Mostrar mensagens com a etiqueta Séneca. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Séneca. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 19 de abril de 2022

"Poema Relativo" - Jorge de Lima

 
Albert Eckhout (c.1610–c.1666), Natureza-morta com Bananas, goiaba e outras frutas,
Museu Nacional da Dinamarca



Poema Relativo



Vem, ó
bem-amada
Junto à minha casa
Tem um regato (até quieto o regato).

Não tem pássaros que pena!

Mas os coqueiros fazem,
Quando o vento passa,
Um barulho que às vezes parece
Bate-bate de asas.

Supõe, ó bem-amada,
Se o vento não sopra,
Podem vir borboletas
À procura das minhas jarras
Onde há flores debruçadas,
Tão debruçadas que parecem escutar.

Todos os homens têm seus crentes,
Ó bem-amada:
os que pregam o amor ao próximo
e os que pregam a morte dele.

Mas tudo é pequeno
E ligeiro no mundo, ó amada.
Só o clamor dos desgraçados
É cada vez mais imenso!

Vem, ó bem-amada.
Junto à minha casa
Tem um regato até manso.
E os teus passos podem ir devagar
Pelos caminhos:
aqui não há a inquietação
de se atravessar o asfalto.

Vem, ó bem-amada,
Porque como te disse
Se não há pássaros no meu parque,
Pode ser, se o vento
Não soprar forte
Que venham borboletas.
Tudo é relativo
E incerto no mundo.
Também tuas sobrancelhas
Parecem asas abertas.


Jorge de Lima
,
Em Bazar, ano 1, n. 4, nov. 1931. 


Albert Eckhout, Natureza-morta com melancia, abacaxi e outras frutas brasileiras.
 
 
"Quando me tornei vegetariano, poupei dois seres, o outro e eu."

Prof° Hermógenes (Natal, 1921 –  Rio de Janeiro, 2015),
Militar, escritor, professor, divulgador do hatha ioga



Albert Eckhout, Natureza-morta com Abacaxi, Mamão e Outras Frutas.

"Ser vegetariano é viver uma vida de paz, saúde e longevidade."

Sócrates (c. 470 a.C. – 399 a.C.), Filósofo da Grécia Antiga

 

 
Busto de Sócrates, cópia romana.


Sócrates, figura emblemática da filosofia, nasceu em Atenas cerca de 470 a. C. e foi considerado, segundo alguns historiadores na esteira de Cícero - que afirmou ter sido Sócrates quem «fez descer a filosofia do céu para a terra e a fez penetrar nos lares e nas praças públicas de Atenas» -, como o responsável pela transição para um novo período da filosofia grega, que se caracteriza pelo abandono das preocupações cosmológicas em favor de uma temática predominantemente antropológica.
Embora esta interpretação seja muito polémica - os temas do discurso socrático não divergem substancialmente das preocupações dos sofistas, que já haviam colocado o homem no centro da reflexão filosófica -, é pacífico reconhecer que se notabilizou pela inflexão que impôs no sentido da problematização ética.
Movido por um ideal essencialmente prático - acreditava que só a troca de ideias através do diálogo direto era relevante -, Sócrates não deixou obra escrita, tendo o seu pensamento sobrevivido graças a Platão, de quem foi mestre. Enquanto personagem central de grande parte das obras platónicas, foi louvado como um pensador que, longe de procurar impor ou defender qualquer sistema - é dele a imortal máxima « sei que nada sei» -, se orientou sobretudo para uma missão pedagógica com o objetivo de levar os concidadãos a «conhecerem-se a si mesmos», libertando-os dos preconceitos que lhes impediam o acesso à virtude, à felicidade e ao verdadeiro saber.
Este tipo de proposta colocou-o em tenaz oposição aos sofistas, cujos desígnios interesseiros e funcionalistas censurava, por colocarem indiscriminadamente o conhecimento ao serviço dos poderosos que lhes podiam pagar aulas de retórica e erística com o único objetivo de melhor defenderem os seus interesses particulares.
O método que desenvolveu visava convencer os interlocutores a rejeitar o saber aparente - «opinião», ou doxa -, desprovido de qualquer fundamento objetivo, com origem no «senso comum». Inquirindo acerca do significado e definição de conceitos como «o bem», «a virtude» ou «a felicidade» - motivo pelo qual Aristóteles o considerou como fundador da filosofia do conceito -, fazia sobressair a incoerência e a inconsistência das crenças que dirigiam as ações daqueles que não refletiam sobre a essência dos valores.
Este método ficou conhecido como «aporético» por se concluir de forma «negativa»: uma vez atingida pelo opositor a autoconsciência da sua profunda ignorância, Sócrates não propunha qualquer solução para os problemas identificados. Dotado de uma fé inquebrantável na realização da razão, acreditava que esse procedimento era suficiente para indicar o caminho do saber genuíno - a episteme.
Assim, classificava a sua filosofia como uma maiêutica (literalmente: «arte de parturejar»), ou seja, como uma forma de «trazer à luz» as almas transviadas por um conhecimento vulgar e irrefletido, cabendo posteriormente a cada um a tarefa de se elevar por si mesmo até à verdade.
No entanto, é preciso referir que a «missão socrática» não tinha por escopo a mera promoção intelectual dos que o ouviam; longe disso, ao admitir como autêntica virtude humana o conhecimento, combatendo a ignorância estava também pugnando pelo aperfeiçoamento moral dos indivíduos - o mal e as condutas injustas são apenas fruto da ignorância e a ética é correlativa à sabedoria.
A acutilância de Sócrates na crítica à sociedade ateniense da altura, dilacerada pela guerra, por uma série de conflitos internos e por uma decadência moral devida em grande parte ao relativismo propagandeado pelos sofistas, levou a que se tornasse uma personagem demasiado incómoda para ser tolerada. Em 399 a. C. foi acusado de corromper os jovens e de impiedade por não acreditar nos deuses da cidade. Enfrentando o processo que lhe moveram com a maior serenidade, recusou o exílio infamante e acabou por ser condenado à morte pela ingestão de cicuta. (Daqui)


