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quinta-feira, 13 de outubro de 2022

"As meninas" - Poema de Cecília Meireles


Henry Tanworth Wells (English painter, 1828-1903), Portrait of Emma and Federica Bankes
 of Soughton Hall at their dressing table (1869), daughters of Edward Bankes, who was the 
brother of William John Bankes (1786 - 1855).



As meninas


Arabela
abria a janela.

Carolina
erguia a cortina.

E Maria
olhava e sorria:
“Bom dia!”

Arabela
foi sempre a mais bela.

Carolina,
a mais sábia menina.

E Maria
apenas sorria:
“Bom dia!”

Pensaremos em cada menina
que vivia naquela janela;
uma que se chamava Arabela,
uma que se chamou Carolina.

Mas a profunda saudade
é Maria, Maria, Maria,
que dizia com voz de amizade:
“Bom dia!” 


Cecília Meireles,
do livro infantil "Ou Isto ou Aquilo", 1964 (1a. edição)
 
 
Capa do livro "Ou Isto ou Aquilo" com ilustração de Odilon Moraes 
 Global Editora, 2012


"Ou Isto ou Aquilo" é um livro de Cecília Meireles, publicado em 1964 pela editora do poeta português Sidônio Muralha, a Giroflê-Giroflá.
O tema do livro é que a vida é feita de escolhas e estas muitas vezes são difíceis de resolver, o quotidiano marcado pela dúvida e pela dificuldade de decisão é poetizado. 
A poesia em "Ou isto ou aquilo" usa recursos de aliteração, assonância, paranomásia, alternâncias vocálicas e outras figuras fónicas.  
Ana Maria Lisboa de Mello"Ou isto ou aquilo" como "uma espécie de divisor de águas entre dois períodos da produção poética para crianças no Brasil, inaugurando um novo modo de criação que privilegia o olhar e os sentimentos da criança, ao deixar para trás o feitio didático e doutrinário, predominante na produção anterior. (Daqui)
 

terça-feira, 21 de junho de 2022

"A Débil" - Poema de Cesário Verde



Henry Tanworth Wells (English, 1828-1903), "Alice", Wells's daughter, 1877
 
 

A Débil


Eu, que sou feio, sólido, leal,
A ti, que és bela, frágil, assustada,
Quero estimar-te, sempre, recatada
Numa existência honesta, de cristal.

Sentado à mesa dum café devasso,
Ao avistar-te, há pouco, fraca e loura,
Nesta Babel tão velha e corruptora,
Tive tenções de oferecer-te o braço.

E, quando socorreste um miserável,
Eu, que bebia cálices de absinto,
Mandei ir a garrafa, porque sinto
Que me tornas prestante, bom, saudável.

“Ela aí vem!” disse eu para os demais;
E pus-me a olhar, vexado e suspirando,
O teu corpo que pulsa, alegre e brando,
Na frescura dos linhos matinais.

Via-te pela porta envidraçada;
E invejava – talvez que o não suspeites! –
Esse vestido simples, sem enfeites,
Nessa cintura tenra, imaculada.

Ia passando, a quatro, o patriarca. 
Triste eu sai. Doía-me a cabeça;
Uma turba ruidosa, negra, espessa,
Voltava das exéquias dum monarca.

Adorável! Tu, muito natural,
Seguias a pensar no teu bordado;
Avultava, num largo arborizado,
Uma estátua de rei num pedestal.

Sorriam, nos seus trens, os titulares;
E ao claro sol, guardava-te, no entanto,
A tua boa mãe, que te ama tanto
Que não te morrerá sem te casares!

Soberbo dia! Impunha-me respeito
A limpidez do teu semblante grego;
E uma família, um ninho de sossego,
Desejava beijar sobre o teu peito.

Com elegância e sem ostentação,
Atravessavas branca, esbelta e fina,
Uma chusma de padres de batina,
E de altos funcionários da nação.

