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domingo, 21 de junho de 2026

"Verão" - Poema de Eugénio de Andrade



Carl Strathmann (German painter in the Art Nouveau and Symbolist 
styles, 1866–1939), 'Snail Mail', 1914.


Verão


Caracol, caracol,
onde vais com tanto sol?
Vou à loja do senhor Adão
comprar um girassol;
com tanto sol
ninguém aguenta o verão.
Adeus, adeus, caracol,
tens razão,
sem guarda-sol
ninguém aguenta este sol.


Eugénio de Andrade, in "Aquela nuvem e outras",
Ilustração de Júlio Resende,
Edições ASA, 1986. 
 

 
Eugénio de Andrade (Poeta português, 1923–2005)
 por Júlio Resende (Pintor português, 1917– 2011) em 1993.


Eugénio de Andrade

Poeta português, Eugénio de Andrade, pseudónimo de José Fontinhas, nasceu a 19 de janeiro de 1923 no Fundão, e faleceu a 13 de junho de 2005, no Porto.
Em 1947 ingressou na função pública, como funcionário dos Serviços Médico-Sociais, e em 1950 fixou residência no Porto. Manteve sempre uma postura de independência relativamente aos vários movimentos literários com que a sua obra coexistiu ao longo de mais de cinquenta anos de atividade poética.
Revelando-se em 1948, com As Mãos e os Frutos, a que se seguiria, em 1950, Os Amantes sem Dinheiro, o seu nome não se encontra vinculado a nenhuma das publicações que marcaram, enquanto lugar de reflexão sobre opções e tradições estéticas, a poesia contemporânea, embora tenha editado um dos seus volumes, As Palavras Interditas, na coleção "Cancioneiro Geral" e tenha colaborado em publicações como Árvore, Cadernos do Meio-Dia ou Cadernos de Poesia.
É, aliás, nesta última publicação, editada nos anos quarenta, que se firmam algumas das vozes independentes, como Ruy Cinatti, Sophia de Mello Breyner Andresen ou Jorge de Sena, que inaugurariam, no século XX, essa linhagem de lirismo depurado, exigente, atento ao poder da palavra no conhecimento ou na fundação de um real dificilmente dizível ou inteligível, em que Eugénio de Andrade se inscreve.
Foi um dos poetas portugueses mais lidos e traduzidos, mantendo ao longo de uma longa e fecunda carreira uma certa unidade de temas e de recursos formais.
A escolha dos inofensivos substantivos "pureza" e "leveza" para referir a sua obra derivará talvez da noção do impulso de purificação que a sua poética confere às palavras através da exploração de um léxico essencial até à exaltação. Quando Maria Alzira Seixo fala do caminho que esta poesia percorre "na senda do rigor da lápide" ("Every poem is an epitaph", já dizia Eliot) levanta o véu de um dos pontos fulcrais desta poesia que, nas palavras do próprio Eugénio de Andrade (Rosto Precário), se afirma como o "lugar onde o desejo ousa fitar a morte nos olhos".
Falar desta obra como morada da "leveza" e da "pureza" é encobrir o que nela há de ofício de paciência e de desesperada busca. Talvez seja preferível falar da força básica de um léxico de tal maneira investido da radicação do corpo do objeto amado no mundo e na sua paisagem que é capaz de impor o desejo da luz no coração das trevas da mortalidade.
Eugénio de Andrade surgirá, assim, como o poeta da "correlação do corpo com a palavra" (Carlos Mendes de Sousa), da sexualidade trabalhada verbalmente até atingir uma "zona gramatical cega" (Joaquim Manuel Magalhães) onde o referido sexual não tem género gramatical referente porque o discurso em que vive pertence já a uma dimensão cuja musicalidade representa a recuperação de uma voz materna intemporal.
Eugénio de Andrade foi elemento da Academia Mallarmé (Paris) e membro fundador da Academia Internacional "Mihail Eminescu" (Roménia). Para além de tradutor de vários autores, cujas obras recriou poeticamente (García Lorca, Safo, Borges), e organizador de várias antologias poéticas, é autor de obras como Os Afluentes do Silêncio (1968), Rosto Precário (1979), À Sombra da Memória (1993) (em prosa), As Mãos e os Frutos (1948), As Palavras Interditas (1951), Ostinato Rigore (1964), Limiar dos Pássaros (1976), Rente ao Dizer (1992), Ofício da Paciência (1994), O Sal da Língua (1995) e Os Lugares do Lume (1998).
Recebeu ao longo da sua vida vários prémios: Pen Clube (1986), Associação Internacional dos Críticos Literários (1986), Dom Dinis (1988), Grande Prémio da Associação Portuguesa de Escritores (1989), Jean Malrieu (França, 1989), APCA (Brasil,1991), Prémio Europeu de Poesia da Comunidade de Varchatz (República da Sérvia, 1996), Prémio Vida Literária atribuído pela APE (2000) e, em maio de 2001, o primeiro prémio de poesia "Celso Emilio Ferreiro" atribuído em Orense, na Galiza.
Em 2001, a 10 de maio, Eugénio de Andrade foi homenageado na Universidade de Bordéus por altura da realização do "Carrefour des Littératures", tendo sido considerado um dos mais importantes escritores do século XX.
Estiveram presentes várias ilustres personalidades, entre elas o então Presidente da República Portuguesa Jorge Sampaio. A 10 de julho foi distinguido com o Prémio Camões e, ainda no mesmo ano, foi lançado um CD com poemas recitados pelo próprio autor.
Em 2002, foram atribuídos os prémios PEN 2001 e Eugénio de Andrade recebeu o prémio da área da poesia pela sua obra Os Sulcos da Sede. No dia em que comemorou o seu octogésimo aniversário foi homenageado na Biblioteca Almeida Garrett do Porto.
Em 1991, foi criada na cidade do Porto a Fundação Eugénio de Andrade. Para além de ter servido de residência ao poeta, esta instituição tem como principais objetivos o estudo e a divulgação da obra do autor assim como a organização de diversos eventos como, por exemplo, lançamentos de livros, recitais e encontros de poesia.
A 22 de março de 2005 foi distinguido, juntamente com a escritora Agustina Bessa-Luís, com o doutoramento "Honoris Causa", atribuído pela Universidade do Porto durante a cerimónia do 94.º aniversário da sua fundação. (daqui)
 

