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segunda-feira, 10 de abril de 2017

"Paz!" - Poema de António Nobre



Wright Barker (English painter, 1863–1941), 'Awaiting the Guns', 1897.
 Private collection


Paz!


E a Vida foi, e é assim, e não melhora.
Esforço inútil, crê! Tudo é ilusão...
Quantos não cismam nisso mesmo a esta hora
Com uma taça, ou um punhal na mão!

Mas a Arte, o Lar, um filho, António? Embora!
Quimeras, sonhos, bolas de sabão.
E a tortura do além e quem lá mora!
Isso é, talvez, minha única aflição...

Toda a dor pode suportar-se, toda!
Mesmo a da noiva morta em plena boda,
Que por mortalha leva... essa que traz...

Mas uma não: é a dor do pensamento!
Ai quem me dera entrar nesse convento
Que há além da Morte e que se chama a Paz!


António Nobre, in 'Só', 1892

sábado, 11 de março de 2017

"Batismo" - Poema de Jorge de Sena



Wright Barker (English painter, 1863–1941), 'Come and Play!' 


Batismo


Os mais difíceis poemas onde falo de amor
são aqueles em que o amor contempla. 

O amor esquece ao contemplar,
esquece que não existe e encantado olha
um raio anónimo sob o vento mais leve.

Contempla, amor, contempla.
E vai criando o nome que darás ao raio.


Jorge de Sena,
in 'Coroa da Terra'




Wright Barker (English painter, 1863–1941), 'Spring'


"Nunca a poesia, é certo, transformou o mundo – mas o mundo nunca se transformaria sem ela."
 
Jorge de Sena,
em 'Poesia de 26 Séculos,1971
 

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

"Vai a fresca manhã alvorecendo" - Poema de Marquesa de Alorna


 
Wright Barker (English painter, 1863–1941), 'Mares with a Foal in Parkland', 1911


Vai a fresca manhã alvorecendo


Vai a fresca manhã alvorecendo,
vão os bosques as aves acordando,
vai-se o Sol mansamente levantando
e o mundo à vista dele renascendo.

Veio a noite os objetos desfazendo
e nas sombras foi todos sepultando;
eu, desperta, o meu fado lamentando.
fui com a ausência da luz esmorecendo. 

Neste espaço, em que dorme a Natureza.
porque vigio assim tão cruelmente?
Porque me abafa ó peso da tristeza?

Ah, que as mágoas que sofre o descontente,
as mais delas são faltas de firmeza.
Torna a alentar-te, ó Sol resplandecente!


Marquesa de Alorna,
in 'Antologia Poética' 
 

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

"Humildade" - Poema de Francisco Bugalho



Wright Barker (English painter, 1863–1941), 'Best Friends', 1894 


Humildade


As águas beijei,
As nuvens olhei,
Às árvores cantei,
Na sua beleza.

Os bichos amei,
Na sua bruteza,
Na sua pureza,
De forças sem lei.

E porque os amei
E os acompanhei,
Não me senti rei
Na Mãe-Natureza. 


Francisco Bugalho
(1905–1949),
in "Paisagem", 1947.


 
Wright Barker (English painter, 1863–1941), 'Dignity and Impudence'.


"Se falar com os animais eles falarão consigo e vocês vão conhecer-se um ao outro. Se não falar com eles, não os conhecerá, e o que não se conhece… teme-se!" E aquilo que tememos… destruímos!!!

Dan George
[Chefe indígena de Burrard Band, em Burrard Inlet, Columbia Britânica. Também foi um notável ator.]
 
 

domingo, 8 de janeiro de 2012

"Pela Pátria" - Poema de António Correia de Oliveira



Wright Barker (English painter, 1863–1941),
'Mares and Foals in a Rolling English Countryside', c. 1900


Pela Pátria


Ouve, meu Filho: cheio de carinho,
Ama as Árvores, ama. E, se puderes,
(E poderás: tu podes quando queres!)
Vai-as plantando à beira do caminho. 

Hoje uma, outra amanhã, devagarinho.
Serão em fruto e em flor, quando cresceres.
Façam os outros como tu fizeres:
Aves de Abril que vão compondo o ninho.

Torne fecunda e bela cada qual,
a terra em que nascer: e Portugal
Será fecundo e belo, e o mundo inteiro.

Fortes e unidos, trabalhai assim...
- A Pátria não é mais do que um jardim
Onde nós todos temos um canteiro.


António Correia de Oliveira,
in 'Antologia Poética' 



Wright Barker, 'No Walk Today', 1898


"Se quiser falar ao coração dos homens, há que se contar uma história. Dessas onde não faltem animais, ou deuses e muita fantasia. Porque é assim – suave e docemente que se despertam consciências."
 
