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quarta-feira, 1 de março de 2017

"Poema de uma quarta-feira de cinzas" - Poema de Manuel Bandeira


Jean-Antoine Watteau (1684–1721), Arlequin, Pierrot and Scapin,  1716


Poema de uma quarta-feira de cinzas


Entre a turba grosseira e fútil
Um pierrot doloroso passa.
Veste-o uma túnica inconsútil
feita de sonho e de desgraça...

O seu delírio manso agrupa
atrás dele os maus e os basbaques.
Este o indigita, este outro apupa...
indiferente a tais ataques,

Nublaba a vista em pranto inútil,
Dolorosamente ele passa.
veste-o uma túnica inconsútil,
Feita de sonho e de desgraça...


(do livro Carnaval, 1919)


Watteau's commedia dell'arte player of Pierrot, ca 1718–19, 
traditionally identified as "Gilles" (Louvre)


"Que ideia a de que no Carnaval as pessoas se mascaram. No Carnaval desmascaram-se." 


segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

"A canção das lágrimas de Pierrot" - Poema de Manuel Bandeira




A canção das lágrimas de Pierrot


A sala em espelhos brilha 
Com lustres de dez mil velas. 
Miríades de rodelas 
Multicores - maravilha! - 

Torvelinham no ar que alaga 
O cloretilo e se toma 
Daquele mesclado aroma 
De carnes e de bisnaga. 

E rodam mais que confete, 
Em farândolas quebradas, 
cabeças desassisadas 
Por Colombina ou Pierrete 

II 

Pierrot entra em salto súbito. 
Upa! Que força o levanta? 
E enquanto a turba se espanta, 
Ei-lo se roja em decúbito. 

A tez, antes melancólica, 
Brilha. A cara careteia. 
Canta. Toca. E com tal veia, 
com tanta paixão diabólica, 

Tanta, que se lhe ensanguentam 
Os dedos. Fibra por fibra, 
Toda a sua essência vibra 
Nas cordas que se arrebentam. 

III 

Seu alaúde de plátano 
Milagre é que não se quebre. 
E a sua fronte arde em febre, 
Ai dele! e os cuidados matam-no. 

Ai dele! e essa alegria, 
Aquelas canções, aquele 
Surto não é mais, ai dele! 
Do que uma imensa ironia. 

Fazendo à cantiga louca 
Dolorido contracanto, 
Por dentro borbulha o pranto 
Como outra voz de outra boca: 

IV 

- "Negaste a pele macia 
À minha linda paixão 
E irás entregá-la um dia 
Aos feios vermes do chão... 

"Fiz por ver se te podia 
Amolecer - e não pude! 
Em vão pela noite fria 
Devasto o meu alaúde... 

"Minha paz, minha alegria, 
Minha coragem, roubaste-mas... 
E hoje a minh'alma sombria 
É como um poço de lástimas..." 


Corre após a amada esquiva. 
Procura o precário ensejo 
De matar o seu desejo 
Numa carícia furtiva. 

E encontrando-o Colombina, 
Se lhe dá, lesta, à socapa, 
Em vez de beijo um tapa, 
O pobre rosto ilumina-se-lhe! 

Ele que estava de rastros, 
Pula, e tão alto se eleva, 
Como se fosse na treva 
Romper a esfera dos astros!...


in Carnaval, 1919



Frank Xavier Leyendecker (American, 1877-1924), Arlequim e Colombina



O Carnaval 

O Carnaval é uma festa de origem católica. Entre os egípcios havia as festas de Ísis e do boi Ápis; entre os hebreus, a festa das sortes; entre os gregos, as bacanais; em Roma, as lupercais, as saturnais. Festins, músicas estridentes, danças, disfarces e licenciosidade formavam o fundo destes regozijos. Pelo seu lado, os gauleses tinham festas análogas, especialmente a grande festa do inverno a que é marcada pelo adeus à carne que a partir dela se fazia um grande período de abstinência e jejum, como o seu próprio nome em latim "carnis levale" o indica. Para a sua preparação havia uma grande concentração de festejos populares. Cada lugar e região brincava a seu modo, geralmente de uma forma propositadamente extravagante, de acordo com seus costumes.

Pensa-se que terá tido a sua origem na Grécia em meados dos anos 600 a 520 a.C, através da qual os gregos realizavam seus cultos em agradecimento aos deuses. Passou a ser uma comemoração adotada pela Igreja Católica em 590 d.C. antes da Quaresma.

É um período de festas regidas pelo ano lunar no cristianismo da Idade Média. O Carnaval moderno, feito de desfiles e fantasias, é produto da sociedade vitoriana do século XX. A cidade de Paris foi o principal modelo exportador da festa carnavalesca para o mundo. Cidades como Nice, Santa Cruz de Tenerife, Nova Orleans, Toronto e Rio de Janeiro se inspiraram no Carnaval parisiense para implantar suas novas festas carnavalescas. Já o Rio de Janeiro criou e exportou o estilo de fazer carnaval com desfiles de escolas de samba para outras cidades do mundo, como São Paulo, Tóquio e Helsínquia.

O Carnaval do Rio está atualmente no Guinness Book como o maior Carnaval do mundo, com um número estimado de 2,5 milhões de pessoas por dia nos blocos de rua da cidade. Em 1995, o Guinness Book declarou o Galo da Madrugada, da cidade do Recife, como o maior bloco de carnaval do mundo. (Daqui)


Hieronymus Francken I (1540-1610), Carnaval em Veneza1565


domingo, 26 de fevereiro de 2017

"As Máscaras" - Poema de Menotti Del Picchia


André Derain (França, 1880-1954), Arlequim e Pierrot, 1924


As Máscaras 


— O teu beijo é tão quente, Arlequim
— O teu sonho é tão manso, Pierrot 

Pudesse eu repartir-me
encontrar minha calma
dando a Arlequim meu corpo…
e a Pierrot a minha alma! 

Quando tenho Arlequim,
quero Pierrot tristonho,
pois um dá-me o prazer,
o outro dá-me o sonho! 

Nessa duplicidade o amor todo se encerra:
um me fala do céu… outro fala da terra! 

Eu amo, porque amar é variar,
e em verdade, toda a razão do amor
está na variedade… 

Penso que morreria o desejo da gente
se Arlequim e Pierrot fossem um ser somente. 

Porque a história do amor
só pode escrever-se assim:
um sonho de Pierrot…
e um beijo de Arlequim! 


(O poema é baseado na fala final de Colombina em 'Máscaras', 1920)


André Derain'Danse bachique', 1906


“O carnaval. A festa onde os tabus perdem força e as permissões tornam-se hiperbólicas.”