terça-feira, 29 de julho de 2025

"Rosa" | "Aquela nuvem" | "Faz de Conta" - Poemas de Eugénio de Andrade


 
Harold Harvey (British painter, 1874-1941), Summer, 1917.
Oil on canvas, 92 × 76 cm. Private Collection.
 

Rosa
 
É uma rosa amarela.
Uma rosa de verão.
Sempre uma rosa em botão
estava posta à janela.
Quem mora naquela casa
certamente que sabia
quanto essa rosa em botão,
seja branca ou amarela,
perfuma todo o verão. 


Eugénio de Andrade
, in "Aquela nuvem e outras".
Ilustração de Júlio Resende
Edições ASA, 1986
 
 
 
Harold Harvey, Sea Pinks, 1913, Private Collection.
 
 
Aquela nuvem


– É tão bom ser nuvem, 
ter um corpo leve, 
e passar, passar.

– Leva-me contigo. 
Quero ver Granada. 
Quero ver o mar.

– Granada é longe, 
o mar é distante, 
não podes voar.

– Para que te serve 
ser nuvem, se não 
me podes levar?

– Serve para te ver. 
E passar, passar. 


Eugénio de Andrade, in "Aquela nuvem e outras".
Ilustração de Júlio Resende
Edições ASA, 1986
 

 
Harold Harvey, Summer Hours, Private Collection.  
 
 
Faz de Conta


– Faz de conta que sou abelha. 
– Eu serei a flor mais bela.

– Faz de conta que sou cardo. 
– Eu serei somente orvalho.

– Faz de conta que sou potro. 
– Eu serei sombra em agosto.

– Faz de conta que sou choupo. 
– Eu serei pássaro louco,

pássaro voando e voando 
sobre ti vezes sem conta.

– Faz de conta, faz de conta.


Eugénio de Andrade, in "Aquela nuvem e outras".
Ilustração de Júlio Resende
Edições ASA, 1986



"Aquela nuvem e outras" de Eugénio de Andrade
Ilustração de Júlio Resende
Edições ASA, 1986
 
 
SINOPSE
 
Plano Nacional de Leitura
Livro recomendado para o 1º ano de escolaridade, destinado a leitura orientada.


