Albert Chevallier Tayler (English artist, 1862–1925), Going to the well, 1884
Flor da Mocidade
Eu conheço a mais bela flor;
És tu, rosa da mocidade,
Nascida, aberta para o amor.
Eu conheço a mais bela flor.
Tem do céu a serena cor,
E o perfume da virgindade.
Eu conheço a mais bela flor,
És tu, rosa da mocidade.
Vive às vezes na solidão,
Como filha da brisa agreste.
Teme acaso indiscreta mão;
Vive às vezes na solidão.
Poupa a raiva do furacão
Suas folhas de azul celeste.
Vive às vezes na solidão,
Como filha da brisa agreste.
Colhe-se antes que venha o mal,
Colhe-se antes que chegue o inverno;
Que a flor morta já nada val.
Colhe-se antes que venha o mal.
Quando a terra é mais jovial
Todo o bem nos parece eterno.
Colhe-se antes que venha o mal,
Colhe-se antes que chegue o inverno.
Machado de Assis, in 'Falenas', 1870
"Educai as crianças e não será preciso punir os homens." (Pitágoras - filósofo e matemático grego)
sexta-feira, 4 de julho de 2025
"Flor da Mocidade" - Poema de Machado de Assis
quinta-feira, 10 de abril de 2025
"Fuga" - Poema de Péricles Eugênio da Silva Ramos
Fuga
Penso nos dias de outrora:
risos, domingos. E neles
teu perfil e teus castelos,
tuas histórias e viagens.
Não me quiseste. Partiste.
Pedra eu era. Desejavas
os rios que têm o céu
e fuga nas suas águas:
contudo não me soubeste.
Pedra sou. Porém minha alma
revoa e estruge nas vagas,
e meu canto é a voz do vento
que percorre os sete mares.
Não me soubeste, ó das asas!
Não tentaste conhecer-me,
ainda mesmo se acordada,
ainda mesmo se dormindo.
E eras bela. E tinhas flama.
E era o mar, sendo praia.
Não me soubeste. Partiste.
Mas te sonho. Agora e sempre.
Péricles Eugênio da Silva Ramos
quarta-feira, 1 de junho de 2022
"Olha-me rindo uma criança" - Poema de Fernando Pessoa
Albert Chevallier Tayler (English painter, 1862–1925), Mirror, 1914.
Olha-me rindo uma criança
Olha-me rindo uma criança
E a minha alma madrugou.
Tenho razão, tenho esperança
Tenho o que nunca me bastou.
Bem sei. Tudo isto é um sorriso
Que é nem sequer sorriso meu.
Mas para meu não o preciso
Basta-me ser de quem mo deu.
Breve momento em que um olhar
Sorriu ao certo para mim…
És a memória de um lugar,
Onde já fui feliz assim.
Fernando Pessoa,
in Poesia 1918–1930, Assírio & Alvim,
ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria de Freitas,
Madalena Dine, 2005. Coleção: Obras de Fernando Pessoa.
sábado, 29 de agosto de 2020
"O Amor bate na aorta" - Poema de Carlos Drummond de Andrade

Albert Chevallier Tayler (English painter, 1862–1925), A Dress Rehearsal, 1888,
Lady Lever Art Gallery.
O Amor bate na aorta
Cantiga do amor sem eira
nem beira,
vira o mundo de cabeça
para baixo,
suspende a saia das mulheres,
tira os óculos dos homens,
o amor, seja como for,
é o amor.
Meu bem, não chores,
hoje tem filme de Carlito!
O amor bate na porta
o amor bate na aorta,
fui abrir e me constipei.
Cardíaco e melancólico,
o amor ronca na horta
entre pés de laranjeira
entre uvas meio verdes
e desejos já maduros.
Entre uvas meio verdes,
meu amor, não te atormentes.
Certos ácidos adoçam
a boca murcha dos velhos
e quando os dentes não mordem
e quando os braços não prendem
o amor faz uma cócega
o amor desenha uma curva
propõe uma geometria.
Amor é bicho instruído.
Olha: o amor pulou o muro
o amor subiu na árvore
em tempo de se estrepar.
Pronto, o amor se estrepou.
Daqui estou vendo o sangue
que escorre do corpo andrógino.
Essa ferida, meu bem,
às vezes não sara nunca
às vezes sara amanhã.
Daqui estou vendo o amor
irritado, desapontado,
mas também vejo outras coisas:
vejo corpos, vejo almas
vejo beijos que se beijam
ouço mãos que se conversam
e que viajam sem mapa.
Vejo muitas outras coisas
que não ouso compreender...
Carlos Drummond de Andrade,
in Brejo das Almas
quarta-feira, 7 de junho de 2017
"Canção Póstuma" - Poema de Cecília Meireles
Albert Chevallier Tayler (English painter, 1862–1925), "Not Lost but Gone Before", 1886.
Canção Póstuma
Fiz uma canção para dar-te;
porém tu já estavas morrendo.
A Morte é um poderoso vento.
E é um suspiro tão tímido, a Arte...
É um suspiro tímido e breve
como o da respiração diária.
Choro de pomba. E a Morte é uma águia
cujo grito ninguém descreve.
Vim cantar-te a canção do mundo,
mas estás de ouvidos fechados
para os meus lábios inexatos,
— atento a um canto mais profundo.
E estou como alguém que chegasse
ao centro do mar, comparando
aquele universo de pranto
com a lágrima da sua face.
E agora fecho grandes portas
sobre a canção que chegou tarde.
E sofro sem saber de que Arte
se ocupam as pessoas mortas.
Por isso é tão desesperada
a pequena, humana cantiga.
Talvez dure mais do que a vida.
Mas à Morte não diz mais nada.
Cecília Meireles, in 'Retrato Natural'
domingo, 21 de maio de 2017
"Olimpíadas" - Texto de Álvaro de Campos
in 'Espólio de Fernando Pessoa'
quinta-feira, 11 de maio de 2017
"Todos os dias" - Poema de Saúl Dias (Pseudónimo de Júlio Maria dos Reis Pereira)
domingo, 16 de abril de 2017
"Tarde com sol" - Poema de Nuno Júdice
Albert Chevallier Tayler (English artist, 1862–1925), The Thames at Benson, 1912.

