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terça-feira, 4 de julho de 2023

"Claro e Simples" - Poema de Adolfo Casais Monteiro



Francisco Smith ou Francis Smith (Pintor português, 1881–1961), 
Largo do Menino de Deus, Lisboa, 1927



Claro e Simples


Tudo é claro para quem
olha sempre no sentido
oposto àquele onde está
aquilo que não é claro.

Tudo é simples para quem
adia sempre o momento
de olhar de frente a ameaça
de quanto não tem resposta.

Tudo é nada para quem
descreu de si e do mundo
e de olhos cegos vai dizendo:
Não há o que não entendo.
in "Voo sem Pássaro Dentro",
 Editora Ulisseia, 1954, 1ª edição.
 

Adolfo Casais Monteiro,"Voo sem Pássaro Dentro".
Poesia - Dez desenhos de Fernando Lemos, 55 pags.
Editora Ulisseia, 1954, 1ª edição.
 
 
"Procurar a verdade é uma forma de desocultar a mentira, e a fotografia é parte dessa ânsia pelo desocultamento. A importância da fotografia é a memória. Ela é reveladora da verdade e da mentira, do que está oculto." - Fernando Lemos (daqui)
 
 

sábado, 24 de agosto de 2019

"Aurora" - Poema de Adolfo Casais Monteiro


Ivan Shishkin (Russian, 1832-1898), Rain in an Oak Forest, 1891
 

Aurora


A poesia não é voz - é uma inflexão.
Dizer, diz tudo a prosa. No verso
nada se acrescenta a nada, somente
um jeito impalpável dá figura
ao sonho de cada um, expectativa
das formas por achar. No verso nasce
à palavra uma verdade que não acha
entre os escombros da prosa o seu caminho.
E aos homens um sentido que não há
nos gestos nem nas coisas:

voo sem pássaro dentro.

in 'Voo Sem Pássaro Dentro'


Ivan Shishkin, Walking through the forest, 1869


"O jardim é uma natureza organizada pelo homem e para o homem."

(Roberto Burle Marx)


Ivan Shishkin, Walk in the Forest, 1870


"Um jardim faz-se de luz e sons - as plantas são coadjuvantes."

(Roberto Burle Marx)


Ivan Shishkin, Wood in the evening, 1868-1869


"Onde havia peixes, há mercúrio. Onde havia florestas, há cinzas."

(Roberto Burle Marx)


Ivan Shishkin, Woodland, 1889


"Gostaria que os que viessem depois de mim pudessem, pelo menos, ver alguma coisa que ainda lembrasse o país fabuloso que é o Brasil do ponto de vista botânico, dono da flora mais rica do Globo."
(Roberto Burle Marx)

Roberto Burle Marx (São Paulo, 4 de agosto de 1909 – Rio de Janeiro, 4 de junho de 1994) foi um paisagista, arquiteto, desenhista, pintor, gravador, litógrafo, escultor, tapeceiro, ceramista, designer de jóias e decorador.

Durante a infância viveu no Rio de Janeiro. Foi com a família para a Alemanha, em 1928. Em Berlim, estudou canto e integrou-se na vida cultural da cidade, frequentando teatros, óperas, museus e galerias de arte. Entrou em contato com as obras de Vincent van Gogh (1853-1890), Pablo Picasso (1881-1973) e Paul Klee (1879-1940). Em 1929, frequentou o ateliê de pintura de Degner Klemn. Nos jardins e museus botânicos de Dahlen, em Berlim, entusiasmou-se ao encontrar exemplares da flora brasileira.

De volta ao Brasil, fez curso de pintura e arquitetura na Escola Nacional de Belas Artes (Enba), Rio de Janeiro, entre 1930 e 1934, onde foi aluno de Leo Putz (1869-1940), Augusto Bracet (1881-1960) e Celso Antônio (1896-1984). Em 1932, realizou seu primeiro projeto de jardim para a residência da família Schwartz, no Rio de Janeiro, a convite do arquiteto Lucio Costa (1902-1998), que realizou o projeto de arquitetura com Gregori Warchavchik (1896-1972).

Entre 1934 e 1937, ocupou o cargo de diretor de parques e jardins do Recife, Pernambuco, onde passou a residir. Nesse período, foi com frequência ao Rio de Janeiro e teve aulas com Candido Portinari (1903-1962) e com o escritor Mário de Andrade (1893-1945), no Instituto de Arte da Universidade do Distrito Federal. Em 1937, retornou ao Rio de Janeiro e trabalhou como assistente de Candido Portinari.