Um dos dois pequenos livros infantojuvenis escritos por Eugénio de Andrade, a leitura de Aquela nuvem e outras é indicada para o 1.º ano de escolaridade. Um pequeno livro de poesia para os mais pequenos, pleno de beleza e de ensinamentos.
Primeira edição, inserida na coleção Asa Juvenil, coordenada por Ilse Losa. Ilustrações de Júlio Resende.
 

sábado, 21 de junho de 2025

"Chega o verão" - Poema de Cecília Meireles

 


Gustavo Dall'Ara (Pintor e desenhista italiano que imigrou para o Brasil, 1865-1923),
"Praia do Flamengo", 1917, Coleção José Carlos Bruzzi Castello.
 

Chega o verão


Vamos abrir as janelas ao vento salgado do mar.
Chega o verão, vagarosa nau, de um trémulo horizonte,
com seu andar de floresta e seus odores enevoados
de resinas espessas e tormentas no alto da tarde.

Nuvens de cupins jorram da sombra, girando em cegueira.
Asas sem peso chovem o arco-íris, semeiam nácar pelos meus dedos.
Oh, por que serão feitas estas mínimas vidas
com tanta perfeição para instantâneas se desfazerem?

Vamos fechar as janelas sobre a noite, com seu vento de fogo.
Aqui vêm, despojados, os cupins pelas mesas,
arrastando-se por entre as próprias asas caídas.
Aqui vêm, num cortejo de desvalidos, de sentenciados...

Oh, dizei-me, dizei-me, que anjos, que santos, que potências
se ocupam desse silêncio movediço, do apressado
itinerário dos moribundos frágeis que passam! 


Cecília Meireles
, 
in Poesia Completa - Dispersos (1918-1964)




Gustavo Dall'Ara, Cais do mercado, Rio de Janeiro, 1901.


A poesia impossível


Inquietação de marinheiro
Que sente o mar e seu chamado...
Não poder embarcar!

Prisioneiro do nada,
Pássaro mutilado
Que a distância fascina...


Helena Kolody, in "Vida breve", 1964.

segunda-feira, 25 de junho de 2018

"Manhã de Verão" - Poema de Olavo Bilac


Jean-François Millet, 'The Goose Girl', 1863


Manhã de Verão

 
As nuvens, que, em bulcões, sobre o rio rodavam,
Já, com o vir da manhã, do rio se levantam.
Como ontem, sob a chuva, estas águas choravam!
E hoje, saudando o sol, como estas águas cantam!

A estrela, que ficou por último velando,
Noiva que espera o noivo e suspira em segredo,
— Desmaia de pudor, apaga, palpitando,
A pupila amorosa, e estremece de medo.

Há pelo Paraíba um sussurro de vozes,
Tremor de seios nus, corpos brancos luzindo…
E, alvas, a cavalgar broncos monstros ferozes,
Passam, como num sonho, as náiades fugindo. 

A rosa, que acordou sob as ramas cheirosas,
Diz-me: “Acorda com um beijo as outras flores quietas!
Poeta! Deus criou as mulheres e as rosas
Para os beijos do sol e os beijos dos poetas!”

E a ave diz: “Sabes tu? conheço-a bem… Parece
Que os Gênios de Oberon bailam pelo ar dispersos,
E que o céu se abre todo, e que a terra floresce,
— Quando ela principia a recitar teus versos!»

E diz a luz: “Conheço a cor daquela boca!
Bem conheço a maciez daquelas mãos pequenas!
Não fosse ela aos jardins roubar, trêfega e louca,
O rubor da papoula e o alvor das açucenas!”

Diz a palmeira: “Invejo-a! ao vir a luz radiante,
Vem o vento agitar-me e desnastrar-me a coma:
E eu pelo vento envio ao seu cabelo ondeante
Todo o meu esplendor e todo o meu aroma!”

E a floresta, que canta, e o sol, que abre a coroa
De ouro fulvo, espancando a matutina bruma,
E o lírio, que estremece, e o pássaro, que voa,
E a água, cheia de sons e de flocos de espuma,

Tudo, — a cor, o dano, o perfume e o gorjeio,
Tudo, elevando a voz, nesta manhã de estio,
Diz: “Pudesses dormir, poeta! no seu seio,
Curvo como este céu, manso como este rio!”