Albert Eckhout, Natureza-morta com Abóboras e Melões.

"Os vegetais constituem alimentação suficiente para o estômago e, no entanto, o recheamos com vidas valiosas." 

Séneca (ca. 4 a.C. 65 d. C.), Filósofo estoico e um dos mais célebres advogados,
 escritores e intelectuais do Império Romano
 
 
 
Busto de Séneca, atribuído ao escultor Giuliano Finelli
(1641-1644), Museu do Prado.
 
 
Lucius Annaeus Seneca, o Jovem, filósofo, orador e trágico romano, nasceu em Córdova no ano 4 a. C. e morreu em Roma em 65 d. C.
Era o segundo filho de uma família rica. O pai, Lucius Annaeus Séneca, o Velho, tornou-se famoso em Roma como professor de Retórica.
Séneca foi levado para Roma por uma tia e treinado como orador e educado em filosofia.
A sua saúde tornou-se débil e foi para o Egito, em repouso, para casa da tia, mulher do prefeito, Gaius Galerius.
Regressado a Roma, por volta de 31 d. C., começou a sua carreira como político e advogado.
Em 41 o imperador Cláudio desterrou-o para a Córsega por acusação de adultério com a princesa Lucia Livilla, sobrinha do imperador. Aí estudou ciências naturais e filosofia e escreveu os três tratados intitulados Consolationes. Por influência de Agripina, mulher do imperador, retornou a Roma em 49, foi nomeado pretor em 50, casou com Pompeia Paulina, mulher rica, rodeou-se de um poderoso grupo de amigos e tornou-se tutor do futuro imperador Nero.
A morte de Cláudio, em 54, trouxe Séneca para a ribalta.
O primeiro discurso de Nero, escrito por Séneca, prometia liberdade para o Senado e o fim da influência das mulheres.
Agripina, mãe de Nero, entendia que a sua influência devia continuar, e havia mais inimigos.
Em 59 teve de participar no assassinato de Agripina.
Depois da morte de Burrus, em 62, Séneca sentiu que não poderia continuar. Teve autorização para se retirar e nos últimos anos da sua vida escreveu algumas das suas melhores obras filosóficas.
Em 65, os seus inimigos acusaram-no de ter tomado parte na conspiração de Piso.
Foi-lhe ordenado que se suicidasse.
Fê-lo com toda a dignidade e coragem.
Principais obras filosóficas: Apolocyntosis divi Claudii, Naturales questiones, Consolationes, De ira, De Clementia, De Tranquillitate animi, De vita beata, De constantia sapientis, De otio, De beneficiis, De brevitate vitae. (Daqui)
 
 
Albert Eckhout, Natureza-morta com cocos.


"Que horror é meter entranhas em entranhas, engordar um corpo com outro corpo, viver da morte de seres vivos!" 
 
Pitágoras (c. 570 a.C c. 495 a.C.), Matemático e filósofo grego. 
 