O final da década de 1930 arca a integração de sua obra paisagística à arquitetura moderna, época em que o artista experimenta formas orgânicas e sinuosas na elaboração de seus projetos. Sua paixão por plantas remonta à juventude, quando se interessa por botânica e jardinagem, mas é em 1949 que Roberto Burle Marx organiza uma grande coleção, quando adquire um sítio de 800.000 m², em Campo Grande, Rio de Janeiro.

Em companhia de botânicos, realiza inúmeras viagens por diversas regiões do país, para coletar e catalogar exemplares de plantas, reproduzindo em sua obra a diversidade fitogeográfica brasileira.

Principais Obras
: Jardins do Aterro do Flamengo, no Rio de Janeiro, Paisagismo do Eixo Monumental em Brasília, Parque Ibirapuera, em São Paulo. (Daqui)

Ivan Shishkin: A collection of 352 paintings (HD) 




Ivan Ivanovitch Shishkin (Ielabuga, 25 de janeiro de 1832 – São Petersburgo, 20 de março de 1898) foi um pintor paisagista russo associado ao movimento dos Itinerantes e marido da pintora Olga lagoda-shishkina

Shishkin nasceu em Ielabuga, no atual Tartaristão, e graduou-se em Cazã. Estudou na Escola de Pintura, Escultura e Arquitetura de Moscou por quatro anos e na Academia Imperial de Artes entre 1856 e 1860, quando graduou-se, recebendo uma pensão imperial para que continuasse seus estudos na Europa. Cinco anos mais tarde, Shishkin tornou-se membro da Academia Imperial de São Petersburgo e foi professor de pintura entre 1873 e 1898. Simultaneamente, Shishkin liderou o programa educacional de pintura paisagística. 

Shishkin viveu, por alguns anos, na Suíça e Alemanha, graças à pensão recebida pela academia. Ao retornar para a capital russa, ele tornaria-se membro do Círculo dos Itinerantes e da Sociedade dos Aquarelistas da Rússia. Participou de mostras em Moscou (1882), Nijni Novgorod (1896), Paris (1867 e 1878) e Viena (1873). O método de Shishkin foi baseado em estudos analíticos da natureza. Ele tornou-se famoso por suas paisagens de florestas, além de ter sido um desenhista além de seu tempo.

Os trabalhos de Shishkin foram principalmente inspirados nas paisagens de sua dacha nos subúrbios do sul de São Petersburgo. Seus trabalhos são de notável detalhamento poético das estações do ano, florestas, natureza selvagem, fauna e flora.

Shishkin morreu em 1898, em São Petersburgo, enquanto desenvolvia uma nova pintura. (Daqui)
 

„Toda a forma de vida é uma manifestação de Deus e está sob os nossos cuidados. Proteja o que é seu - sua fauna sua flora. As plantas e os animais embelezam a terra. São úteis ao homem e representam a riqueza da Pátria. Nunca se deve mutilar, destruir ou deixar que destruam estes bens. Vamos amar nossos animais domésticos. Vamos dar aos selvagens a paz que eles têm direito. Permitamos que enfeitem nossas florestas. Vamos amar os pássaros puros e belos, cantando nas ramagens, voando alegres no espaço ilimitado, como verdadeiros símbolos de liberdade!“ — Francisco de Assis

Referência: https://citacoes.in/autores/francisco-de-assis/

domingo, 18 de agosto de 2019

"Ato de Contrição" - Poema de Adolfo Casais Monteiro


Ato de Contrição


Pelo que não fiz, perdão!
Pelo tempo que vi, parado,
correr chamando por mim,
pelos enganos que talvez
poupando me empobreceram,
pelas esperanças que não tive
e os sonhos que somente
sonhando julguei viver,
pelos olhares amortalhados
na cinza de sóis que apaguei
com riscos de quem já sabe,
por todos os desvarios
que nem cheguei a conceber,
pelos risos, pelas lágrimas,
pelos beijos e mais coisas,
que sem dó de mim malogrei

— por tudo, vida, perdão!


Adolfo Casais Monteiro





"Quem não ama o seu semelhante vive uma vida estéril e prepara um túmulo triste para a sua velhice." 