Olavo Bilac,
in Poesias (Alma Inquieta), 1888


Jean-François Millet, 'La Baigneuse', c. 1846-1848


"O homem é uma prisão em que a alma permanece livre."

Victor Hugo
 

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

"O Verão" - Poema de José Agostinho Baptista



Alexander Averin (Russian painter, b. 1952), Saying Goodbye to the Day


O Verão


Estás no verão,
num fio de repousada água, nos espelhos perdidos sobre
a duna.
Estás em mim,
nas obscuras algas do meu nome e à beira do nome
pensas:
teria sido fogo, teria sido ouro e todavia é pó,
sepultada rosa do desejo, um homem entre as mágoas.
És o esplendor do dia,
os metais incandescentes de cada dia.
Deitas-te no azul onde te contemplo e deitada reconheces
o ardor das maçãs,
as claras noções do pecado.
Ouve a canção dos jovens amantes nas altas colinas dos
meus anos.
Quando me deixas, o sol encerra as suas pérolas, os
rituais que previ.
Uma colmeia explode no sonho, as palmeiras estão em
ti e inclinam-se.
Bebo, na clausura das tuas fontes, uma sede antiquíssima.
Doce e cruel é setembro.
Dolorosamente cego, fechado sobre a tua boca.


José Agostinho Baptista, in "Paixôes e Cinzas", 1992;
in "Biografia". Lisboa, Assírio & Alvim, 2000.
 
 

"Biografia" de José Agostinho Baptista
Edição/reimpressão: 10-2000
Editor: Assírio & Alvim
 
 
SINOPSE 
 
"Biografia", é um volume de cerca de setecentas páginas que reúne a obra em verso, publicada até à data, corrigida e aperfeiçoada, de José Agostinho Baptista.
Começa com "Deste Lado Onde", o seu primeiro livro, publicado em 1976, poucos anos depois de ter vindo da Madeira natal para Lisboa, onde vive. Acaba com "Agora e na Hora da Nossa Morte", o seu último livro, e um dos mais pungentes, que dedicou à memória do pai, que morrera pouco antes. São nove títulos no total (para além dos já referidos: "Jeremias o Louco", 1978; "O Último Romântico", 1981; "Morrer no Sul", 1983; "Autorretrato", 1986; "O Centro do Universo", 1989; "Paixão e Cinzas", 1992; "Canções da Terra Distante", 1994 ), uma espécie de "biografia" ou "viagem", pessoal e poética, porque, diz o próprio, é difícil separar "homem e autor".  
A sua poesia, de pendor cósmico e visionário, sempre foi difícil de catalogar e encaixar em tradições. Mas há poetas com quem J.A.B. tem afinidades (Whitman, Yeats, por exemplo, e que ele mais tarde viria a traduzir).
Em entrevista ao jornal Expresso (8/12/00), o poeta resume assim "Biografia": " (Neste livro) está o menino (...), está (...) o homem (...), está ainda repetida a obsessão com o mar, com os barcos, com as viagens. Está mais tarde o apelo do Sul, está a morte, as minhas bebidas preferidas, os amigos sempre - o espaço de compensação das perdas: estão as "Paixões e as Cinzas", ou o que resta das paixões..."
(daqui)


 
 Alexander Averin


"A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida."

Vinicius de Moraes

quinta-feira, 18 de maio de 2017

"No entardecer dos dias de verão" - Poema de Alberto Caeiro


Fátima Bacharel, 'Crepuscúlo de um dia de verão'


No entardecer dos dias de verão


No entardecer dos dias de verão, às vezes,
Ainda que não haja brisa nenhuma, parece
Que passa, um momento, uma leve brisa...
Mas as árvores permanecem imóveis
Em todas as folhas das suas folhas
E os nossos sentidos tiveram uma ilusão,
Tiveram a ilusão do que lhes agradaria...

Ah, os sentidos, os doentes que vêem e ouvem!
Fôssemos nós como devíamos ser
E não haveria em nós necessidade de ilusão...
Bastar-nos-ia sentir com clareza e vida
E nem repararmos para que há sentidos...

