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segunda-feira, 29 de março de 2021

"Dorme ruazinha" - Soneto de Mário Quintana

 
Joseph Wright of Derby (Derby, 1734–1797), Bridge through a Cavern, Moonlight, 1791
 


Dorme, ruazinha


Dorme, ruazinha… É tudo escuro…
E os meus passos, quem é que pode ouvi-los?
Dorme teu sono sossegado e puro,
Com teus lampiões, com teus jardins tranquilos…

Dorme… Não há ladrões, eu te asseguro…
Nem guardas para acaso persegui-los…
Na noite alta, como sobre um muro,
As estrelinhas cantam como grilos…

O vento está dormindo na calçada,
O vento enovelou-se como um cão…
Dorme, ruazinha… Não há nada…

Só os meus passos… Mas tão leves são,
Que até parecem, pela madrugada,
Os da minha futura assombração…


Mário Quintana
in 'A Rua dos Cataventos', 1940



Joseph Wright of Derby, Self-Portrait, c. 1780


Os grilos

Eles cantam a noite inteira!
Não sabias?
Os grilos são os poetas mortos…
 
 
(Haicai / Haiku)

terça-feira, 2 de maio de 2017

"O Segredo" - Poema de Lêdo Ivo


Joseph Wright (1734-1797), Matlock Tor by Moonlight, 1777–1780



O Segredo


Deus não sabe os meus segredos. 
As paredes sem ouvidos não escutam 
a confidência interminável. 
O que perco, ninguém sabe. Dissolve-se em mim, 
luminária secreta, sílaba que os lábios não ousam murmurar 
diante de teu corpo no escuro, 
constelação. 

E o sobejo de mim, último raio de sol, 
fulge no deserto. E nos penhascos 
ressoa 
constelado 
o meu grito de amor. 


 in 'A Noite Misteriosa'


quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

"Romance" - Poema de José Santiago Naud




Romance

Fruto de solidão 
preso à fronde do vento, 
lua, tu nos dás 
a medida do eterno, 
essa altura que jogas 
contra o espaço celeste 
em nós refere a terra, 
que em nossa ânsia integras. 
E ao nosso amor integras 
tudo o que não sofremos, 
tudo o que não tivemos 
e apenas pressentimos, 
em tua marcha sentimos 
tudo o que não teremos 
e tudo o que já viveram 
corações noutros tempos. 
Flanco de solidão, 
maçã casta e sensual 
presa ao ramo oscilante 
entre a alma e o carnal, 
em ti, suprema altura, 
os olhos vão reunindo 
as trilhas do abandono 
e alguns ecos da infância. 

Pata branca de touro 
extraviada no azul. 


in 'Antologia Poética' 

domingo, 23 de agosto de 2015

"Quem poderá calcular a órbita da sua própria alma?" - Texto de Oscar Wilde


 

«As pessoas cujo desejo é unicamente a auto-realização, nunca sabem para onde se dirigem. Não podem saber. Numa das acepções da palavra, é obviamente necessário, como o oráculo grego afirmava, conhecermo-nos a nós próprios. É a primeira realização do conhecimento. Mas reconhecer que a alma de um homem é incognoscível é a maior proeza da sabedoria. O derradeiro mistério somos nós próprios. Depois de termos pesado o Sol e medido os passos da Lua e delineado minuciosamente os sete céus, estrela a estrela, restamos ainda nós próprios. Quem poderá calcular a órbita da sua própria alma?»

Oscar Wilde, in 'De Profundis' 


"Nos dias de hoje existem professores de filosofia, mas não filósofos."
 
"There are nowadays professors of philosophy, but not philosophers." 

Henry David Thoreau, Walden, Volume 1, - Página 25,
Houghton, Mifflin, 1854 - 357 páginas