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quarta-feira, 3 de abril de 2013

"Bilhete para o amigo ausente" - Poema de Natália Correia


Caspar David FriedrichColina e campo lavrado perto de Dresden, 1824



Bilhete para o amigo ausente 


Lembrar teus carinhos induz 
a ter existido um pomar 
intangíveis laranjas de luz 
laranjas que apetece roubar. 

Teu luar de ontem na cintura 
é ainda o vestido que trago 
seda imaterial seda pura 
de criança afogada no lago. 

Os motores que entre nós aceleram 
os vazios comboios do sonho 
das mulheres que estão à espera 
são o único luto que ponho. 


in "O Vinho e a Lira"



Caspar David Friedrich, Paisagem de montanha, 1822.



Caspar David FriedrichA árvore dos corvos



Caspar David FriedrichO caçador na floresta, 1814



Caspar David FriedrichNavegando, 1818-19


"Os Anos são degraus" - Poema de Fernanda de Castro


 Caspar David Friedrich, Nascer da lua sobre o mar, 1822



Os Anos são degraus


Os anos são degraus, a Vida a escada. 
Longa ou curta, só Deus pode medi-la. 
E a Porta, a grande Porta desejada, 
só Deus pode fechá-la, 
pode abri-la. 

São vários os degraus; alguns sombrios, 
outros ao sol, na plena luz dos astros, 
com asas de anjos, harpas celestiais. 
Alguns, quilhas e mastros 
nas mãos dos vendavais. 

Mas tudo são degraus; tudo é fugir 
à humana condição. 
Degrau após degrau, 
tudo é lenta ascensão. 

Senhor, como é possível a descrença, 
imaginar, sequer, que ao fim da Estrada, 
se encontre após esta ansiedade imensa 
uma porta fechada 
e mais nada? 


Fernanda de Castro, 
in "Asa do Espaço"


Maria Fernanda Teles de Castro e Quadros Ferro
(1900 // 1994, Portugal)
Escritora



 Caspar David Friedrich - Evening at the Baltic Sea


"O tempo voa e leva-me contra a minha vontade; por mais que eu tente detê-lo, é ele que me arrasta; e esse pensamento dá-me muito medo: podeis imaginar porquê." 








"Acho a morte tão terrível que odeio mais a vida por me conduzir à morte do que pelos espinhos que na vida se encontram."





Caspar David Friedrich - Der Watzmann (O Watzmann), c. 1824-1825


Caspar David Friedrich - Mulher diante da aurora, c. 1818



Romantismo


Romantismo foi um movimento artístico, político e filosófico surgido nas últimas décadas do século XVIII na Europa que perdurou por grande parte do século XIX. Caracterizou-se como uma visão de mundo contrária ao racionalismo e ao iluminismo e buscou um nacionalismo que viria a consolidar os estados nacionais na Europa.
Inicialmente apenas uma atitude, um estado de espírito, o Romantismo toma mais tarde a forma de um movimento, e o espírito romântico passa a designar toda uma visão de mundo centrada no indivíduo. Os autores românticos voltaram-se cada vez mais para si mesmos, retratando o drama humano, amores trágicos, ideais utópicos e desejos de escapismo. Se o século XVIII foi marcado pela objetividade, pelo Iluminismo e pela razão, o início do século XIX seria marcado pelo lirismo, pela subjetividade, pela emoção e pelo eu.
O termo romântico refere-se ao movimento estético ou, em um sentido mais lato, à tendência idealista ou poética de alguém que carece de sentido objetivo.
O Romantismo é a arte do sonho e fantasia. Valoriza as forças criativas do indivíduo e da imaginação popular. Opõe-se à arte equilibrada dos clássicos e baseia-se na inspiração fugaz dos momentos fortes da vida subjetiva: na fé, no sonho, na paixão, na intuição, na saudade, no sentimento da natureza e na força das lendas nacionais.



 Caspar David Friedrich - O mar de gelo, 1823-1824


terça-feira, 2 de abril de 2013

"De um Amor Morto" - Poema de Sophia de Mello Breyner Andresen


Caspar David Friedrich - Os penhascos de Rügen, c. 1818.



De um Amor Morto


De um amor morto fica 
Um pesado tempo quotidiano 
Onde os gestos se esbarram 
Ao longo do ano 

De um amor morto não fica 
Nenhuma memória 
O passado se rende 
O presente o devora 
E os navios do tempo 
Agudos e lentos 
O levam embora 

Pois um amor morto não deixa 
Em nós seu retrato 
De infinita demora 
É apenas um facto 
Que a eternidade ignora 


Sophia de Mello Breyner Andresen,
 in "Geografia"



Vida e obra de Caspar David Friedrich

Portrait of Caspar David Friedrich
Gerhard von Kügelgen c. 1810–20


Caspar David Friedrich (5 de setembro de 1774 - 7 de maio de 1840) foi um pintor, gravurista, desenhista e escultor romântico alemão. Friedrich, grande paisagista, é o mais puro representante da pintura romântica alemã. Suas paisagens primam pelo simbolismo e idealismo que transmitem. 