 Alastor, or The Spirit of Solitude, 1815 


quarta-feira, 14 de agosto de 2019

"Aço" - Poema de Adolfo Casais Monteiro


Thomas Eakins (1844–1916), The Chess Players, 1876


Aço

 
Quebre-se de encontro à dureza das arestas
cada desregrada ilusão da minha vida.
Que os bichos vão roendo o vão caruncho
da inútil poeira de astros que imagino.
Que — sei-o bem! — lá no mais fundo,
forte e imarcescível sob os golpes
resiste a minha força verdadeira.
E o poema sempre novo no meu sangue
conhece também sua glória de aço
que vê sem dor as pobres farsas
e os caminhos cruéis em que me perco.
Veio da luz inutilizando os laços
armados no caminho à minha espera,
mão de ferro erguendo-se dos limbos
e mandando-me fitar o sol em face!


Adolfo Casais Monteiro


sexta-feira, 9 de agosto de 2019

"Madrugada" - Poema de Adolfo Casais Monteiro


José Júlio Paisagem (A cidade branca), 1951 (Daqui)



Madrugada


Ah! Este poema das madrugadas,
que há tanto tempo enrodilhado
num sem-fim de estados de alma
me obcecava, tirânico,
sem se deixar fixar! ...

Madrugada... e esta solidão crescendo,
esta nostalgia maior, e maior, e maior,
de não se sabe o quê
— nunca se sabe o quê...
que haverá nestas horas sozinhas e geladas,
para assim trazer à tona as indefinidas mágoas,
as saudades e as ânsias sem motivo
— de que não sabemos o motivo?...

Vieram as saudades do tempo de menino
— ou dum paraíso lá não sei onde?
Ah! que fantasmas pesaram sobre os ombros,
que sombras desceram sobre os olhos,
que tristeza maior fez maior o silêncio?
A que vem esse calor distante e absorto,
esse calar, esses modos distraídos?
Meu pobre sonhador! a esta hora
porventura se desvenda a Suprema Inutilidade?
e a definitiva ilusão de tantos gestos?

Interroga, interroga...
vai sonhando,
sem que saibas sequer o caminho que segues
vai, distraído e pensativo,
alheio de hoje,
vivendo já o derradeiro segundo...

Que a madrugada tem o pungir das agonias,
mas alheio, como o fim dum pesadelo...



sábado, 3 de agosto de 2019

"Ode ao Tejo e à Memória de Álvaro de Campos" - Poema de Adolfo Casais Monteiro


Carlos Botelho (1899 - 1982), O Tejo e a ponte, 1968, Museu Calouste Gulbenkian



Ode ao Tejo e à Memória de Álvaro de Campos


E aqui estou eu,
ausente diante desta mesa -
e ali fora o Tejo.
Entrei sem lhe dar um só olhar.
Passei, e não me lembrei de voltar a cabeça,
e saudá-lo deste canto da praça:
"Olá, Tejo! Aqui estou eu outra vez!"
Não, não olhei.
Só depois que a sombra de Álvaro de Campos se sentou a meu lado
me lembrei que estavas aí, Tejo.

Passei e não te vi.
Passei e vim fechar-me dentro das quatro paredes, Tejo!
Não veio nenhum criado dizer-me se era esta a mesa em que Fernando
Pessoa se sentava,
contigo e os outros invisíveis à sua volta,
inventando vidas que não queria ter.
Eles ignoram-no como eu te ignorei agora, Tejo.

Tudo são desconhecidos, tudo é ausência no mundo,
tudo indiferença e falta de resposta.
Arrastas a tua massa enorme como um cortejo de glória,
e mesmo eu que sou poeta passo a teu lado de olhos fechados,
Tejo que não és da minha infância,
mas que estás dentro de mim como uma presença indispensável,
majestade sem par nos monumentos dos homens,
imagem muito minha do eterno,
porque és real e tens forma, vida, ímpeto,
porque tens vida, sobretudo,
meu Tejo sem corvetas nem memórias do passado...
Eu que me esqueci de te olhar!


Adolfo Casais Monteiro,

in "Poesia Portuguesa contemporânea"
org. Carlos Nejar, 1982 




Carlos Botelho, O Tejo, 1967



Tejo


Aqui e além em Lisboa – quando vamos
Com pressa ou distraídos pelas ruas
Ao virar da esquina de súbito avistamos
Irisado o Tejo:
Então se tornam
Leve o nosso corpo e a alma alada 

1994

Sophia de Mello Breyner Andresen

in Obra Poética, 2011



Carlos Botelho, Entrada da Barra, 1964


"Chegaram a Lisboa ao cair da tarde, na hora em que a suavidade do céu infunde nas almas um doce pungimento."