 


Pitágoras, natural de Samos, na Ásia Menor, onde terá nascido nos finais do século VI a. C., emigrou para Crotona, colónia grega no Sul da Itália, e aí fundou uma escola místico-filosófica com preocupações sociopolíticas, cuja influência acabou por dominar a cidade. Atendendo ao carácter hermético da sua doutrina - no interior da escola vigorava uma regra de sigilo que considerava como crime a divulgação dos ensinamentos aos não iniciados, pelo que não existiam quaisquer escritos -, assim como à aura de profeta prodigioso que acabou por o envolver, são pouco fidedignos os relatos que dele nos chegaram, além de se tornar muito difícil distinguir o que é genuinamente de Pitágoras do que foi introduzido pelos seus discípulos.
Contrariamente aos pensadores milésios, não se dedicou a especulações sobre o arkê - princípio material das coisas -, procurando sobretudo aceder ao conhecimento das estruturas formais que regem o mundo, que se podem sumariar em três grandes vertentes: harmonia matemática, doutrina dos números e dualismo cosmológico essencial.
Com base na redução da harmonia da escala musical a razões matemáticas, inferiu que todo o Universo seria harmonia e número, criando a teoria da harmonia das esferas (o Cosmos é regido por relações matemáticas). Considerava que as coisas eram números, que os corpos eram constituídos por pontos e que os números que representavam as quantidades desses pontos lhes definiam as propriedades. Acreditou ainda que o próprio número, agente de todas as modificações, estaria na origem do dualismo Limite/Ilimitado, que representava o início do processo cosmogónico (implantação do princípio masculino do Limite no seio do Ilimitado circundante, feminino, análoga à fecundação ou deposição de uma semente no solo).
Do interesse pela matemática resultaram alguns avanços científicos, sobretudo nas áreas da geometria e da aritmética (dos quais o Teorema de Pitágoras será o mais famoso).
No que diz respeito a crenças, acreditou na imortalidade e transmigração das almas, tal como no parentesco de todos os seres vivos, além de se ter dedicado à enunciação de uma série de regras éticas e religiosas que deveriam presidir à ação dos seus discípulos.
Segundo alguns testemunhos, teria sido o primeiro a usar as palavras «cosmos» e «filosofia» na aceção atual.
Apesar de a intervenção política de Pitágoras em Crotona ter sido de curta duração - os habitantes cedo se rebelaram contra o governo que instaurara -, a escola que fundou acabou por florescer e já na altura da sua morte, que deverá ter ocorrido próximo do ano de 480 a. C., se encontravam comunidades pitagóricas espalhadas por toda a Grécia, difundindo e aprofundando o pensamento do mestre, tendo contribuído dessa forma para que durante vários séculos ele fosse fonte de inspiração para muitos dos grandes nomes da filosofia. (Daqui)

 
Albert Eckhout, Natureza-morta com mandioca.

 
"Por mim discerni uma certa sublimidade na disciplina de Pitágoras, e como uma certa sabedoria secreta capacitou-o a saber, não apenas quem ele era a si mesmo, mas também o que ele tinha sido; e eu vi que ele se aproximou dos altares em estado de pureza, e não permitia que a sua barriga fosse profanada pelo partilhar da carne de animais; e que ele manteve o seu corpo puro de todas as peças de roupa tecidas de refugo de animais mortos; e que ele foi o primeiro da humanidade a conter a sua própria língua, inventando uma disciplina de silêncio descrito na frase proverbial, 'Um boi senta-se sobre ela.' Eu também vi que o seu sistema filosófico era em outros aspetos oracular e verdadeiro. Então corri a abraçar os seus sábios ensinamentos..."
 
 Apolónio de Tiana (15 d.C. – c. 100 d.C.), Filósofo neopitagórico e professor de origem grega. 
 
 
Estátua de Apolónio de Tiana de autoria de Barthélémy de Mélo 
 no Parque dos Filósofos, Versalhes.
 


Apolónio de Tiana, filósofo neopitagórico, nasceu no início do século I, no reinado de Augusto, em Tiana, cidade da Capadócia. Aos catorze anos foi para Tarso estudar gramática e retórica. O encontro com o filósofo Euxene revelou-lhe o pitagorismo. Absolutamente convicto da verdade desta doutrina, deixa o seu mestre, cuja conduta lhe parecia desadequada da teoria. Começa então um processo ascético muito austero, durante o qual empreendeu múltiplas viagens em busca das fontes do pitagorismo: Babilónia, Cáucaso, Índia, Etiópia, Egito, Grécia e Itália.
Este contemporâneo de Cristo foi venerado como um deus descido à Terra, um contraponto pagão ao cristianismo. Os habitantes da sua cidade natal chegaram mesmo a erguer-lhe um templo.
Não chegou aos nossos dias qualquer obra de Apolónio; o que sabemos dele é-nos dado quase na totalidade pelo seu biógrafo Filóstrato.
Apolónio pretendia encontrar a tradição universal original, transmitida de mestre a discípulo desde o início dos tempos, procurando reformar o culto dos seus contemporâneos, que lhe parecia demasiado rudimentar. Opõe-se por exemplo aos sacrifícios; a divindade suprema, diz Apolónio, não necessita de nada. Num espírito verdadeiramente universal, de influência pitagórica, considera a Terra inteira como uma só pátria, na qual os homens devem partilhar os bens oferecidos pela natureza. (Daqui)
 