Mas graças a Deus que há imperfeição no Mundo
Porque a imperfeição é uma coisa,
E haver gente que erra é original,
E haver gente doente torna o Mundo engraçado.
Se não houvesse imperfeição, havia uma coisa a menos,
E deve haver muita coisa
Para termos muito que ver e ouvir...

7-5-1914 

Alberto Caeiro
(Heterónimo de Fernando Pessoa),
in "O Guardador de Rebanhos - Poema XLI"

sábado, 2 de julho de 2016

"O Verão estala por todos os poros" - Poema de João José Cochofel



Émile Munier (French academic artist, 1840–1895),
'Girl with Basket of Cherries', 1877.


O Verão estala por todos os poros


O Verão estala por todos os poros
da casca das árvores,
da língua dos cães,
das asas das cigarras,
do bico do peito das mulheres
tão acerado
que rasga o céu de calor
com um golpe preciso
de lanceta.


João José Cochofel, in 'Quatro Andamentos', 1964;
in 'Obra Poética',  Lisboa, Caminho, 1988.



Émile Munier, 'May I Have One Too', 1880.



«Não posso ver, hoje, a fome crescente e a chacina entre nações sem comoção. E a emoção pelos seres, pelos outros, pela natureza, pelo Cosmos, gera o poema.»

Fiama Hasse Pais Brandão

terça-feira, 3 de maio de 2016

"Os dias de verão" - Poema de Sophia de Mello Breyner Andresen



Vladimir Gusev
(Russian painter, born 1957), 'Picnic', n.d. 


Os dias de verão


Os dias de verão vastos como um reino
Cintilantes de areia e maré lisa
Os quartos apuram seu fresco de penumbra
Irmão do lírio e da concha é nosso corpo 

Tempo é de repouso e festa
O instante é completo como um fruto
Irmão do universo é nosso corpo

O destino torna-se próximo e legível
Enquanto no terraço fitamos o alto enigma familiar dos astros
Que em sua imóvel mobilidade nos conduzem

Como se em tudo aflorasse eternidade

Justa é a forma do nosso corpo


in 'Obra Poética', Volume III

domingo, 3 de maio de 2015

"Comparar-te a um dia de verão?" - Soneto 18 de William Shakespeare


Ferdinand Hodler (Swiss painter, 1853–1918), Femme Joyeuse, 1911.


Comparar-te a um dia de verão?
(Versão de Carlos de Oliveira )


Comparar-te a um dia de verão? 
Há mais ternura em ti, ainda assim: 
um maio em flor às mãos do furacão, 
o foral do verão que chega ao fim. 
Por vezes brilha ardendo o olhar do céu; 
outras, desfaz-se a compleição doirada, 
perde beleza a beleza; e o que perdeu 
vai no acaso, na natureza, em nada. 
Mas juro-te que o teu humano verão 
será eterno; sempre crescerás 
indiferente ao tempo na canção; 
e, na canção sem morte, viverás: 
      Porque o mundo, que vê e que respira, 
      te verá respirar na minha lira. 


William Shakespeare, in "Sonetos" 
Tradução de Carlos de Oliveira (1921–1981)






Que és um dia de verão não sei se diga.
És mais suave e tens mais formosura:
vento agreste botões frágeis fustiga
em maio e um verão a prazo pouco dura.
O olho do céu vezes sem conta abrasa,
outras a tez dourada lhe escurece,
todo o belo do belo se desfasa,
por caso ou pelo curso a que obedece
da natureza; mas teu eterno verão
nem murcha, nem te tira teus pertences,
nem a morte te torna assombração
quando o tempo em eternas linhas vences:
      enquanto alguém respire ou possa ver
      e viva isto e a ti faça viver.


William Shakespeare, in "Sonetos" 
Tradução de Vasco Graça Moura (1942–2014)


                       Fac-símile da impressão original do Soneto 18.


Os Sonetos de Shakespeare perfazem um conjunto de 154 poemas publicados em 1609, embora as datas de composição sejam imprecisas. Eles tratam de assuntos como amor, beleza, política e mortalidade. 

