Mostrar mensagens com a etiqueta José Henrique dos Santos Barros. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta José Henrique dos Santos Barros. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 28 de julho de 2026

"Humidade" - Poema de José Henrique dos Santos Barros


 
Anna Elizabeth Klumpke (American painter, 1856–1942), 'Catinou Knitting'
(aka 'Solitude'), 1887, Brenau University Permanent Art Collection.


Humidade 


O melhor é abrir a porta minha mãe
respirar o cansaço por fora enquanto bordas
borda a borda o barco se parte todo
um mau fogo o abrasa.

Nós estamos silenciosos e húmidos.
Escuta a pulsação como doem os pulsos
pulos da infância o respirar da arca
entrar o sol ao fechá-lo dentro.


J. H. Santos Barros
, in 'A Humidade'
Lisboa, Cooperativa Semente, 1979.



 

Anna Elizabeth Klumpke
 
Anna Elizabeth Klumpke (1856–1942) foi uma pintora de retratos e cenas quotidianas americana. Ela é talvez mais conhecida por seus retratos de mulheres famosas, incluindo Rosa Bonheur (1822–1899) em 1898 e Elizabeth Cady Stanton (1815–1902) em 1889. O pai de Anna, John Gerald Klumpke, nascido na Alemanha, foi um rico e bem sucedido agente imobiliário em São Francisco. Sua mãe era Dorothea Mattilda Tolle. Anna era a mais velha de oito filhos. Entre seus irmãos estavam a astrónoma Dorothea Klumpke-Roberts, a violinista Julia Klumpke e a neurologista Augusta Déjerine-Klumpke. 

Quando Anna tinha três anos de idade, caiu e sofreu uma fratura de seu fémur. Ela caiu novamente aos cinco anos. Isso causou uma infeção óssea grave em seu joelho (osteomielite com artrite purulenta). Esses problemas de saúde dificultaram a sua locomoção. Sua mãe esforçou-se muito para encontrar uma cura. Ela levou Anna e três de seus irmãos para Berlim, na Alemanha, para tratamento pelo Dr. Bernhard von Langenbeck. O tratamento durou 18 meses e incluiu banhos termais em Kreuznach. Infelizmente não foi bem sucedido, e Anna permaneceu com dificuldade em andar toda a sua vida.
 
Enquanto  estavam na Europa, sua mãe garantiu que seus filhos recebessem excelente educação. O tempo na Europa tensionou a relação dos Klumpkes. Quando Anna tinha quinze anos, seus pais se divorciaram. Ela  e seus irmãos  mudaram-se com sua mãe para Gottingen, na Alemanha, onde viveram por um tempo com a irmã da mãe, que era casada com um cidadão alemão. 
 
Anna e sua irmã Augusta foram enviadas para a escola em Cannstatt, perto de Estugarda. Quando ela tinha dezassete anos, a família mudou-se para Clarens, perto do Lago de Genebra, na Suíça, onde passou dois anos num internato. Anna estudou arte em casa durante os anos seguintes. Em outubro de 1877, a sua família mudou-se novamente para Paris, França. Mais tarde, ingressou na Académie Julian (1883–1884), onde teve aulas com professores como Tony Robert-Fleury e Jules Lefebvre. Anna passou muitas horas a copiar pinturas no Museu do Luxemburgo. Uma das suas pinturas favoritas para copiar era "Arando no Nivernais", de Rosa Bonheur. Ela também estudou com Vuillefroy. 

Em 1884, ainda na Academia, Anna expôs a sua primeira pintura no Salão de Paris. Era uma grande exposição de arte, na qual ganhou o prémio máximo de melhor aluna do ano. Continuou a expor os seus trabalhos no Salão durante mais alguns anos. Após concluir os estudos, regressou aos Estados Unidos, onde lecionou arte em Boston durante alguns anos. Mas, em 1889, já estava de volta a Paris.

Quando a Anna era pequena, tinha uma boneca chamada "Rosa". Esta boneca foi feita para se parecer com a famosa pintora francesa de animais Rosa Bonheur. Rosa Bonheur era tão conhecida que foram feitas bonecas em sua homenagem. Desde pequena que Anna se interessou muito por esta artista e inspirou-se nela. Em 1895, Anna e Rosa Bonheur conheceram-se finalmente. Bonheur tinha 73 anos e Klumpke, 39. Klumpke tinha muita vontade de pintar o retrato de Bonheur. A 11 de agosto de 1898, as duas mulheres já viviam juntas. Assinaram um acordo especial: Bonheur construiu um novo estúdio de arte para Klumpke. Em troca, Klumpke pintaria três retratos de Bonheur e escreveria a sua biografia. A estreita amizade entre elas durou até à morte de Bonheur, em maio de 1899.
 