quinta-feira, 1 de abril de 2021

"Letra para uma valsa romântica" - Poema de Manuel Bandeira

 
 – óleo sobre tela – 61,6 x 45,7 cm – coleção particular


Letra para uma valsa romântica


A tarde agoniza
Ao santo acalanto
Da noturna brisa.
E eu, que também morro,
Morro sem consolo,
Se não vens, Elisa!

Ai nem te humaniza
O pranto que tanto
Nas faces desliza
Do amante que pede
Suplicantemente
Teu amor, Elisa!

Ri, desdenha, pisa!
Meu canto, no entanto,
Mais te diviniza,
Mulher diferente,
Tão indiferente,
Desumana Elisa! 


Manuel Bandeira




John William Waterhouse, Circe, 1911


As artes da feitiçaria, incluídas nas esotéricas, remontam a tempos imemoriais, sendo os bruxos e feiticeiros arquétipos de grande importância em praticamente todas as civilizações e culturas mundiais. 
 
A magia é tradicionalmente dividida em "branca" e "negra", sendo costume incluir a feitiçaria nesta última (apesar de esta divisão nem sempre ser linear, como adiante se verá). De aí que os feiticeiros sejam enigmáticos, operem na obscuridade, e por estas razões lhes tenham sido atribuídos muitos males e catástrofes ocorridos ao longo da História. Ao serem antissociais, tornaram-se naturalmente os elementos mais indicados para arcarem com a culpa de calamidades da Natureza, doenças, mortes, epidemias, males morais e afins. Os feiticeiros socorriam-se de um conjunto de sortilégios, técnicas e instrumentos para manipular a energia psíquica do Homem e as manifestações da Natureza, sendo este poder, que os seres humanos normalmente não possuem, o que os tornava tão temidos.

A tradição tornou inesquecíveis figuras relevantes em culturas como a grega, em que a beleza mascarava os dons de feitiçaria que possuíam Medeia, Melissa, Alcina e Circe, por exemplo. A deusa Hécate era, na Grécia, a protetora das feiticeiras, uma vez que simbolizava o percurso para além da morte. As bruxas ou feiticeiras podiam ser boas ou más, como transparece nos romances da Idade Média, em que os cavaleiros e heróis das histórias eram protegidos por mulheres misteriosas (como Morgana e Melusina, por exemplo) que derrubavam os obstáculos que para um mero mortal eram intransponíveis.

Os feitiços mais comuns e mais encomendados aos feiticeiros eram os de amor e os de malefício, sendo que os feiticeiros conheciam uma quantidade muito maior de sortilégios que usavam também em seu benefício. São bastantes as representações dos atos de magia, em que aparecem o círculo mágico onde se desenrola a ação, os símbolos arcanos, os recipientes com venenos e poções, fórmulas mágicas e gestos rituais, assim como objetos, plantas e animais simbólicos.

No âmbito da feitiçaria, encontra-se também a invocação de espíritos de pessoas já falecidas, como acontece no episódio da Bíblia em que o rei Saúl ordena à bruxa de Endor que convoque a alma do profeta Samuel para saber como decorreria a batalha que iria travar contra os Filisteus.

A feitiçaria é um dos temas mais recorrentes em quase todas as mitologias, como acontece, por exemplo, na maia: uma das lendas desta mitologia faz referência a uma deusa feiticeira chamada Malinal-Xóchitl, cujos obscuros poderes fizeram com que o seu irmão Huitzilopochtli a abandonasse; ela decidiu então criar com o seu povo a cidade feiticeira de Malinalco. Mas a história de feitiçaria que mais impacto teve nesta cultura foi a do feiticeiro Tezcatlipoca, irmão do deus supremo Quetzalcoátl, que colocou um espelho de obsidiana perante Quetzalcoátl para que este visse que o seu carácter bondoso era apenas uma máscara. O desgosto que lhe causou o que viu no espelho fez com que Quetzalcoátl se embebedasse com pulque, tivesse relações com a sua própria irmã e, no dia seguinte, ao dar-se conta do que fizera, tivesse desaparecido em direção ao Oriente, deixando o seu povo na expectativa do retorno. Esta lenda acabou por ter consequências na prática, visto que a conquista do México foi grandemente facilitada por grande parte das tribos Maias considerarem Hernán Cortés uma encarnação de Quetzalcoátl.
(Daqui)
 
 
John William Waterhouse, Circe Invidiosa, 1892
Art Gallery of South Australia


"A maldade bebe a maior parte do veneno que produz."