Caspar David Friedrich in his Studio (1819), by Georg Friedrich Kersting


Friedrich nasceu em Greifswald e estudou na Academia de Copenhague. Em 1798, instalou-se em Desden, onde se tornou membro de um circulo artístico e literário, imbuído de ideais do movimento romântico.


Caspar David Friedrich - Cross in the Mountains 1805-06, Pencil and sepia, 640 x 931 mm 


Seus primeiros desenhos, delineados com lápis ou com sépia, exploravam motivos recorrentes em seu trabalho: praias rochosas, planícies áridas, cadeias infinitas de montanhas e árvores se agigantando em direção ao céu. Mais tarde, seu trabalho passou a refletir uma resposta emocional ao cenário real e visível.


Caspar David Friedrich - Manhã sobre a montanha, 1810-11. 


Friedrich começou a pintar óleos em 1807. Uma de suas primeira telas, "A cruz nas montanhas", é bem representativa do amadurecimento de seu estilo.


Caspar David Friedrich - Cross in the Mountains (Tetschen Altar) 


Na obra "A cruz nas montanhas" há um ousado rompimento com a pintura religiosa tradicional e um destaque especial para a paisagem. A figura do Cristo crucificado se reproduz em silhueta, criada pelo Pôr-do-Sol na montanha, dominando o ambiente.


Caspar David Friedrich - Cruz e catedral na montanha, 1812.


Como escreveu o próprio pintor, todos os elementos da composição tem um significado simbólico. As montanhas são alegorias da fé; os raios de sol simbolizam o fim do mundo pré-cristão; e os pinheiros marcam o surgimento da esperança.


View of a Harbour by Caspar David Friedrich, 1815-1816


As cores frias mas ácidas de Friedrich, com brilhante luminosidade, e a variedade de contornos, aumentam o sentimento de melancolia, de isolamento, trazendo a sensação de impotência humana diante das forças da natureza expressas em suas pinturas.

Caspar David Friedrich - O peregrino sobre o mar de névoa, 1818.


Como membro efetivo da Academia de Dresden, Friedrich acabou por influenciar muitos pintores românticos alemães que vieram após ele. Ainda que sua projeção tenha diminuído após a morte, é certo que os observadores do Século 20 permanecem fascinados com sua imaginação. 

Hoje ele é tido como um dos ícones de Romantismo alemão, com uma obra de importância internacional, e um dos melhores paisagistas de todos os tempos.


Caspar David Friedrich - Casal contemplando a lua, 1830-35.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

"Ode ao Mar" - Poema de Miguel Torga


Caspar David Friedrich, The Stages of Life (Die Lebensstufen (1835).
Museum der Bildenden Künste, Leipzig. 



Ode ao Mar 


Água, sal e vontade — a vida!
Azul — a cor do céu e da inocência.
Um lenço a colorir a despedida
Da galera da ausência...

Mar tenebroso!
Mar fechado e rugoso
Sobre um casto jardim adormecido!
Mar de medusas que ninguém semeia,
Criadas com mistério e com areia,
Perfeitas de beleza e de sentido!

Vem a sede da terra e não se acalma!
Vem a força do mundo e não te doma!
Impenitente e funda, a tua alma
Guarda-se no cristal duma redoma.

Guarda-se purificada em leve espuma,
Renda da sua túnica de linho.
Guarda-se aberta em sol, sagrada em bruma,
Sem amor, sem ternura e sem caminho.

O navio do sonho foi ao fundo,
E o capitão, despido, jaz ao leme,
Branco nos ossos descarnados;
Uma alga no peito, a flor do mundo,
Uma fibra de amor que vive e treme
De ouvir segredos vãos, petrificados.

Uma ilusão enfuna e enxuga a vela,
Uma desilusão a rasga e molha;
Morta a magia que pintava a tela,
O mesmo olhar de há pouco já não olha.

Na órbita vazia um cego ouriço
Pica o silêncio leve que perpassa...
Pica o novo feitiço
Que nasce do final de uma desgraça.

Mas nem corais, nem polvos, nem quimeras
Sobem à tona das marés...
O navio encalhado e as suas eras
Lá permanecem a milhentos pés.

Soterrados em verde, negro e vago,
Nenhum sol os aquece.
Habitantes do lago
Do esquecimento, só a sombra os tece...

Ela és tu, anónimo oceano,
Coração ciumento e namorado!
Ela que és tu, arfar viril e plano,
Largo como um abraço descuidado!

Tu, mar fechado, aberto e descoberto
Com bússolas e gritos de gajeiro!
Tu, mar salgado, lírico, coberto
De lágrimas, iodo e nevoeiro!


Miguel Torga, in Odes, (1946)


Poeta, contista, romancista, diarista, ensaísta e dramaturgo, Miguel Torga, de seu verdadeiro nome Adolfo Correia da Rocha, nasceu em S. Martinho de Anta, concelho de Sabrosa, distrito de Vila Real, a 12 de Agosto de 1907 e faleceu em Coimbra a 17 de Janeiro de 1995. 



Madredeus - Ao longe o mar 



Pensamento


"Conservar algo que possa recordar-te seria admitir que eu pudesse esquecer-te."


(William Shakespeare)

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