Outras traduções: Soneto 18 (aqui)

Soneto

Soneto (do italiano sonetto, pequena canção ou, literalmente, pequeno som) é um poema de forma fixa, composto por catorze versos, de origem atribuída a poetas da Sicília ou da Provença.
Pode ser apresentado em três formas de distribuição dos versos:
  • Soneto italiano ou petrarquiano: apresenta duas estrofes de quatro versos (quartetos) e duas de três versos (tercetos);
  • Soneto inglês ou Shakespeariano: três quartetos e um dístico;
  • Soneto monostrófico: Apresenta uma única estrofe de 14 versos. (daqui)

segunda-feira, 24 de junho de 2013

"Do verão diria uma planície lenta quase amarela" - Poema de Maria do Rosário Pedreira



Alfred Sisley (French-Born British Impressionist landscape painter,
 1839–1899), 'Meadow', 1875


Do verão


Do verão, diria uma planície lenta, quase amarela: o trigo
a enrolar-se nos pés, o oiro do sol, os cabelos
mais loiros. Um vento quente e ondulante sibilando
nas frestas de um celeiro. O fumo sonolento do calor
tornando informe o fio do horizonte. Do verão

diria também um tempo espesso onde todos
os acasos são sofríveis: duas papoilas, vermelho-sangue,
agitam a paisagem. Tu chegas e a minha pele chama-te
sete nomes em surdina. É a luz da tarde que faz o fulgor
dos fenos e aquece a roupa que abandonou o corpo
sem perguntas. As mãos podem então dar-se
todos os recados. E amanhã ninguém sabe. Fica

apenas um punhado de espigas quebradas sobre a planície
lenta; amarela, digo: as papoilas, entretanto, voaram.


Maria do Rosário Pedreira,
'Poesia reunida', Quetzal, Lisboa, 2012
 

Alfred Sisley, 'A path at Les Sablons', 1883


"Adote o ritmo da natureza. O segredo dela é a paciência."

Ralph Waldo Emerson


Alfred Sisley, 'Bridge at Hampton Court', 1874


"A natureza está constantemente a misturar-se com a arte."

Ralph Waldo Emerson



Alfred Sisley, 'Bridge at Villeneuve-la-Garenne', 1872



"A Natureza é uma nuvem mutável, sempre e nunca a mesma."

Ralph Waldo Emerson


 
Ralph Waldo Emerson

Ralph Waldo Emerson (Boston, 25 de maio de 1803 – Concord, 27 de abril de 1882) foi um escritor, ensaísta, filósofo e poeta estadunidense. Conhecido por ter sido o criador da escola de filosofia "transcendentalista" norte-americana.
 

quinta-feira, 20 de junho de 2013

"O verão deixa-me os olhos mais lentos sobre os livros" - Poema de Maria do Rosário Pedreira



Anne Bascove
 (American artist, born 1946), 'Reading in Bed', 1994,
Private Collection



O verão deixa-me os olhos mais lentos sobre os livros


O verão deixa-me os olhos mais lentos sobre os livros.
As tardes vão-se repetindo no terraço, onde as palavras
são pequenos lugares de memória. Estou divorciada dos
outros pelo tempo destas entrelinhas – longe de casa,
tenho sonhos que não conto a ninguém, viro devagar
a primeira página: em fevereiro, eles ainda faziam amor
à sexta-feira. De manhã, ela torrava pão e espremia
laranjas numa cozinha fria. Havia mais toalhas para lavar
ao domingo, cabelos curtos colados teimosamente ao espelho.
Às vezes, chovia e ambos liam o jornal, dentro do carro,
antes de se despedirem. As vezes, repartiam sofregamente
a infância, postais antigos, o silêncio – nada
aconteceu entretanto. Regresso, pois, à primeira linha,
à verdade que remexe entre as minhas mãos. Talvez os olhos
estivessem apenas desatentos sobre o livro; talvez as histórias
se repitam mesmo, como as tardes passadas no terraço, longe
de casa. Aqui tenho sonhos que não conto a ninguém.