(Séneca)



terça-feira, 2 de março de 2021

"Pneumotórax" - Poema de Manuel Bandeira


Jan Steen (Dutch Golden Age painter, c. 1625/1626 -1679), A visita do médico



Pneumotórax

 
Febre, hemoptise, dispneia e suores noturnos.
A vida inteira que podia ter sido e que não foi.
Tosse, tosse, tosse.

Mandou chamar o médico:

– Diga trinta e três.
– Trinta e três… trinta e três… trinta e três…
– Respire.

– O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado.
– Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?
– Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino. 
 
 
 
Jan Steen, Mulher doente, 1663  


"É parte da cura o desejo de ser curado."

(Séneca)


sábado, 30 de setembro de 2017

"Sucedem-se os dias húmidos por dentro da minha espera" - Poema de Dórdio Guimarães


Beniamino Parlagreco (1856/1902), Paisagem do interior do Rio de Janeiro, c.1900,
 óleo sobre madeira, 15,8 x 24 cm. Foto: Gedley Braga


Da espera


sucedem-se os dias húmidos por dentro da minha espera
adio o arco-íris o salto montês da cabra que trago no peito
grande a náusea perfuma a dor dos verões suspensos cegos
se aquece a alma erguida na ponta dos pés do desassossego 

arredondam-se as estações neste gesticular incerto de índio
largo coração galego esqueço-me com coisas livres minúsculas
vermes róseos longos braços barcos à deriva que tenho do mar
espreito a fundo as horas que me separam do jazigo ou berço 

de boca amarga à gargalhada empreendo a lágrima lúcida
solar se verte o sangue no circo dos ágeis dedos de não voar
queria-me eu apto e louro com olhos de maçã cheios de amor 

já pestanejo as emoções seguintes que se anunciam verdes
no chegar do veado friorento que vem comer as ervas litorais
dobro-me à mulher à página ao morto inesperado e para quê? 


Benjamino Parlagrecco, Leitura na Varanda, óleo s/ cartão (fim do século XIX)


"Os desgostos da vida ensinam a arte do silêncio."



sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

"Elegia por antecipação à minha morte tranquila" - Poema de Armindo Rodrigues


Winslow Homer (American, 1836-1910), The Hudson River, 1892
 


Elegia por antecipação à minha morte tranquila


Vem, morte, quando vieres.
Onde as leis são vis, ou tontas,
não és tu que me amedrontas.
Troquei por penas prazeres.
Troquei por confiança afrontas.
Tenho sempre as contas prontas.
Vem, morte, quando quiseres.


(1904-1993)


Winslow Homer (American, 1836-1910), The Life Line, 1884


"Apressa-te a viver bem e pensa que cada dia é, por si só, uma vida."

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

"Hino à Solidão" - Poema de António Feijó





Hino à Solidão


Diz-se que a solidão torna a vida um deserto; 
Mas quem sabe viver com a sua alma nunca 
Se encontra só; a alma é um mundo, um mundo aberto 
Cujo átrio, a nossos pés, de pétalas se junca. 

Mundo vasto que mil existências povoam: 
Imagens, conceções, formas do sentimento, 
— Sonhos puros que nele em beleza revoam 
E ficam a brilhar, sóis do seu firmamento. 

Dia a dia, hora a hora, o pensamento lavra 
Esse fecundo chão onde se esconde e medra 
A semente que vai germinar na palavra, 
Cantar no som, flores na cor, sorrir na pedra! 

Basta que certa luz de seus raios aqueça 
A semente que jaz na sua leiva escondida, 
Para que ela, a sorrir, desabroche e floresça, 
De perfumes enchendo as estradas da vida. 

Sei que embora essa luz nem para todos tenha 
O mesmo brilho, o mesmo impulso criador, 
Da glória, sempre vã, todo o asceta desdenha, 
Vivendo como um deus no seu mundo interior. 

E que mundo sublime, esse em que ele se agita! 
Mundo que de si mesmo e em si mesmo criou, 
E em cuja criação o seu sangue palpita, 
Que não há deus estranho aos orbes que formou. 

Nem lutas, nem paixões: ideais serenidades 
Em que o tempo se esvai sob o encanto da hora... 
O passado e o porvir são ânsias e saudades: 
Só no instante que passa a plenitude mora. 

Sombra crepuscular, que a noite não atinge, 
Nem a aurora desfaz: rosicler e luar, 
Meia tinta em que a alma abre os lábios de esfinge, 
E o seu mistério ensina a quem sabe escutar. 