„Chegaram a Lisboa ao cair da tarde, na hora em que a suavidade do céu infunde nas almas um doce pungimento.“ — José Saramago 1928 - 2008

Referência: https://citacoes.in/topicos/lisboa/
„Chegaram a Lisboa ao cair da tarde, na hora em que a suavidade do céu infunde nas almas um doce pungimento.“ — José Saramago 1928 - 2008

Referência: https://citacoes.in/topicos/lisboa/

quarta-feira, 31 de julho de 2019

"Permanência" - Poema de Adolfo Casais Monteiro


Peder Mørk Mønsted (Danish painter, 1859 - 1941), 1893



Permanência


Não peçam aos poetas um caminho. O poeta
não sabe nada de geografia celestial.
Anda aos encontrões da realidade
sem acertar o tempo com o espaço.
Os relógios e as fronteiras não tem
tradução na sua língua. Falta-lhe
o amor da convenção em que nas outras
as palavras fingem de certezas.

O poeta lê apenas os sinais
da terra. Seus passos cobrem
apenas distâncias de amor e
de presença. Sabe
apenas inúteis palavras de consolo
e mágoa pelo inútil. Conhece
apenas do tempo o já perdido; do amor
a câmara escura sem revelações; do espaço
o silêncio de um voo pairando
em toda a parte.

Cego entre as veredas obscuras é ninguém e nada sabe
— morto redivivo.
Tudo é simples para quem
adia sempre o momento
de olhar de frente a ameaça
de quanto não tem resposta.
 
Tudo é nada para quem
descreu de si e do mundo
e de olhos cegos vai dizendo:
Não há o que não entendo.


Adolfo Casais Monteiro



domingo, 18 de março de 2012

"Vem vento, varre" - Poema de Adolfo Casais Monteiro


Peder Mørk Mønsted, Sunset over a forest lake, 1895



Vem vento, varre 


Vem vento, varre 
sonhos e mortos. 
Vem vento, varre 
medos e culpas. 

Quer seja dia, 
quer faça treva, 
varre sem pena, 
leva adiante 
paz e sossego, 
leva contigo 
noturnas preces, 
presságios fúnebres, 
pávidos rostos 
só cobardia. 

Que fique apenas 
ereto e duro 
o tronco estreme 
de raiz funda. 

Leva a doçura, 
se for preciso: 
ao canto fundo 
basta o que basta. 

Vem vento, varre!
 
 
 
 
"Somos todos viajantes pelas agruras do mundo, e o melhor que podemos achar em nossas viagens é um amigo." 

(Robert Louis Stevenson)


Robert Louis Stevenson em 1885
 

Robert Louis Balfour Stevenson (13 de novembro de 1850, Edimburgo, capital da Escócia – 3 de dezembro de 1894, Apia, Samoa), foi um novelista, poeta e escritor de roteiros de viagem. Escreveu clássicos como A Ilha do Tesouro, O Médico e o Monstro e As Aventuras de David Balfour (esta dividida em duas partes, Raptado e Catriona).
Filho de engenheiro civil, era pressionado pelo pai a seguir mesma carreira, mas a saúde debilitada e a fraca inclinação para a área fizeram com que decidisse por uma carreira alternativa.
Em 1866 entrou para a faculdade de Engenharia de Edimburgo. Lá, escreveu durante 1871 e 1872 para o jornal universitário, o Edimburgh University Magazine, revelando seu gosto e talento para a arte e literatura. 
No ano de 1873, após concluir a faculdade, Robert muda-se para a cidade de Londres, Inglaterra, pois sentia-se deslocado no ambiente familiar, marcado por um clima coercitivo e pela inexorável moral e religiosidade puritanas. Em sua curta estadia na cidade, passa a frequentar os salões literários para, algum tempo depois, partir numa longa viagem pela Europa. 
O ano de 1876 é importante na sua vida particular, pois, nesse ano, conhece uma mulher norte-americana dez anos mais velha, Fanny Vandergrift Osbourne, com a qual se casa em 1880, em São Francisco, Estados Unidos. Volta à Inglaterra e traz consigo esposa e um enteado, chamado Samuel Lloyd Osbourne. No ano seguinte é internado na cidade de Davos, Suíça, para tratar sua tuberculose, que há anos o vinha acompanhando. A carreira de engenheiro, jamais exercida, é preterida pela de escritor, que, a partir de 1882, é marcada por uma acentuada proficuidade. 
Conhece a notoriedade artística ao escrever, em 1886, The Strange case of Dr. Jekyll and Mr. Hyde (O Médico e o Monstro), um de seus maiores sucessos literários. Com a morte do pai, em 1887, Stevenson retorna aos Estados Unidos, onde volta a tratar de sua tuberculose. No ano seguinte aventura-se num veleiro em diversos arquipélagos do Pacífico-Sul, junto com a esposa e o enteado. Apaixonado pela paisagem paradisíaca, se estabelece definitivamente em Apia, nas Ilhas Samoa, em 1889. 
Morre prematuramente, em 3 de dezembro de 1894, aos 44 anos, enquanto escrevia sua obra-prima inacabada, Weir of Hermiston, vítima de uma hemorragia cerebral. Encontra-se sepultado em Stevenson Family Estate Grounds, Vailima, Tuamasaga em Samoa. (Fonte: Wikipédia)