Maria do Rosário Pedreira,
de 'A Casa e o Cheiro dos Livros',
in 'Poesia Reunida', Quetzal, 2012


***

Galeria de Anne Bascove

Anne Bascove, 'Where books fall open'


Anne Bascove, 'The common reader'


Anne Bascove, 'La lune en hiver', 1992


Anne Bascove, 'Bibliophile', 1999



Anne Bascove, 'James at 12', 1999


Anne Bascove, 'Bylona's view', 2000



Anne Bascove, 'Elyzabeth and Emme', 2000 


  Anne Bascove, 'Library', 2000


Anne Bascove, 'Library', 2001


 Anne Bascove, 'Paris', 2003


Anne Bascove, 'Chris and John', 2006

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

"Fim de Verão" - Poema de Eugénio de Andrade


Martim-pescador (Megaceryle torquata)


Fim de Verão


Talvez nem seja um tordo. Um pássaro
cantava. Seria o último
desse verão. A própria luz
não ajudava: não era barco
de manhã nem brisa ao fim da tarde.
Talvez o anjo do poema
pudesse em seu lugar subir aos ramos
e cantar. Mas os anjos
são tão distraídos! Deles não há
nada a esperar, a não ser fogo
de palha. Talvez nem seja um tordo.
O seu canto, só vibração do ar.


Eugénio de Andrade (1923–2005), in 'Poesia', 
Fundação Eugénio de Andrade, 2000.
 

Manuelzinho-da-Crôa (Charadrius collaris)

Azulêjo (Molothrus bonariensis)


A Rola-vaqueira (Uropelia campestris)



Coruja Suindara (Tyto alba)


Nhauma (Anhima cornuta)


Sabiá-ponga (Turdus rufiventris)


Pintassilgo (Carduelis magellanica)


Coró coró, Green Ibis (Mesembrinibis cayennensis)


Sabiá-preto (Turdus flavipes)


Graúna ou Pássaro-preto (Gnorimopsar chopi)


Socó-boi (Tigrisoma lineatum)


Japuíra, João-congo, ou Tecelão (Cacicus solitarius)


Japuíra, João-congo, ou Tecelão (Cacicus solitarius), pássaro de coloração preta com parte amarelada em sua cauda e asas, bico amarelo esbranquiçado, emite sons maviosos nas matas; vivem em bandos e seus ninhos são longos, chegando perto de um metro.


João-pobre (Serpophaga nigricans)


Jesus-meu-deus (Arremon flavirostris)

Suiriri ou Tiriri (Tyrannus melancholicus)


Quem-quem (Cyanocorax cyanopogon)


Gaturamo-verdadeiro (Euphonia violacea), macho

O gaturamo-verdadeiro (Euphonia violacea) é uma ave passeriforme que habita uma larga região na América do Sul. É uma bela ave que habita partes das Guianas, Suriname, Venezuela, Brasil até a Argentina. São conhecidos em algumas regiões pelos nomes de: bonito-lindo, gaturamo-imitador, gaturamo-itê, guiratã-de-coqueiro, tem-tem-de-estrela e tem-tem-verdadeiro. O macho costuma imitar as vocalizações de uma grande variedade de espécies.
Tem tamanho aproximado de 12 cm de comprimento quando adultos, a espécie apresenta dimorfismo sexual bastante acentuado, os machos são coloridos de preto e amarelo brilhante, enquanto que as fêmeas e as aves juvenis têm cor olivácea.
São bastante sociáveis e alimentam-se basicamente de frutos, eventualmente também comem insetos. Os gaturamos possuem moela degenerada, ou seja, tem baixa capacidade de processamento mecânico dos alimentos ingeridos, o alimento é pouco aproveitado sendo eliminado poucos minutos após a ingestão, o que os leve a uma procura constante de alimentos.
Habitam bordas de floresta, clareiras, floresta secundária e plantações, e são encontrados também em áreas urbanas, arborizadas, evitando áreas abertas mais áridas, vive aos pares ou em pequenos grupos, junta-se com freqüência a bandos mistos de aves.
Atingem a maturidade sexual por volta de um ano de idade constroem os ninhos em cavidades de troncos, cada postura tem em média quatro ovos brancos que são incubados apenas pela fêmea por um período de 15 dias.


Gaturamo-verdadeiro (Euphonia violacea), fêmea 
 

Tudo que os livros me ensinassem
os espinheiros já me ensinaram.
Tudo que nos livros
eu aprendesse
nas fontes eu aprendera.
O saber não vem das fontes?


'Cantigas por um passarinho à toa'