Mas então, inundando essa penumbra doce, 
De não sei que sublime esplendor sideral, 
Como se a emanação dum ser divino fosse, 
Deixa no nosso olhar um reflexo imortal. 

Na vertigem que a vida exalta e desvaria, 
Pára alguém para ouvir um coração que bate 
No seio mais formoso, o olhar que se extasia 
Vê o mundo que nele em ânsias se debate? 

É só na solidão que a alma se revela, 
Como uma flor noturna as pétalas abrindo, 
A uma luz, que é talvez o clarão duma estrela, 
Talvez o olhar de Deus, de astro em astro caindo... 

E dessa luz, a flor sem forma, há pouco obscura, 
Recebe o seu quinhão de graça e de pureza, 
Como das mãos do artista, animando a escultura, 
O mármore recebe a sua alma — a beleza. 

Se sofrer é pensar, na paz do isolamento, 
Como dum cálix cheio o líquido extravasa, 
A dor, que a alma empolgou, transborda em pensamento, 
E a pouco e pouco extingue o fogo em que se abrasa. 

Como a montanha de oiro, a alma, em seu mistério, 
À superfície nunca o seu teor revela; 
Só depois de sondado e fundido o minério 
Se conhece a riqueza acumulada nela. 

Corações que a existência em tumulto arrebata! 
Esse oiro só se extrai do minério candente, 
No silêncio, na paz, na quietação abstrata, 
Das estrelas do céu sob o olhar indulgente... 


António Feijó (1859-1917), in 'Sol de Inverno


Pieter Saenredam, Cathedral of Saint John at's-Hertogenbosch, 1646


"Vive com os homens como se Deus te estivesse a ver; fala com Deus como se os homens te estivessem a ouvir."



domingo, 1 de fevereiro de 2015

"Contra a Ansiedade" - Séneca, in 'Cartas a Lucílio'


Job Adriaensz Berckheyde (1630-1693), The Baker, circa 1681



Contra a Ansiedade


Sempre que te aconteça alguma coisa contrária à tua expectativa diz a ti mesmo que os deuses tomaram uma decisão superior! Com semelhante disposição de espírito, nada terás a temer. Esta disposição de espírito consegue-se pensando na instabilidade da vida humana antes de a experimentarmos em nós, olhando para os filhos, a mulher, os bens como algo que não possuiremos para sempre, e evitando imaginarmo-nos mais infelizes um dia que deixemos de os possuir. Será a ruína do espírito andarmos ansiosos pelo futuro, desgraçados antes da desgraça, sempre na angústia de não saber se tudo o que nos dá satisfação nos acompanhará até ao último dia; assim, nunca conseguiremos repouso e, na expectativa do que há de vir, deixaremos de aproveitar o presente. Situam-se, de facto, ao mesmo nível a dor por algo perdido e o receio de o perder. Isto não quer dizer que te esteja incitando à apatia! Pelo contrário, procura evitar as situações perigosas; procura prever tudo quanto seja previsível; procura conjecturar tudo o que pode ser-te nocivo muito antes de que te suceda, para assim o evitares. Para tanto, ser-te-á da maior utilidade a autoconfiança, a firmeza de ânimo apta a tudo enfrentar. Quem tem ânimo para suportar a fortuna é capaz de precaver-se contra ela; mas nada de angústias quando tudo estiver tranquilo! 

O cúmulo da desgraça e da estupidez está no medo antecipado: que loucura é esta, ser infeliz antecipadamente? Em suma, para numa palavra te resumir o que eu penso e te descrever como são estes homens que, à força de se preocuparem, só conseguem fazer mal a si próprios: tanta falta de moderação eles mostram em plena desgraça como antes dela! Quem sofre antes de tempo sofre mais do que o devido; uma mesma incapacidade leva-o a não prever a presença da dor onde não a espera; uma mesma imoderação fá-lo imaginar permanente a sua felicidade, imaginar que os bens que o acaso lhe deu não só hão de perdurar como também de multiplicar-se; esquecido do trampolim que é a vida humana, convence-se de que no seu caso, por exceção, o acaso deixará de se fazer sentir. 


Séneca, in 'Cartas a Lucílio'


Busto de Sêneca (4 a.C. - 65) em Córdoba, na Espanha


Lúcio Aneu Séneca, Corduba, 4 a.C.Roma, 65) foi um dos mais célebres advogados, escritores e intelectuais do Império Romano. Conhecido também como Séneca (ou Sêneca), o Moço, o Filósofo, ou ainda, o Jovem, sua obra literária e filosófica, tida como modelo do pensador estoico durante o Renascimento, inspirou o desenvolvimento da tragédia na dramaturgia europeia renascentista.


