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quinta-feira, 14 de novembro de 2024

"Dois gatos" - Poema de Ivan Junqueira


Julius Adam (German genre painter and animalier specialising in pictures of cats, 1852 - 1913),
Zwei Kätzchen im Korb mit blauem Tuch, c. 1913.
 
 

Dois gatos

1

Eram dois gatos num só
a se esfregarem no pó

das velhas tábuas do assoalho,
rente às brasas do borralho

de uma lareira sem dono,
no fluido limiar do sono.

Era um gato e eram dois,
mas só se os viam depois

que um se escondia na pele
do outro e abandonava a dele,

como quem sai de si mesmo
e, passo a passo, anda a esmo,

sem destino, alheio à sorte
do que seja a vida e a morte.

Eram dois de olhos azuis
quais turquesas, e um capuz

que a cabeça lhes cobria
com egípcia simetria,

de uma orelha a outra orelha,
de uma a outra sobrancelha.

E lembrem-se o rabo e as patas
de cores gémeas, exatas.

Se um sumia, o outro miava
em, num átimo, o encontrava

sob os degraus de uma escada
que subia rumo ao nada.

Jacó e Esaú: lhes deram
esses nomes que não eram

senão o dilema arcano
do rosto de um deus romano.

Nunca foram, pois, iguais,
e disso havia sinais

em todo e qualquer detalhes,
não de postura ou de talhe,

mas de índole e de aspeto:
um, esquivo e circunspecto,

o outro, terno, mais afeito
a quem o punha no leito.

2

Foi-se a areia da ampulheta,
foram-se os tons da palheta

que davam cor à façanha
de um só ser dois nessa estranha

aptidão de duplicar-se
sem artifício ou disfarce.

E hoje ainda me pergunto
quando me toca esse assunto:

seria mesmo um só gato
que se expandia em dois no ato

de ludibriar os que os viam,
ou eram ambos que urdiam

uma única criatura
em que tudo se mistura? 


Ivan Junqueira

(Jornalista, poeta, tradutor e crítico literário brasileiro, 1934 - 2014)
 

 
 
"Ele fixara em Deus aquele olhar de esmeralda diluída, uma leve poeira de ouro no fundo. E não obedeceria porque gato não obedece. Às vezes, quando a ordem coincide com sua vontade, ele atende mas sem a instintiva humildade do cachorro, o gato não é humilde, traz viva a memória da sua liberdade sem coleira. Despreza o poder porque despreza a servidão. Nem servo de Deus. Nem servo do Diabo."
 

Julius Adam, Cat with her Kittens, s.d.
 
 
"O gato é o único animal que aceita os confortos, mas rejeita a escravidão da domesticidade."

Georges-Louis Leclerc, conde de Buffon

segunda-feira, 9 de setembro de 2024

"Felinus" - Poema de Inês Lourenço


Julius Adam (German painter, 1852-1913), Mealtime, Private Collection.



Felinus


A Maria Tobias era preta
e branca. Na parte branca era
Tobias e era Maria na preta. Morou
connosco cinco anos. No sexto, numa
quinta-feira santa pôs-se a dormir
depois de um longo jejum. Ficaram-nos
nas mãos festas desabitadas e os poucos
haveres: uma malga, uma manta, um bebedouro,
que não logramos enviar
para a nova morada.


Inês Lourenço, in "Coisas que nunca",
Editor: &etc, 2010
 
 
 Julius Adam, Kittens at play, Private Collection.
 

 "Se você passar tempo com os animais, corre o risco de se tornar uma pessoa melhor."

Oscar Wilde
(Escritor, poeta e dramaturgo irlandês, 1854–1900)
 

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2024

"Português Vulgar" - Poema de Inês Lourenço


Julius Adam (German genre painter and animalier specialising in pictures of cats, 1852 - 1913)
 
 

Português Vulgar

 
O meu gato deixa-se ficar
em casa, arejando o prato
e o caixote das areias. Já não vai
de cauda erguida contestar o domínio
dos pedantes de raça, pelos
quintais que restam. O meu gato
é um português vulgar, um tigre
doméstico dos que sabem caçar ratos e
arreganhar dentes a ordens despóticas. Mas
desistiu de tudo, desde os comícios noturnos
das traseiras até ao soberano desprezo
pela ração enlatada, pelo mercantilismo
veterinário ou pela subserviência dos cães
vizinhos. Já falei deste gato
noutro poema e da sua genealogia
marinheira, embarcada nas antigas
naus. Se o quiserem descobrir, leiam
esse poema, num livro certamente difícil
de encontrar. E quem procura hoje
livros de poemas? Eu ainda procuro,
nos olhos do meu gato, os
dias maiores de Abril.


Inês Lourenço, in 'Logros Consentidos'.
Ed.& etc, Lisboa, 2005.