"Andar por terras distantes e conversar com diversas pessoas torna os homens ponderados." 

(Miguel Cervantes)


Miguel de Cervantes Saavedra
 

Miguel de Cervantes Saavedra (Alcalá de Henares, 29 de setembro de 1547 — Madrid,  22 de abril de 1616) foi romancista, dramaturgo e poeta castelhano. Sua obra-prima, Dom Quixote, muitas vezes considerado o primeiro romance moderno, é um clássico da literatura ocidental e é regularmente considerado um dos melhores romances já escritos. Seu trabalho é considerado entre os mais importantes em toda a literatura. A sua influência sobre a língua castelhana tem sido tão grande que o castelhano é frequentemente chamado de La lengua de Cervantes (A língua de Cervantes). (Fonte: Wikipédia)


Peder Mørk Mønsted


"Poesia são pensamentos que respiram, e palavras que queimam." 

(Thomas Gray)


Thomas Gray (1716 - 1771)
 

Thomas Gray (Londres, 26 de Dezembro de 1716 — Cambridge, 30 de Julho de 1771), poeta e romancista inglês. Iniciou seus estudos em Eton College e no Colégio São Pedro de Cambridge, onde se tornou amigo dos escritores Horace Walpole e Richard West. Deixou Cambridge em 1738 e acompanhou Walpole muma viagem pelo continente durante o ano seguinte. Juntos, visitaram a França e a Itália, onde se desentenderam e Gray foi para Veneza, retornando à Inglaterra por ocasião da morte de seu pai.
Em 1744 reconciliou-se com Walpole e em 1750 concluiu sua Elegia, obra esta iniciada muitos anos antes. Em 1757, recusou a distinção de poeta laureado. Após a abertura do Museu Inglês, em 1759, Gray passou a morar em Londres para poder estudar as obras expostas. Em 1768, foi nomeado professor de história moderna em Cambridge.
A obra literária de Thomas Gray é pouco volumosa mas a boa qualidade de seus escritos compensa esse fato. A Elegia é a mais popular e, talvez, a melhor de suas obras. (Fonte: Wikipédia)

sábado, 17 de março de 2012

"A tua morte em mim" - Poema de Adolfo Casais Monteiro




A tua morte em mim 
À memória de Raquel Moacir 


A tua morte é sempre nova em mim.
Não amadurece. Não tem fim.
Se ergo os olhos dum livro, de repente
tu morreste.
Acordo, e tu morreste.
Sempre, cada dia, cada instante,
a tua morte é nova em mim,
sempre impossível.

E assim, até à noite final
irás morrendo a cada instante
da vida que ficou fingindo vida.
Redescubro a tua morte como outros
descobrem o amor,
porque em cada lugar, cada momento,
tu estás viva.

Viverei até à hora derradeira a tua morte.
Aos goles, lentos goles. Como se fosse
cada vez um veneno novo.
Não é tanto a saudade que dói, mas o remorso.
O remorso de todo o perdido em nossa vida,
coisas de antes e depois, coisas de nunca,
palavras mudas para sempre, um gesto
que sem remédio jamais teve destino,
o olhar que procura e nunca tem resposta.

O único presente verdadeiro é teres partido. 


Adolfo Casais Monteiro,
in 'O Estrangeiro Definitivo' 

[Adolfo Casais Monteiro morre prematuramente em 1972, com a saúde muito debilitada, depois da morte de Raquel Moacir, com quem vivia, tendo-se separado de Alice Pereira Gomes (irmã de Soeiro Pereira Gomes) depois de estar no Brasil.
(daqui)]


Miranda Lambert - Bring Me Down


sábado, 18 de fevereiro de 2012

"A palavra impossível" - Poema de Adolfo Casais Monteiro


A palavra impossível


Deram-me o silêncio para eu guardar dentro de mim  
A vida que não se troca por palavras.