Rosa Bonheur nomeou Anna Klumpke como a única pessoa a receber os seus bens após a sua morte, contrariando os desejos da família. Em 1899, Anna fundou a Rosa Bonheur Memorial Art School que auxiliava as mulheres a aprender arte. Geriu também a venda de todas as obras de arte de Bonheur em 1900. Anna criou o Prémio Rosa Bonheur na Sociedade dos Artistas Franceses e fundou o Museu do Ateliê Rosa Bonheur, localizado no Château de By, junto ao Palácio de Fontainebleau.

Anna Klumpke mantinha diários detalhados. Em 1908, publicou um livro sobre Bonheur chamado Sa Vie Son Oeuvre, que significa "A Sua Vida, a Sua Obra". Este livro foi baseado nas notas do diário da própria Anna. Utilizou também cartas, desenhos e outros escritos de Bonheur. O livro só foi publicado em inglês em 1998. Nele, Klumpke contou a história de vida de Bonheur. Partilhou como se conheceram e como se tornou a retratista oficial e amiga íntima de Bonheur. 
Anna Klumpke expôs as suas obras de arte no Palácio de Belas Artes e no Pavilhão da Mulher. Isto ocorreu durante a Exposição Mundial Colombiana de 1893 em Chicago, Illinois. 

Após a morte de Rosa Bonheur, Anna Klumpke passou algum tempo em França, em Boston e em São Francisco. Acabou por se estabelecer em São Francisco na década de 1930. 
Durante a Primeira Guerra Mundial, ela e a mãe montaram um hospital para soldados em recuperação de ferimentos. Esse hospital ficava na sua casa em Thomery, França. 
 
Em 1940, com 84 anos, Anna Klumpke publicou a sua autobiografia, intitulada "Memórias de uma Artista". Faleceu a 9 de fevereiro de 1942, aos 86 anos, na sua cidade natal, São Francisco.
Existe um memorial em sua homenagem no Columbário da Sociedade Neptuno, em São Francisco. Está sepultada ao lado de Rosa Bonheur e Nathalie Micas no Cemitério Père Lachaise, em Paris. A lápide partilhada tem a inscrição: "A amizade é um afeto divino".
A obra de Klumpke esteve também exposta na exposição de arte "Mulheres em Paris 1850–1900", realizada em 2018. (daqui)
 
 
 Obras de Anna Elizabeth Klumpke 
 
Anna Elizabeth Klumpke (American painter, 1856–1942),
'Spring sowing flowers on the path of our life', 1925.
 
 

Anna Elizabeth Klumpke, 'Portrait of a Lady in Pink', 1886. 



Anna Elizabeth Klumpke, 'Old Reflections', 1904.
 
 

Anna Elizabeth Klumpke, 'Portrait of the artist's father', 1912.
 
 

Anna Elizabeth Klumpke, 'Portrait of Miss Mary Sophia Walker', 1895,
oil on canvas, 66.3 x 56.3cm, Bowdoin College Museum of Art.
 
 

Anna Elizabeth Klumpke, 'Portrait of the French artist Rosa Bonheur, 1898
 
 

Anna Elizabeth Klumpke, 'Portrait of Rosa Bonheur', 1898, oil on canvas,
117.2 x 98.1 cm, Metropolitan Museum of Art.



Anna Elizabeth Klumpke, 'Portrait of Rosa Bonheur with her dog Charly', 1889,
oil on canvas, 147 x 114 cm, Château de Fontainebleau.
 

Rosa Bonheur

Rosa Bonheur, nascida Marie-Rosalie Bonheur (Bordeaux, 16 de março de 1822 – Thomery, 25 de maio de 1899) foi uma pintora e escultora francesa, conhecida por suas obras realistas. Uma de suas obras mais conhecidas é Ploughing in the Nivernais, primeiramente exibida no Salão de Paris, de 1849 e hoje pertencente ao acervo do Musée d’Orsay, em Paris. Rosa Bonheur é considerada uma das maiores pintoras do século XIX.

Rosa nasceu em Bordeaux, em 1822, a filha mais velha de uma família composta por artistas. Sua mãe era Sophie Marquis Bonheur, uma professora de piano que morreu quando Rosa tinha 11 anos. Seu pai era o pintor e retratista Oscar-Raymond Bonheur. A família adotou o credo cristão-socialista, baseado no Simonianismo, que promovia a educação de mulheres como era a dos homens. Assim, as crianças Bonheur tiveram acesso a educação, não importando o género.

