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domingo, 7 de maio de 2017

"Tenho saudades do calor ó Mãe" - Poema de Daniel Faria


Daniel Ridgway Knight (american, 1839-1924), Au grand soleil



Tenho saudades do calor ó Mãe


Tenho saudades do calor ó mãe que me penteias 
Ó mãe que me cortas o cabelo — o meu cabelo 
Adorna-te muito mais do que os anéis 

Dá-me um pouco do teu corpo como herança 
Uma porção do teu corpo glorioso — não o que já tenho — 
O que em ti já contempla o que os santos vêem nos céus 
Dá-me o pão do céu porque morro 
Faminto, morro à míngua do alto 

Tenho saudades dos caminhos quando me deixas 
Em casa. Padeço tanto 
Penso tanto 
Canto tão alto quando calculo os corpos celestes 

Ó infinita ó infinita mãe 


Daniel Faria, in "Dos Líquidos"


sexta-feira, 23 de setembro de 2016

"As mulheres aspiram a casa para dentro dos pulmões" - Poema de Daniel Faria


 Carl Schweninger der Jüngere (Austrian painter, 1854–1903), Mother's Happiness



As mulheres aspiram a casa para dentro dos pulmões


As mulheres aspiram a casa para dentro dos pulmões 
E muitas transformam-se em árvores cheias de ninhos - digo, 
As mulheres - ainda que as casas apresentem os telhados inclinados 
Ao peso dos pássaros que se abrigam. 

É à janela dos filhos que as mulheres respiram 
Sentadas nos degraus olhando para eles e muitas 
Transformam-se em escadas 

Muitas mulheres transformam-se em paisagens 
Em árvores cheias de crianças trepando que se penduram 
Nos ramos - no pescoço das mães - ainda que as árvores irradiem 
Cheias de rebentos 

As mulheres aspiram para dentro 
E geram continuamente. Transformam-se em pomares. 
Elas arrumam a casa 
Elas põem a mesa 
Ao redor do coração. 


 Homens Que São Como Lugares Mal Situados (1998)


domingo, 18 de setembro de 2016

"Há uma mulher a morrer sentada" - Poema de Daniel Faria


Alfred Chantrey Corbould (British, 1852 – 1920), A Girl Reading in a Sailing Boat, 1869 



Há uma mulher a morrer sentada


Há uma mulher a morrer sentada 
Uma planta depois de muito tempo 
Dorme sossegadamente 
Como cisne que se prepara 
Para cantar 

Ela está sentada à janela. Sei que nunca 
Mais se levantará para abri-la 
Porque está sentada do lado de fora 
E nenhum de nós pode trazê-la para dentro 

Ela é tão bonita ao relento 
Inesgotável 

É tão leve como um cisne em pensamento 
E está sobre as águas 
É um nenúfar, é um fluir já anterior 
Ao tempo 

Sei que não posso chamá-la das margens 


in "Dos Líquidos"


quarta-feira, 13 de abril de 2016

"Sem outra palavra para mantimento" - Poema de Daniel Faria


Paul Cezanne, Jas de Bouffan, the pool, c.1876



Sem outra palavra para mantimento


Sem outra palavra para mantimento 
Sem outra força onde gerar a voz 
Escada entre o poço que cavaste em mim e a sede 
Que cavaste no meu canto, amo-te 
Sou cítara para tocar as tuas mãos. 
Podes dizer-me de um fôlego 
Frase em silêncio 
Homem que visitas 
Ó seiva aspergindo as partículas do fogo 
O lume em toda a casa e na paisagem 
Fora da casa 
Pedra do edifício aonde encontro 
A porta para entrar 
Candelabro que me vens cegando. 
Sol 
Que quando és noturno ando 
Com a noite em minhas mãos para ter luz. 


(1971-1999)
in "Dos Líquidos"