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sexta-feira, 4 de julho de 2025

"Flor da Mocidade" - Poema de Machado de Assis

  
  
Albert Chevallier Tayler (English artist, 1862-1925), Going to the well, 1884.



Flor da Mocidade 


Eu conheço a mais bela flor;
És tu, rosa da mocidade,
Nascida, aberta para o amor.
Eu conheço a mais bela flor.
Tem do céu a serena cor,
E o perfume da virgindade.
Eu conheço a mais bela flor,
És tu, rosa da mocidade.

Vive às vezes na solidão,
Como filha da brisa agreste.
Teme acaso indiscreta mão;
Vive às vezes na solidão.
Poupa a raiva do furacão
Suas folhas de azul celeste.
Vive às vezes na solidão,
Como filha da brisa agreste.

Colhe-se antes que venha o mal,
Colhe-se antes que chegue o inverno;
Que a flor morta já nada val.
Colhe-se antes que venha o mal.
Quando a terra é mais jovial
Todo o bem nos parece eterno.
Colhe-se antes que venha o mal,
Colhe-se antes que chegue o inverno.


Machado de Assis, in 'Falenas', 1870. 

 

quinta-feira, 10 de abril de 2025

"Fuga" - Poema de Péricles Eugênio da Silva Ramos

 

Albert Chevallier Tayler (English painter, 1862–1925), Girl looking out to sea, 1918.
 
 

Fuga


Penso nos dias de outrora:
risos, domingos. E neles
teu perfil e teus castelos,
tuas histórias e viagens.

Não me quiseste. Partiste.
Pedra eu era. Desejavas
os rios que têm o céu
e fuga nas suas águas:
contudo não me soubeste.

Pedra sou. Porém minha alma
revoa e estruge nas vagas,
e meu canto é a voz do vento
que percorre os sete mares.

Não me soubeste, ó das asas!
Não tentaste conhecer-me,
ainda mesmo se acordada,
ainda mesmo se dormindo.

E eras bela. E tinhas flama.
E era o mar, sendo praia.
Não me soubeste. Partiste.
Mas te sonho. Agora e sempre.


Péricles Eugênio da Silva Ramos

 

quarta-feira, 1 de junho de 2022

"Olha-me rindo uma criança" - Poema de Fernando Pessoa


Albert Chevallier Tayler (English painter, 1862–1925), Mirror, 1914.



Olha-me rindo uma criança


Olha-me rindo uma criança
E a minha alma madrugou.
Tenho razão, tenho esperança
Tenho o que nunca me bastou.

Bem sei. Tudo isto é um sorriso
Que é nem sequer sorriso meu.
Mas para meu não o preciso
Basta-me ser de quem mo deu.

Breve momento em que um olhar
Sorriu ao certo para mim…
És a memória de um lugar,
Onde já fui feliz assim.


Fernando Pessoa
,
in Poesia 1918-1930, Assírio & Alvim,
ed.
Manuela Parreira da Silva, Ana Maria de Freitas, Madalena Dine, 2005
Coleção: Obras de Fernando Pessoa

 

sábado, 29 de agosto de 2020

"O Amor bate na aorta" - Poema de Carlos Drummond de Andrade


Albert Chevallier Tayler (English artist, 1862-1925), A Dress Rehearsal, 1888.
  Lady Lever Art Gallery.


O Amor bate na aorta



Cantiga do amor sem eira
nem beira,
vira o mundo de cabeça
para baixo,
suspende a saia das mulheres,
tira os óculos dos homens,
o amor, seja como for,
é o amor.

Meu bem, não chores,
hoje tem filme de Carlito!

O amor bate na porta
o amor bate na aorta,
fui abrir e me constipei.
Cardíaco e melancólico,
o amor ronca na horta
entre pés de laranjeira
entre uvas meio verdes
e desejos já maduros.

Entre uvas meio verdes,
meu amor, não te atormentes.
Certos ácidos adoçam
a boca murcha dos velhos
e quando os dentes não mordem
e quando os braços não prendem
o amor faz uma cócega
o amor desenha uma curva
propõe uma geometria.

Amor é bicho instruído.

Olha: o amor pulou o muro
o amor subiu na árvore
em tempo de se estrepar.
Pronto, o amor se estrepou.
Daqui estou vendo o sangue
que escorre do corpo andrógino.
Essa ferida, meu bem,
às vezes não sara nunca
às vezes sara amanhã.