Job Adriaensz Berckheyde, Lace Maker, 1666-75


 "Uma vida feliz deve ser em grande parte uma vida tranquila, pois só numa atmosfera calma pode existir o verdadeiro prazer."

domingo, 30 de março de 2014

"Alegria e Tranquilidade" - Texto de Séneca, in 'Cartas a Lucílio'


Frederick Morgan (English painter, 1847–1927), After School, c.1893



Alegria e Tranquilidade


"A alegria pode sofrer interrupções no caso de pessoas ainda insuficientemente avançadas, enquanto, no caso do sábio, o bem estar é um tecido contínuo que nenhuma ocorrência, nenhum acidente pode romper; em todo o tempo, em todo o lugar o sábio goza de tranquilidade! Porquê? Porque o sábio não depende de fatores externos, não está à espera dos favores da fortuna ou dos outros homens. A sua felicidade está dentro dele; fazê-la vir de fora seria expulsá-la da alma, que é onde, de facto, a felicidade nasce! Pode uma vez por outra surgir qualquer ocorrência que lembre ao sábio a sua condição de mortal, mas ocorrências deste tipo são de somenos importância e não o atingem mais do que à flor da pele. O sábio, insisto, pode ser tocado ao de leve por um ou outro contratempo, mas para ele o sumo bem permanece inalterável. Volto a dizer que lhe podem ocorrer contratempos provindos do exterior, tal como um homem de físico robusto não está livre de um furúnculo ou de uma ferida superficial; em profundidade, porém, não há mal que o atinja. A diferença existente, insisto ainda outra vez, entre o homem que atingiu a plenitude da sabedoria e aquele que ainda lá não chegou é a mesma que se verifica entre um homem são e um convalescente de doença grave e prolongada. Para este a diminuição da intensidade da doença já quase significa saúde mas, se não se precaver, o mal rapidamente se agrava e volta à primitiva forma; o sábio, em contrapartida, nem pode retroceder, nem sequer avançar mais na via da sapiência. A saúde do corpo está à mercê do tempo e o médico, se a pode restituir, não a pode garantir perpetuamente, e tanto assim é que com frequência o mesmo doente o volta de novo a chamar; a saúde da alma, essa - obtém-se de uma vez por todas - e totalmente! Dir te ei agora o que significa uma alma sã: é cada um contentar-se consigo mesmo, ter confiança em si próprio, saber que todos os votos feitos pelos homens, todos os benefícios que trocam entre si não têm a mínima importância para a obtenção da felicidade. Uma coisa passível de acréscimo não é uma coisa perfeita; o homem que quer vir a possuir uma permanente alegria, tem de fruir apenas do que efetivamente lhe pertence. Ora todos os bens a que o comum dos mortais aspira são, de uma forma ou outra, transitórios, pois de coisa alguma a fortuna nos permite a posse para sempre. "

Séneca, in 'Cartas a Lucílio'

Lúcio Aneu Séneca, Corduba, 4 a.C. — Roma, 65) foi um dos mais célebres advogados, escritores e intelectuais do Império Romano. Conhecido também como Séneca (ou Sêneca), o Moço, o Filósofo, ou ainda, o Jovem, sua obra literária e filosófica, tida como modelo do pensador estoico durante o Renascimento, inspirou o desenvolvimento da tragédia na dramaturgia europeia renascentista.


Frederick Morgan, Skipping, 1896


"Quando vejo uma criança, ela inspira-me dois sentimentos: ternura, pelo que é, e respeito pelo que pode vir a ser." 



Frederick Morgan, See Saw, 1898


"Cada um de nós, enquanto cidadão, tem um papel a desempenhar na criação de um mundo melhor para as nossas crianças." 

Nelson Mandela, Discurso (2002) 


Frederick Morgan, Dinner Time


"Do mesmo modo que no início da primavera todas as folhas têm a mesma cor e quase a mesma forma, nós também, na nossa tenra infância, somos todos semelhantes e, portanto, perfeitamente harmonizados." 

Arthur SchopenhauerAforismos sobre a Sabedoria da Vida

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

"Não há vício que se não esconda atrás de boas razões" - Séneca, in 'Cartas a Lucílio'


Quinta versão: 1894-95, óleo sobre tela, 47.5 × 57 cm. Musée d'Orsay, Paris.