Deram-mo para eu guardar dentro de mim   
As vozes que só em mim são verdadeiras.

Deram-mo para eu guardar dentro de mim 
A impossível palavra da verdade. 

Deram-me o silêncio como uma palavra impossível, 
Nua e clara como o fulgor duma lâmina invencível,
Para eu guardar dentro de mim, 
Para eu ignorar dentro de mim 
A única palavra sem disfarce
A Palavra que nunca se profere.


Adolfo Casais Monteiro
 (1908 –1972),
in "Noite Aberta aos Quatro Ventos", 1943.
 

Retrato de John William Waterhouse, 1886


John William Waterhouse (6 de abril de 1849 – 10 de fevereiro de 1917) foi um pintor neo-clássico e Pré-rafaelita do Reino Unido, famoso por seus quadros representando personagens femininas da mitologia e da literatura.
Filho de artistas, as suas primeiras incursões na pintura foram influenciadas pelo neoclassicismo vitoriano, pelo pré-rafaelismo e mais tarde sentiu-se atraído pelos impressionistas franceses. 
Se no princípio da carreira se dedicou a temas da Antiguidade Clássica, mas tarde debruçou-se por temas literários, sempre com um estilo suave e misterioso, repleto de romancismo, que o permitem enquadrar no simbolismo.
O seu quadro mais famoso é The Lady of Shalott, um estudo Elaine de Astolat, Este quadro teve três versões: de 1888, 1896 e de 1916.


'Undine', 1872, by John William Waterhouse


'Sleep and his Half brother Death', 1874by John William Waterhouse
 

'The Lady of Shalott', 1888, by John William Waterhouse


'Ophelia', 1889, by John William Waterhouse


'Hylas and the Nymphs', 1896by John William Waterhouse


'The Mermaid', 1901, by John William Waterhouse


'Echo and Narcissus', 1903, by John William Waterhouse


'A Tale from the Decameron', 1916, by John William Waterhouse


'Tristan and Isolde with the potion', 1916, by John William Waterhouse


"Quarenta anos é a velhice dos jovens; cinquenta anos é a juventude dos velhos."

(Victor Hugo)

"Eu falo das casas e dos homens" - Poema de Adolfo Casais Monteiro


Obra de Pablo Picasso, Guernica, 1937



Eu falo das casas e dos homens


Eu falo das casas e dos homens, 
dos vivos e dos mortos: 
do que passa e não volta nunca mais... 
Não me venham dizer que estava materialmente 
previsto, 
ah, não me venham com teorias! 
Eu vejo a desolação e a fome, 
as angústias sem nome, 
os pavores marcados para sempre nas faces trágicas 
das vítimas. 

E sei que vejo, sei que imagino apenas uma ínfima, 
uma insignificante parcela da tragédia. 
Eu, se visse, não acreditava. 
Se visse, dava em louco ou profeta, 
dava em chefe de bandidos, em salteador de estrada, 
- mas não acreditava! 

Olho os homens, as casas e os bichos. 
Olho num pasmo sem limites, 
e fico sem palavras, 
na dor de serem homens que fizeram tudo isto: 
esta pasta ensanguentada a que reduziram a terra inteira, 
esta lama de sangue e alma, 
de coisa a ser, 
e pergunto numa angústia se ainda haverá alguma esperança, 
se o ódio sequer servirá para alguma coisa... 

Deixai-me chorar - e chorai! 
As lágrimas lavarão ao menos a vergonha de estarmos vivos, 
de termos sancionado com o nosso silêncio o crime feito instituição
e enquanto chorarmos talvez julguemos nosso o drama, 
por momentos será nosso um pouco do sofrimento alheio, 
por um segundo seremos os mortos e os torturados, 
os aleijados para toda a vida, os loucos e os encarcerados, 
seremos a terra podre de tanto cadáver, 
seremos o sangue das árvores, 
o ventre doloroso das casas saqueadas, 
- sim, por um momento seremos a dor de tudo isto... 