Daqui estou vendo o amor
irritado, desapontado,
mas também vejo outras coisas:
vejo corpos, vejo almas
vejo beijos que se beijam
ouço mãos que se conversam
e que viajam sem mapa.
Vejo muitas outras coisas
que não ouso compreender...


Carlos Drummond de Andrade
,
 in Brejo das Almas
 

quarta-feira, 7 de junho de 2017

"Canção Póstuma" - Poema de Cecília Meireles


Albert Chevallier Tayler (English artist, 1862-1925), "Not Lost but Gone Before", 1886.
 


Canção Póstuma 


Fiz uma canção para dar-te; 
porém tu já estavas morrendo. 
A Morte é um poderoso vento. 
E é um suspiro tão tímido, a Arte... 

É um suspiro tímido e breve 
como o da respiração diária. 
Choro de pomba. E a Morte é uma águia 
cujo grito ninguém descreve. 

Vim cantar-te a canção do mundo, 
mas estás de ouvidos fechados 
para os meus lábios inexatos, 
— atento a um canto mais profundo. 

E estou como alguém que chegasse 
ao centro do mar, comparando 
aquele universo de pranto 
com a lágrima da sua face. 

E agora fecho grandes portas 
sobre a canção que chegou tarde. 
E sofro sem saber de que Arte 
se ocupam as pessoas mortas. 

Por isso é tão desesperada 
a pequena, humana cantiga. 
Talvez dure mais do que a vida. 
Mas à Morte não diz mais nada. 


Cecília Meirelesin 'Retrato Natural'
 

domingo, 21 de maio de 2017

"Olimpíadas" - Texto de Álvaro de Campos




Olimpíadas

      
       O sport é a inteligência inútil manifestada nos movimentos do corpo. O que o paradoxo alegra no contágio das almas, o sport aligeira na demonstração dos bonecos delas. A beleza existe, verdadeiramente, só nos altos pensamentos, nas grandes emoções, nas vontades conseguidas. No sport - ludo, jogo, brincadeira - o que existe é supérfluo, como o que o gato faz antes de comer o rato que lhe há de escapar. Ninguém pensa a sério no resultado, e, enquanto dura o que desaparece, existe o que não dura. Há uma certa beleza nisso, como no dominó, e, quando o acaso proporciona o jogo acertado, a maravilha entesoura o corpo encostado do vencedor. Fica, no fim, e sempre virado para o inútil, o inconseguido do jogo. Pueri ludunt, como no primário do latim... 
       Ao sol brilham, no seu breve movimento de glória espúria, os corpos juvenis que envelhecerão, os trajetos que, com o existirem, deixaram já de existir. Entardece no que vemos, como no que vimos. A Grécia antiga não nos afaga senão intelectualmente. Ditosos os que naufragam no sacrifício da posse. São comuns e verdadeiros. O sol das arenas faz suar os gestos dos outros. Os poetas cantam-nos antes que desça todo o sol. São todos peixes num aquário cuidado de além do vidro pela inteligência que lhes não toca. E a beleza deles, como a de tudo, é isto um movimento por detrás de um vidro, um brilho de corpo dogmatizado por uma clausura. 


(Heterónimo de Fernando Pessoa)
in 'Espólio de Fernando Pessoa'


quinta-feira, 11 de maio de 2017

"Todos os dias" - Poema de Saúl Dias (Pseudónimo de Júlio Maria dos Reis Pereira)


Albert Chevallier Tayler (English artist, 1862-1925), St Francis, 1898.



Todos os dias


Todos os dias 
nascem pequeninas nuvens, 
róseas umas, 
aniladas outras, 
nacaradas espumas... 

Todos os dias 
nascem rosas, 
também róseas 
ou cor de chá, de veludo... 

Todos os dias 
nascem violetas, 
as eleitas 
dos pobres corações... 

Todos os dias 
nascem risos, canções... 

Todos os dias 
os pássaros acordam 
nos seus ninhos de lãs... 

Todos os dias 
nascem novos dias, 
nascem novas manhãs... 


Saúl Dias, in "Essência"
(Pseudónimo de Júlio Maria dos Reis Pereira)


domingo, 16 de abril de 2017

"Tarde com sol" - Poema de Nuno Júdice


Albert Chevallier Tayler (English artist, 1862-1925), The Thames at Benson, 1912.


