma barreira
E fazer-te parar
E abraçar-te;
E abraçar-te tão íntimo e tão fundo
Que toda a vida apenas de um segundo
Em mim entrasse, em mim vivesse,
E que depois viesse o fim do Mundo
Ou que eu morresse!... 


Francisco José Lahmeyer Bugalho,
 in "Dispersos e Inéditos"
 

sábado, 13 de julho de 2024

"O instante anterior" - Poema de Inês Lourenço


Ferdinand von Wright (Finnish painter, 1822–1906), 'Golden Eagle by a Lake', 1897,
 Finnish National Gallery.


O instante anterior

 
Uma ave estremece
no instante anterior
à rigidez das asas. Também ela
apesar do sentido inato
para sobrevoar abismos
transporta no corpo
a circulação pastosa do sangue
e a informe substância do
perseguido alimento.
de "A Enganosa Respiração da Manhã",
Asa Editores, 2002.

 
Ferdinand von Wright, 'Partridges in Snow', 1895, Finnish National Gallery.
 
 
Ferdinand von Wright, 'Ptarmigans', 1893, Finnish National Gallery.
 
 
Ferdinand von Wright, 'Mallards', 1874, Finnish National Gallery.
 
 
 
Ferdinand von Wright, 'The First Surprise', 1880, Ateneum.


"Se ter alma significa ser capaz de sentir amor, lealdade e gratidão, 
os animais são melhores que muitos humanos."

James Herriot
 
[Veterinário e escritor inglês, 1916–1995]
 

segunda-feira, 1 de abril de 2024

"A pega: as outras cores do mundo" - Poema de Ana Luísa Amaral



Ferdinand von Wright (Finnish painter, 1822–1906), Magpies round a Dead Woodgrouse, 1867,
Finnish National Gallery.


A pega: as outras cores do mundo


No jardim tangente à minha casa
por entre os pássaros
que lhe habitam as árvores e cantam
em trinado desacerto,
vive uma pega

O seu nome não é um nome belo
como andorinha ou rouxinol,
que lembram odes e mornas tradições,
ou como arara, quetzal ou beija-flor,
nomes felizes com as cores inteiras
que o olho humano entende
– e ainda outras
que as entendem eles

Mas ela, elegante no corpo todo negro, a cauda longa,
só laivo a branco leve na asa e pelo peito,
parece que vestiu alta-costura
para voar pelos ramos de outono e
os telhados das casas
que estão perto

Dizem os entendidos
que reconhece ao espelho o seu reflexo,
algo que ao bicho humano
exige anos de vida

Nestes dias tão magros
em que os cavalos do apocalipse e espanto
cavalgam livres, trazendo novas pestes, guerras, fomes,
é um prazer de afago
alegria sem nome
vê-la todos os dias a voar

equilibrista bicolor,
dona do mundo


Ana Luísa Amaral
, in Mundo,
Assírio & Alvim, 2021 
 
 
Ana Luísa Amaral, "Mundo". Editor: Assírio & Alvim,
Edição/reimpressão: 12-2021.


Sinopse

"Mundo" – Tecendo o fio que liga o texto à vida, Ana Luísa Amaral convoca-nos para uma paisagem de sons ao compasso dos cheiros, cores que constituem este Mundo: a abelha e a flor em descanso, a mesa e a faca pousada, ou as gentes e as suas interrogações. (daqui)
 
 
Ferdinand von Wright, Pigs and Magpies, 1875, Finnish National Gallery


A Pega-rabuda ou pega-rabilonga (Pica pica) é uma ave da família Corvidae (corvos), com um aspeto inconfundível. Essa é uma das espécies de aves mais inteligentes do mundo, sendo uma das 9 espécies que podem reconhecer seu reflexo no espelho.
Os seus hábitos alimentares (come quase tudo) deram origem a que o nome da espécie – Pica – fosse dado a uma doença de comportamento humano. (daqui)
 

domingo, 18 de fevereiro de 2024

"Ficaram-me as Penas" - Poema de Cassiano Ricardo



Ferdinand von Wright (Finnish painter, 1822–1906), 'Jays', 1877, Finnish National Gallery.


Ficaram-me as Penas

 
O pássaro fugiu, ficaram-me as penas
da sua asa, nas mãos encantadas.
Mas, que é a vida, afinal? Um voo, apenas.
Uma lembrança e outros pequenos nadas.

Passou o vento mau, entre açucenas,
deixou-me só corolas arrancadas...
Despedem-se de mim glórias terrenas.
Fica-me aos pés a poeira das estradas.

A água correu veloz, fica-me a espuma.
Só o tempo não me deixa coisa alguma
até que da própria alma me despoje!

Desfolhados os últimos segredos,
quero agarrar a vida, que me foge,
vão-se-me as horas pelos vãos dos dedos.
 
 
[Jornalista, poeta e ensaísta brasileiro, 1894–1974]

 
Ferdinand von Wright, 'The Fighting Capercaillies', 1886, Finnish National Gallery (Ateneum).


"Este mundo é um inferno para os animais e nós, humanos, seus demónios."


Citado em "Wozu Religion?: Sinnfindung in Zeiten der Gier nach Macht und Geld" 
 - página 122, Eugen Drewermann, Jürgen Hoeren - Herder, 2001 - 224 páginas.
 
 
Ferdinand von Wright, 'Capercaillies courting', 1862, Finnish National Gallery.


"Agarre-se a seus sonhos, pois, se eles morrerem, a vida será como um pássaro de asa quebrada,
 incapaz de voar."
 
"Hold fast to your dreams, for if dreams die, life is a broken winged bird that cannot fly." 
 
The Collected Works of Langston Hughes - Página 409.
 Publicado por University of Missouri Press, 2001, 632 páginas.