Eu não sei porque me caem as lágrimas, 
porque tremo e que arrepio corre dentro de mim, 
eu que não tenho parentes nem amigos na guerra, 
eu que sou estrangeiro diante de tudo isto, 
eu que estou na minha casa sossegada, 
eu que não tenho guerra à porta, 
- eu porque tremo e soluço? 
Quem chora em mim, dizei - quem chora em nós? 

Tudo aqui vai como um rio farto de conhecer os seus meandros: 
as ruas são ruas com gente e automóveis, 
não há sereias a gritar pavores irreprimíveis, 
e a miséria é a mesma miséria que já havia... 
E se tudo é igual aos dias antigos, 
apesar da Europa à nossa volta, exangue e mártir, 
eu pergunto se não estaremos a sonhar que somos gente, 
sem irmãos nem consciência, aqui enterrados vivos, 
sem nada senão lágrimas que vêm tarde, e uma noite à volta, 
uma noite em que nunca chega o alvor da madrugada...


Adolfo Casais Monteiro


Adolfo Casais Monteiro


Adolfo Casais Monteiro (Porto, 4 de Julho de 1908 - São Paulo, 23 de Julho de 1972) foi um poeta, ficcionista, crítico literário e ensaísta português.
Formou-se em Ciências Histórico-Filosóficas na antiga Faculdade de Letras do Porto, onde foi colega de Agostinho da Silva e Delfim Santos e teve como mestre Leonardo Coimbra, a quem viria a associar-se com Sant'Ana Dionísio, na direção de A Águia.
O seu nome encontra-se vinculado, porém, à história da revista Presença, cuja direção integrou, ao lado de José Régio e João Gaspar Simões, a partir de 1931, e em cujas edições publicou as suas primeiras coletâneas poéticas (Confusão, 1929; Poemas do Tempo Incerto, 1934; Sempre e Sem Fim, 1936). Forçado a abandonar o ensino em 1937, pelo regime político da época, colaborou em inúmeras publicações periódicas; dirigiu, com António Pedro, o Mundo Literário (1946-47); e desenvolveu, até 1954, data do seu exílio no Brasil, uma intensa atividade como editor e como tradutor (traduziu Baudelaire, Charlotte Bronte, Caldwell, Alexis Carrel, George Eliot, Hemingway, Philippe Hériat, Kierkegaard, Jules Lachelier, Robert Margerit, Stendhal, Tolstoi, Henri Troyat).
No Brasil, como professor universitário, continuou uma importante carreira como ensaísta, de que se destacam, entre outros objetos, dois polos mais significativos: por um lado, a divulgação e atento estudo da estética de Fernando Pessoa, cuja primeira edição da obra poética organizara com José Régio e João Gaspar Simões; e, por outro, a reflexão e teorização sobre o alcance do movimento da Presença. 
Na poesia, Adolfo Casais Monteiro foi, segundo Fernando J. B. Martinho (cf. Pessoa e a Moderna Poesia Portuguesa - do Orpheu a 1960 -, Lisboa, ICALP, 1983, pp. 65-67), "não só dos mais tocados pela sombra de Pessoa, como também um dos poucos que soube, na sua geração, assimilar e ampliar o vetor vanguardista do primeiro modernismo"
Essa modernidade poética, para que concorreram a influência de Pessoa - Caeiro, na defesa do versilibrismo e da libertação rítmica do verso, bem como a rutura com um lirismo tradicional, pela entrada, na poesia, de um mundo convencionalmente não poético, constitui simultaneamente uma aquisição fundamental para poetas de gerações posteriores à Presença, nomeadamente os que integrarão os núcleos de escritores com quem conviverá nas páginas de publicações diversas, como Cadernos de Poesia (1940), Aventura (1942-43), Notícias do Bloqueio (1957-1961) ou Cadernos do Meio-Dia (1958-1960).
Tal como Agostinho da Silva ou Jorge de Sena, acabaria por partir para o exílio no Brasil em 1954, dado o seu estatuto de opositor ao regime de Salazar, o qual não se adequavam à sua maneira de ser.
Dois anos depois do seu falecimento, foi instituído, com o patrocínio da Associação Portuguesa de Escritores, o Prémio Literário de Poesia Adolfo Casais Monteiro. (Fonte: wikipédia)


Pablo Picasso, Retrato de Jacqueline Roque com as mãos cruzadas, 1954


"Não, a pintura não está feita para decorar apartamentos. Ela é uma arma de ataque e defesa contra o inimigo."

Pablo Picasso, sobre "Guernica"

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

"Na idade dos porquês" - Poema de Alice Gomes


Harold N. Anderson (American, 1894–1973), Young boy studying, c. 1950.