Tarde com sol 


As coisas simples dizem-se depressa; tão depressa
que nem conseguimos que as ouçam. As coisas
simples murmuram-se; um murmúrio
tão baixo que não chega aos ouvidos de ninguém.

As coisas simples escorrem pela prateleira
da loja; tão ao de leve que ninguém
as compra. As coisas simples flutuam com
o vento; tão alto, que não se vêm. 

São assim as coisas simples: tão simples
como o sol que bate nos teus olhos, para
que os feches, e as coisas simples passem
como sombra sobre as tuas pálpebras. 



Albert Chevallier TaylerA Day at the Market, 1887, Oil on canvas.


"Se os teus projetos forem para um ano, semeia o grão. Se forem para dez anos, planta uma árvore. Se forem para cem anos, educa o povo." 

(Provérbio chinês)

sábado, 25 de março de 2017

"Como te amo?" - Poema de Elizabeth Barrett Browning


The Anniversary: "I love thee to the level of everyday's most quiet need", 1909. 


Como te amo?

Soneto XLIII

Amo-te quanto em largo, alto e profundo
Minh'alma alcança quando, transportada,
Sente, alongando os olhos deste mundo,
Os fins do Ser, a Graça entressonhada.

Amo-te em cada dia, hora e segundo:
À luz do sol, na noite sossegada.
E é tão pura a paixão de que me inundo
Quanto o pudor dos que não pedem nada.

Amo-te com o doer das velhas penas;
Com sorrisos, com lágrimas de prece,
E a fé da minha infância, ingénua e forte.

Amo-te até nas coisas mais pequenas.
Por toda a vida. E, assim Deus o quisesse,
Ainda mais te amarei depois da morte.


Tradução de Manuel Bandeira


domingo, 19 de março de 2017

"Elogio da vida monástica" - Poema de Jorge de Sena



Albert Chevallier Tayler (English artist, 1862-1925), The Grey Drawing Room, 1917


Elogio da vida monástica


Outrora, uma pessoa retirava-se do mundo,
amortalhava-se em vida, fazia-se monge,
ou porque a vida lhe dera tudo e a agonia sobrevinha,
ou porque desistia de lutar com ela pelo que não vinha nunca
(nem mesmo sob a forma de agonia que facilitasse as coisas).
Depois, porque o espírito precisa de ocupar-se,
a pessoa tratava de salvar a própria alma,
de mortificar o corpo, e preparava-se para a morte
(um acidente para que só pelo acaso feliz de ter nascido,
uma pessoa, naquele tempo sem recurso algum,
estava, por estar viva, sempre preparada).
Era uma aposentadoria honrosa, olhada com respeito,
e que não podia deixar de encher a solidão
como gente e amor não tinham preenchido a vida.
Era um estar só, rodeado de calor humano,
sem os inconvenientes e a incomodidade
que o convívio humano traz consigo,
desde os sentimentos a mais aos sentidos a menos,
ou ao facto lamentável de quem amamos não cheirar
como quereríamos: a um misto de rosas e de sexo,
com alguma imaginação de como o amor cheira.

Hoje, não há mais mundo
de que uma pessoa possa retirar-se.
O mundo se retirou de nós. E a solidão
é como um convento gigantesco em que,
na rua, nos transportes coletivos, na cama,
olhamos a vizinhança com a mesma convicção
com que os carmelitas descalços ao cruzarem-se no claustro
mutuamente se saudavam dizendo
que era preciso morrer.
Na dor, na alegria, no prazer, em tudo,
somos monges laicos cuja morte sobrevém
de uma qualquer maneira estúpida e sem graça.
E o nosso olhar de espanto não é o de termos sido
colhidos de surpresa antes de estar salva a alma,
mas o de ela estar salva, desde que o mundo
se retirou de nós. É o olhar de espanto do funcionário público
que descobre, ao contarem-lhe o tempo de aposentadoria,
que nunca figurara na folha de pagamento,
nem no quadro dos funcionários efetivos,
ou mesmo sequer nas listas do comissariado
do desemprego. Não tem direito sequer
à agonia que todavia sente como antigamente
era sentida a que justificava tudo:
o prazer de decidir entre duas coisas:
o ir ou o ficar, o estar ou o partir,
O ter-se uma alma que jogar e perder.


