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sábado, 6 de julho de 2024

"Aspiração" - Poema de Machado de Assis


 Wilhelm Bendz (Danish painter, 1804–1832),
A F. X. DE NOVAIS (1862)
Qu'aperçois-tu, mon âme? Au fond, n'est-ce pas Dieu?
Tu vas à lui.

V. DE LAPRADE
Sinto que há na minh'alma um vácuo imenso e fundo,
E desta meia morte o frio olhar do mundo
Não vê o que há de triste e de real em mim;
Muita vez, ó poeta, a dor é casta assim;
Refolha-se, não diz no rosto o que ela é,
E nem que o revelasse, o vulgo não põe fé
Nas tristes comoções da verde mocidade,
E responde sorrindo à cruel realidade.

Não assim tu, ó alma, ó coração amigo;
Nu, como a consciência, abro-me aqui contigo;
Tu que corres, como eu, na vereda fatal
Em busca do mesmo alvo e do mesmo ideal.
Deixemos que ela ria, a turba ignara e vã;
Nossas almas a sós, como irmã junto a irmã,
Em santa comunhão, sem cárcere, sem véus.
Conversarão no espaço e mais perto de Deus.

Deus quando abre ao poeta as portas desta vida
Não lhe depara o gozo e a glória apetecida;
Tarja de luto a folha em que lhe deixa escritas
A suprema saudade e as dores infinitas.
Alma errante e perdida em um fatal desterro,
Neste primeiro e fundo e triste limbo do erro,
Chora a pátria celeste, o foco, o centro, a luz,
Onde o anjo da morte, ou da vida, o conduz
No dia festival do grande livramento;
Antes disso, a tristeza, o sombrio tormento,
O torvo azar, e mais, a torva solidão, 
 Embaciam-lhe na alma o espelho da ilusão.

O poeta chora e vê perderem-se esfolhadas
Da verde primavera as flores tão cuidadas;
Rasga, como Jesus, no caminho das dores,
Os lassos pés; o sangue umedece-lhe as flores
Mortas ali, — e a fé, a fé mãe, a fé santa,
Ao vento impuro e mau que as ilusões quebranta,
Na alma que ali se vai muitas vezes vacila...

Oh! feliz o que pode, alma alegre e tranquila,
A esperança vivaz e as ilusões floridas,
Atravessar cantando as longas avenidas
Que levam do presente ao secreto porvir!
Feliz esse! Esse pode amar, gozar, sentir,
Viver enfim! A vida é o amor, é a paz,
É a doce ilusão e a esperança vivaz;
Não esta do poeta, esta que Deus nos pôs
Nem como inútil fardo, antes como um algoz.

O poeta busca sempre o almejado ideal...
Triste e funesto afã! tentativa fatal!
Nesta sede de luz, nesta fome de amor,
O poeta corre à estrela, à brisa, ao mar, à flor;
Quer ver-lhe a luz na luz da estrela peregrina,
Quer–lhe o cheiro aspirar na rosa da campina,
Na brisa o doce alento, a voz na voz do mar,
Ó inútil esforço! Ó ímprobo lutar!
Em vez da luz, do aroma, ou do alento ou da voz,
Acha-se o nada, o torvo, o impassível algoz!

Onde te escondes, pois, ideal da ventura?
Em que canto da terra, em que funda espessura
Foste esconder, ó fada, o teu esquivo lar?
Dos homens esquecido, em ermo recatado,
Que voz do coração, que lágrima, que brado
Do sono em que ora estás te virá despertar?

A esta sede de amar só Deus conhece a fonte?
Jorra ele ainda além deste fundo horizonte
Que a mente não calcula, e onde se perde o olhar?
Que asas nos deste, ó Deus, para transpor o espaço?
Ao ermo do desterro inda nos prende um laço:
Onde encontrar a mão que o venha desatar?

Creio que só em ti há essa luz secreta,
Essa estrela polar dos sonhos do poeta,
Esse alvo, esse termo, esse mago ideal;
Fonte de todo o ser e fonte da verdade,
Nós vamos para ti, e em tua imensidade
É que havemos de ter o repouso final.