Na idade dos porquês


Professor diz-me porquê?
Por que voa o papagaio
que solto no ar
que vejo voar
tão alto no vento
que o meu pensamento
não pode alcançar?

Professor diz-me porquê?
Por que roda o meu pião?
Ele não tem nenhuma roda
E roda gira rodopia
e cai morto no chão...

Tenho nove anos professor
e há tanto mistério à minha roda
que eu queria desvendar!
Por que é que o céu é azul?
Por que é que marulha o mar?
Porquê?
Tanto porquê que eu queria saber!
E tu que não me queres responder!

Tu falas falas professor
daquilo que te interessa
e que a mim não interessa.
Tu obrigas-me a ouvir
quando eu quero falar.
Obrigas-me a dizer
quando eu quero escutar.
Se eu vou a descobrir
Fazes-me decorar.

É a luta professor
a luta em vez de amor.

Eu sou uma criança.
Tu és mais alto
mais forte
mais poderoso.
E a minha lança
quebra-se de encontro à tua muralha.

Mas
enquanto a tua voz zangada ralha
tu sabes professor
eu fecho-me por dentro
faço uma cara resignada
e finjo
finjo que não penso em nada.

Mas penso.
Penso em como era engraçada
aquela rã
que esta manhã ouvi coaxar.
Que graça que tinha
aquela andorinha
que ontem à tarde vi passar!...

E quando tu depois vens definir
o que são conjunções
e preposições...
quando me fazes repetir
que os corações
têm duas aurículas e dois ventrículos
e tantas
tanta mais definições...
o meu coração
o meu coração que não sei como é feito
nem quero saber
cresce
cresce dentro do peito
a querer saltar cá para fora
professor
a ver se tu assim compreenderias
e me farias
mais belos os dias.


Alice Gomes (1946)  


Alice Gomes

Alice Gomes, nascida em 1910, em Tabuaço, e falecida em Lisboa, em 1983, era irmã de Soeiro Pereira Gomes e foi casada com Adolfo Casais Monteiro.
Escritora, pedagoga, conferencista e dramaturga, Alice Gomes foi uma mulher de ação, que deixou publicados vários contos, poesias, traduções, ensaios e outros tantos por publicar. 
De toda a sua experiência de convívio e estudo da criança resulta uma obra diversificada onde a formação de pedagoga se associa à imaginação e ao humor. É com subtileza que procura incutir princípios que dignificam o futuro das crianças e é também com alegria que os procura atrair para a leitura, de modo a que não percam o gosto e a necessidade de ler. 
Em estilo dialogante e comunicativo conta histórias do real retocado pelo maravilhoso ou pelo sonho em o Vidrinho de Cheiro e Contos Risonhos, para logo em os Ratos e o Trovador enveredar pelo teatralização da lenda do flautista de Hamlim. A Lenda das Amendoeiras e Nau Catrineta são duas outras peças teatrais de Alice Gomes. Poesia Para a infância (1955) é uma antologia de poesia portuguesa e brasileira. Outras das suas obras dedicadas à poesia são Poesia de infância (1966) e Bichinho poeta (1970), livro de poemas que ocupa um lugar destacado na obra desta escritora que foi elemento proeminente de várias actividades ligadas à criança.
Traduziu para português Le Petit Prince (O Principezinho) de Saint-Exupéry. As reflexões que deixou expressas em Aprender sorrindo e Literatura para a Infância, 1979, demonstram a sua contínua atividade de escritora e divulgadora de literatura infantil. 
Alice Gomes não se considerava escritora, conforme escreve na introdução de Pensamento da Poesia e Prosa da Vida (1989) “(…) gostaria de avisar que não sou escritora, mas apenas representa a fuga do meu espírito em dias de solidão…”.




Pensamentos


"Eis o que é terrível, ainda mais que o sofrimento e a morte dos animais. É o facto de o homem, sem necessidade, suprimir a suprema susceptibilidade espiritual de sentir compaixão e piedade para com os seres vivos como ele. É o facto do homem se tornar cruel violando as leis da Natureza matando para comer." - Leon Tolstoi 
 



"Os animais que você come não são aqueles que devoram outros, você não come as bestas carnívoras, você as toma como padrão. Você só sente fome pelas criaturas doces e gentis que não ferem ninguém, que o seguem, o servem, e que são devoradas por você como recompensa de seus serviços." -
Jean Jacques Rousseau