40 Anos de Servidão, edições 70, 1989


sexta-feira, 17 de março de 2017

"Que este amor não me cegue nem me siga" - Poema de Hilda Hilst



Albert Chevallier Tayler (English artist, 1862-1925), The Quiet Hour, 1913
 


Que este amor não me cegue nem me siga


Que este amor não me cegue nem me siga.
E de mim mesma nunca se aperceba.
Que me exclua de estar sendo perseguida
E do tormento
De só por ele me saber estar sendo.
Que o olhar não se perca nas tulipas
Pois formas tão perfeitas de beleza
Vêm do fulgor das trevas.
E o meu Senhor habita o rutilante escuro
De um suposto de heras em alto muro.

Que este amor só me faça descontente
E farta de fadigas. E de fragilidades tantas
Eu me faça mais pequena. E diminuta e tenra
Como só soem ser aranhas e formigas.

Que este amor só me veja de partida.



in 'Cantares do Sem-Nome e de Partidas' 


terça-feira, 19 de abril de 2016

"Elas" - Poema de Maria Teresa Horta


 
Albert Chevallier Tayler (English artist, 1862-1925), Women Arranging Flowers, 1906.



ELAS 


Elas 
Iludem as escurezas
dos rostos
a negrura das nódoas
do corpo

desatam os nós que lhes
atardam, atam e algemam
a alma e os pulsos

Conversam entre si
coisas de enredo
lançam Luz nos recantos
das vagas

Trocam receitas de venenos
murmuram palavras escusas
desejos inolvidáveis

‘Oh, que dureza ruim!
Ataduras e debruns
missanga de muita estrela

Cassiopeia, raízes
sangrantes
das próprias veias’

Elas 
inventam a mata
na clareira assombrada
embrenhadas na vigília

Recriam, criam, dominam

Viram pombas, profetizas
com uma alvura de cera
pálidas rosas da China

‘Oh, tormenta amendoada
solidões desirmanadas
enquanto de madrugada

Cavam, enterram, devassam
pespontando com o riso
as dobras do calamento’

Elas 
bradam, elas buscam
sibilas e amazonas
emudecem as camélias
e as roseiras nervosas

Feiticeiras ardilosas
filhas da harmonia
partilham as tempestades

Derrubam, suturam, fiam

‘Oh doçuras sigilosas
no aço do destempero
de incêndios e desesperos

Virados pelo avesso
a paixão e a razão
entre si tão divididas’

Elas
recusam, derrubam
dominam as próprias vidas
com a sua inteligência

Tornam-se donas do tempo
a semearem agruras
pelos meandros do vento.


Março de 2016


sexta-feira, 8 de abril de 2016

"Morena"- Poema de Guerra Junqueiro



Albert Chevallier Tayler (English artist, 1862-1925), Girl Shelling Peas, 1886. 



Morena

 
Não negues, confessa
Que tens certa pena
Que as mais raparigas
Te chamem morena.

Pois eu não gostava,
Parece-me a mim,
De ver o teu rosto
Da cor do jasmim.

Eu não... mas enfim
É fraca a razão,
Pois pouco te importa
Que eu goste ou que não.

Mas olha as violetas
Que, sendo umas pretas,
O cheiro que têm!
Vê lá que seria,
Se Deus as fizesse
Morenas também!

Tu és a mais rara
De todas as rosas;
E as coisas mais raras
São mais preciosas.

Há rosas dobradas
E há-as singelas;
Mas são todas elas
Azuis, amarelas,
De cor de açucenas,
De muita outra cor;
Mas rosas morenas,
Só tu, linda flor.

E olha que foram
Morenas e bem
As moças mais lindas
De Jerusalém.
E a Virgem Maria
Não sei... mas seria
Morena também.

Moreno era Cristo.
Vê lá depois disto
Se ainda tens pena
Que as mais raparigas
Te chamem morena! 


Guerra Junqueiro,
in 'A Musa em Férias'



Interpretação do tema "Morena"

sábado, 22 de dezembro de 2012

"É Natal" - Poema de Eugénio de Andrade



Albert Chevallier Tayler (English artist, 1862–1925), The Christmas Tree, 1911.
 Private collection


É Natal 

É Natal, nunca estive tão só.
Nem sequer neva como nos versos
do Pessoa ou nos bosques
da Nova Inglaterra.
Deixo os olhos correr
entre o fulgor dos cravos
e os dióspiros ardendo na sombra.
Quem tem assim o verão
dentro de casa
não devia queixar-se de estar só,
não devia.