Não há vício que se não esconda atrás de boas razões


"Não há vício que se não esconda atrás de boas razões; a princípio, todos são aparentemente modestos e aceitáveis, só que a pouco e pouco vão-se expandindo. Não conseguirás pôr fim a um vício se deixares que ele se instale. Toda a paixão é ligeira de início; depois vai-se intensificando, e à medida que progride vai ganhando forças. É mais difícil libertarmo-nos de uma paixão do que impedir-lhe o acesso. Ninguém ignora que todas as paixões decorrem de uma tendência, por assim dizer, natural. A natureza confiou-nos a tarefa de cuidar de nós próprios, mas, se formos demasiado complacentes, o que era tendência torna-se vício. Aos atos necessários juntou a natureza o prazer, não para que fizéssemos deste a nossa finalidade mas apenas para nos tornar mais agradáveis aquelas coisas sem as quais é impossível a existência. Se o procuramos por si mesmo, caímos na libertinagem. Resistamos, portanto, às paixões quando elas se aproximam, já que, conforme disse, é mais fácil não as deixar entrar do que pô-las fora."


Séneca, in 'Cartas a Lucílio' 


Vida e Obra 

Paul Cézanne, Self-Portrait with Pink Background, 1875
(Portrait de l'artiste au fond rose), Coleção privada.


"A pintura deve nos dar o sabor da eternidade da natureza". 

(Paul Cézanne)


Paul Cézanne, Self-Portrait, c. 1898-1900,
  Museu de Belas Artes de Boston.


Paul Cézanne, pintor pós-impressionista francês, nasceu a 18 de janeiro de 1839, em Aix-en-Provence, no sul de França, e morreu a 22 de outubro de 1906, na sua cidade natal. Filho de pais abastados, estudou em Aix - onde conheceu e se tornou amigo de Émile Zola e em Paris, onde teve os primeiros contactos com artistas impressionistas como Camille Pissarro e Henri Matisse.
A maturidade artística de Cézanne foi lenta. Embora não recusasse os aperfeiçoamentos alcançados no domínio da pintura, e designadamente na cor, pelos impressionistas, não se sentia atraído, como Edgar Degas ou Claude Monet, por exemplo, pela captação de um momento fugaz. Procurou assim combinar as suas conceções sobre a cor com uma estrutura mais sólida do espaço pictórico. A composição da Natureza Morta com Cesto (1888-1890), nas suas numerosas versões, tomou alguns anos de estudo. Tentou sugerir o volume, não através de jogos de luz, como era de tradição desde Giotto, mas usando a própria cor. As diferentes tonalidades fazem avançar e recuar o espaço, o que permite estabelecer uma sucessão de planos que modelam as massas dos objetos. Nas versões de A Montanha de Santa Vitória, retirou da paisagem os elementos necessários de modo a formar uma "arquitetura", uma composição estruturada que propõe um todo coerente. 
Aplicou os mesmos princípios à figura humana em As Grandes Banhistas (1898-1905), constituindo uma composição geométrica - as árvores estabelecem um esquema triangular juntamente com o grupo de banhistas e os dois grupos de mulheres formam dois novos triângulos dentro do anterior. As próprias banhistas veem as suas formas estilizadas e geometrizadas, tal como um tronco de árvore na montanha de Santa Vitória ou uma maçã nas naturezas mortas. 
Cézanne baseou a sua busca num postulado: o de submeter os dados do real ao objetivo da pintura e não o contrário. Aqui começa toda a aventura da arte moderna, que passa pela integração da natureza fundamental do objeto e das virtualidades pictóricas que esse objeto encerra. O mesmo é dizer, vê-lo não na sua particularidade, mas na sua essência.

Paul Cézanne. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2014. [Consult. 2014-02-05].


Paul Cézanne,  Portrait of Louis-Auguste Cézanne, father of the artist,
reading ‘L’Evénement’, 1886, National Gallery of Art, Washington.


"Como pintor, torno-me mais lúcido quando confrontado com a Natureza."

(Paul Cézanne)



Paul Cézanne, Madame Cézanne (Hortense Fiquet, 1850–1922)
in a Red Dress
(c. 1888-90), oil on canvas, 116.5 x 89.5 cm,
The Metropolitan Museum of Art, New York.



"A cor é o lugar onde nosso cérebro e o universo se encontram".

(Paul Cézanne)


 
Paul Cézanne, Paul Alexis reading to Émile Zola, 1869–1870,

Paul Cézanne, Portrait of Madame Cézanne with Loosened Hair, c. 1883-1887.


Paul Cézanne, Femme au Chapeau Vert
(Woman in a Green Hat - Madame Cézanne),
1894–1895.



Paul Cézanne, Les Grandes Baigneuses, 1898–1905.
(The triumph of Poussinesque stability and geometric balance)



Paul Cézanne, Lady in Blue, 1904.

List of paintings by Paul Cézanne
Paul Cezanne - The complete works
Wikipédia