 (Jean de La Fontaine) 

 
Jean de La Fontaine por Hyacinthe Rigaud, em 1690


Jean de La Fontaine, escritor francês, nasceu a 13 de julho de 1621, em Château-Thierry, e faleceu a 13 de abril de 1695, em Paris. 
Filho de burgueses, começou por estudar Teologia e Direito, acabando, alguns anos mais tarde e com o apoio de alguns nobres que patrocinavam as artes, por se dedicar à literatura. 
Escreveu poesias, contos e adaptações de comédias populares, tendo travado amizade com autores como Racine, Molière e Boileau. 
Seriam, no entanto, as suas Fábulas Escolhidas (1668-1694), inspiradas nas literaturas clássica e oriental, e sobretudo em Esopo, que lhe trariam a celebridade. 
Das sessenta e nove fábulas que compõem esta recolha, a maior parte põe em cena o mundo dos animais. Estes guardam certas características tradicionalmente atribuídas à respetiva espécie, mas apresentam traços perfeitamente humanos. 
Os escritos de La Fontaine tornaram-se, assim, verdadeiros retratos da sociedade, com todos os seus vícios, diferenças sociais e problemas retratados. 
Autor, entre outras obras, de Adonis (1658), Elégie aux Nymphes de Vaux (1661), Ode au Roi (1663), Les Amours de Psyché et Cupidon (1669), Les Nouveaux Contes (1674), Le Milan, le Roi et le Chasseur (1688) e Les Deux Chèvres (1691), La Fontaine foi, em 1684, nomeado membro da Academia Francesa.

Jean de La Fontaine. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2012. [Consult. 2012-01-08].

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

"Balada de Neve" - Poema de Augusto Gil



Wright Barker (English painter, 1863–1941),
'A Shepherd and his Flock on a Path in Winter', 1923.


Balada de Neve


Batem leve, levemente,
como quem chama por mim.
Será chuva? Será gente?
Gente não é, certamente
e a chuva não bate assim.

É talvez a ventania:
mas há pouco, há poucochinho,
nem uma agulha bulia
na quieta melancolia
dos pinheiros do caminho...

Quem bate, assim, levemente,
com tão estranha leveza,
que mal se ouve, mal se sente?
Não é chuva, nem é gente,
nem é vento com certeza.

Fui ver. A neve caía
do azul cinzento do céu,
branca e leve, branca e fria...
- Há quanto tempo a não via!
E que saudades, Deus meu!

Olho-a através da vidraça.
Pôs tudo da cor do linho.
Passa gente e, quando passa,
os passos imprime e traça
na brancura do caminho...

Fico olhando esses sinais
da pobre gente que avança,
e noto, por entre os mais,
os traços miniaturais
duns pezitos de criança...

E descalcinhos, doridos...
a neve deixa inda vê-los,
primeiro, bem definidos,
depois, em sulcos compridos,
porque não podia erguê-los!...

Que quem já é pecador
sofra tormentos, enfim!
Mas as crianças, Senhor,
porque lhes dais tanta dor?!...
Porque padecem assim?!...

E uma infinita tristeza,
uma funda turbação
entra em mim, fica em mim presa.
Cai neve na Natureza
- e cai no meu coração.


Augusto Gil,
in 'Luar de Janeiro', 1909 
 

Augusto Gil

 
Augusto César Ferreira Gil (Lordelo do Ouro, 31 de julho de 1873 - Guarda, 26 de fevereiro de 1929), advogado e poeta português, viveu praticamente toda a sua vida na Cidade da Guarda onde colaborou e dirigiu alguns jornais locais.
Estudou inicialmente na Guarda, a "sagrada Beira", de cuja paisagem encontramos reflexos em muitos dos seus poemas e de onde os pais eram oriundos, e formou-se em Direito na Universidade de Coimbra.
Começou a exercer advocacia em Lisboa, tornando-se mais tarde diretor-geral das Belas-Artes. Na sua poesia notam-se influências do Parnasianismo e do Simbolismo. Influenciado por Guerra Junqueiro, João de Deus e pelo lirismo de António Nobre, a sua poesia insere-se numa perspetiva neo-romântica nacionalista.


Beethoven - "Moonlight" Sonata (Valentina Lisitsa)
(Valentina Lisitsa é uma pianista clássica Ucraniana, nascida em Kiev em 1973. Valentina vive atualmente na Carolina do Norte, EUA e é casada com Alexei Kuznetsoff, que é também pianista e seu parceiro em vários duetos.)