É triste quando a vida, erma, como esta, passa;
E quando nos impele o sopro da desgraça
Longe de ti, ó Deus, e distante do amor!
Mas guardemos, poeta, a melhor esperança:
Sucederá a glória à salutar provança:
O que a terra não deu, dar-nos-á o Senhor! 


Machado de Assis
, in 'Crisálidas',
Rio de Janeiro: B. L. Garnier, 1864.
 

Ditlev Blunck (Danish-German painter associated with the Danish Golden Age, 17981853),
Danish Artists in the Roman Inn La Gensola, 1837.



"Ter uma arte é viver em função de alguma coisa que excede o acontecer da vida. A arte exige corpo e alma, pensamento e emoção, liberdade e obsessão."


Inês Pedrosa
, Expresso
 

domingo, 20 de janeiro de 2013

"Adoração" - Poema de Guerra Junqueiro


Frederick Morgan, Marguerites


Adoração 


Eu não te tenho amor simplesmente. A paixão 
Em mim não é amor; filha, é adoração! 
Nem se fala em voz baixa à imagem que se adora. 
Quando da minha noite eu te contemplo, aurora, 
E, estrela da manhã, um beijo teu perpassa 
Em meus lábios, oh! quando essa infinita graça 
do teu piedoso olhar me inunda, nesse instante 
Eu sinto – virgem linda, inefável, radiante, 
Envolta num clarão balsâmico da lua, 
A minh'alma ajoelha, trémula, aos pés da tua! 
Adoro-te!... Não és só graciosa, és bondosa: 
Além de bela és santa; além de estrela és rosa. 
Bendito seja o deus, bendita a Providência 
Que deu o lírio ao monte e à tua alma a inocência, 
O deus que te criou, anjo, para eu te amar, 
E fez do mesmo azul o céu e o teu olhar!...


Guerra Junqueiro
, in 'Poesias Dispersas'


 Frederick Morgan, The garland


"Aquilo que se faz por amor está sempre além do bem e do mal."

(Friedrich Nietzsche)


 Frederick Morgan, Picking Wild Flowers


 Frederick Morgan, 1927


Frederick Morgan (1847 - 1856), was an English painter of portraits, animals, domestic and country scenes. He became famous for his idyllic genre scenes of childhood.
Morgan was born in London. He was commonly known as Fred Morgan and was the son of John Morgan, a successful genre artist sometimes known as 'Jury Morgan' (after one of his paintings "The Gentlemen of the Jury").
At the age of fourteen he was taken out of school by his father who then tutored him in art. At the age of 16, while still studying with his father, his first picture, "The Rehearsal", was exhibited at the Royal Academy, and, after a hiatus of several years, his paintings were shown there regularly. For a while he worked as a portrait artist for an Aylesbury photographer, - this training proved to be crucial as it "taught him how to observe closely and to give the greatest attention to detail."
Eventually he turned to other subjects for his art, in particular idyllic genre scenes of country life and childhood. For many years, starting in 1874, Thomas Agnew & Sons purchased all the work he produced. Over this period he painted some of his most popular works such as "The Doll’s Tea Party" (1874), "Emigrants' Departure" (1875) and "School Belles" (1877). Most of his painting was done in the village of Shere close to Guildford, a well-known retreat for artists. He also painted in Normandy, including "Midday Rest" (1879) and "An Apple Gathering" (1880).
Although an excellent portrait artist, Morgan had problems in depicting pets and barnyard animals - he enlisted the aid of either Arthur John Elsley or Allen Sealey (1850–1927) when such problems needed resolving.
He is known mostly for his romantic and sentimental paintings of children in the same style as his contemporary Arthur John Elsley. His paintings achieved great popularity in his lifetime and were widely published. He exhibited with the Royal Academy and was a member of the Royal Institute of Oil Painters (ROI).
In 1872 he married another painter, Alice Mary Havers (1850–1890); they had three children. Their eldest son, known as Val Havers, also developed into a painter. Frederick Morgan married twice more, producing two children from the second marriage. Morgan's paintings are exhibited at many art galleries and museums including the Walker Art Gallery in Liverpool and the Russell-Cotes Museum in Bournemouth. "His Turn Next", was used to advertise Pears' Soap and is in the Lady Lever Art.


Frederick Morgan, First Steps


"O amor é a arte de encontrar no rosto do outro o espelho dos nossos sonhos."

Inês Pedrosa, Expresso