Entre os irmãos de Rosa estavam os pintores Auguste Bonheur e Juliette Bonheur e o escultor Isidore Jules Bonheur. Em 1828, Rosa, então com seis anos, sua mãe e irmãos mudaram-se para Paris a fim de se juntar ao pai, que tinha ido na frente para conseguir casa e um emprego. Segundo registos da família, Rosa era indisciplinada e demorou para aprender a ler, mas antes mesmo de andar ficava horas fazendo desenhos com tinta e papel. 
Sua mãe a ensinou a ler e a escrever pedindo que ela escolhesse um animal para cada letra do alfabeto e o desenhasse. Seu comportamento na escola, porém, era inquieto, indisciplinado, resultando em diversas expulsões e suspensões, o que levou seu pai a tomar a filha como aprendiz para ensiná-la a pintar.
 
Seguindo o currículo tradicional da época, Rosa começou a fazer cópias de imagens em livros e a fazer rascunhos de modelos. Com o tempo, ela passou a desenhar animais vivos, como cavalos, ovelhas, cabras, coelhos e outros animais dos arredores de Paris. Aos 14 anos, começou a copiar pinturas expostas no Museu do Louvre. Entre seus pintores favoritos estavam Nicholas Poussin e Peter Paul Rubens, mas não se limitou apenas a eles, tendo copiado e estudado obras de Paulus Potter, Frans Pourbus o Jovem, Louis Léopold Robert, Salvator Rosa e Karel Dujardin.
Rosa estudou anatomia animal nos matadouros de Paris e os dissecou no Instituto Nacional de Veterinária. Estes estudos posteriormente foram úteis referências para suas esculturas e quadros.

Mulheres, na época da Rosa, eram relutantemente educadas nas artes e pelo facto de Rosa se tornar uma artista de sucesso, muitas portas se abriram para outras mulheres seguirem seus passos, depois de diversas encomendas bem pagas e celebradas pela comunidade artística. Rosa também era conhecida por se vestir de homem e perambular pelas ruas de Paris sem ser incomodada. Mas a própria artista atribuía isso ao facto de calças serem mais práticas para usar no dia a dia do estúdio do que vestidos, especialmente ao se tratar de modelos com animais.
Rosa faleceu em 25 de maio de 1899, aos 77 anos, em sua casa em Thomery, tendo sido enterrada junto de Nathalie Micas (1824–1889) no Cemitério do Père-Lachaise, em Paris. (daqui)
 
 

Anna Elizabeth Klumpke, 'Elizabeth Cady Stanton', 1889,
oil on canvas, 101 x 81.9 cm, Smithsonian Institution.
 
 
 Elizabeth Cady Stanton

Ativista norte-americana, Elizabeth Cady Stanton nasceu a 12 de novembro de 1815, em Johnstown, Nova Iorque, filha de um juiz, e morreu a 26 de outubro de 1902.
Os seus estudos foram feitos na Academia de Johnstown, onde se dedicou ao Grego e à Matemática. Ao mesmo tempo, aprendeu a montar a cavalo.
Aos 15 anos, entrou no Seminário Feminino Troy, em Nova Iorque, uma das primeiras academias para mulheres a proporcionar uma educação avançada, semelhante à então dada aos homens.
A partir dos 18 anos, quando saiu da academia, passou a estudar Direito em casa, aproveitando os livros e os conhecimentos do pai, a quem acompanhava na resolução dos casos. Apercebendo-se da discriminação que afetava as mulheres na época, decidiu lutar pela alteração das leis. Na mesma altura, envolveu-se com o movimento abolicionista da escravatura e com os reformistas progressistas. Em casa de um primo travou conhecimento com alguns negros que fugiam da situação de escravatura.

Casou com um dos reformistas, o jornalista Henry Stanton, em 1840. Nesse mesmo ano, em junho, acompanhou o marido numa viagem a Londres para participar na Convenção Mundial Anti-Escravatura. Nesta ocasião conheceu Lucretia Moot, que se tornou uma grande amiga e fonte de inspiração intelectual. Quando a convenção negou reconhecer as mulheres como delegadas legítimas, estas sentiram-se humilhadas e revoltadas. Na hora do regresso aos Estados Unidos da América, resolveram organizar uma convenção feminina, que só levaram a cabo oito anos depois. A 19 de julho de 1848, em Seneca Falls, Nova Iorque, reuniram-se cinco mulheres para discutir os direitos e condições sociais, religiosas e civis das mulheres. Stanton, a líder, escreveu um manifesto, a Declaração de Sentimentos de Seneca Falls, que incluía uma carta de direitos e requerimentos de igualdade social para as mulheres, nomeadamente o direito ao voto. Apesar da opinião pública não ter aceite bem esta declaração, rapidamente outras mulheres se juntaram ao movimento e começaram a pedir o direito ao voto.