Eugénio de Andrade, in "Rente ao Dizer", 1992.
 


Viggo Johansen (Danish painter, 1851-1935), Happy Christmas, 1891.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

"Eternamente" - Conto de Miguel Sousa Tavares



Albert Chevallier Tayler (English artist, 1862-1925), The Upper Thames, 1913


Eternamente 


"E escrevi o teu nome e o teu número de telefone numa página da agenda do mês de Fevereiro. E, ao escrevê-lo, sabia que era uma despedida, mas todo o mês de Março nos arrastamos na despedida, como caranguejos na maré vazia. Sem ti, lancei outras raízes, construí pátios e terraços, fontes cujo som deveria apagar todos os silêncios, plantei um pomar com cheiro a damasco, mandei fazer um banco de cal à roda de uma árvore para olhar as estrelas do céu, um caminho no meio do olival por onde o luar pousaria à noite, abóbadas de tijolo imaginadas pelo mais sábio dos arquitetos e até teias de aranha suspensas no teto, como se vigiassem a passagem do tempo. Nada disso tu viste, nada te contei, nada é teu. Sozinhos, eu e a aranha pendurada na sua teia, contemplamos-nos longamente, como quem se descobre, como quem se recolhe, como quem se esconde. Foi assim que vi desfilar os anos, as paredes escurecendo, um pó de tijolo pousando entre as páginas dos mesmos livros que fui lendo, repetidamente. Heathcliff e Catarina Linton destroçados outra vez pela minúcia do tempo.
Como explicar-te como tudo isto se te tornou alheio, como tudo te pareceria agora estranho, como nada do que foi teu vigia o teu hipotético regresso? Ulisses não voltará a Ítaca e Penélope alguma desfará de noite a teia que te teceste.
E arranquei a página da agenda com o teu nome e o teu número de telefone. Veio a seguir Abril e depois o Verão. Vi nascer a flor da tremocilha e das buganvílias adormecidas, vi rebentar o azul dos jacarandás em Junho, vi noites de lua cheia em que todos os animais noturnos se chamavam rãs, corujas e grilos, e um espesso calor sobre a devassidão da cidade. E já nada disto, juro, era teu.
E foi assim que descobri que todas as coisas continuam para sempre, como um rio que corre ininterruptamente para o mar, por mais que façam para o deter.
Sabes, quem não acredita em Deus, acredita nestas coisas, que tem como evidentes. Acredita na eternidade das pedras e não na dos sentimentos; acredita na integridade da água, do vento, das estrelas. Eu acredito na continuidade das coisas que amamos, acredito que para sempre ouviremos o som da água no rio onde tantas vezes mergulhamos a cara, para sempre passaremos pela sombra da árvore onde tantas vezes paramos, para sempre seremos a brisa que entra e passeia pela casa, para sempre deslizaremos através do silêncio das noites quietas em que tantas vezes olhamos o céu e interrogamos o seu sentido. Nisto eu acredito: na veemência destas coisas sem princípio nem fim, na verdade dos sentimentos nunca traídos.
E a tua voz ouço-a agora, vinda de longe, como o som do mar imaginado dentro de um búzio. Vejo-te através da espuma quebrada na areia das praias, num mar de Setembro, com cheiro a algas e a iodo. E de novo acredito que nada do que é importante se perde verdadeiramente. Apenas nos iludimos, julgando ser donos das coisas, dos instantes e dos outros. Comigo caminham todos os mortos que amei, todos os amigos que se afastaram, todos os dias felizes que se apagaram. Não perdi nada, apenas ilusões de que tudo podia ser meu para sempre." 
 

Miguel Sousa Tavares, Conto extraído do livro “Não te deixarei morrer, David Crocket” 
 


Whitney Houston - Greatest Love of All


"O que somos hoje e o que seremos amanhã depende de nossos pensamentos. Se procedo mal, sofro as consequência; se procedo bem, eu mesmo me purifico." 
 


Whitney Houston - Run to You

Whitney Houston (9 de agosto de 1963 - 11 de fevereiro de 2012)