"Mas se a atropela o povo turbulento!
Se fosse, por acaso, ali pisada!"
De repente paraste, embaraçada,
Ao pé dum numeroso ajuntamento.

E eu, que urdia estes fáceis esbocetos,
Julguei ver, com a vista de poeta,
Uma pombinha tímida e quieta
Num bando ameaçador de corvos pretos.

E foi, então, que eu, homem varonil,
Quis dedicar-te a minha pobre vida,
A ti que és ténue, dócil, recolhida,
Eu, que sou hábil, prático, viril. 
 
 
O Livro de Cesário Verde. 1873-1886. 2.ª edição (daqui)
 


O Livro de Cesário Verde
 
 
 Compilação póstuma de poesias de Cesário Verde escritas entre 1873 e 1886, organizada e posfaciada por Silva Pinto, da qual se fez uma primeira edição, em 1887, para oferta a amigos do escritor, e uma segunda edição, em 1901, destinada ao público. A edição princeps de O Livro de Cesário Verde é constituída por 22 composições, repartidas por duas secções, "Crise romanesca" e "Naturais", sem que se saiba se essa divisão obedeceu a indicações do próprio autor ou ao critério do compilador. Apesar de omitir várias poesias de Cesário contempladas em antologias posteriores, a recolha é representativa das várias tendências convergentes na obra poética do autor. Baseando-se na representação pictórica e na descrição plástica da realidade, apoiada no predomínio das sensações ("Lavo, refresco, limpo os meus sentidos./ E tangem-me, excitados, sacudidos,/ O tato, a vista, o ouvido, o gosto, o olfato!"), no que se aproxima do Parnasianismo e do Realismo, Cesário supera, todavia, a captação fotográfica do real, através de um processo de recriação poética que opera uma transfiguração do imediato: "Subitamente - que visão de artista ! -/ Se eu transformasse os simples vegetais,/ À luz do sol, o intenso colorista,/ Num ser humano que se mova e exista/ Cheio de belas proporções carnais?!" ("Num bairro moderno"). A estética anti-romântica e naturalista ("E eu que medito um livro que exacerbe,/ Quisera que o real e a análise mo dessem;") patenteia-se nos motivos da mulher soberba e impassível ("Deslumbramentos", "Frígida"), da cidade mórbida e industrial ("O sentimento dum ocidental", "Num bairro moderno"), ambos de influência baudelairiana, na correção da subjetividade pelo distanciamento e a ironia ("Cristalizações"), na visão não convencional do campo, marcada pela experiência pessoal ("Em petiz", "De verão", "Nós", "De tarde"). Esta transmudação impressionista ou fantasista da realidade apoia-se num estilo inovador, precursor do Simbolismo, no qual, de entre muitos aspetos, salientaremos o uso da sinestesia ("Cheira-me a fogo, a sílex, a ferrugem;/ Sabe-me a campo, a lenha, a agricultura"), do advérbio ("Amareladamente, os cães parecem lobos"; "Um forjador maneja um malho, rubramente"), da hipálage ("Quando arregaça e ondula a preguiçosa saia"; "Um cheiro salutar e honesto a pão no forno") e do assíndeto ("Vê-se a cidade, mercantil, contente:/ Madeiras, águas, multidões, telhados!").
Em suma, a obra poética de Cesário Verde é caracterizada pelo domínio perfeito da língua, riqueza e precisão do vocabulário, rigor e originalidade na adjetivação. Recorrendo também ao verso e estrofe de características tradicionais, o autor cultivou fundamentalmente o soneto em versos decassílabos e alexandrinos, estes últimos, segundo o próprio, caracterizados pelo rigor geométrico e pela sobriedade. Tentando encontrar a "perfeição do fabricado" (parnasianismo) e transmitir " o ritmo do vivo e do real" (realismo), como um realizador cinematográfico, o autor, surpreendendo os instantâneos do quotidiano de Lisboa, regista o pulsar do coração da cidade que, vencendo "o Tempo e a Morte", resiste e sobrevive. (Daqui)