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segunda-feira, 5 de setembro de 2016

"Medo de Casar" - Texto de Franz Kafka


Sir Frank Dicksee (English Victorian painter and illustrator, 1853-1928), An Offering
 

Resumo de todos os argumentos a favor e contra o meu casamento: 

1. Incapacidade de suportar a vida sozinho, o que não implica incapacidade de viver, pelo contrário; até é improvável que eu saiba viver com alguém, mas sozinho não consigo aguentar o assalto da minha própria vida, as exigências da minha pessoa, os ataques do tempo e da idade, a vaga pressão do desejo de escrever, a insónia, a proximidade da loucura — não consigo aguentar isto só. É claro que junto «talvez» a tudo isto. A relação com F. vai dar à minha existência mais força para resistir. 

2. Tudo me faz imediatamente pensar. Todas as piadas no jornal humorístico, o que me lembro de Flaubert e de Grillparzer, as camisas de noite nas camas dos meus pais, ali postas para a noite, o casamento de Max. Ontem a minha irmã disse: «Todas as pessoas casadas (as pessoas que conhecemos) são felizes. Não percebo», esta afirmação também me fez pensar, fiquei outra vez com medo. 

3. Tenho de estar só muito tempo. O que consegui fazer foi apenas o resultado de estar só.

4. Odeio tudo o que não se relacione com a literatura, as conversas aborrecem-me (mesmo quando são sobre literatura), fazer visitas aborrece-me, as mágoas e as alegrias das pessoas da minha família aborrecem-me até ao fundo da alma. As conversas, a importância, a seriedade, a verdade de tudo o que penso. 

5. O medo da relação, o passar para o outro. Então nunca mais fico só. 

6. Antigamente a pessoa que sou na companhia das minhas irmãs era diferente da pessoa que sou na companhia de outras pessoas. Sem medo, poderoso, surpreendente, sensível como só sou quando escrevo. Se pela mediação da minha mulher eu pudesse ser assim em frente de toda a gente! Mas não seria então à custa do que escrevo? Isso não, isso não! 

7. Só, eu talvez pudesse um dia desistir do meu emprego. Casado, isso nunca seria possível. 
 

Franz Kafka, in 'Diário (21 Jul 1913)'


Aurea - I Didn't Mean It (Official Music Video)


"Voltar a casar-se é o triunfo da esperança sobre a experiência."



quinta-feira, 5 de maio de 2016

"A Casa" - Poema de Olavo Bilac


Sir Frank Dicksee (English Victorian painter and illustrator, 1853-1928), The House Builders, 1880, 
a painting portraying Sir W.E. Welby-Gregory and The Hon. Lady Welby-Gregory
 


A Casa


Vê como as aves têm, debaixo d’asa,
O filho implume, no calor do ninho!...
Deves amar, criança, a tua casa!
Ama o calor do maternal carinho!

Dentro da casa em que nasceste és tudo...
Como tudo é feliz, no fim do dia,
Quando voltas das aulas e do estudo!
Volta, quando tu voltas, a alegria!

Aqui deves entrar como num templo,
Com a alma pura, e o coração sem susto:
Aqui recebes da Virtude o exemplo,
Aqui aprendes a ser meigo e justo.

Ama esta casa! Pede a Deus que a guarde,
Pede a Deus que a proteja eternamente!
Porque talvez, em lágrimas, mais tarde,
Te vejas, triste, d’esta casa ausente...

E, já homem, já velho e fatigado,
Te lembrarás da casa que perdeste,
E hás de chorar, lembrando o teu passado...
— Ama, criança, a casa em que nasceste!



domingo, 3 de abril de 2016

"Recado" - Poema de Glória de Sant'Anna


  Sir Frank Dicksee (English Victorian painter and illustrator, 1853-1928)The Crisis, 1891



Recado


Se eu morrer longe
sepulta-me no mar
dentro das algas ignorantes
e lúcidas.

Cobre o meu rosto de palavras
antigas
e de música.

Deixa em meus dedos
a memória mais recente
de outras coisas inúmeras

e nos meus cabelos
o incerto movimento
do vento e da chuva.

Eu vogarei sob as estrelas
com pálidas luzes entre os cílios
e pequenos caramujos
entrarão nos meus ouvidos.

Estarei assim idêntica
a todos os motivos.


Glória de Sant'Anna,
in 'Música Ausente'


terça-feira, 20 de março de 2012

"O Palácio da Ventura" - Poema de Antero de Quental


"La Belle Dame sans Merci" ("A Bela Dama Impiedosa") é uma balada escrita pelo poeta inglês John Keats.



O Palácio da Ventura 


Sonho que sou um cavaleiro andante. 
Por desertos, por sóis, por noite escura, 
Paladino do amor, busco anelante 
O palácio encantado da Ventura! 

Mas já desmaio, exausto e vacilante, 
Quebrada a espada já, rota a armadura... 
E eis que súbito o avisto, fulgurante 
Na sua pompa e aérea formosura! 

Com grandes golpes bato à porta e brado: 
Eu sou o Vagabundo, o Deserdado... 
Abri-vos, portas de ouro, ante meus ais! 

Abrem-se as portas d'ouro com fragor... 
Mas dentro encontro só, cheio de dor, 
Silêncio e escuridão - e nada mais! 


Antero de Quental, in "Sonetos" 



Pinturas de Frank Dicksee 

Sir Francis Bernard Dicksee (27 de novembro de 1853 - 17 de Outubro de 1928) foi um Inglês Vitoriano, pintor e ilustrador, mais conhecido por suas imagens de cenas dramáticas históricos e lendárias. Era também um pintor notável de retratos de mulheres elegantes.















Frank Dicksee