Albert Chevallier Tayler, A Day at the Market, 1887, oil on canvas.
"Se os teus projetos forem para um ano, semeia o grão. Se forem para dez anos, planta uma árvore.
(Provérbio chinês)
sábado, 25 de março de 2017
"Como te amo?" - Poema de Elizabeth Barrett Browning

Albert Chevallier Tayler (English artist, 1862–1925), Elizabeth Barrett Browning -
The Anniversary: "I love thee to the level of everyday's most quiet need", 1909.
Soneto XLIII
domingo, 19 de março de 2017
"Elogio da vida monástica" - Poema de Jorge de Sena

Albert Chevallier Tayler (English artist, 1862–1925), The Grey Drawing Room, 1917
sexta-feira, 17 de março de 2017
"Que este amor não me cegue nem me siga" - Poema de Hilda Hilst
Hilda Hilst,
in 'Cantares do Sem-Nome e de Partidas'
terça-feira, 19 de abril de 2016
"Elas" - Poema de Maria Teresa Horta
Albert Chevallier Tayler (English artist, 1862–1925), Women Arranging Flowers, 1906.
ELAS
Elas
Iludem as escurezas
dos rostos
a negrura das nódoas
do corpo
desatam os nós que lhes
atardam, atam e algemam
a alma e os pulsos
Conversam entre si
coisas de enredo
lançam Luz nos recantos
das vagas
Trocam receitas de venenos
murmuram palavras escusas
desejos inolvidáveis
‘Oh, que dureza ruim!
Ataduras e debruns
missanga de muita estrela
Cassiopeia, raízes
sangrantes
das próprias veias’
Elas
inventam a mata
na clareira assombrada
embrenhadas na vigília
Recriam, criam, dominam
Viram pombas, profetizas
com uma alvura de cera
pálidas rosas da China
‘Oh, tormenta amendoada
solidões desirmanadas
enquanto de madrugada
Cavam, enterram, devassam
pespontando com o riso
as dobras do calamento’
Elas
bradam, elas buscam
sibilas e amazonas
emudecem as camélias
e as roseiras nervosas
Feiticeiras ardilosas
filhas da harmonia
partilham as tempestades
Derrubam, suturam, fiam
‘Oh doçuras sigilosas
no aço do destempero
de incêndios e desesperos
Virados pelo avesso
a paixão e a razão
entre si tão divididas’
Elas
recusam, derrubam
dominam as próprias vidas
com a sua inteligência
Tornam-se donas do tempo
a semearem agruras
pelos meandros do vento.
Maria Teresa Horta,
Março de 2016
sexta-feira, 8 de abril de 2016
"Morena"- Poema de Guerra Junqueiro
Que tens certa pena
Que as mais raparigas
Te chamem morena.
Pois eu não gostava,
Parece-me a mim,
De ver o teu rosto
Da cor do jasmim.
Eu não... mas enfim
É fraca a razão,
Pois pouco te importa
Que eu goste ou que não.
Mas olha as violetas
Que, sendo umas pretas,
O cheiro que têm!
Vê lá que seria,
Se Deus as fizesse
Morenas também!
Tu és a mais rara
De todas as rosas;
E as coisas mais raras
São mais preciosas.
Há rosas dobradas
E há-as singelas;
Mas são todas elas
Azuis, amarelas,
De cor de açucenas,
De muita outra cor;
Mas rosas morenas,
Só tu, linda flor.
E olha que foram
Morenas e bem
As moças mais lindas
De Jerusalém.
E a Virgem Maria
Não sei... mas seria
Morena também.
Moreno era Cristo.
Vê lá depois disto
Se ainda tens pena
Que as mais raparigas
Te chamem morena!
Guerra Junqueiro,
in 'A Musa em Férias'
Rodrigo Costa Félix em dueto com Katia Guerreiro
Interpretação do tema "Morena"
sábado, 22 de dezembro de 2012
"É Natal" - Poema de Eugénio de Andrade
Albert Chevallier Tayler (English artist, 1862–1925), The Christmas Tree, 1911.
Private collection
É Natal
É Natal, nunca estive tão só.
Nem sequer neva como nos versos
do Pessoa ou nos bosques
da Nova Inglaterra.
Deixo os olhos correr
entre o fulgor dos cravos
e os dióspiros ardendo na sombra.
Quem tem assim o verão
dentro de casa
não devia queixar-se de estar só,
não devia.

Viggo Johansen (Danish painter, 1851–1935), Happy Christmas, 1891.
Hirschsprung Collection
terça-feira, 14 de fevereiro de 2012
"Eternamente" - Conto de Miguel Sousa Tavares
"O que somos hoje e o que seremos amanhã depende de nossos pensamentos. Se procedo mal,
,%20Girl%20looking%20out%20to%20sea,%201918.jpg)