Em 1851 Elizabeth Stanton travou conhecimento com Susan B. Anthony, uma mulher com grande capacidade de organização que serviu de perfeito complemento às suas teorias filosóficas. Nesta altura, o grupo de Stanton estava inserido no movimento abolicionista, mas quando a escravatura acabou este último retirou o seu apoio às feministas. Desiludidas com esta traição, Stanton e Anthony criaram, em 1868, a Associação Nacional pelo Direito ao Voto Feminino, presidida pela primeira. Elizabeth iniciou também nessa altura a publicação de um jornal chamado "Revolução", que defendia os direitos das mulheres, incluindo também o direito ao voto, inseridos num programas de reformas sociais, económicas e políticas. A ideia de Elizabeth era mudar as leis e o modo como a sociedade encarava o papel da mulher. Em 1876 apresentaram a Declaração dos Direitos das Mulheres dos Estados Unidos na celebração do centenário da nação, mesmo sem terem sido convidadas.

Em 1881, Elizabeth Stanton e Susan Anthony publicaram o primeiro de três volumes da História do Voto das Mulheres, uma coleção de escritos sobre as lutas do movimento. Entretanto, surgiram vários movimentos feministas nos Estados Unidos da América, que a duas conseguiram unir em torno de uma única associação em 1890 chamada Associação Nacional Americana pelo Direito ao Voto Feminino, da qual Elizabeth Stanton foi a primeira presidente. No entanto, as suas ideias antirreligiosas ameaçaram a estabilidade da associação. O descontentamento de algumas feministas atingiu o limite em 1895, quando Stanton publicou A Bíblia das Mulheres, um estudo sobre discriminação sexual no Velho Testamento.
Stanton, para além de defender o direito ao voto, pugnou por leis do divórcio mais liberais, roupas menos restritivas e pelo direito das mulheres casadas controlarem as suas propriedades.
Quando morreu, Elizabeth já não era presidente da associação. Dezoito anos depois, o congresso norte-americano aprovou o direito ao voto feminino. (daqui)
 
 

domingo, 19 de julho de 2026

"Tempo de luta" - Poema de José Henrique dos Santos Barros

 


Jean Béraud (Peintre français, 1849–1935), 'La sortie du lycée Condorcet', 1903


Tempo de luta


No tempo em que lutámos
com espadas de pau e pistolas de dedos
nesse tempo em que sabíamos
que a mãe era o totem todo‑poderoso
que perseguia os índios e ganhava a guerra
e só nos exigia o sacrifício dos sapatos limpos
no tempo em que o mundo era uma bola alegre
igual à do futebol que o pai do João comprou
livres fomos caminhando nas ondas
até que chegámos a uma praia e ficámos
desarmados sem totem sem bola sem sacrifícios fáceis por fazer
desde então muita coisa aconteceu
por exemplo
o João foi à guerra e morreu.


J. H. Santos Barros 
(1946–1983),
in 'Alexandrina, como era – Todos os Poemas'


quinta-feira, 23 de dezembro de 2021

"Minha tia Alexandrina" - Poema de José Henrique dos Santos Barros


 
Anna Elizabeth Klumpke (American portrait and genre painter, 1856–1942),
'Seated Woman with a Red Kerchief', 1886

 
Minha tia Alexandrina


Minha tia Alexandrina bebia café
meia tigela de manhã e meia de tarde
o que dava mais dum litro.
Com esse rio de fogo correndo no seu corpo
punha ela dez filhos fora de casa
e lavava dez sobrados às senhoras da cidade.

E quando voltava para os Biscoitos na camioneta da carreira
deixava-me nos ouvidos a música das gargalhadas dadas
e nos olhos os demónios dos seus olhos
pretos, estrelas pequeninas fulgurantes.

Não passo pela ilha sem ir aos Biscoitos
não por vê-la, que ela já não está:
(levou-a o Canadá, a carta de chamada)
mas porque tenho consciência que são esplêndidos
os ramos das vinhas que alastram nos calhaus.


José Henrique dos Santos Barros
,
in 'S. Mateus, Outros Lugares e Nomes'
 
 

José Henrique Santos Barros 
 

José Henrique dos Santos Barros nasceu em 1946 em Angra do Heroísmo e faleceu vítima de acidente de viação, em Mérida, Espanha, em maio de 1983, com a sua mulher, a escritora Ivone Chimita.
J. H. Santos Barros viveu a infância e a juventude na ilha Terceira. Após a conclusão de estudos secundários, empregou-se como funcionário público. Anos depois, deu início àquela que viria a ser a «aventura» da sua vida: a poesia, a animação cultural, o suplementarismo e o ensaio literário, o sindicalismo, a literatura. 
A mobilização para a guerra colonial, como furriel miliciano, levou-o a Angola (entre 1969 e 1971, ano em que regressou à sua cidade natal). Foi a partir de então que nele mais se notabilizou uma extraordinária propensão para as coisas da cultura. O seu nome não pode deixar de associar-se a um movimento de renovação inscrito, nos Açores, desde a criação (por Carlos Faria) do suplemento «Glacial», no jornal angrense A União (foi seu coordenador entre 1972 e 1974).

J. H. Santos Barros acreditou na possibilidade de unir numa só frente uma postura de vanguarda ideológica, militante, com a ideia libertária de uma cultura em duplo: popular e de grupo. Com outros intelectuais angrenses, fundou a galeria de artes plásticas «Degrau»; animou cooperativas, sindicatos, rádios e jornais; fundou e dirigiu o suplemento «Cartaz» (nova série, 1972-1974) e a revista A Memória da Água-Viva, de parceria com Urbano Bettencourt (1978-1980). Mas foi no suplemento «Contexto», do jornal Açores (quando, residindo já em Lisboa, de 1979 até a data da sua morte) que mais e melhor sistematizou todo um trabalho de animação e coordenação que se estenderia à crítica, à polémica literária, à ensaística de fundo e até a uma curiosa experiência heteronímica que o levaria a subscrever, com diversos nomes, posições e conceitos propositada e provocatoriamente contraditórios. Foi assim, por exemplo, em relação à controversa questão da existência (ou não) de uma «literatura açoriana», que muito interessou os escritores açorianos da sua geração.

Como poeta, estreou-se aos 18 anos - dando-nos depois folhas, cadernos policopiados, opúsculos e excelentes livros de poemas; como ensaísta literário, interessou-lhe a conjugação da «açorianidade» (expressão sensível do local e do regional insular) com a «universalidade» potencial de toda a Literatura; como contista (autor de alguns dispersos), andou pelos imaginários oníricos e surrealizantes. Deixou inédito um diário (O Aprendiz de Mundos) e raros poemas. No essencial da sua poesia, a fidelidade da radicação aos temas insulares não é de molde a inscrevê-la no tão pouco apreciado apego ao regionalismo da escrita literária; pelo contrário, o regional e o tradicional de J. H. Santos Barros tornam-se matriz e ponto de partida da alternância ilha/Mundo, ora no tom abrasivo de uma «poética do quotidiano», ora na excelência de uma voz erguida à proclamação de versos como estes: «Pregar um prego, lavar pratos, cortar a erva / custa. Mas nunca nada me custou tanto que / carregar um verso das coisas mais difíceis. A fazer / do outro lado da literatura os nós do mundo.»

Obra Poética: (1964), poemas na Novíssima Poesia Açoriana. Angra do Heroísmo, ed. dos autores [com Gil Reis]. (1968), Aventura em Sete Poemas. Lisboa, ed. do autor. (1970), Canto de Abril. Lisboa, Ed. Panorama. (1971), Imagem Fulminante. Angra do Heroísmo, Galeria Gávea. (1913), Testes e Versos Para Andar na Rua. Angra do Heroísmo, Galeria Degrau (ed. a stencil). (1974), Topiária. Angra do Heroísmo, Galeria Degrau (ed. mimeografada). (1976), As Crónicas. Lisboa, ed. do autor (policopiado). (1979), A Humidade. Lisboa, Cooperativa Semente. (1979), Os Alicates do Tempo. Porto, Ed. Afrontamento. (1981), São Mateus, Outros Lugares e Nomes. Lisboa, Ed. Vega.
Obra Ensaística: (1977), 20 Anos de Literatura e Arte nos Açores. Lisboa, ed. do autor. (1981), O Lavrador de Ilhas. Angra do Heroísmo, Secretaria Regional de Educação e Cultura. (daqui)



Anna Elizabeth Klumpke, 'In the Wash-house', 1888, oil on canvas.
Pennsylvania Academy of the Fine Arts
 

"Por vezes sentimos que aquilo que fazemos não é senão uma gota de água no oceano. 
Mas o mar seria menor se lhe faltasse uma gota."

(Madre Teresa de Calcutá)
 
 
 
Anna Elizabeth Klumpke, 'A Moment's Rest', Barbizon, 1891


"Temos de ir à procura das pessoas, porque podem ter fome de pão ou de amizade."


(Madre Teresa de Calcutá)